Por Sonia Regina Reis Pegoretti

A Costa do Ouro era conhecida pelas suas riquezas e foi dominada pela Inglaterra por mais de 80 anos, sendo o primeiro país ao sul do deserto do Saara a tornar-se independente, em 1957. Naquele ano passou a ser chamado de Gana, em homenagem ao primeiro grande império do oeste da África.
O chamado de Sosu” se passa justamente em Gana, um país ao oeste da África, em uma aldeia que fica entre o mar e a laguna. Contam que essa aldeia já foi maior, mas cada vez que as ondas quebram na praia, o mar avança mais sobre ela. A laguna se estende longe... mas também seca de forma surpreendente. As pessoas da aldeia a vêem como uma boa mãe. Escuta-se dizer na aldeia que “o mar só deixará de avançar quando a laguna aceitar se casar com ele”. Apesar disso, as pessoas não querem sair de lá, pois o mar oferece bom peixe, a laguna proporciona outras iguarias e a terra, por sua vez, produz excelentes verduras e legumes para o mercado.
Nessa aldeia vive Sosu e sua família: seus pais, a irmã, o irmão pequeno, seu cachorro e umas vinte galinhas. Assim como outras casas da aldeia, a de Sosu fica bem perto do mar. O que há de diferente nessa história? Nada além de Sosu não poder andar. Quando ele era pequeno, sua mãe o levava nas costas e assim podia conhecer a aldeia toda... mas agora enquanto os mais velhos trabalham e as crianças iam para escola, Sosu fica em casa brincando com seu cachorro.
Seu pai tentou levá-lo para a pesca. Até ensinou a remendar as redes, porém outros homens da aldeia acharam que já era uma infelicidade ter um menino assim ali na aldeia e que o espírito da laguna poderia não gostar de ter Sosu por perto.
O fio condutor da narrativa a partir daí são as emoções de Sosu sobre a aceitação dele pela aldeia e sobre si mesmo. Seu cachorro Fusa se constitui em um elemento mágico, sempre o incentivando e encorajando, mesmo nos momentos mais difíceis.
O escritor Meshack Asare, que também ilustrou o livro com belas aquarelas, se mostra sensível com as questões da inclusão e da tolerância, dentro de sua própria cultura. Em 2005 quando lançado no Brasil, ocupava o 12º lugar numa lista dos 100 melhores livros da África, recebendo da Unesco o Prêmio Literatura Para Crianças e Jovens a Serviço da Tolerância.

FICHA TÉCNICA:

Obra: O chamado de Sosu
Autor e ilustrador: Meschack Asare
Editora: SM
Ano: 2005




Na vida tudo é repetição
Aprende as histórias que aconteceram no passado
e saberás o que se passa no presente
e tudo o que no futuro ocorrerá.
Ifá, o Adivinho – Reginaldo Prandi


por Amanda Corrêa da Silva e Sueli de Souza Cagneti

Ifá é aquele que conhece todas as histórias; é ele, o Adivinho, quem escuta os problemas e aconselha aqueles que estão em dificuldades; é Ifá que, com seus dezesseis búzios mágicos, tudo adivinha. Este sábio orixá é também um dos personagens do livro Ifá, o Adivinho de Reginaldo Prandi (Companhia das Letrinhas, 2002) que traz ao público algumas das histórias que a África nos deixou de herança.
Acontece que nem sempre Ifá foi encarregado da adivinhação. Antes dele quem ocupava o cargo era um velho mago que resolveu se aposentar por força da idade. Assim que a vaga abriu Ifá se candidatou.
A caminho do palácio de Olorum - o Senhor Supremo que tudo decide - o futuro adivinho deparou-se com Exu que era ainda jovem e vivia de pequenos bicos. Ifá dividiu sua comida com o mensageiro, que muito satisfeito com a oferenda, ajudou-o a conquistar o cargo tão desejado. E assim Ifá, o Adivinho, com o auxílio de Exu, passou a ler a sorte e desvendar o destino dos homens e, é claro, ajudá-los a se livrar das armadilhas da morte.
Aspectos estéticos da ilustração de Pedro Rafael como as cores, movimentos e texturas criam uma atmosfera carregada de africanidade. As peripécias vividas pelas personagens apresentam valores e sentimentos que estão muito mais próximos de nós do que imaginamos – e não me refiro somente a nós brasileiros, mas a nós seres humanos.
Enfim, em meio a tantos atrativos comerciais surgem obras como esta que realmente se propõe a tratar os leitores com a inteligência que merecem. E não é por menos que Ifá, o Adivinho recebeu da FNLIJ em 2003 o prêmio de Melhor Livro Reconto.

