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Neste ano de 2017, o Grupo de Leitura e Discussão aqui do Prolij, coordenado pela professora Berenice Rocha Zabbot Garcia, discutiu a obra “Por que ler os clássicos”, do escritor italiano Italo Calvino. O livro consiste em um compilado de ensaios que Calvino escreveu ao longo de sua vida, organizado pensando nas obras que, para ele, são clássicos fundamentais (conceito que também aborda em sua discussão, aliás). Em sua seleção estão autores como Homero, Charles Dickens, Gustave Flaubert, Ernest Hemingway, Jorge Luís Borges, além de muitos outros (talvez nem tão conhecidos nossos até então).

Inspirados por essa obra, os integrantes do Grupo construíram suas próprias listas com os 5 clássicos que julgam serem os mais importantes para suas histórias como leitores. Afinal, como também nos lembra María Teresa Andruetto, cada leitor constrói seu próprio cânone, independentemente do que diz a academia, o mercado ou a escola. Pois, "[...] há caminhos entre livros e que, entre os caminhos, há sempre um caminho pessoal para transitar nesse bosque. E que esse caminho pessoal é aberto de livro em livro, numa sucessão de seleções" (in: Por uma literatura sem adjetivos, SP: Pulo do Gato, 2012, p. 96).

Asim, as seleções de cada participante podem ser conferidas abaixo!



Berenice Rocha Zabbot Garcia

Odisseia, de Homero
Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis
Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa
Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago
Romeu e Julieta, de William Shakespeare



Gabrielly Pazetto

Li estes livros em momentos muito distintos da minha vida, mas todos eles foram fundamentais para que me constituísse como leitora e para que eu optasse pelo curso de Letras para estudar a literatura. Há os que me fizeram chorar, os que me fizeram rir e os que me causaram muita angústia, mas todos são revisitados anualmente em minha estante e sempre me dizem algo novo.

Alice no País das Maravilhas, de Lewis Caroll
Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez
Clara dos Anjos, de Lima Barreto
Dom Casmurro, de Machado de Assis
Jane Eyre, de Charlotte Brontë



Jéssica Duarte de Oliveira

Cada livro da minha lista representa uma parte de mim. Suas especificidades e singularidades acabaram por me constituir como leitora e como pessoa. Foi na graduação que me tornei leitora assídua da nossa literatura que é rica e variada. Cada um desses autores desperta em mim uma nova forma de encarar o mundo, novas verdades e experiências únicas.

Clara dos Anjos, de Lima Barreto
Vermelho Amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós
Fita Verde no Cabelo, de João Guimarães Rosa
Helena, de Machado de Assis
Seminário dos Ratos, de Lygia Fagundes Telles



Isabela Giacomini

Os meus livros clássicos favoritos são todos brasileiros, não apenas pelo amor que tenho pelo país, mas pela qualidade literária produzida, mesmo tendo sido realizada muito tempo depois da Europa. Entre eles está Dom Casmurro, o livro que despertou meu interesse pela literatura brasileira, pois até ao momento eu apenas gostava de best-sellers. Depois dele, passei a ler outros clássicos brasileiros e meu amor só aumentou, posso dizer que foi o precursor desse processo. Outro grande clássico é Lucíola, lido no primeiro ano da graduação de Letras, que foi inovador, além de falar da mulher da época com uma perspectiva completamente diferente da contemporaneidade; uma obra altamente reflexiva e de crítica social. O alienista também é um de meus preferidos, na verdade, foi uma indicação de minha irmã, e ao final me apaixonei pelo enredo, pela construção das personagens e mais uma vez, pelos desfechos machadianos inesperados.  Outra grande obra é Auto da Compadecida, uma das poucas peças teatrais que já li, mas que com certeza a que cultivo com maior amor. Fiz sua leitura para um vestibular e acabei me encantando com o humor e com as críticas propostas por Suassuna. O livro denuncia comportamentos sociais utilizando-se de recursos riquíssimos e sendo feito com a intenção de ser encenado, de ir ao palco e de estabelecer uma relação concreta e direta com o espectador. Também não poderia faltar uma obra de grande desconstrução pessoal: O Cortiço, que me trouxe grandes reflexões sobre a sociedade, além da vontade de ler variados gêneros, sendo crucial para eu ampliar meu gosto literário.

