Por Sueli de Souza Cagneti

Ao olharmos a capa do livro de Rosa Amanda Strausz, prêmio João de Barro /98 e Altamente recomendável- FNLIJ/99, nossas deduções são imediatas: Uólace é o adolescente negro e, portanto, pobre, com nome americano adulterado pela ignorância; João Victor é o branco e rico, com nome de quem tem futuro promissor. Inspiradora de um dos episódios da minissérie Cidade de Deus, a obra de Strausz longe está da velha e conhecida discussão provocada pelas diferenças sociais e raciais. Embora não deixe de evidenciar essas questões que são óbvias, dadas às pistas iniciais, o ineditismo da obra está no contraponto que faz da vida desses dois jovens, ao mesmo tempo tão diferentes e tão iguais. Ambos vivem a insegurança da maturidade que os espreita, sem grandes promessas de sonhos cumpridos, de desejos realizados, de medos superados. Ambos vivem suas perdas, sua eminente solidão, suas descobertas precoces de que nem sempre é possível fugir ao fatum que- por razões não explicáveis- colocam em xeque nossas necessidades e lutas pela sua superação. É na constatação de ambos, cujas vidas se entrecruzam, mas não se encontram, que Rosa Amanda Strausz nos diz que o homem é mais do que cor de pele, conhecimento acadêmico, situação social e familiar: " (...) Mas ele também não parece corajoso. Só ... perdido. Igual a mim." João Victor, p.59. "Parece tão perdido. Igual a mim. Igual a mim, repito baixinho." Uólace, p.62.  Bom... Dito isto, é recomendar a leitura, que como se pode deduzir, promete.

FICHA TÉNICA:

Obra: Uólace e João Victor
Autora: Rosa Amanda Strausz
Editora: Objetiva
Ano: 2005

Por Sonia Regina Reis Pegoretti

                A partir da lei 10.639/03, os professores têm a incumbência de trabalhar a história e a cultura afro-brasileira na sala de aula e em 2008, através da lei 11.645, ela se complementa, inserindo a história e cultura indígena. Diz a lei que esses conteúdos devem ser trabalhados em todo currículo escolar, mas com especial atenção nas disciplinas de artes, literatura e história. Tarefa difícil esta, considerando que a maioria dos professores já formados, não tiveram essa formação nos cursos de graduação.
É com essa problemática em mente e também com questões de gênero, raça e etnia que Nilma Lino Gomes e Petronilha B. Gonçalves e Silva organizaram o livro "Experiências étnico-culturais para a formação de professores". O livro apresenta oito artigos escritos por especialistas em formação de professores, sobre histórias contadas ou vividas por eles na sala de aula em diversas regiões do Brasil e também do exterior como Estados Unidos, Mali, Uruguai e Espanha. Essas histórias falam da diversidade na educação e da problemática que muitos dos nossos educandos e também professores enfrentam no seu dia a dia.
Na sua apresentação, Nilma Lino Gomes fala sobre os desafios da diversidade e da importância dos diferentes olhares de pesquisadores sobre essa temática na formação de professores. Aspectos sobre cultura, identidade, semelhanças e diferenças são parte deste livro, que entre outros assuntos, discute em seus artigos a educação indígena, africana, judaica e de ciganos.
Como resultado do trabalho, algumas respostas. Mas, ainda mais perguntas são deixadas ao leitor pelos pesquisadores. É nesse movimento de vai e vem que vamos construindo a educação que queremos. O livro é um convite a experimentar!

FICHA TÉCNICA:

Obra: Experiências étnico-culturais para a formação de professores
Autoras: Nilma Lino Gomes e Petronilha B. Gonçalves e Silva (Orgs)
Editora: Autêntica
Ano: 2011 3 ed.