FICHA TÉCNICA:


IFÁ, O ADIVINHO
Autor: Reginaldo Prandi
Ilustrador: Pedro Rafael
Editora: Cia das Letrinhas
Ano: 2002


por Sueli de Souza Cagneti

(Coordenadora do PROLIJ)


Dentre as tantas publicações que enriquecem nosso acervo a respeito dos escravos africanos que, juntamente com suas vidas, sua história e seu trabalho, nos deram um mundo cultural rico e definitivamente brasileiro está “Menino Parafuso”.
O livro de Olívia de Mello Franco nos conta a história do menino brincante, que rodando como um pião, vai juntando anáguas brancas das sinhás para compor seu disfarce/fantasia de Menino Parafuso.
Segundo nota explicativa da autora “O folguedo parafuso é uma manifestação folclórica típica de Lagarto, em Sergipe, e se desconhece a existência de algo semelhante em outro lugar do Brasil. É uma tradição popular de origem escrava, dizem que surgiu na época em que os negros, sofridos trabalhadores dos engenhos de cana-de-açúcar, fugiam das senzalas e formavam quilombos...” (p.31)
O interessante da história contada por Olívia, aliás ricamente ilustrada por Ângelo Abu, é que nos faz rever tantas manifestações artísticas e culturais, cujas origens remontam à escravidão e comprovam a inventividade deste povo tão sofrido, na tentativa de escapar do jugo de seus senhores. Assim como a capoeira – hoje vista como arte – o folguedo parafuso também nasceu como arma de proteção e fuga, transformando-se numa coreografia ritmada que ganhou lugar no folclore sergipano.
Vale conferir o menino, sua história e, principalmente, uma história que, por trás daquela, se faz conhecer.


FICHA TÉCNICA

Obra: Menino Parafuso
Autor: Olívia de Mello Franco
Ilustrações: Ângelo Abu
Editora: Autêntica
Ano: 2008

por Amanda Corrêa da Silva e Sueli de Souza Cagneti

Não é por menos que Chuva de Manga, texto e ilustrações de James Rumford, recebeu o selo Altamente Recomendável da FNLIJ em 2005.  A narrativa, ambientada em uma aldeia do Chade, país africano, é construída na singeleza do cotidiano através dos passos do pequeno Tomás. A história se desvela com naturalidade e assume em seu decorrer uma aura poética. O espaço mágico se instaura nos pontos de encontro entre natureza e imaginação. Dois movimentos se entretecem na narrativa: o período das chuvas que lava a terra para que as mangueiras possam florescer e frutificar – daí o título do livro - e a ideia que brota na imaginação de Tomás. Um acontece sem a perda de significação do outro; ambos coexistem com a naturalidade das coisas que se pertencem.
Rui de Oliveira nos diz que uma das finalidades da arte de ilustrar é atuar como um prisma do texto e não como um espelho¹ para que o leitor caminhe também nas veredas que a imagem revela. É nessa direção que palavra e imagem percorrem as trilhas do literário em Chuva de Manga. As cores quentes das ilustrações evocam o clima seco próprio da região, mas também exprimem uma alegria leve, sutil – a alegria que nasce com a chuva das mangas.
O livro conta com um recurso que vem sendo utilizado com frequência nas produções infantojuvenis – particularmente as que atravessam a questão da africanidade: textos informativos que situam o leitor sobre alguns componentes da obra. No caso de Chuva de Manga o informativo nos dá um panorama geográfico e cultural simples da região do Chade e conta-nos um pouco do que é, como e quando ocorre a chuva das mangas.
            Em tempos em que as discussões sinalizam para a importância de se pensar a pluralidade e a multiplicidade que compõem as várias esferas da sociedade, Rumford nos presenteia com Chuva de Manga que configura, sem dúvida, um papel significativo nesse cenário. 

RUMFORD, James. Chuva de Manga. São Paulo: Brinque – Book, 2005.
¹OLIVEIRA, Rui de. Pelos Jardins Boboli: reflexões sobre a arte de ilustrar livros para crianças e jovens. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
É a partir desta palavra, de uma palavra só, assim, sem nenhuma outra para acompanhá-la e tornar seu significado mais claro, que é possível pensar dois livros. Em um deles, a obsessão de um homem, pescador, por um peixe. Em outro, a obsessão de um homem por uma baleia. Pra quem já leu, sabe que os livros citados são “O velho e o mar”, do escritor norte-americano Ernest Hemingway, e “Moby Dick”, do também norte-americano Herman Melville.
            Obsessão significa ideia fixa, e ideia fixa é o que tem Santiago, ao pescar um grande peixe, em alto-mar, após mais de oitenta dias sem pescar nada. E ideia fixa é também o que sente Ahab pela baleia branca Moby Dick, desde o momento em que esta lhe arrancou uma perna. De um lado, uma obsessão pelo simples instinto de sobrevivência, de pescar para ter o que comer, mas que se torna uma ideia fixa muito mais forte pelas condições externas a esta pesca. E, de outro lado, uma obsessão vingativa, de revanche mesmo.
            A história de Santiago, em “O velho e o mar”, pode ser pensada também como uma história de perseverança, antes de ser pensada como uma obsessão. Perseverar é persistir, é continuar, é não parar de fazer aquilo que se está fazendo. Conservar-se firme e constante. E é isto que faz Santiago, com a ideia fixa (obsessão) de pegar aquele peixe.