Dom Casmurro, de Machado de Assis
Lucíola, de José de Alencar
O Alienista, de Machado de Assis
Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna
O Cortiço, de Aluísio Azevedo



Nicole de Medeiros Barcelos

Todos estes livros estiveram, cada um à sua maneira, em algum momento da minha formação enquanto leitora, e de uma forma ou outra suas leituras continuam ecoando em mim, transformando-se em outros olhares a cada revisitar desses textos (nem sempre só verbais). Suspeito que estes livros disseram, dizem e continuarão dizendo muito nos anos ainda por vir, por bem ou por mal, e talvez revelem mais sobre si mesmos e essa que os lê.

Alice no País das Maravilhas, de Lewis Caroll
O Cântico dos Cânticos, de Ângela Lago
A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga
Contos de Fadas, de Perrault, Grimm, Andersen e outros
Ida e Volta, de Juarez Machado



Vander Claudio Sezerino Junior

Escolhi estes livros porque foram aqueles que durante a leitura plantaram suas palavras dentro de mim, entenderam-se além do tempo em que os tive nas mãos. Foram livros que dialogaram, e com carinho comunicaram sobre a cultura e o humano de outros tempos.

Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez
Fahrenheit 451, de Ray Bradbury
A Revolução dos Bichos, de George Orwell
O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson
O Livro de Ouro da Mitologia, de Thomas Bulfinch



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Gabrielly Pazetto é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e faz dos livros que lê barcos de viagens inesquecíveis.

Jéssica Duarte de Oliveira é graduanda em Letras na Univille (Língua Portuguesa e Língua Inglesa). Acredita que a literatura é uma porta de acesso à liberdade.

Isabela Giacomini estuda Letras na Universidade da Região de Joinville. Participou do Grupo de Leitura e Discussão e do Clube do Conto promovidos pelo Prolij e é apaixonada pela literatura.

Nicole Barcelos é graduanda em Letras na Univille (Língua Portuguesa e Língua Inglesa). Atua como bolsista do Prolij e vive se perdendo em buracos de coelho.

Vander Claudio Sezerino Junior é graduando em Letras (Língua Portuguesa e Língua Inglesa) pela Univille e acredita que a literatura é a criação e a habitação de novos mundos.
        Ontem, na reunião semanal do grupo Reinações do Prolij, devido a uma entrevista coletiva de egressos da Univille que participaram ou participam do Prolij com a Pró-Reitora de Extensão e Assuntos Comunitários Profª Berenice Rocha Zabbot Garcia, tivemos a visita do ex-prolijiano Rodrigo da Silva. Ele nos deixou um escrito que gostaríamos de compartilhar:

“Depois de quase dois anos, volto a sentar nesta mesa, mais do que alegria, são boas lembranças pelas quais aqui passei.
Volto, depois de uma estrevista, em que pude falar da importância que o programa representou na minha vida pessoal e profissional.
Ratifico o que disse na entrevista: Não seria – sob hipótese alguma – o professor que sou hoje sem ter passado por aqui.
Saudades sempre!

Rodrigo – um prolijiano de coração”

* Artigo originalmente publicado (aqui) no Jornal ANotícia, no dia 15 de abril de 2012, no Caderno Anexo Ideias (p.4), refere-se ao evento beneficiado pelo Mecenato Municipal 2011 através do Simdec.

Africanidade sem equívocos


Abril Mundo, que ocorre de 18 a 20 de abril, na Univille debate a literatura afro-brasileira


SUELI DE SOUZA CAGNETI

Falar a respeito do “Estudo da Africanidade e seus Equívocos” foi uma constante nos últimos 14 meses no grupo Reinações do Prolij, que se reúne há mais de 15 anos. O grupo em questão elege a cada dois, três anos uma temática, cuja pesquisa exaustiva tem resultado em participação em congressos e afins pelo Brasil e pelo mundo (Irã, Cuba, Colômbia, China, Itália, Portugal, Ilha de Madeira, Índia, México); em produções bibliográficas como artigos em revistas especializadas, anais de congresso, em blogs e revistas eletrônicas; e na elaboração e execução de eventos como o seminário Abril Mundo – Literatura Infantil, já em sua sétima edição.

