Por Luciane Piai

Jovem talentoso, poético, dramaturgo.
Jovem intenso, profundo, meigo e ardente.
Esse é Federico García Lorca.
Tão jovem o levaram cruelmente.
Homens insensíveis da Guerra Civil espanhola.
Lorca deixa para o mundo suas palavras.
Em forma de poesia e obras teatrais.
Sempre Lorca... – uma vez lido a paixão é eterna.
“Este riso de hoje é meu riso
de ontem, meu riso de
infância e de campo, meu riso
silvestre, que defenderei
sempre, sempre, até morrer.” (LORCA, p.28)
A obra Santiago foi escrita aos seus vinte e poucos anos.
É um fragmento do primeiro livro de poesia, o “Livro de Poemas”.
Leia um verso e depois se delicie com os demais:
“- Avozinha. Onde está Santiago?
- Por ali marcha com seu cortejo,
a cabeça cheia de plumagens
e de pérolas mui finas o corpo,
com a lua rendida a seus pés,
com o sol escondido no peito.” (LORCA, p.8)
                                                               
FICHA TÉCNICA:

Obra: Santiago
Autor: Federico García Lorca
Ilustrador: Javier Zabala
Tradutor: Willian Agel de Mello
Editora: WMF Martins Fontes
Ano: 2009

Por Alcione Pauli e Maria Lúcia Rodrigues

Com a doçura dos contos de fadas, Tiago Hakiy, filho da etnia Sateré-Mawé, encanta, empolga e envolve os leitores no seu texto Guaynê Derrota a Cobra Grande: uma história indígena. O autor conta com a parceria de Maurício Negro que ilustra com maestria essa história. A obra é vencedora do 9º Concurso Tamoios de Textos de Escritores Indígenas, de 2012, concurso desenvolvido pela INBRAPI (Instituto Indígena Brasileira para Propriedade Intelectual) juntamente com a FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil).
Nesta obra premiada, autor e ilustrador sopram palavras e descortinam imagens que nos colocam para dentro da mata, junto do rio Andirá, no Amazonas. Na leitura navegamos nos lugares mais profundos e acompanhamos o guerreiro-príncipe que enfrenta a grande Moi, e como o caçador da “Chapeuzinho Vermelho”, sem medo, o guerreiro abre o estomago da maligna e salva sua amada.
No texto imagético a história de Tiago Hakiy ganha a cores e sentimentos de Maurício Negro que, com uma paleta que revela a força e os segredos da natureza nas cores do fogo, da terra e da água – totalmente tingida de mata densa -, as imagens traduzem a integração entre homem e natureza em traços de duplo sentido, em formas que se revelam aos poucos aos nossos olhos, como que camufladas pela floresta do povo Mawé. São vermelhos de fúria e luta de Guaymê contra a cobra grande, alternados pelo vários verdes e ocres que traduzem o frescor da mata e das águas do Rio Andirá. Quase que dá pra sentir, no virar das páginas, os sons da mata.
Uma linda história de amor, escrita com início que remete aos caminhos do “era uma vez”... e com o final maravilhoso de sentimento de “foram felizes para sempre”. Uma obra indígena que além de trazer palavras e procedimentos da cultura do povo Mawé auxilia ao leitor no esclarecimento dos vocábulos, apresentando no final do livro um glossário para enriquecer o enredo e nos colocar em contato com a etnia Sataré-Mawé. Uma obra sensível e delicada. Imperdível!

FICHA TÉCNICA:

Obra: Guaynê Derrota a Cobra Grande: uma história indígena
Autor: Tiago Hakiy
Ilustrador: Maurício Negro
Editora: Autêntica
Ano: 2013

