Isabela Giacomini
O livro Reinações de Narizinho foi publicado por Monteiro Lobato no ano de 1931 e é a primeira obra que compõe a série intitulada de “Sítio do Picapau Amarelo”, que veio a fazer muito sucesso tanto na literatura como na série televisiva. A importância de tal obra, assim como várias outras de sua produção, é imensurável, uma vez que leitores de Lobato são atualmente os escritores de renome que beberam dessa leitura e escritura e se influenciaram para escrever para crianças e jovens nos dias de hoje. Em Reinações de Narizinho temos várias pequenas histórias que parecem isoladas e que focam em personagens distintos, mas que estão interligadas em muitos aspectos, não somente pela linearidade narrativa, mas pela conexão dos acontecimentos no decorrer de cada aventura, seja através dos personagens ou de universos imaginativos coexistentes.

O livro inicia contando um pouco sobre a vida de Lúcia, também conhecida como Narizinho, por conta de seu nariz arrebitado, que vive no Sítio do Picapau Amarelo com sua avó, Dona Benta, e com uma criada, Tia Nastácia.  Lá também existem outras personagens como Rabicó, um porquinho de estimação que está sendo preparado para o abate na época de virada de ano e a boneca Emília, inicialmente muda, mas que com o desenrolar de diversas aventuras acaba por se tornar uma boneca para lá de falante, coisa de um tal de doutor Caramujo do Reino das Águas Claras.

E por falar no Reino das Águas Claras, é por lá mesmo que a aventura de Narizinho e da boneca Emília começa para valer. Lá elas têm contato com diversos animais aquáticos, principalmente com o príncipe escamado e com Miss Sardine, mas também com outros um tanto quanto diferentes para o fundo do mar como a Dona Aranha Costureira, a Dona Barata da Carochinha, Pequeno Polegar e tantos outros personagens de universos literários diversos.

O episódio do reino localizado no fundo do mar se mistura com a questão da pílula falante tomada pela boneca Emília e também com a chegada do primo Pedrinho ao Sítio. Cada nova história vai se entrelaçando a primeira e a segunda e assim sucessivamente, até que todos os personagens conhecidos do Sítio do Picapau Amarelo, do mundo das fábulas, das mil e uma noites, das princesas e de tantos outros lugares acabam se mesclando, formando várias histórias dentro de uma. É como se Lobato construísse uma colcha de retalhos a cada nova personagem, a cada aventura em que os meninos são convidados e a cada imaginação mirabolante que possuem.


É interessante também avaliar que a boneca Emília, ou Condessa das Três Estrelinhas ou ainda Marquesa de Rabicó, ganha um espaço muito significativo na casa. Dona Benta e Tia Nastácia que duvidavam das imaginações infantis acabam se surpreendendo com tudo que pode acontecer se transportando para outros universos e perspectivas, seja usando o pó de Pirlimpimpim ou não. Primeiramente o episódio de uma boneca falante as assusta, mas com o tempo se torna natural e imprescindível para suas relações e para os momentos de convivência, principalmente nas decisões, nas novas ideias e nas contações de histórias antes de dormir. A boneca ganha tanto espaço que parece por vezes a protagonista, enquanto na verdade esse papel seria de Narizinho. É nesse livro que a síntese de toda a formação do Sítio é trabalhada, de como cada personagem passa a integrar essa grande família, de como os malvados aparecem e o que cada um faz para ganhar o coração da vó bondosa que é Dona Benta.

Lobato traz ainda um traço fortíssimo que é o revisitamento de outras narrativas, sejam elas orientais ou ocidentais. Princesas com Branca de Neve e Cinderela entram em cena, assim como Barba Azul, Capitão Gancho, Soldadinho de Chumbo, Sininho, Peter Pan, Chapeuzinho Vermelho, Aladim, Simbad, Sherazade, Pinóquio e tantos outros. Essa fusão de diferentes esferas literárias entra em comunicação de uma maneira natural e encantadora e permite que o leitor associe coisas já lidas a algo novo e a outro contexto.

É justamente por essa grande mistura de histórias que Lobato é trazido para a contemporaneidade em que a questão da autoria é posta em cheque, uma vez que todos os textos estão repletos de outros discursos e de falas e pensamentos de outros indivíduos. É também por suas críticas já existentes nessa e em outras de suas obras que vemos alguns tipos de preconceitos e de ideologias serem desconstruídas, como a não violência aos animais, o combate ao desmatamento, a repreensão pela corrupção e trapaça, o preconceito racial ser refutado, a arte estar desassociada de uma concepção de falta de trabalho e tantos outros pontos que os próprios personagens colocam em embate. Alguns, provavelmente não leitores de Lobato, mas apenas de alguns de seus excertos fora do global, ainda dizem que ele precisa ser banido dos espaços educacionais por ser preconceituoso, enquanto na verdade essas ideias são desmanchadas na própria narrativa pelo comportamento de suas personagens, ainda que ele tenha escrito suas obras na primeira metade do século XX. Isso mostra o quanto a frente ele pensava e o quanto ele refletia sobre sua realidade, enquanto grande parte da sociedade de sua época e contexto naturalizavam ações amplamente repreensíveis na atualidade.

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura lobatiana uma oportunidade para voltar a ser criança. 


Lara Cristina Victor
Isabela Giacomini
Maira de Carli
Os sete contos de arrepiar de Flávio Morais narram histórias para lá de esquisitas e cumprem muito bem o que é prometido no título: arrepiar! Que tal usar e se inspirar nesses contos para tornar o Halloween ainda mais assustador?

O plano do capeta é o primeiro conto do livro e demonstra as artimanhas usadas para separar um casal que vivia em uma união tão bonita. O plano é meticulosamente elaborado por um gato de pelos negros que tanto fez que quase obteve sucesso nas maldades contra o casal. O motivo de tal plano? A inveja da união que causava nojo no suposto “gato”. Ele, gato tinhoso, não desistiu até ver a infelicidade do casal, mas acabou surpreendido pelo final dessa história.

A lição da caveira é o segundo conto de arrepiar que Flávio traz nesse livro e fala sobre um homem que não podia imaginar a tragédia que estava prestes a viver por testar sua coragem entrando naquele cemitério e perguntando à caveira sobre seu assassino, e muito menos sobre o lugar que sua língua o levaria. E é graças a ela que aprendemos uma grande lição: há muito tempo um forasteiro tomou uma lição inusitada de um ser mais inusitado ainda. Por essa ele não esperava, o silêncio que tanto desejou nas primeiras respostas é o que o leva a mais valiosa lição: a língua

O cão-de-espeto conta a história de Pedro, o filho mais novo de três irmãos, que depois de suas maldosas ações foi amaldiçoado pela mãe, uma senhora já viúva que não aguentava mais as travessuras do filho. No auge da raiva praguejou o menino dizendo que de Deus ele não era filho, mas sim do cão.
Certo dia, quando Pedro estava pastoreando uma roça de arroz, sua mãe mandou que o filho mais velho, João, fosse levar comida a Pedro que deveria estar morrendo da fome. Tanto estava que se viu uma cena de arrepiar, o menino estava fazendo um churrasco apetitoso com a própria carne do antebraço. A mãe não acreditou no que João havia contado e mandou que o filho do meio fosse depressa, porque Pedro deveria estar com muita fome, mas dessa vez o churrasco era de suas pernas. A mãe resolveu que iria ela mesma levar a comida, pois achava que era maldade dos filhos contra Pedro. Chegando lá não acreditou na cena. O menino estava afiando os cotocos dos braços e das pernas em uma pedra e assim ficou conhecido como O cão-de-espeto, por causa dos seus ossos afiados.