“ A cultura africana não é uma
única, mas uma rede multicultural em contínua construção"
(Mia Couto)

Amanda Corrêa da Silva e Sueli de Souza Cagneti 

Oxumarê, o Arco- Íris de Reginaldo Prandi (Companhia das Letrinhas, 2004), que completa a trilogia Mitologia dos Orixás para Crianças e Jovens, resgata histórias dos orixás trazidas da África para o Brasil através das memórias do povo Iorubá.
E uma destas histórias nos conta que há muito tempo chovia insistentemente na terra, sem trégua. Então, o belo Oxumarê, filho de Nanã, que detestava ver todo aquele aguaceiro elevou seu punhal ao céu e riscou um arco imenso para vedar a passagem das águas. E é por isso que quando chove podemos ver suas cores atravessarem os céus em forma de arco-íris. 
Prandi traz à tona a força dos orixás com seus elementos característicos, traços de personalidade, as oferendas que mais lhe agradam sem, no entanto, criar a aura oculta ou carregada de estereótipos que comumente se associa aos cultos afro-brasileiros e seus deuses. As narrativas desdobram-se sempre seduzindo o leitor para o que vem a seguir.
            As ilustrações de Pedro Rafael transitam da ancestralidade ao pós-modernismo, de um passado imemorial à contemporaneidade, constituindo com uma singela beleza um conjunto de imagens que capta a natureza dos orixás, suas paixões, aquilo que é próprio de cada um sem atirá-los em um balaio.
            Oxumarê - bem como as demais produções de Prandi - contribui para dispersar a obscuridade na qual estão envoltas as manifestações culturais afro-brasileiras e para despertar o olhar das crianças e jovens para a presença da África no Brasil que compõe parte essencial na construção de nossa brasilidade.

FICHA TÉCNICA:

OXUMARÊ, O ARCO-ÍRIS
Autor: Reginaldo Prandi
Ilustrador: Pedro Rafael
Editora: Cia das Letrinhas
Ano: 2004



Sueli de Souza Cagneti
(Coordenadora do PROLIJ)

Ondjaki, esse poeta proseador ou proseador poeta angolano, de apenas 34 anos, já doutor em Estudos Africanos, nada contaminado pelo mundo acadêmico, é alguém que – ao poetar – diz “(...) apetece-me chãonhe-ser-me”. Basta isso para sabermos a que vem... Que se chegue, pois.
Recém descobridor de nosso poeta contemporâneo maior – Manuel Barros – refere-se em nota final, sem obviamente teorizar sobre, a importância das obras sobre as obras. A sua – ao menos essa – sobre a qual aqui rabisco – foi contaminda, sem dúvida, por Barros. Em Há prendisagens com o xão, Ondjaki nos presenteia com aforismos poéticos dos mais interessantes, como “amizade: há preferências que seja húmida, pois mundo está isolar pessoas assim amizade procura por ela que pessoas se escorreguem para algum encontro” (p. 62-3).
Ao mesmo tempo, entremeia seus poemas, carregados de brinquedo com a palavra – desinventando-a para reinventá-la – com pequenas prosas poéticas (à maneira de Manuel de Barros) como “A jangada, o passeador – estória para eu adormecer” ou “ Borboletabirinto”, dignas de serem lidas degustadamente.
Junto a poemas, dos quais destaco “Que sabes tu do esco do silencio” (belíssimo!!!, p. 26), traz algumas definições de “ Bichos convidados”, como abelha, borboleta, lesma, a quem chama de “ mestre em tudo que acuse molhadez “ p.55), mosquito, polvo, raposa, toupeira ou pássaro, com quem nos remete à Hemingway, Nietzsche, Garcia Marquez, Cervantes e Guimarães. Não resisto, pois, à citação “pássaro: doutorado em voo e liberdade, tem domínio absoluto da poesia eólica, de sua autoria, destacam-se: o velho e o pássaro; assim falou passatustra; cem anos de provisão; dom passarote de la avoança e grande passarão: penedas” (p.56).
Acredito não precisar dizer, que Ondjaki é leitura obrigatória para quem curte ir além das palavras para reolhar-se e reolhar o outro. Bom enxergamento!

Obra: Há prendisajens com o xão (o segredo húmido da lesma & outras descoisas)
Autor: Ondjaki
Editora: Pallas
Ano: 2011





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