Mostrando postagens com marcador hibridação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador hibridação. Mostrar todas as postagens

Fernanda Cristina Cunha
Há no homem moderno, como houve no homem ao longo de toda a história, a necessidade da imaginação para lidar com as situações angustiantes do ser, como as angústias das relações humanas e da finitude da vida. Se podemos dar uma justificativa para a existência do encantamento, da arte e da metafisica é a possibilidade de através delas encontrarmos um sentido à nossa existência e às nossas angústias.

Essa necessidade, como dito anteriormente, sempre existiu. Contudo, conforme Mocellim (2011) é a partir da obra de Max Weber que podemos compreender o movimento de desencantamento do mundo como um processo em que, por meio da religião, ao incorporar limites entre o espiritual e o profano, e da ciência, por considerar qualquer vertente do encantamento, irracional, resultou na desmagificação e perda de sentido da pratica do ser.

Esse movimento de desencantamento perdurou por conta da força do pensamento religioso, científico e tecnológico exercido sobre a sociedade contemporânea. Contudo, estes não foram capaz de dar fim ao anseio dos homens por encantamento. Em parte, pela incapacidade de lidarem com a angústia do propósito da vida, em parte, por limita-la. 

Em virtude disso, a volta dos elementos imaginativos na forma como construímos nossa visão de mundo, conceitua-se como reencantamento do mundo. Segundo Rocha (2014 p.3), o movimento de reencantamento do mundo pode ser definido como “a inversão do processo de desencantamento”.
A distinção do reencantamento, para o que existia antes do desencantamento, é de que esse movimento, se manifesta agora, aliado aos novos paradigmas da ciência. Ou seja, você não remove a ciência, mas inclui a magia a ela no processo de reencantamento.

Entretanto, esse movimento pode ser compreendido de diferentes formas e diferentes intensidades, seja na literatura, cinema, e tantas outras formas de expressão da arte. A partir da entrevista de Mia Couto concedida a Eliane Brum e Raquel Cozer em 2014, podemos observar que o movimento de reencantamento é lento. Isso fica em evidência diante a argumentação do escritor moçambicano de que o modelo de sociedade e pensamento atual impedem que vejamos o encantamento e o sagrado nas coisas.

O autor rememora também que as crianças trazem consigo uma espécie de tentação ao encantamento, uma vez que o interesse pela história do mundo a sua volta não é reduzido a apenas explicações racionais ou cientificas. E é diante a união dessa linguagem encantada, artística e poética, tão natural às crianças, à linguagem cientifica, racional e técnica, tão enraizada na contemporaneidade, que o presente ensaio busca aprofundar o hibridismo dessa mescla no reencantamento do mundo, diante obras “A mãe que chovia” de José Luís Peixoto e “Fita verde no cabelo” de Guimarães Rosa.

O reencantamento do mundo como remédio para a angústia das relações humanas e da finitude da vida:

A hibridação do concreto, e científico com a magia e o metafisico é poeticamente experencializada na obra “A mãe que chovia”. Nela, um menino que, sendo filho da chuva, e com uma mãe tão importante e necessária ao mundo, tem de aprender, a duras penas, a partilhar com o mundo todo o seu cuidado e dedicação. E, principalmente, lidar com a saudade, angústia e tristeza nos momentos em que ela está ausente. Essa mãe por outro lado tendo um mar de obrigações vê-se compelida a se ausentar por longos períodos de seu filho, e com isso lida com sua própria tristeza, culpa e angústia.
Através desse percurso, entre o real, ou seja, os desafios das relações entre mãe e filho, e o metafísico, isto é, a natureza dessa relação.  O autor presenteia aos leitores uma lição de generosidade, empatia e amor. 


