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Por Maria Lúcia Costa Rodrigues

De vez em quando um livro ladino chega sem fazer alarde e sua leitura vem devagarzinho, imagem por imagem quadro a quadro cativando e iluminando o leitor como um bom causo de compadre contado à beira do fogão à lenha e apreciado pelas crianças apinhadas ao redor do calor.
Assim é o livro de narrativa visual de Sonia Junqueira e Angelo Abu; o texto imagético carregado de humor conta a história de um gato de sítio, felino malandro e cheio de artimanhas que, para espantar seu tédio, adora pregar peças e dar sustos na bicharada do terreiro. Quando cansa de uma vítima pega outra, ninguém escapa. Até o dia em que vem morar na árvore do sítio um passarinho que faz ninho e choca seus filhotes. O felino, animado com o novo inquilino e sua prole, decide que eles serão suas próximas vítimas. Porém, os planos não saem conforme o planejado, nem seus disfarces inspirados em grandes personagens felinos da literatura surtem efeito e suas investidas sobre o passarinho e seus filhotes provocam gargalhadas na bicharada e no leitor.
Para escrever em imagens essa história, Angelo Abu optou por uma paleta de cores fortes e de traços marcantes em aquarela e bico de pena, uma plasticidade que vem afirmar o temperamento desse gato peralta. A linguagem dos quadrinhos, que possibilita a inserção de várias cenas numa única página, aparece somente nos momentos de peripécias do gato. Abu usa os recursos do cinema no enquadramento das cenas, como plano aberto e o closed, que se repetem ao longo da história enfatizando as ações do protagonista (gato) de forma cômica, mas ao mesmo tempo, cria um distanciamento do restante dos personagens que permanecem fora dos quadros e assistem cheios de expectativas as traquinagens do gato com suas pobres vítimas.
Assim é Um dia, um pássaro..., uma narrativa visual contada por Junqueira e escrita em imagens por Abu que diverte leitores pequenos (ou nem tanto) por trazer uma deliciosa leitura regada a risadas, afinal, não é todo dia que se vê um bichano senhor de si colocar seu rabinho entre as patas, mesmo que seja por pouco tempo.

FICHA TÉCNICA:

Obra: Um dia, um pássaro...
Autores: SOnia Junqueira (história) e Angelo Abu (imagens)
Editora: Peirópolis

Ano: 2009

Por Alcione Pauli

Numa casinha branca, lá no sítio do Picapau Amarelo, mora uma velha de mais de sessenta anos. Chama-se dona Benta. Quem passa pela estrada e a vê na varanda, de cestinha de costura ao colo e óculos de ouro na ponta do nariz, segue seu caminho pensando: - Que tristeza viver assim tão sozinha neste deserto...
Mas engana-se.
(Monteiro Lobato[1])

     Com muita competência Sueli de Souza Cagneti convida os profissionais do livro, da leitura e da literatura para pensar nos livros destinados a crianças e jovens. De forma original a autora apresenta procedimentos do ato de ler na contemporaneidade. Seu livro Leituras em contraponto: novos jeitos de ler é uma bela coletânea de artigos que foram apresentados em diferentes congressos, seminários, jornais, revistas e conferências realizados em vários lugares do Brasil e do exterior por onde a autora viajante esteve.
     A discussão inicia com uma introdução que passa pela questão da legalidade do ato de ler, na qual Cagneti reflete sobre o salto qualitativo que a produção literária dá nas décadas de 60 e 70 no Brasil. Demonstra como a política interferiu nessa área durante a ditadura militar e, nas escritas dos artigos, faz pontuais considerações a respeito das concepções criativas e múltiplas presentes nas obras infantojuvenis na atualidade.
     O chamamento para a leitura é o da voz experiente e sábia. Sueli contemporaneamente desempenha a função social, cultural e política como a personagem da dona Benta na obra lobateana; ela é atuante na sala de aula, e, vez ou outra, transita pelo mundo a “falar e escrever” de suas descobertas com muita descontração, calma, leveza, sedução e encantamento. O jogo textual é concebido e permeado de lembranças de fada, bruxa, feiticeira, curandeira e xamanista! A leitura da obra é uma aventura imperdível e surpreendente para todos que curtem o farfalhar das folhas. Ao final da leitura fica o desejo de ler mais Cagneti, resumido no pedido: estamos no aguardo dos próximos escritos!

FICHA TÉCNICA:

Obra: Leituras em contraponto: novos jeitos de ler
Autora: Sueli de Souza Cagneti
Editora: Paulinas
Ano: 2013




[1] LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. Edição Especial Instituto Walter Moreira Salles. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 07.