 Por Cleber Fabiano da Silva

                Um terrível vendaval fez o pai parar o seu trabalho por alguns minutos... Tempo suficiente para a família se reunir e conhecer a história de Mãe Vento e seu solitário filho. Este, sem ter com quem brincar, passava os dias tristonho e solitário. Um dia, porém, encontrou Nakati, um menino da sua idade. Juntos divertiam-se jogando bola sem que o filho do vento revelasse ao amigo sua verdadeira identidade. Alertado pela mãe, Nakati descobre o segredo de seu companheiro, bem como, o perigo de pronunciar o seu nome.
                Com esse argumento, Rogério Andrade Barbosa apresenta O filho do vento, editora DCL. Uma bela lenda na qual plantas, homens, bichos e astros pertenciam à antiga raça (...) e tinham o direito de conviver em paz, uns ao lado dos outros (p. 08). Interessante notar a ligação entre os seres humanos e todos os elementos da natureza. A presença desses elementos, além de justificar atitudes e comportamentos humanos, compõem uma explicação para os próprios fenômenos naturais: o vento leva nossos segredos. Sabe tudo e conhece todas as pessoas. (p. 14) Quando alguém morre, seu último suspiro vai reunir-se a um vento mais forte e poderoso, para formar as nuvens do céu (p. 08).        
                Outra característica frequentemente marcante nesses textos está no seu caráter de enunciação coletiva, o eu que fala representa toda uma coletividade. Agora já sabem (...) podem correr e brincar com o vento, mas nunca pronunciem o nome dele. Isso deve ser guardado como um segredo (p.38).
                Com as belíssimas ilustrações de Graça Lima que ajudam a compor o cenário, o livro conta uma das histórias dos bosquímanos – povo nômade habitante do deserto do Kalahari – que, apesar das duras condições, estão adaptados ao território onde sobrevivem há séculos. (s/p). A obra recebeu da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil- FNLIJ- o selo “altamente recomendável”.
                                              
FICHA TÉCNICA:

Obra: O filho do vento
Autor: Rogério Andrade Barbosa
Ilustrações: Graça Lima
Editora: DCL – Difusão Cultural do Livro
Por Sonia Regina Reis Pegoretti

“Aquele que veio do paraíso”. É este o significado de Zulu, povo que vive na África do sul. Ainda hoje, nas aldeias de Durban, as crianças se reúnem para ouvir histórias sobre seu povo. As três histórias recontadas nesse livro por Julio e Débora D’Zambê, “como o criador fez surgir o homem na terra; a concha das histórias e as sete cabeças” são originárias desse povo, rico em tradição.
Os mitos e as lendas africanas têm caráter essencialmente familiar, narram a ancestralidade da família, da comunidade ou do povo, do sol, da lua, do início/fim do mundo e de seus heróis. E são justamente esses os temas presentes nas narrativas escolhidas pelos autores.
A ilustração é de Maurício Veneza, complementando o texto e retratando de forma colorida um pouco da cultura africana.

Livro: Como o criador fez surgir o homem na terra
Autores: Julio e Débora D’Zambê
Ilustração: Maurício Veneza
Editora: Mundo Mirim
Ano: 2009
                    
  Por Sueli de Souza Cagneti¹

Da África para o Brasil
Do Brasil para o cordel
 É a festa saindo das ruas
E vindo para o papel. ²


Você sabe o que é o Maracatu? De onde veio? Onde acontece? Com quem e por quê? Pois é ele uma tradição do folclore de Pernambuco, trazido da África e, conforme a epígrafe acima, transformado  agora em livro para contar a sua história. Maracatu: a festa em cordel, de Fábio Sombra, cujo texto (em versos) e ilustrações (em xilogravura digital) nos apresenta o desfile animado e colorido de reis e rainhas, suas damas e seus nobres, dançando ao som de tambores, cobertos por lindas sombrinhas (afinal, o sol do nordeste é pra valer), relembrando suas origens, que remontam ao século dezoito. O Maracatu é, pois, uma manifestação afro-brasileira que merece ser conhecida não apenas pelos amantes do folclore, das letras ou da música, mas também e, principalmente, pelos que se interessam pela história e cultura de um povo tão multifacetado quanto o nosso. O livro acompanhado ainda dos bordados de Sabina Sombra nos dá a dimensão do luxo e cuidado dos foliões ao prepararem suas nações (grupos), identificados por seus estandartes os quais são seguidos pela “Dama do Paço”, que traz às mãos “a calunga”, relembrando seus/nossos ancestrais. Para saber mais, é ler o objeto aqui resenhado. Os créditos estão aí abaixo.