Podemos também enxergar percurso semelhante na obra “Fita verde no cabelo” de Guimarães Rosa.  A Chapeuzinho Vermelho, nesta obra de Guimarães Rosa, chama-se Fita Verde. E com pequenas semelhanças ao conto de Charles Perrault, cria uma atmosfera encantada ao longo das mais ou menos 30 páginas de narrativa. Contudo, esse encantamento vai dando espaço à realidade da natureza humana. Nossa Fita Verde precisa aprender a conviver com a dor das relações, da possível perda e com o luto quando por fim ela ocorre. A poesia e o encantamento da obra atrelada à menção da finitude da morte, gera, ainda que emocionalmente triste, um rememoramento de que a morte existe, e de que ela é uma das poucas certezas da condição humana.  

A representação poética, especialmente na literatura infantil, seja ela acerca da da finitude da morte, ou das relações familiares e sociais torna mais tangível a sensibilidade humana com relação às angústias da existência de ser.

O mundo, como um livro, pode ser explorado e decifrado. O espaço ao nosso redor possui um significado e cada paisagem conta uma história. Reduzir a realidade o nosso entorno ao âmbito científico é reduzir as realidades do qual podemos ter contato.  Viver apenas uma realidade seria insustentável, e por meio da literatura, religião, filosofia, arte, e tantos outros campos do saber temos acesso às mais diversas realidades. E, como rememora Duarte Junior, (1994, p. 94) “é indevido compará-las pretendendo-se a superioridade de uma em detrimento das outras”.

Fernanda Cunha é graduanda de Psicologia pela Univille. Atua como bolsista do Prolij e busca através dos livros que lê as longas caminhadas por dentro de si mesma.

Referências:

DUARTE JUNIOR, João Francisco. O que é Realidade. Brasiliense: São Paulo, 1994.

MOCELLIM, Alan Delazeri. O Reencantamento do Mundo: considerações preliminares. 2011. Disponível em: . Acesso em: 29 jul. 2018.

MIA COUTO - Pelo reencantamento do mundo. Fronteiras do Pensamento. São Paulo: Telos Cultural, 2014. Disponível em: “https://youtu.be/zyqnqvGLB3w”. Acesso em: 29 jul. 2018.

PEIXOTO, José Luís. A Mãe Que Chovia. Ilustração: Daniel Silvestre da Silva. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2016.

ROCHA, Emmanuel Ramalho de Sá. Expressões literárias do reencantamento do mundo: Promethea de Alan Moore. 2014. Disponível em: . Acesso em: 29 jul. 2018.

ROSA, G. Fita Verde no Cabelo: nova velha história. Ilustrações: Roger Mello. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.