Por Maria Lúcia Costa Rodrigues

O insistente argumento “Tô fraca! Tô fraca!” não convence aos que convivem com a esperta, ligeira e curiosa galinha-d’angola, ou angolista, como muitos a conhecem pelas bandas de cá do atlântico. Essa avezinha africana protagoniza a história contada e ilustrada por Maté. Num cenário de savana, a galinhola terá de descobrir quem é o monstro que vem comer seu precioso alimento.
As ilustrações em aquarela para a história aumentam a curiosidade nessa caçada da galinácea. Entre vários acontecimentos e pistas ela acaba descobrindo um bicho escamoso muito esquisito, com “rabo de crocodilo, língua de camaleão e garras de leopardo: que criatura horrível!”. Mas em tudo que é estranho aos olhos o será ao coração, é só olhar com mais atenção.
Por trás dessa aventura da galinhola e o monstro escamoso, o leitor pode visualizar o ambiente da savana na África Central e uma das espécies animais mais estranha e ameaçada de extinção daquelas paragens. Para descobrir qual é, só virando as páginas do livro A galinhola e o monstro escamoso.

FICHA TÉCNICA:

Obra: A galinhola e o monstro escamoso: uma aventura africana
Autora: Maté
Editora: Brinque-Book

Ano: 2010

Prolijianos "iluminam" com suas histórias o lançamento do livro "Leituras em Contraponto" da professora Sueli na Livraria Paulinas - 2013


Por Sueli de Souza Cagneti

            Num clima de mistério, misturando realidade e fantasia, Ana Cristina Massa (jornalista e escritora) conta a história de Aqualtune – uma princesa africana, nascida no Congo, no século XVI – que foi capturada e trazida para o Brasil como escrava. Do engenho do Porto Calvo, onde passou a viver escravizada, ela fugiu para Quilombo dos Palmares. A ficção criada por Massa em torno desta figura lendária (suspeitam os historiadores que tenha sido avó de Zumbi) está na personagem/menina/protagonista que, rejeitando seu nome, por considerar Aqualtune muito estranho e difícil de pronunciar, se autodenomina Alice. A saga de Alice/Aqualtune, juntamente com seus amigos em uma fazenda na Serra da Barriga, agradará em vários aspectos aos adolescentes e jovens que como a protagonista andam em busca de sua identidade. De quebra a obra lhes proporcionará conhecer um pouco mais da vida dos quilombolas dos Palmares e da sua história que – embora muitos não aceitem – é profundamente brasileira. Alguns dados informativos completam o livro no final, transformando-o numa obra com características contemporâneas, marcamente híbridas.

FICHA TÉCNICA:

Obra: Aqualtune e as histórias da África
Autor: Ana Cristina Massa
Editora: Gaivota
Ano: 2012

Por Silvio Leandro da Silva

Cotidianamente somos induzidos a introjetar representações coletivas à nossa condição humana. Porém, fazer parte de uma cultura requer legitimação pelo uso de traços e modelos estabelecidos. A leitura de “A tatuagem - Reconto do povo Luo” de Rogério Andrade Barbosa nos faz pensar sobre nossa inserção no convívio social e no sentimento de pertencimento a um grupo.
A narrativa em questão demonstra claramente essa realidade, pois nela o povo Luo – estabelecido nas regiões do Quênia, Tanzânia e Uganda - é apresentado não somente como um grupo organizado em funções específicas (as mulheres socam os grãos de milho, os homens se dedicam ao solo e às guerras), mas também com uma preocupação do fazer-se perceber. Nesse intuito as mulheres devem ser estilizadas por tatuagens que explicitarão sua condição social e civil. Na ânsia de satisfazer essa necessidade, a jovem protagonista Duany obterá mais do que um reconhecimento, pois trará consigo a marca da ambição. Sem reconhecer o valor da arte de furar e levantar a pele proveniente das mãos anciãs de sua comunidade, ela vai atrás de um novo tatuador e cai nas graças de uma serpente. Desse contato seu corpo adquire uma indesejável impressão. Daí em diante a jovem passa a sentir o peso da luta contra esse feitiço.
As ilustrações de Maurício Negro deixam o leitor impregnado por figuras tão representativas quanto o enredo da história. São traços que remetem ao fator comunicador presente naqueles que se permitem deixar sob a pele a tinta e, através dessas cicatrizadas escritas, se tornam membros de um pensar comum.
Uma bela história que nos convida a repensarmos nossas necessidades coletivas, naquilo que trazemos de ambíguo e individual em nós: desejo, reconhecimento e superação.

FICHA TÉCNICA:

Obra: A tatuagem
Autor: Rogério Andrade Barbosa
Ilustrador: Maurício Negro
Editora: Gaivota
Ano: 2012
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