Forró no inferno é a história de um velho sanfoneiro que afirmava já ter participado de um forró dentro do inferno. Contou ele, que havia tocado em uma festa que durou por três dias seguidos e ao chegar em casa se encontrava completamente esgotado. Eis então, que bate à sua porta, um cavaleiro ricamente trajado, montado em um grandioso corcel negro. Quando o sanfoneiro aparece na porta, o cavaleiro o apresenta uma atrativa proposta de tocar em uma festa, valendo muito dinheiro. O sanfoneiro reluta de início, mas acaba por aceitar. Os dois cavalgam estrada afora, até uma misteriosa encruzilhada. O sanfoneiro fecha os olhos por alguns segundos – como solicitado pelo cavaleiro – e, ao abrir, se depara com um ambiente esquisito e um calor insuportável, com pessoas estranhas e tachos fumegantes. Descobre que o convidado de honra da festa era o dono de um engenho. Mesmo diante dessa situação desagradável, o sanfoneiro se põe a tocar de forma interrupta. Sem percebeu o tempo passar, quando abre os olhos, percebe que a festa já tinha acabado. O sanfoneiro segue o cavaleiro e montando no cavalo, seguem viagem para casa, até se deparar com a encruzilhada novamente, e como da vez anterior, fecha os olhos e se depara próximo a sua casa. Pega o montante de dinheiro entregue pelo cavaleiro e pega o rumo de volta para casa. Ao chegar, é interrogado pela mulher, perguntando onde estava esse tempo todo. O sanfoneiro sem entender muito bem, responde que estava a tocar em uma festa. Sua mulher afirma que ele estara fora já faziam três dias. Ele indignado lhe conta quem era o convidado de honra da festa e a mulher com um pulo de espanto responde que o dono do engenho vizinho havia morrido faziam três dias, justamente na noite em que o marido saiu. E assim termina essa história assombrosa do sanfoneiro que tocava forró no inferno. E para os que não acreditam, ele guarda apenas uma nota do dinheiro que recebera do Satanás como prova da veracidade dessa história macabra.

Uma noite muito estranha é a história de três irmãos que haviam deixado o lar paterno em busca de um grande tesouro em algum lugar. Nessa assustadora aventura, passavam por cavernas, furnas e cadáveres despedaçados. Nada abalava os espíritos dos intrépidos jovens, exceto a aventura de uma noite que vivenciaram. Foi assim: estavam visitando uma região ainda desconhecida na floresta, onde se via enormes grotas de pedras que obstruíam o caminho. Os meninos precisavam de uma clareira na mata para descansar e preparar alguma comida. Quando estava quase escurecendo, avistaram uma velha cabana abandonada no meio do mato. Apesar do ambiente meio macabro, decidiram passar a noite ali mesmo. Abriram a porta e logo de cara tiveram uma surpresa: um esqueleto humano que estava em cima da cama. Ao ver os longos cabelos pendidos sobre a cama, imaginaram ser aquele um corpo feminino. Por estarem acostumados com cenas até piores, nada mais fizeram além de ignorar a companhia sinistra que estava por ali. Logo em seguida, começaram a acender o fogo para assar a carne de uma suculenta ave abatida horas antes. Durante o preparo da janta, os meninos conversavam entre si. Um deles confessou o enorme desejo de ter uma linda morena que lhe cobrisse de carinhos, pois faziam meses que ele não via uma mulher. Em meio às conversas, eles ouviram um barulho estranho. Era uma canção que vinha de uma voz feminina. O som foi se aproximando até que aparecesse uma bela moça na frente dos meninos. Esta então, se ofereceu para assar a carne. Os irmãos estavam estranhando muito aquela situação, porém permitiram que a moça preparasse o jantar. Não demorou muito e aconteceu um fenômeno assustador. Os olhos da moça começaram a faiscar e da sua boca saíram grande labaredas vermelhas. Apavorados os meninos saem correndo mata afora, até encontrarem uma grande árvore, da qual escalaram e ficaram lá no alto, tremendo de tanto medo. Minutos depois, a moça – que já não tinha mais a mesma aparência bela – surge como um grande redemoinho no meio da floresta, destruindo tudo que estivesse no caminho. Ela começa a subir, flutuando no ar, dando gargalhadas. Quando estava perto o bastante dos meninos, ouviu-se de longe o cantar de um galo. Eram duas da madrugada. É nesse momento que todas as criaturas sobrenaturais têm de retornar para o outro mundo. A terrível criatura grita furiosa: “isso foi o que os salvou, infelizes”, e complementa que voltará em breve, pois seu corpo ainda não havia sido sepultado. Dizendo isso, sumiu em meio a um clarão. Os rapazes mais que depressa saem correndo desesperadamente para enterrar aquele esqueleto. Após essa experiência aterrorizante, eles voltam à terra natal, sem mais tocar nessa horripilante história novamente.

A ave e o caçador conta sobre a vida de um casal, aparentemente muito feliz, que vivia do extrativismo, próximo a uma floresta. Porém, em uma época muito difícil, o marido não estava mais encontrando nada para caçar. A mulher já estava uma fera por não ter o que cozinhar e o marido, muito faminto. Cansado da situação, ele saiu para caçar o que quer que fosse e prometeu que naquele dia teriam um banquete, nem que tivesse que trazer o “filho do demo” morto para a refeição. A mulher, muito supersticiosa quis que o marido ficasse em casa, pois se proferira essas palavras era capaz de atrair alguma coisa maligna pelo caminho. Sem dar ouvidos, ele saiu para a caçada e andou incansavelmente até encontrar uma ave negra, muita estranha e desconhecida, talvez fosse um corvo. A mulher ficou assustada ao ver tão horripilante animal, mas como a fome era tamanha, não hesitou em colocá-lo no fogão. E eis que o mais inesperado aconteceu: o pássaro começou a se revirar dentro da panela com água fervente e, no mesmo instante, um grande estrondo atingiu a porta e uma criatura terrível apareceu para mudar o rumo de tudo que estava por acontecer. Depois desse dia o homem aprendeu uma grande lição e viu que o conselho de sua mulher poderia estar mais certo do que pensava e que aquilo que se fala pode ser atraído de maneiras inimagináveis.


 O poço é o último conto desse livro e fala sobre um coronel que vivia no sertão, já há muito tempo sem chuvas. Ele estava perdendo suas posses e ficando revoltado com a situação. Quase todos os moradores daquela região já tinham partido para outro local, em busca de acalento, mas como ele não largaria suas riquezas por lei nenhuma, estava ali sofrendo, junto com alguns de seus capangas. Chegou um dia que o fazendeiro notou que teria água para menos de três semanas e ordenou que seus empregados fizessem um poço. Eles cavavam a terra seca e nada encontravam, além do cansaço e da sede. Para piorar a situação, o homem era grosseiro e agressivo. Já farto daquilo tudo, gritou algumas blasfêmias a Deus e disse também que daria a própria alma ao diabo se surgisse água naquele buraco com mais de trinta metros de profundidade. Foi nesse momento, enquanto estava dentro do poço aos berros de fúria, que sentiu algo molhando seus pés: finalmente era água! Acontece que o nível ia subindo à medida que ele gritava e ninguém estava ali para ouvi-lo. Os moradores mais próximos que ainda restavam por ali foram ver o que acontecia por conta de tamanho desespero e encontraram o homem como estátua em uma terra mais seca do que nunca. Eis que a crença dos sertanejos estava certa: cuidado com o que fala; os anjos poderão dizer amém, e em outros casos, poderão ser até os demônios.

Lara Cristina Victor é aluna do curso de Psicologia na Univille. Atua como bolsista no Prolij e vê em cada criança um pouquinho de si mesma.

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.

Maira de Carli é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e encontra nas palavras segredos que são capazes de abrir fechaduras.