Lara Cristina Victor
O Prolij está desenvolvendo um projeto de pesquisa que versa sobre a hibridação na literatura infantil e juvenil, e nesse processo, os pesquisadores voluntários fizeram textos ensaísticos sobre obras ou produções artísticas que trazem essa proposta. Confira um dos ensaios a respeito do filme "O quarto de Jack"!
O processo de hibridação vem sendo percebido desde épocas muito antigas de desenvolvimento histórico e este, ampliou-se para diversos outros campos de aplicação, modificando e transformado o meio social e cultural. O que não se tem de forma clara, são os impactos e consequências que este processo provocou e vem provocando nas mais diversas relações, até mesmo por conta de seu imensurável crescimento e amplitude nos últimos anos.
E por falar em relações, nos seus mais diversos contextos, não se pode deixar de falar da questão cultural, assim tratado por Vigotski, por desenvolvimento histórico-cultural. Nesse sentido, o processo de hibridação ganha forma e destaca-se de acordo com a cultura, algo que é passado de geração em geração, em um processo de ensino-aprendizagem, sempre compreendendo o funcionamento do todo. Este processo é visto nas questões linguísticas (gírias, por exemplo), modo de se vestir, corte de cabelo, etc. Sendo assim, pode-se afirmar que a forma como as pessoas vivem, como se sentem, como reagem às mais diversas situações, e como principalmente estão acostumadas a viver, dizem respeito a como elas foram ensinadas, e como foi apresentado o mundo a elas.
Canclini menciona sobre o surgimento da hibridação da criatividade individual e coletiva, não só no campo das artes, mas também na vida cotidiana e no desenvolvimento tecnológico. É nesse momento que aparece o termo “reconversão”, utilizado para explicar as estratégias mediante a um determinado “avanço” ou melhoria das técnicas utilizadas em detrimento a determinada demanda daquele setor. Como por exemplo um pintor se converter em designer, operários reformularem sua cultura de trabalho ante as novas tecnologias produtivas, burguesias nacionais adquirirem os idiomas e outras competências necessárias em vista do crescimento econômico em circuitos transnacionais. São por essas e outras razões, que Canclini sustenta que “o objeto de estudo não é a hibridez, mas, sim, os processos de hibridação”. Nesse sentido, faz-se necessário a compreensão desse processo em relação a identidade, compreender que não é possível analisar uma ação ou traços fixos de um povo sem observar o todo, ou seja, a história de formação dessa cultura, juntamente com os diversos elementos de diferentes épocas que fizeram parte desse processo.
Seguindo esse discurso, uma brilhante obra que abarca sobre relações culturais e de vivência e que encaixa perfeitamente como exemplo, é o filme “O quarto de Jack”, lançado em 2015, ganhador do Prêmio Globo de Ouro. Trata-se de uma mulher sequestrada e confinada em um quarto isolado e minúsculo e que dá à luz à um menino, que é criado dentro desse quarto até seus cinco anos de idade. Claramente, a visão de mundo de Jack é distorcida e limitada, a ponto de não saber o que é uma árvore (e que ela existe de verdade), e achar que o quarto é o mundo inteiro e que fora dele não há mais nada. A forma dele de viver, de sentir e de reagir, é desenvolvida para viver unicamente dentro do quarto, quando ele finalmente sai de lá, o seu primeiro e único desejo: voltar para o quarto. Afinal, foi ali que ele aprendeu a viver, foi de acordo com o clima do quarto que ele aprendeu a se vestir, conforme o tamanho deste, que ele aprendeu a brincar, estabelecendo contato apenas com sua mãe, ou seja, ele não aprendeu a estabelecer relações com outras pessoas.
Resultado de imagem para o quarto de jack
              Nessa perspectiva histórica, entende-se que os processos acontecem pela significação, àquilo que dá sentido à ação ou objeto. Como foi falado no processo de reconversão, este se faz verdadeiro e tem um significado, porque as técnicas do pintor estão ultrapassadas e já se apresentam novos recursos – mais sofisticados – que podem atender a demanda com mais facilidade e rapidez. E porque as novas tecnologias são mais eficientes e podem atender a grande demanda do mercado, sendo assim, os operários se rearticulam para dar espaço a estes avanços. De outro modo, se não fossem apresentadas essas reconversões como algo necessário e promissor, se as técnicas do pintor fossem as mais eficazes e modernas naquele momento, não faria sentido acontecer a reconversão. Adaptando esse pensamento para o filme “O quarto de Jack”, se o conhecimento de Jack se limita apenas para dentro do quarto, não faria sentido para ele apresentar-lhe outras pessoas para socialização. Se no momento em que o sequestrador chega no quarto, sua mãe esconde Jack dentro do armário, não faria sentido para ele cumprimentar as pessoas quando chegam no mesmo local em que ele está. E se dentro do quarto tem aquecedor para dias frios, não faria sentido apresentar-lhe a existência do sol, afinal: “o que é o sol?”.
      Sendo assim, a amplitude histórica do termo “híbrido”, juntamente com o pensamento Vigostkiano servem de sustento para explicar processos psicológicos, sociais e culturais do filme “O Quarto de Jack”. Além de provocar uma rica discussão sobre as relações de identidade, experiências, culturas, dentre outros processos históricos e culturais.

Lara Cristina Victor é aluna do curso de Psicologia na Univille. Atua como bolsista no Prolij e vê em cada criança um pouquinho de si mesma.





Tecnologia do Blogger.