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Ao longo do terceiro bimestre da disciplina de Literatura Infantil Juvenil, a professora dra. Berenice Rocha Zabbot Garcia desenvolveu uma atividade com os acadêmicos do 2º ano de Letras, que consistia em construir um texto híbrido a partir da análise de obras infantis juvenis por ela selecionadas. Os textos consistiam em uma resenha crítica da obra e uma leitura comparativa analisando sua relação com contos de fada. O resultado de um dos trabalhos desenvolvidos pode ser conferido abaixo!

Percepções sobre “O Ratinho, o Morango Vermelho Maduro, e o Grande Urso Esfomeado”

Karina Steiner
Luana Seidel
Victória Maria Nielson

O livro “O Ratinho, o Morango Vermelho Maduro, e o Grande Urso Esfomeado”, publicado pela editora Brinque Book e escrito por Don e Audrey Wood, trabalha com as questões do imaginário do leitor no momento de percepção do texto, graças às ilustrações de Don Wood.
A narrativa inicia com a ilustração de um pequeno rato saindo de sua casa carregando uma escada de madeira, e a primeira surpresa do leitor é causada pelo texto verbal: é a fala do narrador, que não é direcionada para o leitor, e sim para o personagem do Ratinho, questionando-o sobre o que ele está fazendo.

Em geral, obras de personagens animais tendem a ser classificadas como fábula, onde esses falam, e têm intenção de expor a moral da história, dividindo-os em bons e maus, final feliz ou infeliz. Este, porém, não é o caso desta obra. O personagem é objeto da conversa direcionada do Narrador, mas não responde verbalizando, o faz apenas com gestos e reações ao que lhe está sendo dito. Desta forma, no decorrer da história, o Narrador traça uma espécie de diálogo nessa interação com o Ratinho.

Seguindo a trama, o Narrador percebe que o Ratinho está indo em direção a um morango vermelho maduro. Percebemos que apesar de nada ter a ver com a história da Chapeuzinho Vermelho, ainda está demarcada a presença da cor vermelha, representado pelo morango maduro.
Enquanto o Ratinho está trabalhando para conseguir colher o morango, que é praticamente do seu tamanho, o Narrador o avisa sobre o perigo do grande Urso Esfomeado, ressaltando o quanto este gosta de morangos vermelhos e maduros! O personagem do Ratinho demonstra preocupação e medo através de suas feições, e continua trabalhando, cada vez mais rápido, para colher o morango, enquanto o Narrador continua descrevendo o Urso, que é um bom farejador de morangos vermelhos maduros - principalmente os recém colhidos, uma vez que o Ratinho conseguira soltar o morango.
O Ratinho, na tentativa de evitar que tenha seu morango roubado, procura protegê-lo e escondê-lo. O detalhe que serve de investigação na história é que, durante toda a narrativa, o personagem do Urso Esfomeado, que é colocado como vilão, não aparece, e a única evidência da sua existência é o discurso do Narrador, que apresenta a solução para que o Urso não possa pegar o morango: cortá-lo em dois e dar a metade para o Narrador, para que então os dois possam devorar a fruta por inteiro. Por fim, é esclarecido que, assim tendo sido devorado, o Morango não poderia mais ser roubado pelo Urso.

Apesar de não ter sido representado nas ilustrações de Don Wood, a presença ou não do urso é trabalhada como uma figura selvagem e perigosa, deixando o suspense das possibilidades de culpa, assim como de costume nas narrativas infantis.
Contrariando a possibilidade de legitimar esta obra como fábula, o fim não possui cunho moralizante, pois permite a dúvida sobre o enredo. O Urso Esfomeado era real? Poderia, o Narrador, ter usado tais ameaças para manipular o Ratinho e se beneficiar com o alimento? Ou até mesmo o Ratinho, criando a ilusão dos avisos do Narrador para comer o Morango por inteiro, demarcando o Princípio da Realidade e Princípio do Prazer, quando o desejo de devorar o alimento por inteiro o faz extrapolar a possibilidade de poupá-lo. Pouco se pode deixar estabelecido como certo sobre o final da história, além de que a intenção do autor foi, provavelmente, intrigar o leitor para as possibilidades de desvendar.

Sabendo que as narrativas de hoje são, invariavelmente, influenciadas pelas narrativas primordiais e clássicas, pode-se relacionar aspectos relacionados entre esta obra e contos das Mil e Uma Noites. Bettelheim, na sua obra, discorre sobre As Maravilhosas Viagens de Simbad, ou Simbad, o Marujo, sobre o conflito entre as personalidades de um mesmo personagem, impossibilitando legitimar o real e o irreal “os contos de fadas têm diversos níveis de significado. Num outro nível de significado, os dois protagonistas dessa história representam as tendências conflitantes dentro de nós que, caso não consigamos integrar, certamente nos destruirão”. Essa história pode não apresentar uma moral, mas o cunho manipulativo do Narrador nos remete às histórias contadas pelos pais da nossa geração, quando tentavam nos intimidar para que obedecêssemos, como a história do "Homem do Saco", por exemplo, que mesmo não fazendo parte dos contos clássicos, ou primordiais, fazia de fato, parte da 

WOOD, Audrey; WOOD, Don. O Ratinho, O Morango Vermelho Maduro e O Grande Urso Esfomeado. São Paulo: Brinque-Book.