Maira de Carli
É possível trabalhar com a literatura clássica com o público juvenil? Machado de Assis é um ótimo exemplo para dizer que sim, pois sua temática é bastante atual, independentemente de ter escrito em outro século. Trabalhar a literatura realista com adolescentes pode ser uma grande tentativa de os instigarem e os deslocarem para outra época a fim de compará-la com a contemporaneidade. Que tal trazer desafios e mostrar possibilidades distintas de leituras a eles? Confira a resenha de Helena, de Machado de Assis e inspire-se para trabalhar com diferentes percepções acerca dessa obra e de tantas outras deste escritor e de demais autores clássicos, brasileiros e estrangeiros:
  
Helena, romance clássico de Machado de Assis, conta a história de uma moça que é reconhecida como filha fora do casamento por um homem bem quisto da sociedade que acaba de falecer, o Conselheiro Vale. Em seu testamento solicita que sua irmã, D. Úrsula, e seu filho Estácio, acomodem a moça, até então desconhecida pela família, em sua casa.

Helena, dona de uma delicadeza apaixonante, logo conquista a admiração de todos da casa, não só por sua beleza, mas também pelas habilidades engenhosas incomuns às donzelas simples da época, como andar a cavalo, e mais ainda pela facilidade e responsabilidade em dirigir os afazeres da casa da família. Neste feito, ganha o amor de D. Úrsula que é cuidada pela moça quando não passa bem devido a problemas de saúde.  Sua inteligência e desenvoltura astuciosa em conversar e convencer espanta a todos. Não é à toa que aos poucos ganha os olhares dos mais improváveis cavalheiros do Rio de Janeiro, inclusive de seu irmão que pouco a pouco percebe que seu amor vai muito além de uma afeição fraternal somente, paixão recíproca a Helena que a nega convencendo seu irmão de que chegou a hora de se casar, o escolhido é Mendonça, amigo de Estácio.


Apaixone-se também por esse romance misterioso, cheio de denúncias sociais: adultério, mentira, comportamento adequado das damas da época, críticas aos costumes, reflexões profundas sobre as condições humanas, pessoas tratadas como mercadoria e o casamento como jogo de interesse acordado unicamente pelo fim vantajoso.

Maira de Carli é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e encontra nas palavras segredos que são capazes de abrir fechaduras.


Isabela Giacomini
Havia um passarinho e uma menina. Eles queriam muito ser amados, como todo mundo costuma desejar. Ambos eram vaidosos, carentes, inseguros e românticos. Tinham tanto em comum que acabaram se encontrando, mas de uma maneira bastante inusitada. Tudo aconteceu no dia em que o pássaro levou uma pedrada e foi voando até cair na varanda da casa da menina, logo onde ela sempre ficava a observar a noite.

A partir desse momento suas histórias, semelhanças e diferenças se cruzam. Um vai cuidando do outro, passando o tempo juntos, apegando-se aos pouquinhos, até que estivessem se sentindo completamente amados. O passarinho estava sarando até mais rápido com tanto afeto compartilhado e, como é de se esperar na vida de um pássaro livre, já era hora de se despedir e voltar ao mundo. Afinal, lugar de pássaro é no céu e de menina é na terra. O único problema é que o amor não tem essas mesmas fronteiras.

Os dois, pela extrema relutância, resolvem que não precisam dar tchau. Estavam certos de que deveriam ficar juntos e, por isso, a menina o colocou em uma gaiola. Agora ele seria só dela e vice-versa. Tudo parecia estar perfeito, muito seguro, arranjado, mas acabaram esquecendo que o amor ficaria preso.

A obra Gaiola trata de um sentimento muito profundo e complexo que é o egoísmo e a dificuldade de se lidar com as emoções. O ato de pensar nas próprias satisfações, mas sem olhar a necessidade real de outrem, faz com que um afastamento seja evidenciado. Esse sentimento foi compartilhado com a menina e com o próprio pássaro, que ficava a espreitar o céu, mesmo engaiolado. Existia ainda o lado bom da companhia, mas também havia o da falta de liberdade.


Ao mesmo passo que o passarinho estava preso, apenas olhando o que estava além daquelas grades, a menina estava presa ao sentimento de extrema segurança, de vigia excessiva. Mas, obviamente, o amor não pode ser saudável dessa maneira, uma vez que para que ele seja duradouro, os envolvidos precisam estar felizes para que consigam transmitir isso uns aos outros. E isso não acontece apenas entre os casais, como se pode perceber, mas também entre seres que precisam de afetividade, ou seja, com todos nós. A menina, depois de refletir muito, tomou a maior decisão de todas. A partir daí ela nos mostra como precisamos deixar que o destino venha, sem se apressar sobre ele ou tentar limitá-lo, já que as coisas acontecem porque precisam, nada é tão certo que não se possa mudar e nada é tão fixo que não possa se acabar. A história dos dois, como a autora Adriana Falcão menciona, não acaba, mas abre possibilidades. E assim é a nossa narrativa na vida: tudo é possível, basta acreditar em si e deixar que os sentimentos bons prevaleçam. O livro traz reflexões muito pertinentes sobre a necessidade de se cultivar o amor, pois é ele o elemento principal nesse processo, por nos fazer pensar no outro e em nós mesmos, aprendendo com cada situação.

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.


Lara Cristina Victor
Hazel Grace é uma jovem menina que há alguns anos descobriu um câncer na tireóide com metástase nos pulmões. Desde então, ela precisa conviver diariamente com uma cânula nas narinas e um tubo de oxigênio preso a um carrinho de aço. Inevitavelmente, sua vida passa a ter algumas limitações por conta da doença, e junto a isso, sofrimento intenso tanto físico quanto emocional.

Um certo dia, ao perceber Hazel muito depressiva, sua mãe decide levá-la ao Grupo de Apoio para crianças e adolescentes com câncer localizado no porão de uma igreja, lá era um lugar onde todos compartilhavam suas angústias e diferentes perspectivas. E é nesse grupo, que Hazel conhece Augustus Waters, um menino de dezessete anos que por conta de um osteossarcoma teve de amputar uma das suas pernas e usar uma prótese em seu lugar.

Augustus encanta a jovem Hazel logo no primeiro contato. E a partir daí, os dias começam a passar mais intensamente, de forma que a presença de Augustus na vida de Hazel se torna essencial e inigualável.


Os dois passam a compartilhar suas vidas, assim como suas ideias e desejos. Em meio a tanto amor, e também, recaídas por conta da doença, eles partem para uma viagem a fim de realizar um sonho de Hazel. É lá que eles experienciam a forma mais pura do amor, assim como alguns atritos e desilusões.
 
A culpa é das estrelas é um daqueles romances sensíveis, capaz de nos mostrar a potência de um amor verdadeiro nos seus mais diversos aspectos. Demonstrando que em meio a tantas dificuldades, a cumplicidade pode ser a nossa maior aliada, fazendo com que os problemas se tornem pequenos e o amor seja protagonista de toda a história.

Lara Cristina Victor é aluna do curso de Psicologia na Univille. Atua como bolsista no Prolij e vê em cada criança um pouquinho de si mesma.

Sônia Regina Biscaia Veiga
Como saber quando um campo de conhecimento muda? Para Néstor Canclini, os estudos sobre o processo de hibridização auxiliam a repensar as áreas de conhecimento, pois entender a presença do híbrido modifica o modo de pensar áreas em caixas isoladas.

Com o intuito de tentar compreender como se dá alguns processos culturais híbridos, tomo como exemplo o livro Fumaça, escrito por Antón Fortes e ilustrado por Joanna Concejo, livro galego, publicado no Brasil pela Editora Positivo e traduzido por Marcos Bagno.

Para entender uma literatura como híbrida pressupõe-se que nela você não encontrará um conjunto de traços fixos. A sua identidade enquanto arte muda, no sentido que mescla áreas diferentes e até mesmo um público diferente, devido à fusão de culturas. É necessário conhecer as formas de situar-se em meio à heterogeneidade para entender os processos do híbrido.