O Abril Mundo surgiu em 2005 por ocasião do aniversário (200 anos de nascimento) de Hans Christian Andersen. Após pesquisa em torno da vida e obra do escritor, o grupo Reinações do Prolij, com o intuito de estender à comunidade os resultados de suas pesquisas, preparou o evento Abril Mundo: Literatura Infantil 2005, que atraiu uma participação significativa tanto da academia, quanto da comunidade extra-acadêmica. A partir daí, outros cinco temas foram explorados: “Da Itália para o Brasil: os caminhos de Pinóquio”, “Imagens que contam histórias”, “Contar histórias multiplica a gente”, “Literatura de todas as formas” e “A literatura e a cultura do índio brasileiro”, na última edição do evento, ocorrida em 2010. A partir daí, o seminário foi ampliado, oportunizando sessão de comunicação de pesquisas em torno do tema proposto, resultando na publicação de anais do congresso, com os artigos dos proponentes selecionados. Por essa razão, passou a ser bianual.

No evento deste ano, o 7º Abril Mundo 2012 – A Literatura Africana e Afro-brasileira, as discussões girarão em torno da temática com a qual foi iniciada a pesquisa em “O estudo da africanidade e seus equívocos”, em 2011. O objetivo maior do tema proposto foi o de analisar a produção editorial para crianças e jovens, cuja temática fosse africana ou afro-brasileira, bem como escrituras provindas dessas etnias, principalmente, a partir de 2003, quando a Lei 10.639 alterou o parágrafo 26 da LDB (Lei de Diretrizes e Bases), tornando obrigatório o estudo da cultura e da história africana e afro-brasileira em toda a educação básica, principalmente, nas disciplinas de história, artes e literatura.

O objetivo maior da pesquisa e seus desdobramentos, como o evento organizado para os próximos dias 18, 19 e 20 de abril, tem sido o de evidenciar os possíveis equívocos que possam (e que constatamos: já começaram a ocorrer!) na produção de material, principalmente, bibliográfico para utilização nas escolas. Dentre o número expressivo de literatura endereçada a crianças, adolescentes e jovens, livros informativos e/ou teóricos como suporte para professores tem-se encontrado trabalhos de apurada preocupação estética, ética e literária, entre uma enxurrada de obras descompromissadas com a qualidade, em virtude da quantidade alavancada pela demanda. Afinal, a lei caiu nos ombros dos professores, sem que esses, na sua maioria, tivessem sido preparados para o exercício dessa função. Daí a grande procura de material didático/bibliográfico como norte para suas aulas.

Eis o trabalho, portanto, do grupo Reinações do Prolij, que tem analisado as obras produzidas nos últimos anos, selecionando e resenhando-as, e – para conhecimento dos interessados - postado-as no blogdoprolij.blogspot.com. Essas resenhas, cujo volume tornou-se bastante grande, resultou no 2º volume da “Coleção Livro dos Livros: Resenhas do Prolij”, sob o título “A Literatura Africana e Afro-brasileira”, que será lançado no dia 19, às 18 horas, no hall do auditório da Univille, e no dia 21, às 10h30, no palco principal da Feira do Livro de Joinville. Além disso, o Abril Mundo centrará suas discussões em palestras, comunicações e oficinas, nas questões consideradas de maior relevância nos dados já compilados da pesquisa. A maior delas, sem dúvida, é a da não repetição dos equívocos já cometidos em relação aos estudos étnico-raciais feitos nas escolas. Serão, portanto, discutidos os livros tanto literários, quanto informativos e/ou teóricos, quanto à ilustração, à linguagem, à abordagem temática, evitando os preconceitos e estereótipos, por tanto tempo, circulantes e que – em mãos desinformadas, mesmo que bem intencionadas – poderão ser reforçados.

* Sueli de Souza Cagneti é coordenadora do Programa Institucional de Literatura Infantil Juvenil (Prolij), pesquisadora e professora do curso do mestrado em patrimônio cultural e sociedade e nos cursos de letras e pedagogia, da Univille.
*ÍTALO PUCCINI

Um brincar com a escrita e com suas possibilidades de leitura. É o que propõe o escritor Maicon Tenfen em suas produções literárias. Um brincar não no sentido infantil do termo, e sim no sentido de reinventar a palavra e a narrativa e recriar junto a elas significados.