Por Luciane Piai

            Ocanrã, Ejiocô, Etaogundá, Irossum, Oxé, Obará, Odi, Ejiobê, Ossá, Ofum, Ouorim, Ejilá-Xeborá, Ejiologbom, Icá, Oturá e Oturopom são os dezesseis odus, chamados de príncipes do destino; eles fazem parte da mitologia dos iorubás.  Sabe qual é a missão deles? Bem, vou contar só um pouquinho... Eles têm o ofício de colecionar e contar histórias; cada odu é responsável por um assunto específico. Esse povo acredita que tudo na vida se repete: o que acontece e acontecerá na vida de alguém já aconteceu no passado para outra pessoa. As crianças iorubas, quando nascem, ficam sob a proteção de um dos dezesseis príncipes do destino, o seu odu, o padrinho de seu destino.  Agora, fiquei pensando... Eu não tenho um odu, gostaria de tê-lo. Privilégio dos iorubás !!! O povo fazia oferendas e rezas a eles a fim de receber favores, proteção e orientação. Cada um tinha que cuidar de seu destino e seguir a tradição. Como os príncipes do destino não vinham mais à Terra dos homens, os adivinhos iorubás, através do jogo dos búzios, com os dezesseis príncipes de Ifá, eram consultados para orientar a vida dos seres humanos.
Voltando à história... Os dezesseis príncipes trabalhavam para Ifá, o deus, o orixá do destino, o mestre do acontecer da vida. Certo dia Ifá desejou conhecer as histórias de cada odu, para saber o que aconteceria na terra. Então convidou todos em sua casa no Orum, o céu dos deuses iorubás, para uma reunião. Alguém faltou? Pense... E assim na primeira reunião Ifá determinou que todos deveriam vir juntos à sua casa a cada dezesseis dias para contar as histórias acontecidas; isso iria completar ao todo dezesseis reuniões. Imagine ao final de todas as reuniões: foram trezentas e uma histórias contadas sobre a vida dos homens e mulheres. Calma, não se assuste! Nesse livro são apenas dezesseis, pois “Ifá” escolheu apenas uma história de cada reunião para ser narrada. Ah, já estava esquecendo: no final de cada reunião era servido um delicioso banquete para todos os príncipes. Que tal provarmos também?!
                                                                     
FICHA TÉCNICA:

Obra: Os príncipes do destino: histórias da mitologia afro-brasileira
Autor: Reginaldo Prandi
Ilustrador: Paulo Monteiro
Editora: Cosac Naify

Ano: 2001

Por Maria Lúcia Costa Rodrigues

Algumas pessoas nascem para ver o belo nas coisas mais insignificantes. Nem as adversidades da vida as fazem perder esse olhar sensível, ainda bem, caso contrário não teríamos Manoel de Barros ou o Gabriel, nosso personagem da vida real imortalizado em sua obra e por Chistina Dias no livro Instruções para construir uma flor. Por meio de uma escritura poética, a obra traz até nós a história desse negro, filho de escravos alforriados que construiu sua singular casa com rejeitos dos outros.
                Dos afagos de Gabriel o que era caco renasceu, o que era toco floresceu. Sua casa e seu jardim se transformavam numa bricolagem de rejeitos: cacos de tijolos, pedregulhos, retalhos de azulejo, ladrilhos, vidros, tudo eram formas cheias de possibilidades aos olhos de Gabriel.
                No livro de Dias, a história de descobertas do personagem ao construir a casa flor a partir do nada é narrada pelo próprio protagonista. A personalidade sensível e rústica de Gabriel ganha vida nas aquarelas da ilustradora Semiramis Paterno.  É assim que o leitor pode conhecer um pouco desse ser encantador, que faz parte da história da arquitetura espontânea brasileira. Mas somente os mais curiosos e sensíveis saberão seguir as instruções à risca para construir uma flor.

FICHA TÉCNICA

Obra: Instruções para construir uma flor
Autora: Christina Dias
Ilustradora: Semiramis Paterno
Editora: Cortez

Por Maria Lúcia Costa Rodrigues

Por que pedras encantam tanto as crianças? Será que é porque ninguém as quer, ou porque sua inércia guarda segredos do tempo?
Essa tendência para empecilho talvez só Drummond possa explicar, porque se depender das crianças e do dicionário manuelês, a utilidade de uma pedra não terá importância nenhuma, mas sua irrelevância sim,  é ali que estão esquecidas a grandeza do nada que poetas e crianças conhecem tão bem.
E para conhecermos essa grandeza do nada Prisca Agustoni e André Neves nos apresentam Abauye, um menino africano que adorava colecionar pedras. As carências de sua vivência eram afagadas pelas pedras e pelas palavras, de preferência aquelas mais primorosas e caras como joias. Estas ele sabia muito bem usar, aprendeu com as mulheres de sua aldeia.
Para poder colecionar pedras Abauye parte numa jornada pelas estradas de seu país africano. Na aventura vivida por Abauye, ele não encontra só pedras, encontra também a triste Noémia, que não vê encanto nas pedras do menino.
Nessa história, André Neves com seu traço singular completa o texto de Prisca Agustoni com muita graça para mostrar que o desafio imposto por Abauye, para trazer aos lábios da jovem Noémia um sorriso, vem revelar ao leitor a magia das palavras que transformam realidades.