Fumaça, à primeira vista, aparenta ser um livro “encaixado no gênero literatura infantil”, pois o seu dito visualmente se destaca perante o dito escrito. Com formato maior do “livro para adultos”, com ilustrações em todas as páginas e com poucas palavras escritas ele se encaixa no padrão do livro vendido para crianças. Eu o comprei, inclusive, num stand em que havia outros livros de literatura infantil na mesma prateleira.

No entanto trata-se de um livro com uma temática forte, vamos percebendo ao decorrer da leitura tanto escrita quanto visual que a história se passa num cenário de guerra, num campo de concentração e temos como plano final as câmaras de gás. Apesar disso, em nenhum momento o escritor escreve segunda guerra mundial, holocausto, judeus, campo de concentração ou câmara de gás. Para se entender sobre o que realmente o livro aborda é necessário ter um conhecimento prévio sobre o que foi a Segunda Guerra Mundial. Quem nunca ouviu falar em Holocausto não atingirá o nível de compreensão proposto pelo autor.

Trata-se então de um tema adulto camuflado numa linguagem infantil. Pode-se pensar que talvez por ser um livro europeu, as crianças de lá tenham uma relação mais próxima com o tema da guerra, dessa forma se contextualizam mais cedo com esse cenário. Mas sendo ou não sendo assim, não vejo como um livro possível de ser contado para crianças pequenas, talvez como uma experiência para ver o que elas entenderiam quando o guarda manda os meninos tirarem as roupas e entrarem na casa da chaminé. Porque para conhecedores do tema, ao virar das páginas já vai ficando óbvio qual o cenário do livro, mas quais ideias surgiriam de quem nunca estudou as grandes guerras ainda? É um aspecto também interessante para se pesquisar: o hibridismo de interpretações. Quais as possibilidades de pensamentos se nós já não conhecêssemos o óbvio?


Há também que se discutir o que podemos afinal considerar híbrido? Pode-se dizer que há um hibridismo presente no suporte e na linguagem utilizada, mas também a própria ilustração – belíssima por sinal, que foi o que me levou a comprar o livro – carrega elementos além do convencional. Iniciamos já na segunda e na terceira capa. O livro inicia e termina com ilustrações de fotografias antigas, possivelmente de pessoas e de famílias judias, anteriores ao holocausto. Como em álbuns antigos, as fotografias estão cobertas com uma espécie de papel seda. E esse papel aparece dobrado. Comumente trabalho com as minhas turmas de ensino médio com esse livro. E em todas as turmas que já o levei, ao abrir o livro, algum aluno diz, professora dobrou a página ali, quando respondo que é a própria ilustração assim, alguns precisam passar a mão no livro para ver que não é possível desdobrar a folha porque é um desenho. É algo que apenas ver com os olhos não é o suficiente.

Além disso em várias páginas tem rabiscos de caneta, que eles perguntam se alguma criança riscou meu livro e mais uma vez não acreditam que é da própria ilustração, “fala sério, professora isso aí foi uma criança que pegou uma caneta e um lápis de cor e começou a rabiscar teu livro quando a professora não estava perto”. Dessa forma, em todo o livro apresenta-se dois tipos de ilustração. Uma mais elaborada, se é que pode se assim dizer, com lápis aquarela, bem desenhada e contornada, a qual representa a vida das pessoas naquela situação. E outra que parece ter sido feito depois de impresso, como rabiscos, números e desenhos infantis retratando a interferência da criança, visto que o livro é todo narrado em primeira pessoa, com um menino contando seus dias. Por vezes, o enredo dessa narrativa se aproxima ao do romance “O menino do pijama listrado” de John Boyne, principalmente na cena final.

Há então além do híbrido do suporte escolhido para carregar uma temática pesada, o material utilizado na ilustração e o jogo que a ilustração faz trazendo a ideia de que houve uma interação prévia de um possível pequeno leitor que deixou sua marca no livro. Dar a ideia de que uma criança usou o livro como folha de papel, dessa forma o estragando traz uma ideia de proibido, de não ser o lugar para isso, de ter algo errado. Da mesma forma que a criança retratada na história, que em nenhum momento é dado um nome, porque não precisa, ela não é uma personagem de um livro, ela representa milhares de crianças que viveram aquela mesma vida, também não estava em seu lugar. E querer simplesmente desenhar, atividade própria da infância, é algo que virou proibido. Mas na vida real não ocorre o fim de um livro, mas sim milhões de fins.

O processo de hibridização surge a partir da criatividade, como aponta Canclini, no fundir de estruturas ou práticas sociais discretas para gerar novas estruturas, o que acaba por relativizar a noção de identidade. Podemos rotular este livro em um gênero específico e dele não mais sair? Para entender essa nova cultura é preciso aprender a procurar em novos lugares e até mesmo em não lugares, criando o novo.   

Sônia Regina Biscaia Veiga é graduada em Letras pela Univille, é contadora de histórias e atua como pesquisadora voluntária do PROLIJ

  
Isabela Giacomini
Ana tinha muitos pares de sapatos e o melhor de tudo é que eles tinham vida. A cada sapato que ela colocava, mais colorida ficava a casa, as brincadeiras e a sua relação afetiva com os pais. No entanto, chegou o grande dia de ela finalmente ir para a escola, já era uma menina crescida. Ana não sabia se ria, se chorava, se estava emocionada ou assustada, era muita coisa para sua cabecinha.

Ela foi então apresentada a um novo par de sapatos, que era utilizado pelos estudantes da escola. Ana, contudo, sentia-se muito estranha por usar aquele sapato padronizado e deixar os seus coloridos e divertidos de lado, esquecidos nas estantes. Aos poucos, suas brincadeiras não eram mais tão legais e tão coloridas, a professora Jandira também não colaborava muito: era rude e autoritária, não deixava que as crianças fizessem um barulhinho sequer.

Mas toda a situação mudou quando Jandira ficou doente e uma nova professora veio para substitui-la em algumas de suas aulas. E é justamente por essa mudança que as crianças começam a pensar diferente e a ver o quão a relação na sala de aula pode alterar todo o humor em quaisquer espaços.


O livro A menina que sonhava com os pés traz uma crítica implícita à padronização e ao corte criativo que a escola e muitos professores acabam fazendo em seus alunos, tentando tornar as crianças iguais, enquanto elas precisam manifestar suas habilidades de diversas maneiras, sejam elas pelos pés, assim como fazia Ana, ou não. Os sapatos de Ana representam a capacidade que as crianças têm de inventar, de imaginar e de se divertir das maneiras mais simples possíveis e que as relações sociais interferem fortemente nesse processo, já que a criança está desenvolvendo sua psicossocialidade. Chritian David, além de trazer críticas e reflexões bastante pertinentes, faz com que a criança se identifique nesses momentos criativos e queira usar diversos sapatinhos, meias e tantas outras coisas diferentes a cada novo dia, afinal, expressar a arte faz parte, principalmente na infância! Sem contar, é claro, na delicadeza dos traços da ilustradora Martina Peluso, que tornam a obra ainda mais divertida!

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.

Nicole de Medeiros Barcelos

Nós temos contado histórias desde o princípio da nossa existência. Antes que as palavras estivessem convencionadas pelo uso, ou dicionarizadas e gramatizadas nos livros, a humanidade já dava cor às suas narrativas de diferentes formas: em suas paredes, em suas danças, teatros, rodas de contação... Nunca realmente deixamos nada disso “para trás”, mas nossas formas de materializar esse ato tão próprio ao humano certamente se reinventaram no curso dos muitos anos que nos separam (ou nos unem) aos nossos antepassados.

Em “O cântico dos cânticos”, Ângela Lago explora as possibilidades narrativas em diversas dimensões da experiência estética: da profundidade de suas ilustrações à própria maneira com que podem ser (física e metaforicamente) lidas por aqueles que ousarem abrir uma de suas capas, há muito a explorar pelos meandros da história – ou histórias – enredada por Lago.