Obra: Maracatu: A Festa do Cordel
Autor: Fábio Sombra
Ilustrações: Fábio Sombra e Sabina Sombra
Editora: Escrita Fina
Ano: 2011

¹ Professora e pesquisadora do Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade e coordenadora do PROLIJ- UNIVILLE
² Retirado da quarta capa do livro, sem alusão autoral.

 Por Cleber Fabiano da Silva

               
                Se for verdade que uma andorinha sozinha não faz verão, também há que se acreditar que todo bando deve precisar de um líder, alguém com pensamentos e lutas capazes de constituir um movimento dinâmico, com marcas, dobras e fissuras suficientes para gerar mudanças e angariar adeptos.
                A vida de uma personagem real que ajudou a consolidar e legitimar a luta do movimento negro e feminista numa época de redemocratização do nosso país. O livro, Lélia Gonzalez, por Alex Ratts e Flavia Rios, editora Selo Negro, 2010, propõe-se a apresentar um pouco da vida e da militância dessa mineira nascida em 1935 e falecida em 1994 da qual herdamos um relevante legado para as discussões sobre raça, gênero e classe.
                A pequena – mas profunda biografia – conta, além dos aspectos pessoais da ativista, momentos marcantes de sua vida pessoal, seus conflitos e sua participação em movimentos sociais, políticos e culturais que desdobraram em articulações, trocas e confrontos cujos benefícios ainda são evidentes no cenário brasileiro de luta pelos direitos humanos.
                Professora, escritora, pesquisadora, militante, ativista, intelectual, mulher e negra, “Lélia transitou entre circuitos negros e brancos sem perder de vista seu horizonte racial” (p. 156). E a frágil andorinha ganha os ares e escreve seu nome nas histórias cotidianas e nem sempre contadas pela História, tornando-se verbete de enciclopédia e título indispensável a todos que buscam compreender a sociedade brasileira.                            
               
 FICHA TÉCNICA:

 Obra: Lélia Gonzalez
 Autores: Alex Ratts e Flavia Rios
 Editora: Selo Negro
 Ano: 2010
Por Sonia Regina Reis Pegoretti

            Vários cientistas discutem sobre quando o mundo começou e pela força do que ele foi gerado. Para Pomme essa resposta foi fácil de encontrar. Foi quando ela foi concebida.
            Sua mãe e seu pai se encontraram quando ela veio da África. Ele a viu e a achou linda. Ele carregou suas malas. Ela tinha fome e, portanto comprou duas maçãs verdes a as guardou na bolsa. Depois ela mordeu uma das maçãs e ofereceu ao seu pai (que ainda não sabia disso, pois tinham acabado de se conhecer!).
Pomme - ela disse em francês.
            A partir daí, se desenrola uma linda história de amor. As palavras escritas se transformam em poesia. “De noite, contava estrelas com papai. O silêncio era vasto como o mar. A cama virava então um barco balançando sobre as ondas.” (DIELTIENS, p.9)
            A ilustração fica por conta de Stefanie De Graef que colabora com a narrativa de maneira delicada, evidenciando o caminho percorrido pela mãe de Pomme desde sua chegada da África até seu nascimento.
            A escritora Belga Kristien Dieltiens aborda a complexidade de um amor interracial em Meu nome é Pomme, um livro sensível e imperdível para todas as idades.

FICHA TÉCNICA:

Livro: Meu nome é Pomme
Autora: Kristien Dieltiens
Ilustração: Stefanie De Graef
Editora: SM
Ano: 2011
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