FICHA TÉCNICA:

Obra: O colecionador de pedras
Autor: Prisca Agustoni
Ilustrador: André Neves
Editora: Paulinas

Luciane Piai

        Baba Wagué Diakité nasceu e viveu grande parte de sua vida na região do Mali, África Ocidental. Na sua obra literária O dom da infância – Memórias de um menino africano, transmite para o leitor a vivacidade de suas memórias, sem deixar de lado sua origem simples e humilde, porém com uma dignidade e fidelidade a todos os seus antepassados. A sua narrativa é recheada de provérbios africanos, de muita sabedoria, deixando-a fluir com a leveza e a originalidade de um garoto: “O corpo inteiro de uma criança é de ouro, menos a cabeça – diziam -, e é necessário um ancião dedicado para transformar essa cabeça em ouro.” (DIAKITÉ, 2012, p. 16-17). Assim, esperava-se que as crianças e os jovens da família Diakité crescessem com bom caráter e boa educação, com os valores passados na aldeia. Os pais de Baba, vivendo longe da aldeia de Kassaro, desejaram que seus filhos tivessem uma vivência significativa com seus familiares, de acordo com a tradição. Então, desde pequeno, o menino conviveu com seus avós paternos, seus tios e seus primos no compound (conjunto de moradias cercadas por um muro, onde vivem as pessoas ligadas a um antepassado comum).
        O autor, também pintor e ceramista, ilustra a própria obra, utiliza azulejos como suporte para suas pinturas e ilustrações. Ao término de suas memórias faz um apêndice e dá o título de “Cantos da África Ocidental”. E, assim, contextualiza a República do Mali, os habitantes dessa região, os diversos povos africanos, entre eles, os Bambara. A história desse povo, traz o poder das palavras, já que na tradição oral africana os provérbios são muito comuns. Ainda faz um breve relato da estrutura familiar e social da aldeia, a sua alimentação, o seu vestuário, as suas festas e o mercado. E você, está a fim de experimentar instantes memoráveis nesse continente?


FICHA TÉCNICA:

Obra: O dom da infância – Memórias de um menino africano
Autor e ilustrador: Baba Wagué Diakité
Tradução: Marcos Bagno
Editora: SM (Cantos do Mundo)                 
Ano: 2012
Luciane Piai


Caro leitor, eu estava desencantada/desacreditada dos mundos mágicos das bruxas e de outros seres que povoam o imaginário. No entanto, ao conhecer Mutango e Vilengo, as bruxas das Vassouras do Vento e das Nuvens, respectivamente, minha credibilidade nos poderes das bruxas retornou paulatinamente, com essas duas criaturas protetoras contribuindo para o bem estar da aldeia. E quanto às suas idades, dizem que vivem há séculos.
Pense: quando você vê a chuva mansinha chegar e o sol nascer, lembre-se: que são elas que nos presenteiam. Bem, o restante de suas façanhas vou deixar você descobrir, porque sabemos: com bruxas com tantos poderes não dá para meter bobeira.
Este livro de ficção infantojuvenil angolano, A Vassoura do Ar Encantado, foi escrito por Zetho Cunha Gonçalves, autor de Huambo, da Angola, que passou a infância e a adolescência em Cutato, província do Kuando – Kubango, onde aprendeu e vivenciou os costumes, as lendas de seu povo e o respeito à natureza. Com essa experiência, dedica-se exclusivamente à literatura e vive atualmente em Lisboa. As ilustrações são de Andrea Ebert, natural de São Paulo.


FICHA TÉCNICA:

Obra: A Vassoura do Ar Encantado
Autor: Zetho Cunha Gonçalves
Ilustrador: Andrea Ebert
Editora: Pallas
Ano: 2012
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