Nesta obra, independentemente da face que segure para si, o leitor acaba encarando a mesma capa dourada estampada pelo título em duas meias luas. É tudo parte do jogo que o livro começa a propor antes mesmo do primeiro virar de páginas – isso porque O cântico dos cânticos pode ser lido de trás para frente, de frente para trás, em pé ou de cabeça para baixo, e por onde mais se desejar. Aqui não há em cima ou embaixo, ou frente e trás, a bem da verdade. Estamos livres para escolher que histórias queremos ver contadas.


Engendrada de maneira circular em uma sintaxe visual intrigante, pode-se dizer que a narrativa adota duas perspectivas básicas, dependendo da “ponta” em que se comece a lê-la: de um lado, a da personagem feminina e, do outro, a da personagem masculina. De ambos os lados, porém, acompanhamos narrativas sobre encontros, desencontros, sobre o amor, a ilusão amorosa e suas consequências, às quais o próprio leitor dará os sentidos e significados diversos a partir de sua(s) leitura(s).

Ângela Lago consegue criar tal efeito pois as belíssimas imagens que contam essas histórias foram criadas a partir de uma estética inspirada pelo trabalho de Maurits Cornelis Escher, bem como pelas tendências da arte impressionista (como Uma tarde de domingo na Ilha de Grande Jatte, de George Seurat) e expressionista (como Noite estrelada, de Van Gogh) e pela arte árabe e mulçumana. Dessa forma, o próprio texto imagético reproduz e assimila o contexto da história e apresenta ilusões visuais para o seu leitor (que não é necessariamente apenas o infantil).

A beleza da narrativa em si também encontra outras motivações. Muitos provavelmente talvez concordem que o título da obra – O cântico dos cânticos – soa um tanto familiar. Isso porque o poema bíblico de mesmo título de fato foi uma das inspirações da autora para a criação do livro: Lago, arrebatada pela poesia desse texto da tradição cristã, e principalmente pelo seu discurso sobre o amor, resolveu contar, à sua moda, uma história tão bela quanto a sua fonte de inspiração, materializada finalmente nessa narrativa sem palavras que, porém, tem muito a dizer.

Ao estabelecer essa multiplicidade de diálogos, seja no formato do livro, na sua relação com o seu conteúdo, ou seja na construção de suas imagens, e nas relações que estabelecem intertextualmente, a autora mineira reitera o caráter essencialmente híbrido e inovador de sua obra – aqui entendendo “[...] por hibridação processos socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas” (CANCLINI, 2008, p. XIX).

Pois, combinando elementos conhecidos – um poema bíblico, estéticas artísticas legitimadas pela sociedade e a própria materialidade do objeto livro – Ângela Lago nos presenteia, como sempre, com uma história estranha o suficiente para nos ser muito familiar.

*Felizmente, O cântico dos cânticos, lançado primeiramente em 1993 e reeditado em 2013 pela editora Cosac Naify, foi adicionado ao catálogo da SESI-SP Editora em julho de 2018 e está de volta às livrarias!

Referências

CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. Edusp: São Paulo, 2008.

LAGO, Ângela. O cântico dos cânticos. Cosac Naify: São Paulo, 2013.

Nicole de Medeiros Barcelos é graduada em Letras (Língua Portuguesa e Língua Inglesa), vive se perdendo em buracos de coelho e em estradas de tijolinhos amarelos.

Isabela Giacomini
Lara Cristina Victor
As histórias, de um modo geral, têm muita coisa para contar e também há muito a ser desenrolado, como os próprios fios costumam fazer. Mas, algumas delas, falam deles e das linhas literalmente, já que se constroem pela tecitura, sendo ela a matéria e o conteúdo principais. É pelo percurso que esses fios fazem que o enredo vai se constituindo, que as ilustrações vão sendo formadas e que as memórias vão sendo relembradas. Os fios e as linhas estão para além do ato de costurar meros pedaços de tecido, eles possibilitam que novas histórias sejam descobertas, que se transformem ou que também sejam desmanchadas. É justamente por esse poder que possuem de dar a continuidade dentro de cada narrativa que separamos uma lista de livros que as trazem como protagonistas. Confira a seguir:

A manta, de Isabel Minhós Martins, com ilustrações de Yara Kono – na casa da avó havia uma cama enorme, enorme mesmo, onde cabiam meninos, meninas, gatos, um cão e a vovó também, é claro. Ela não era muito confortável, mas isso acabava não importando, pois havia a manta cheia de retalhos que os cobria confortavelmente. Cada um deles era uma história para ser descoberta. Cada pedacinho escondia uma viagem maravilhosa pelo universo da imaginação. Deve ser por isso que houve até briga para ver quem ficaria com ela, afinal ainda há tanto tecido para ser explorado!


Vestido de menina, de Tatiana Filinto, com ilustrações de Anna Cunha – o vestido da menina é repleto de fios diferentes uns dos outros. Eles vão se modificando a cada conversa, a cada situação vivenciada e a cada novo lugar visitado. Alguns fios são compridos, outros curtos, enrolados, escuros, emaranhados, grossos, esfuziantes e tantos outros adjetivos que se possa dar. Às vezes havia tantos fios, que o vestido ficava até pesado de vestir! O mais legal de tudo é que cada um deles tem uma nova história para contar...

A moça tecelã, de Marina Colasanti – Ela acordava ainda no escuro, e logo sentava-se ao tear.
São nos delicados fios, pentes, lãs e cores, que essa linda história acontece. Mostrando-nos as possibilidades de ser, estar e sentir, assim como a possibilidade de um recomeço. De um novo caminho. Um novo dia. Um novo amor… E uma nova história. A moça tecelã nos dá a oportunidade de construir e desconstruir, de imaginar e reimaginar. A coragem de criar, mas também de desfazer. E de ir tecendo a vida com fios e cores que brilham e nos transbordam, exatamente aqueles que nos fazem realmente felizes.


Além do bastidor, de Marina Colasanti- Uma menina corria todas as manhãs ao bastidor para bordar coisas diferentes. Imaginava uma flor, pegava a agulha e a linha e a bordava. Com o passar do tempo aquele tecido estava repleto, tudo parecia ter muita vida e muita cor. A menina já fazia parte de toda aquela paisagem, já se deitava na grama, apreciava as frutas, andava a cavalo. Ela era a única a não estar no pano, entre fios e linhas, pelo menos por enquanto. Além do bastidor fala dos nossos sentimentos e de como eles são exteriorizados, de como entramos e lidamos com cada uma de nossas experiências, de como bordamos nossa existência e também de como arrematamos a linha.

Colcha de retalhos, de Conceil Correa da Silva e Nye Ribeiro Silva, com ilustrações de Semíramis Paterno – Felipe é um neto que ama visitar sua avó, pois lá tem muita coisa para fazer. Um dia sua avó se pôs a costurar alguns retalhos que sobraram de suas costuras antigas e o neto, é claro, quis ajudar. Começou a separar cada pedacinho pelas suas características e a cada um, uma memória era relembrada por ele e pela vovó. Os dois conversavam sobre cada tecido, para que fim ele foi usado, quando isso aconteceu e o que fizeram na ocasião. Aos poucos, uma bela colcha de retalhos surgia, com muitas histórias diferentes a serem desvendadas. Além de toda a beleza das memórias, o livro trabalha com um sentimento muito único- a saudade, mostrando o quanto essas histórias a despertam e nos fazem entender o que ela realmente significa.


Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.

Lara Cristina Victor é aluna do curso de Psicologia na Univille. Atua como bolsista no Prolij e vê em cada criança um pouquinho de si mesma.


Fernanda Cristina Cunha
Há no homem moderno, como houve no homem ao longo de toda a história, a necessidade da imaginação para lidar com as situações angustiantes do ser, como as angústias das relações humanas e da finitude da vida. Se podemos dar uma justificativa para a existência do encantamento, da arte e da metafisica é a possibilidade de através delas encontrarmos um sentido à nossa existência e às nossas angústias.