Conheci os livros do Maicon Tenfen ao acaso, numa passada de olho em prateleiras de uma livraria, como vez em quando é bom que aconteça. Esse "choque" imediato entre livro e leitor. Essa química que induz a uma leitura prazerosa desde o princípio, cabendo, então, ao autor a incumbência de conduzir a narrativa com o cuidado necessário para não afastar dela o leitor tão empolgado por isto.
Os livros do escritor blumenauense-adotivo propõem ao leitor esta curiosidade inicial. Um perguntar-se algo como "mas do que é capaz um livro com este nome?". Ou estes nomes, por exemplo: Um Cadáver na Banheira, O Impostor, Casa Velha Night Club e Mistérios, Mentiras e Trovões.
Destes, com exceção de Um Cadáver na Banheira, que é mais um romance-quase-novela, ou o contrário, os outros três são livros de contos, o gênero narrativo com que o escritor estabeleceu uma relação muito próxima e própria, sabendo domar e explorar com extrema habilidade as características do mesmo.
Como professor de literatura, trabalho em sala de aula a envolvente história de Um Cadáver na Banheira. Os alunos, de fato, envolvem-se muito com a aventura do pretendente a escritor Jorge, e em pouco tempo me apresentam a leitura concluída. Assim sendo também com os contos dos três livros já citados, sobre os quais a “gurizada” se diverte recriando-os, interpretando-os, dramatizando-os. É isto o que permite a escrita de Tenfen, um aproximar o leitor do texto literário, um abrir caminhos e possibilidades de leitura. Com uma escrita simples e envolvente, estes livros são “abraçados” pelos alunos. A identificação com os personagens e suas incógnitas, com a trama da história, os inesperados que pegam de surpresa até o mais desatento, cativam e conduzem não só a uma releitura, mas a um "buscar outros livros como este".
Ganhador de importantes prêmios desde o primeiro livro O Impostor (1999, primeiro lugar no Concurso de Contos Paulo Leminski (Toledo, PR); em 1997, de âmbito nacional, com o conto Diablo), Maicon Tenfen vem se firmando como contista nesses 10 anos de livros publicados, um ciclo “fechado” com o lançamento de Casa Velha Night Club, em 2009, livro que contém um conto, Nick Fourier, vencedor do Concurso de Contos de Araçatuba (SP), de âmbito nacional.
Comemorando, então, essa jornada de escritas e publicações, Tenfen apresenta aos seus leitores – os atuais e os que ainda virão – um box intitulado Contos (editora La Ventana, 2010), reunindo os três livros publicados pelo autor no gênero, O Impostor (1999), Mistérios, Mentiras e Trovões (2002) e Casa Velha Night Club (2009), um projeto muito bem desenvolvido que vem para reforçar o domínio da narrativa conduzida pelo autor.
Nada melhor do que uma releitura para de fato ler com propriedade algo. E as releituras dos contos de Maicon Tenfen reforçam a condução que o texto exerce sobre o leitor. Seja pela temática abordada, de narrativas urbanas e interioranas carregadas de suspense, seja pelo próprio suspense criado durante o conto. É desta forma que o autor conduz a leitura. A partir de um texto que convida o leitor a não largá-lo senão com a mesma finalizada.
E nessa proposta há uma outra inovação de escrita. Há uma expansão dos limites de gêneros apresentados pela literatura. O que é um conto é também apenas um recorte de uma trama maior. As histórias de O Impostor, mesmo que não se liguem necessariamente, já apresentam uma condução narrativa e temática que leva o leitor a um ir e vir na leitura. Um ler de rota alterada. Um ler de dois em dois. Avançar sob as páginas, e voltar a elas também. Conhecer o impostor do primeiro conto e pensá-lo no impostor do último conto. Aventurar-se nas diabruras infantis da arte de voar ou nas coceiras corpóreas que corroem os adolescentes. Sem deixar de fora os "rurais" crimes de Noé Gonçalves e a vergonha de um filho perante o pai, ou o contrário.
Porém, é com Mistérios, Mentiras e Trovões que Tenfen desconstrói a estrutura de um livro de contos sem ligação entre si. Todos os contos se passam na bucólica cidade de Bocaina (ingênuo nome relacionado ao adjetivo?), onde causos se espalham como rastilho de pólvora. A própria condução do tempo na narrativa é um piscar de olhos. Tudo acontece num curto espaço de nem 12 horas. O raiar de um dia é elo entre personagens tão díspares, como uma misteriosa moça, proveniente de cidade grande, ou uma outra, ingênua, moradora da própria Bocaina, seduzida por um homem "repórter de um jornal local", de quem ninguém desconfia, mas que ao final da história revela-se algo mais do que um simples jornalista. Sem deixar de contar do prefeito e de seus tantos segredos, e de um pistoleiro contratado para a tarefa de vingar o nome do coronel, além de uma misteriosa mulher que dirige um Maverick vermelho de capota branca. Personagens presentes nos contos do início e nos contos do final. Ou, podemos dizer, nos recortes de uma história só, apresentada em fragmentos ao leitor.
E, por fim, em Casa Velha Night Club oito narrativas com um quê em comum, amarradas por um narrador as conduzindo em tom de diálogo com o leitor, quase como um monólogo apresentado em forma de escrita. Personagens enigmáticos. Tramas bem urdidas. Ruas estreitas e localidades misteriosas a serem desbravadas. A história em sua fugacidade máxima. Aquilo que aparece e desaparece num piscar. Que interroga o leitor: mas será que é isso mesmo? Que convida ao ato de reler: preciso voltar e esclarecer isto.
As histórias de Tenfen aproximam o leitor do objeto livro. Despertam um querer mais, um desejo de que a história seguinte seja tão boa quanto a anterior. Propiciam, ainda, a surpresa de reencontrar personagens e lugarejos. A crença na força da narrativa aí se faz presente. Um presente ao sujeito-leitor, um prisioneiro feliz por esta condição, enredado nas possibilidades de uma trama bem contada e, mais do que isso, que conquista pela própria escrita, pela palavra em seu estado bruto de enunciar algo.

