Por Ana Kita

        O livro “A Escrava Isaura”, de Bernardo Guimarães, apesar de ter tido sua primeira publicação em 1875, toca e faz refletir muito leitor do século XXI. Seu romantismo encanta e pinta cada cena e personagem com precisão de detalhes levando o leitor ora a belos cenários, ora a fortes questões do período escravocrata no Brasil; seu caráter abolicionista não apenas marca uma época e as crueldades aceitas perante a lei e aquela sociedade, como faz refletir situações ainda presentes em nossa sociedade. Vejamos uma fala de Geraldo, advogado amigo do justo Álvaro:
“... esses excessos e abusos devem ser coibidos; mas como poderá a justiça ou o poder público devassar o interior do lar doméstico e ingerir-se no governo da casa do cidadão? Que abomináveis e hediondos mistérios, a que a escravidão dá lugar, não se passam por esses engenhos e fazendas, sem que, já não digo a justiça, mas nem mesmo os vizinhos deles tenham conhecimento?”
        Não cabe esse discurso perfeitamente às situações de violência doméstica, a mulheres e filhos mantidos em cárcere privados, a idosos violentados por seus entes? Embora hoje a lei seja mais firme e a posição da sociedade seja como a do personagem fictício Álvaro, há ainda muitos Leôncios escondidos cometendo as piores atrocidades contra a vida humana. Mesmo a discussão sobre liberdade tão forte e bem expressa no livro permeia nossas preocupações perante a tecnologia, por exemplo.         Sinto-me ainda na necessidade de abordar o tema morte explorado repetidamente, ainda que romantizado e delicadamente. A morte natural, pela idade avançada, dos pais de Leôncio e a morte por tanto sofrimento da mãe de Isaura, embora significativos para o enredo da narrativa, não chegam aos pés – na força do tema – do fim do vilão e dos pensamentos dolorosos da sensível protagonista. Ambos por não verem saída digna em suas provações, vêem a morte como solução para, a inalcançável em vida, tranquilidade. A pureza da alma de Isaura e seus bons sentimentos para com seu pai não lhe permitem cometer aquele que lhe parecia o único remédio, já Leôncio não pensa duas vezes em tirar sua vida para se livrar da humilhação da miséria e de pedir a caridade daqueles a quem desejava se vingar.           
        Por fim, como amante da Literatura de qualidade, peço atenção para a habilidade de Bernardo Guimarães ao fazer recortes temporais e prender o leitor nesta narrativa que linearmente seria bastante simples. A destreza do autor ao avançar no tempo e depois abrir um capítulo em meio a uma situação de conflito, justificando a pausa com as explicações dos eventos antecedentes, e a sutileza em se colocar como narrador que acompanha o leitor pelos cenários, pelas cidades e até a alma dos personagens. Genial clássico a se preservar como obra de qualidade a ser referenciada e como retrato de um tempo com o qual ainda temos muito a aprender.


Nossa coordenadora Sueli com os prolijianos Cleber e Alencar na Congresso de Literatura Infantil e Juvenil - Irã - 2007

Interação dos prolijianos Alcione e Cleber, como Emília e Pinóquio, com os transeuntes das ruas de Perúgia- Itália (2006)

                                                       
 Por Sueli de Souza Cagneti

            Ler Casa de Consertos é voltar à infância, buscando recuperar pela memória brinquedos perdidos, brincadeiras esquecidas, pessoas queridas, espaços especiais... Isso para nós, adultos! Para crianças, é entrar num mundo mágico, numa casa de vó, um tempo em que tudo pode. Afinal, férias numa casa de vó – que além de vó conserta brinquedos, conta histórias, indica livros que consertam vidas – não é tudo que uma criança de qualquer idade gostaria? Pois é isso e mais um pouco o que a personagem Olímpia vive, durante suas férias, na casa de vó Sofia, atendendo telefonemas de clientes aflitos por consertar seus brinquedos, e ouvindo e vendo a fada/bruxa/consertadeira a usar ferramentas e palavras para consertar o imaginável e o inimaginável. Assim caminha o texto da catarinense Eloí Bocheco: ele corre solto, numa linguagem que devagarinho conserta também a alma do leitor, o qual – mansamente – se sente aconchegado como se estivesse num colo de vó. Bonito demais! Não por acaso, embora recém-lançado, já foi contemplado na SELEÇÃO ESTADINHO – MELHORES LIVROS DE 2012.

FICHA TÉCNICA:

Obra: Casa de Consertos
Autor: Eloí Bocheco 
Ilustrações: Walther Moreira Santos
Editora: Melhoramentos
Ano: 2012


É com muito prazer que o PROLIJ compartilha o convite da prolijiana Maria Lúcia para o lançamento do seu livro sobre Narrativa Visual, no dia 16 (sábado) às 14h30. 


(Clique sobre a imagem para ampliar.)

Nossa coordenadora Sueli com professoras iranianas que participavam do workshop por ela ministrado no Congresso de Literatura Infantil e Juvenil - Irã - 2007


  
Por Áurea Cármen Rocha Lira

É de estranhar que uma tartaruga – figura lenta e aparentemente tão segura de si – possa se meter em várias aventuras e trapalhadas, mas se a chamamos de Torty, então tudo se explica. Ela é a protagonista das fábulas apresentadas pelo nigeriano Sunday Ikechukwu Nkeechi, mais conhecido como Sunny, em As aventuras de Torty, a tartaruga, publicação da Editora Paulinas em 2012. São tantas as enrascadas desse pobre animal, que página a página o leitor começa a imaginar o que sucederá cada episódio lido, como a queimadura que deixou Torty sem pelos e com pele enrugada, ou aquela que querendo lograr os outros bichos passou a vítima de suas artimanhas, para não contar da sua grande esperteza que lhe custou sete dias de reclusão cheirando as próprias fezes ou do segredo que endureceu sua língua. Mas cuidado, leitor: não deixe sua atenção refém das várias confusões criadas, pois na companhia de tal protagonista, isso é, no mínimo, desconfiável.
A presença de animais de planícies e florestas africanas em tempos antigos e reinos distantes completa o enredo, assim com o traço de Mauricio Negro, inspirado nessa obra no país de Sunny, cria imagens que não se esgotam nas folhas que repousam.

FICHA TÉCNICA:

Obra: As aventuras de Torty, a tartaruga
Autor: Sunny
Ilustrações: Mauricio Negro
Editora: Paulinas
Ano: 2012
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