Essa necessidade, como dito anteriormente, sempre existiu. Contudo, conforme Mocellim (2011) é a partir da obra de Max Weber que podemos compreender o movimento de desencantamento do mundo como um processo em que, por meio da religião, ao incorporar limites entre o espiritual e o profano, e da ciência, por considerar qualquer vertente do encantamento, irracional, resultou na desmagificação e perda de sentido da pratica do ser.

Esse movimento de desencantamento perdurou por conta da força do pensamento religioso, científico e tecnológico exercido sobre a sociedade contemporânea. Contudo, estes não foram capaz de dar fim ao anseio dos homens por encantamento. Em parte, pela incapacidade de lidarem com a angústia do propósito da vida, em parte, por limita-la. 

Em virtude disso, a volta dos elementos imaginativos na forma como construímos nossa visão de mundo, conceitua-se como reencantamento do mundo. Segundo Rocha (2014 p.3), o movimento de reencantamento do mundo pode ser definido como “a inversão do processo de desencantamento”.
A distinção do reencantamento, para o que existia antes do desencantamento, é de que esse movimento, se manifesta agora, aliado aos novos paradigmas da ciência. Ou seja, você não remove a ciência, mas inclui a magia a ela no processo de reencantamento.

Entretanto, esse movimento pode ser compreendido de diferentes formas e diferentes intensidades, seja na literatura, cinema, e tantas outras formas de expressão da arte. A partir da entrevista de Mia Couto concedida a Eliane Brum e Raquel Cozer em 2014, podemos observar que o movimento de reencantamento é lento. Isso fica em evidência diante a argumentação do escritor moçambicano de que o modelo de sociedade e pensamento atual impedem que vejamos o encantamento e o sagrado nas coisas.

O autor rememora também que as crianças trazem consigo uma espécie de tentação ao encantamento, uma vez que o interesse pela história do mundo a sua volta não é reduzido a apenas explicações racionais ou cientificas. E é diante a união dessa linguagem encantada, artística e poética, tão natural às crianças, à linguagem cientifica, racional e técnica, tão enraizada na contemporaneidade, que o presente ensaio busca aprofundar o hibridismo dessa mescla no reencantamento do mundo, diante obras “A mãe que chovia” de José Luís Peixoto e “Fita verde no cabelo” de Guimarães Rosa.

O reencantamento do mundo como remédio para a angústia das relações humanas e da finitude da vida:

A hibridação do concreto, e científico com a magia e o metafisico é poeticamente experencializada na obra “A mãe que chovia”. Nela, um menino que, sendo filho da chuva, e com uma mãe tão importante e necessária ao mundo, tem de aprender, a duras penas, a partilhar com o mundo todo o seu cuidado e dedicação. E, principalmente, lidar com a saudade, angústia e tristeza nos momentos em que ela está ausente. Essa mãe por outro lado tendo um mar de obrigações vê-se compelida a se ausentar por longos períodos de seu filho, e com isso lida com sua própria tristeza, culpa e angústia.
Através desse percurso, entre o real, ou seja, os desafios das relações entre mãe e filho, e o metafísico, isto é, a natureza dessa relação.  O autor presenteia aos leitores uma lição de generosidade, empatia e amor. 


Podemos também enxergar percurso semelhante na obra “Fita verde no cabelo” de Guimarães Rosa.  A Chapeuzinho Vermelho, nesta obra de Guimarães Rosa, chama-se Fita Verde. E com pequenas semelhanças ao conto de Charles Perrault, cria uma atmosfera encantada ao longo das mais ou menos 30 páginas de narrativa. Contudo, esse encantamento vai dando espaço à realidade da natureza humana. Nossa Fita Verde precisa aprender a conviver com a dor das relações, da possível perda e com o luto quando por fim ela ocorre. A poesia e o encantamento da obra atrelada à menção da finitude da morte, gera, ainda que emocionalmente triste, um rememoramento de que a morte existe, e de que ela é uma das poucas certezas da condição humana.  

A representação poética, especialmente na literatura infantil, seja ela acerca da da finitude da morte, ou das relações familiares e sociais torna mais tangível a sensibilidade humana com relação às angústias da existência de ser.

O mundo, como um livro, pode ser explorado e decifrado. O espaço ao nosso redor possui um significado e cada paisagem conta uma história. Reduzir a realidade o nosso entorno ao âmbito científico é reduzir as realidades do qual podemos ter contato.  Viver apenas uma realidade seria insustentável, e por meio da literatura, religião, filosofia, arte, e tantos outros campos do saber temos acesso às mais diversas realidades. E, como rememora Duarte Junior, (1994, p. 94) “é indevido compará-las pretendendo-se a superioridade de uma em detrimento das outras”.

Fernanda Cunha é graduanda de Psicologia pela Univille. Atua como bolsista do Prolij e busca através dos livros que lê as longas caminhadas por dentro de si mesma.

Referências:

DUARTE JUNIOR, João Francisco. O que é Realidade. Brasiliense: São Paulo, 1994.

MOCELLIM, Alan Delazeri. O Reencantamento do Mundo: considerações preliminares. 2011. Disponível em: . Acesso em: 29 jul. 2018.

MIA COUTO - Pelo reencantamento do mundo. Fronteiras do Pensamento. São Paulo: Telos Cultural, 2014. Disponível em: “https://youtu.be/zyqnqvGLB3w”. Acesso em: 29 jul. 2018.

PEIXOTO, José Luís. A Mãe Que Chovia. Ilustração: Daniel Silvestre da Silva. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2016.

ROCHA, Emmanuel Ramalho de Sá. Expressões literárias do reencantamento do mundo: Promethea de Alan Moore. 2014. Disponível em: . Acesso em: 29 jul. 2018.

ROSA, G. Fita Verde no Cabelo: nova velha história. Ilustrações: Roger Mello. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.






Gabrielly Pazetto
Isabela Giacomini
Nicole Barcelos
*agradecimentos especiais à Cymara Sell

Alguns escritores, pela qualidade de seu trabalho e pela beleza de seu estilo, por vezes conquistam lugares especiais nas estantes de todos nós – sejam eles considerados autores “para adultos” ou “para crianças”. Anthony Browne (1946), escritor e ilustrador britânico, é um desses casos: com mais de 40 títulos publicados em diversas línguas, está para além de uma categorização como “infantil” ou “juvenil” – seus livros aparentemente infantis na verdade falam para leitores de todas as idades. Além disso, em 2000, teve seu trabalho reconhecido com a maior honraria da literatura infantil juvenil, ganhando o prêmio Hans Cristian Andersen de ilustração. Atualmente, Browne é um dos maiores ilustradores de seu tempo e por isso (e muito mais) acreditamos merece uma lista especial no nosso Blog. Confira os livros selecionados por nós e nos diga: qual deles é o seu favorito?

O túnel – Rosa e Juan são irmãos, muito diferentes em tudo. Rosa tem medo do escuro, enquanto o menino o aproveita para fazer travessuras. A mãe deles vivia se zangando com suas implicâncias, até que um dia resolveu pedir para que saíssem brincar juntos, sendo amáveis um com o outro. Mas o que as crianças não poderiam imaginar é que no meio daquela saída entediante, encontrariam um túnel muito obscuro e interessante. Será que eles conseguirão chegar em casa para o almoço? Ou o túnel mudará todo o enredo? A narrativa traz um convite a se aventurar, com um toque de suspense e muita aventura.