* Professor de Literatura para as séries finais do ensino fundamental em Jaraguá do Sul
Ítalo Puccini*


O mundo já é apresentado enquanto escrita, o que requer leitura e interpretação (LAJOLO, Marisa & ZILBERMANN, Regina).


A história da escrita e das línguas está longe de terminar, pois o caráter da escrita é imagético e transitório. Hoje falamos e escrevemos em português, mas há muito se cogita a criação de uma linguagem universal (uma tentativa foi o Esperanto, no século XIX) para unir todos os povos. A internet pode ajudar nesse processo, mas será possível? O tempo dirá.

O que temos hoje é quase que um retorno às primeiras formas de escrita registradas pela civilização. E é no espaço virtual que se pode observar esse retorno, essa busca por novas formas de expressões (e, sabe-se, nem tão novas assim).

Tem-se, por exemplo, a escrita fragmentada, enxuta, que pouco diz, mas que muito quer ser entendida. As abreviações são modelos clássicos nisto. Uma escrita mais rápida, mais dinâmica. Apenas um reflexo social. Nesse ritmo alucinado de vida, nada mais natural ao ser humano que registrar de maneira breve, sucinta, econômica aquilo que é anunciado, seja oralmente, seja de forma escrita.

Desde a popularização da internet, durante os anos 90, foram muitas as mudanças nos hábitos de escrita e de comunicação no mundo todo. Primeiro foi o surgimento do e-mail, depois vieram as salas de bate-papo e os comunicadores instantâneos (como ICQ e MSN) e, finalmente, os blogs e as redes sociais (Orkut, Facebook etc.), hoje tão populares entre os adolescentes quanto diários e papéis de carta um dia já foram. Em meio a essas mudanças, com o advento de novos recursos e ferramentas comunicacionais, o internetês – nome dado à grafia abreviada utilizada na internet – acabou se desenvolvendo e cristalizando-se à medida que a rede mundial de computadores evoluiu.

É por estes caminhos que a escrita hoje em dia mais acontece. É por aí que mais se relacionam as pessoas. Através de textos curtos, repletos de espaços de preenchimento aos leitores. Uma escrita que ao mesmo tempo anuncia algo, mas que não diz este algo em sua totalidade. Uma escrita que procura despertar a atenção e o interesse. Mas que não se aprofunda. Prova maior disso é o microblog twitter, ferramenta em que seus usuários escrevem textos de no máximo 140 caracteres (esta é uma frase neste modelo, do “Prova” até “caracteres”). A máxima ‘menos é mais’ nunca fez tanto sentido como nos dias de hoje.

É isto com o que nos deparamos no livro “Das tábuas da lei à tela do computador”, das escritoras Marisa Lajolo e Regina Zilbermann (Editora Ática, 2009). Um cuidado em resgatar toda a história do surgimento do texto escrito, das primeiras formas de expressão do ser humano, e das maneiras de se fazer entender oriundas daquela época.