Histórias de WillyWilly é um personagem recorrente das obras de Browne, estrelando diversos livros do autor há mais de 30 anos. No Brasil, muitos de seus títulos ainda não foram publicados e traduzidos, mas um dos mais recentes felizmente foi. Em Histórias de Willy visitamos Robinson Crusoé, Alice no País das Maravilhas e uma série de outros personagens do que muitos poderiam chamar de “clássicos” da literatura infantil juvenil. Pois, nesse livro, Willy (com que, lembremos também, Anthony Browne diz se identificar muito) literalmente viaja por uma série de cenários que certamente serão conhecidos de muitos leitores, atravessando mundos coloridos pelo passar das páginas duplas que ilustram suas aventuras. O leitor há de talvez discordar ou ansiar por outras histórias além das escolhidas por Browne, mas o convite questionador do texto verbal certamente o levará a pensar em suas próprias histórias dignas de preencher um livro!

Vozes no parque – Trabalhando com uma multiplicidade de vozes, neste livro Browne narra a história de quatro personagens diferentes que vêm suas vidas se esbarrarem em uma tarde no parque. A obra é muito feliz em retratar pontos de vistas de diferentes posições sociais e as ilustrações, como não poderiam deixar de ser, nos fazem mergulhar em capa página para analisar cada detalhe e referência – especialidades do autor.


Na floresta – Um menino sai para levar uma cestinha de bolo para sua vó, a pedido da mãe e precisa escolher entre o caminho mais longo e demorado e o caminho da floresta, mais rápido e sinuoso. Na floresta parece uma história muito familiar, mas em que na verdade há muito a ser desvendado, principalmente nas ilustrações do autor e nas cores por ele utilizadas. A cada página virada uma nova emoção surge, e as expectativas são superadas – às vezes o óbvio acaba não acontecendo, às vezes sim.


Gorila – Em "Gorila" conhecemos a doce Hannah. Hannah tinha muitos sonhos, sonhos com gorilas, seu animal preferido. A menina sempre pedia ao seu pai para levá-la ao zoo, mas ele se recusava por não ter tempo, até que um dia ela decidiu ir por conta própria! Em mais uma história sobre primatas, Browne mistura seus traços delicados com a realidade dos pais do século XXI que não têm tempo de realizar os sonhos de suas garotinhas.



Little Beauty – Vivendo sozinho em um recinto num zoológico, um gorila pode ter tudo o que quiser – menos, porém, o que mais o angustia: uma companhia. Seus tratadores, na ausência de outros iguais para lhe servirem de parceiros, presenteiam-no com uma gatinha, chamada Beauty. Quando o olhar profundo e melancólico do gorila cruza o olhar animado e cheio de vida da doce Beauty, uma conexão se estabelece imediatamente. A partir daí somos testemunhas de um afeto que vai sendo construído pelo compartilhamento dos momentos mais corriqueiros da vida. Em Little Beauty, Browne dá vida à mais um gorila de humanidade e sensibilidade ímpares, com expressões fortes que falam do que há de mais humano em todos nós.



Gabrielly Pazetto é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e faz dos livros que lê barcos de viagens inesquecíveis.


Nicole Barcelos é graduanda em Letras na Univille (Língua Portuguesa e Língua Inglesa). Atua como bolsista do Prolij e vive se perdendo em buracos de coelho.

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.

Isabela Giacomini
Mariana tem um hobbie bastante único. Ama o vento e por isso gosta de passar o tempo no topo de um prédio altíssimo da cidade. A sua alegria é tamanha, que contagia o colega Altair.

Ele, como costuma surpreender as pessoas, começa a construir uma engenhoca enorme. Usa canos, hélices, tubos, alarmes e tudo que consegue, porque quer dar um grande presente à Mariana: a possibilidade de ter o vento para si. Mas nem tudo ocorre de modo perfeito quando se fala do poder da natureza, principalmente da força do vento e de sua vontade própria. E todo o trabalho acontece em vão, pelo menos para Altair. Mas Mariana não liga para isso e mostra que outras coisas são mais importantes, como sua amizade, por exemplo.


Acima de tudo, de Paulo Rea, textualiza e ilustra como a felicidade pode estar nas coisas simples e às vezes, grandes inventos não são capazes de suprir aquilo que é mais intrínseco no ser humano: a necessidade das relações interpessoais e de momentos de lazer.  Com uma ilustração muito peculiar, o autor expressa grande parte do sentido da história por meio dos traços delineados, trabalhando com muita delicadeza e com a madeira- objeto de seu trabalho estético, que migra para o campo literário; um dos motivos pelos quais o livro recebeu em 2010 o Prêmio Jabuti de Melhor Ilustração.

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.

Lara Cristina Victor
O Prolij está desenvolvendo um projeto de pesquisa que versa sobre a hibridação na literatura infantil e juvenil, e nesse processo, os pesquisadores voluntários fizeram textos ensaísticos sobre obras ou produções artísticas que trazem essa proposta. Confira um dos ensaios a respeito do filme "O quarto de Jack"!
O processo de hibridação vem sendo percebido desde épocas muito antigas de desenvolvimento histórico e este, ampliou-se para diversos outros campos de aplicação, modificando e transformado o meio social e cultural. O que não se tem de forma clara, são os impactos e consequências que este processo provocou e vem provocando nas mais diversas relações, até mesmo por conta de seu imensurável crescimento e amplitude nos últimos anos.
E por falar em relações, nos seus mais diversos contextos, não se pode deixar de falar da questão cultural, assim tratado por Vigotski, por desenvolvimento histórico-cultural. Nesse sentido, o processo de hibridação ganha forma e destaca-se de acordo com a cultura, algo que é passado de geração em geração, em um processo de ensino-aprendizagem, sempre compreendendo o funcionamento do todo. Este processo é visto nas questões linguísticas (gírias, por exemplo), modo de se vestir, corte de cabelo, etc. Sendo assim, pode-se afirmar que a forma como as pessoas vivem, como se sentem, como reagem às mais diversas situações, e como principalmente estão acostumadas a viver, dizem respeito a como elas foram ensinadas, e como foi apresentado o mundo a elas.
Canclini menciona sobre o surgimento da hibridação da criatividade individual e coletiva, não só no campo das artes, mas também na vida cotidiana e no desenvolvimento tecnológico. É nesse momento que aparece o termo “reconversão”, utilizado para explicar as estratégias mediante a um determinado “avanço” ou melhoria das técnicas utilizadas em detrimento a determinada demanda daquele setor. Como por exemplo um pintor se converter em designer, operários reformularem sua cultura de trabalho ante as novas tecnologias produtivas, burguesias nacionais adquirirem os idiomas e outras competências necessárias em vista do crescimento econômico em circuitos transnacionais. São por essas e outras razões, que Canclini sustenta que “o objeto de estudo não é a hibridez, mas, sim, os processos de hibridação”. Nesse sentido, faz-se necessário a compreensão desse processo em relação a identidade, compreender que não é possível analisar uma ação ou traços fixos de um povo sem observar o todo, ou seja, a história de formação dessa cultura, juntamente com os diversos elementos de diferentes épocas que fizeram parte desse processo.
Seguindo esse discurso, uma brilhante obra que abarca sobre relações culturais e de vivência e que encaixa perfeitamente como exemplo, é o filme “O quarto de Jack”, lançado em 2015, ganhador do Prêmio Globo de Ouro. Trata-se de uma mulher sequestrada e confinada em um quarto isolado e minúsculo e que dá à luz à um menino, que é criado dentro desse quarto até seus cinco anos de idade. Claramente, a visão de mundo de Jack é distorcida e limitada, a ponto de não saber o que é uma árvore (e que ela existe de verdade), e achar que o quarto é o mundo inteiro e que fora dele não há mais nada. A forma dele de viver, de sentir e de reagir, é desenvolvida para viver unicamente dentro do quarto, quando ele finalmente sai de lá, o seu primeiro e único desejo: voltar para o quarto. Afinal, foi ali que ele aprendeu a viver, foi de acordo com o clima do quarto que ele aprendeu a se vestir, conforme o tamanho deste, que ele aprendeu a brincar, estabelecendo contato apenas com sua mãe, ou seja, ele não aprendeu a estabelecer relações com outras pessoas.
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              Nessa perspectiva histórica, entende-se que os processos acontecem pela significação, àquilo que dá sentido à ação ou objeto. Como foi falado no processo de reconversão, este se faz verdadeiro e tem um significado, porque as técnicas do pintor estão ultrapassadas e já se apresentam novos recursos – mais sofisticados – que podem atender a demanda com mais facilidade e rapidez. E porque as novas tecnologias são mais eficientes e podem atender a grande demanda do mercado, sendo assim, os operários se rearticulam para dar espaço a estes avanços. De outro modo, se não fossem apresentadas essas reconversões como algo necessário e promissor, se as técnicas do pintor fossem as mais eficazes e modernas naquele momento, não faria sentido acontecer a reconversão. Adaptando esse pensamento para o filme “O quarto de Jack”, se o conhecimento de Jack se limita apenas para dentro do quarto, não faria sentido para ele apresentar-lhe outras pessoas para socialização. Se no momento em que o sequestrador chega no quarto, sua mãe esconde Jack dentro do armário, não faria sentido para ele cumprimentar as pessoas quando chegam no mesmo local em que ele está. E se dentro do quarto tem aquecedor para dias frios, não faria sentido apresentar-lhe a existência do sol, afinal: “o que é o sol?”.
      Sendo assim, a amplitude histórica do termo “híbrido”, juntamente com o pensamento Vigostkiano servem de sustento para explicar processos psicológicos, sociais e culturais do filme “O Quarto de Jack”. Além de provocar uma rica discussão sobre as relações de identidade, experiências, culturas, dentre outros processos históricos e culturais.

Lara Cristina Victor é aluna do curso de Psicologia na Univille. Atua como bolsista no Prolij e vê em cada criança um pouquinho de si mesma.






Isabela Giacomini
Em dia dos pais não poderíamos deixar de comemorar com literatura!

Uma menina muito alegre e pequenina conhece seu pai, não como outras garotas costumam fazer, tendo um pai desde o primeiro dia de vida ali do seu lado, mas conquistando o seu quando ele casa com sua mãe. Na verdade, para ela, ele primeiro escolheu ser seu pai para depois se casar.

Alguns pais podem vir instantaneamente, como as fotos tiradas pela máquina fotográfica, outros podem vir embrulhados como presentes ao longo do caminho da vida. Cada jeito tem a sua importância, o que vale é que o sentimento seja mútuo.

A menina era uma filha um pouco crescida para um pai, mas tudo foi se ajeitando, cada um foi aprendendo a fazer sua parte para garantir a diversão. O pai foi aprendendo a ser pai e ela, a ser uma boa filha.


Tudo mudou quando a garotinha foi apresentada a uma máquina fotográfica mágica, que precisava até de umas palavrinhas mágicas para funcionar: HOCUS POCUS. Foram tantos clics, de tudo que não queriam esquecer, que as páginas do livro estão repletas de muitos deles. Até que um dia a máquina teve que ser substituída, mas por algo tão interessante quanto, que deixa a narrativa ainda mais incrível e com um toque imenso de sensibilidade. A menina passou a ver que a magia não estava na máquina, mas dentro de si e de sua relação afetiva com o pai. Afinal de contas, para que maior inspiração que um pai presente na vida dos filhos?

Hocus Pocus: um pai de presente, de Kiara Terra e Ionit Zilberman, nos mostra como a magia de cada momento vivenciado se eterniza na memória!

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.


Gabrielly Pazetto
Isabela Giacomini
Nicole de Medeiros Barcelos
As histórias em quadrinhos foram, para muitas pessoas, as precursoras do gosto pela leitura e para muitas, continuam fazendo parte de sua rotina literária. Elas trazem uma diversidade de linguagens e de temáticas, permitindo a reflexão e a diversão, além de trabalharem com a ludicidade das crianças e dos jovens por meio das cores e dos desenhos utilizados.

As HQs foram, por muito tempo, consideradas um gênero menor, mas sua complexidade e importância passaram a ser reconhecidas a partir do momento em que se percebeu que muitos leitores o são porque tiveram contato com elas.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada em 2016 pelo Instituto Pró-Livro, mostra que Histórias em Quadrinhos é um dos gêneros mais lidos por jovens entre 9 a 17 anos. E por isso, trouxemos aqui uma lista de HQs muito especiais.
Sendo:

Pétalas, de Gustavo Borges e Cris Peter – Pétalas, de Gustavo Borges e Cris Peter – Pétalas é a obra mais singular dessa lista! Trata-se de uma narrativa visual em forma de quadrinhos. As ilustrações de Gustavo Borges e a coloração de Cris Peter dão vida à história de uma linda amizade em meio à neve, para nos lembrar o que realmente pode aquecer o coração.



Nimona, de Noelle Stevenson – Era uma vez um guerreiro, um vilão, um experimento científico, tudo isso vivendo em um mundo medieval com super-heróis e magia (ou seria pura tecnologia?). Esta é a história de Nimona, da americana Noelle Stevenson. O quadrinho é a estreia da autora na escrita independente e é um prato cheio para quem busca aventuras, mas sem os clichês dos quadrinhos de super-heróis. Nimona é forte, é guerreira, e é impossível não sofrer, se alegrar e se aventurar junto com ela!



Série “Valente”, de Vitor Cafaggi – Série “Valente”, de Vitor Cafaggi – Valente é um ser enfrentando a adolescência e os problemas que ela traz: namoradas, ensino médio, faculdade e amigos. E o melhor de tudo? Ele é um cachorro, mas ao longo da história descobrimos que Valente é um pouquinho da gente também! Valente sofre, Valente erra, Valente tem dilemas típicos dos jovens que estão nessa fase tão conturbada. A série possui 5 volumes lançados até agora e o desfecho desta história será no 6º e último volume da série, que está previsto para ser lançado até o final de 2018.


Maus, de Art Spiegelman – Talvez o fator mais impactante de Maus seja o fato de que a história realmente aconteceu. HQ biográfica, Maus conta a história do próprio pai de Art Spiegelman, judeu, que viveu o horror da 2ª Guerra Mundial.


Hilda e o troll, de Luke Pearson – Hilda é uma curiosa menina com uma imaginação fértil. À guisa de muitas personagens que conhecemos, a protagonista dessa HQ, ao ouvir histórias sobre trolls, confabula sobre a sua existência e teme ser, um dia, comida por um deles. O que o avançar das páginas dessa obra revela, porém, para além do encontro inusitado preludiado pelo próprio título, é a descoberta que ele desencadeia.


Persépolis, de Marjane Satrapi – Pouca luz ainda foi lançada sobre a guerra do Irã que ocorreu na década de 1980, principalmente no (nosso) mundo ocidental colorido pelas tinturas da mídia internacional americana. Persépolis vem na contramão de tudo isso para nos oferecer um olhar de dentro desse conflito: Marjane Satrapi conta a sua própria história no Irã, como filha de uma família progressista em um país que, de uma hora para outra, foi literalmente encoberto por véus pretos. Com humor inconfundível, a autora guia o leitor pelas veredas mais escuras dessa narrativa necessária, mas dolorida, de uma maneira que beira a leveza. Desvelando um pouco do que a própria História ainda não deu conta de mostrar, a HQ continua reverberando no leitor para muito além dos quadrinhos finais que “encerram” o conto de Satrapi (e de sua herança persa) – e não ao acaso foi adaptada para o cinema em 2007, em uma animação homônima indicada ao Oscar.


Eles estão por aí, de Bianca Pinheiro e Greg StellaÉ bem difícil falar desta HQ sem dar nenhum spoiler, até porque sua leitura não se limita apenas às palavras, as ilustrações também contam a história de Eles estão aí. A HQ traz a jornada de duas criaturas vagando pelo mundo e encontrando diversos seres pelo caminho, na tentativa de compreender e de serem compreendidos.



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