Seguindo esse caminho, como não poderia deixar de ser, ainda mais se levando em conta que a leitura, sem a escrita, não faria sentido, sendo a recíproca a maior prova da afirmação, as autoras apresentam ao leitor um panorama das diversas possibilidades de leitura com as quais hoje nos confrontamos, sejam, estas possibilidades, em termos da ação do ato de ler, quanto no que diz respeito às ferramentas utilizadas para estas leituras – exemplo do meio digital Ipad, um recurso de leitura que armazena vários e vários livros em uma tela um pouco menor do que um notebook.

Assim sendo, também, com o conceito de escrita, uma vez que a escrita mais disseminada pelo meio virtual demonstra um movimento de retomar a escrita desde sua invenção: através de sinais, de caricaturas, os hoje chamados emoticons. Bastam ser observadas expressões escritas para designar sentimentos, como :( :) *--* ^.^ =D =P ¬¬ =O =B

Os emoticons [fusão das palavras inglesas emotion, "emoção", com icon, "ícone"] são amplamente utilizados por internautas para expressar humor e sentimentos durante troca de mensagens. Além disso, a maioria dos atuais comunicadores instantâneos já consegue decodificar essas combinações tipográficas e traduzi-las por equivalentes pictóricos, alguns inclusive com movimentos animados, de modo que ao digitar :) a seqüência se transforme imediatamente no desenho de uma "carinha feliz", assim .

Esta aproximação muito grande entre tecnologia e escrita e leitura impõe ao ser humano, ao mesmo tempo em que permite a ele, uma capacitação para bem fazer uso de recursos como estes em prol de sua comunicação. Comunicação esta que a cada dia sofre interferências e alterações, seja na maneira oral, seja no modo verbal-escrito de se expressar. Conforme dizer das autoras, a escrita gira em órbitas da oralidade, enquanto que a leitura recompõe a unidade perdida entre as duas ações anteriores.

Estar alheio a essa contínua transformação é o mesmo que se alienar socialmente. Neste mundo não-linear, neste ritmo de vida que também não segue em linha reta e definida, não teria como ser diferente no que diz respeito às formas de comunicação e de interação. Temos um conhecimento não mais preso a uma página impressa ou a uma parede. Toda leitura, de todo e qualquer movimento, torna-se uma escrita em potencial, uma nova possibilidade de pensar e de agir e de se fazer ouvir.



Referência Bibliográfica:

LAJOLO, Marisa & ZILBERMANN, Regina. Das tábuas da lei à tela do computador: a leitura em seus discursos. 1ª ed. São Paulo: Ática, 2009.
“Contar histórias multiplica a gente”. Este foi o tema do “Abril Mundo 2009”, evento organizado anualmente, desde 2005, pelo PROLIJ, Programa Institucional de Literatura Infantil e Juvenil, da Univille, com o desejo maior de colocar no centro da discussão, acadêmica e social, o que é e o que está sendo a Literatura Infantil e Juvenil, nacional e internacionalmente.

O tema do evento deste ano, que deu início a este texto, teve como objetivo colocar em discussão a milenar arte de contar histórias. Isto porque o ato de contar histórias faz parte da história da evolução do homem. Isto porque contar histórias, todos contamos. E, ao contarmos histórias, contamos a nós mesmos.

Sueli Cagneti, coordenadora do PROLIJ, no seu mais recente livro publicado, “Literatura Infantil e Juvenil: suas possibilidades de leitura em sala de aula” (Letras Brasileiras, Coleção Letra Viva, 2009), apresenta ao leitor algumas linhas que dão conta dessa representatividade da história na vida humana. Escreve ela assim: “A história é inerente ao homem. Temos necessidade de contar, contando-nos. Da mesma forma que, ao ouvir narrativas, nos ouvimos. Nada tão humano quanto a literatura para aproximar o homem do homem”.

Uma frase final que abraça todas as frases anteriores. A força da literatura reside nisso, na condição de ser humano que ela desperta nos sujeitos.

A narrativa é inerente ao ser humano. Queremos, sempre, contar histórias nossas, fazermo-nos ouvir perante os outros. Assim como queremos, sempre, ouvir histórias contadas por estes outros. A vida são histórias. Conhecer histórias é viver. Um cruzamento de histórias. Costuras de vida. Uma palavra é um entrelaçamento de letras. Uma história é um entrelaçamento de palavras. E sentires.

A literatura é apenas um dos meios que utilizamos para nos contarmos e para conhecermos mais a nós mesmos por intermédio de personagens aos quais, como leitores que somos, damos vida.


Ítalo Puccini*
* Escritor e Professor de literatura
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