BETTELHEIM, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. São Paulo; Paz e Terra, 2014



Karina Steiner é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille. Adora viajar para dentro das histórias que lê, e leva no coração as pessoas e lugares incríveis que conhece nelas.

Luana Seidel é graduanda do curso de Letras da Univille, trocou o oxigênio por arte há tempos – e não se arrepende disso.

Victória Maria Nielson é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, nas horas vagas aventura-se desbravando o mundo por trás da lente de uma câmera, ou simplesmente desfrutando de um bom dia em meio à natureza.
Ao longo do terceiro bimestre da disciplina de Literatura Infantil Juvenil, a professora dra. Berenice Rocha Zabbot Garcia desenvolveu uma atividade com os acadêmicos do 2º ano de Letras, que consistia em construir um texto híbrido a partir da análise de obras infantis juvenis por ela selecionadas. Os textos consistiam em uma resenha crítica da obra e uma leitura comparativa analisando sua relação com contos de fada. O resultado de um dos trabalhos desenvolvidos pode ser conferido abaixo!

O Universo infantil na obra de Stephen Michael King


Bruno Dietrick Rodrigues
Gabriel da Costa Porto Silva
Samantha Schubert


A obra Patrícia, de Stephen Michael King, foi publicada originalmente em 1997 pela Scholastic Australia Pty Limited e no Brasil pela Brinque Book Editora, também em 1997.
O livro conta a história de uma garota chamada Patrícia, que nutria muitos pensamentos dentro de si e tinha uma profunda necessidade em compartilhá-los com alguém. A menina tenta falar com sua mãe, pai e avó, porém nenhum deles lhe dá atenção. Só encontra um confidente no seu avô, afinal, ele também adorava dividir suas ideias.
O autor oportuniza diversas reflexões referentes aos personagens mãe, pai e avó, representantes da constante desatenção dada às indagações no período da infância, uma fase onde a criança pergunta sobre tudo e todos, já que está curiosa para descobrir o mundo em que está inserida. A falta de atenção desses familiares também permite uma reflexão sobre o dia a dia corrido de um adulto. Patrícia queria falar e ser ouvida. Queria alguém de confiança para repartir seus secretos pensamentos.
As ilustrações de King possibilitam interpretações que a linguagem verbal não é capaz de oferecer. Um exemplo disso é o cenário em que a figura do avô se encontra. Diferentemente dos cômodos em que se encontram a mãe, o pai e a avó, há variados pensamentos que brotam de seu sono. E há também um pensamento alegre fora da gaiola, enquanto que no cômodo da avó, esse mesmo pensamento está angustiado. O avô, na história, é a figura acolhedora que não permite a ausência de sua criança interior.
Com todas as suas reflexões, a história aborda a importância da infância. O voltar a ser criança exige um amadurecimento ainda maior que o tornar-se adulto. A criança pensa e necessita ser considerada. Retratar os pensamentos de uma criança é fundamental para adentrar no universo infantil.

KING, Stephen Michael. Patrícia. São Paulo: Brinque-Book, 1997.


Os acadêmicos também produziram um vídeo utilizado para a contação da história e para refletir sobre possíveis comparações de Patrícia com os contos de fadas e a contemporaneidade. 




Bruno Dietrick Rodrigues é graduando em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, apaixonado por música e amante de jogos e filmes. 

Gabriel da Costa Porto Silva é graduando em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) e em tempo vago se conduz em meio à música.

Samantha Schubert é graduanda em Letras na Univille (Língua Portuguesa e Inglesa) e duela constantemente com seus estranhos e imprevisíveis devaneios enquanto caminha e dança com a palavra.
Ao longo do terceiro bimestre da disciplina de Literatura Infantil Juvenil, a professora dra. Berenice Rocha Zabbot Garcia desenvolveu uma atividade com os acadêmicos do 2º ano de Letras, que consistia em construir um texto híbrido a partir da análise de obras infantis juvenis por ela selecionadas. Os textos consistiam em uma resenha crítica da obra e uma leitura comparativa analisando sua relação com contos de fada. O resultado de um dos trabalhos desenvolvidos pode ser conferido abaixo!

Os contos de fadas e "Por quê?"

Ana Carolina da Silva
Bruna M. dos Reis
Kauane Cambruzzi
Nicole Spindola

Clássicos da literatura mundial, os contos de fadas têm origem em tempos remotos e nem sempre se apresentaram como os conhecemos hoje. O aspecto fantasioso e lúdico que hoje os envolve surgiu da necessidade de minimizar enredos controversos e polêmicos, próprios de uma época em que a civilização ainda não havia inventado o conceito que hoje conhecemos tão bem: a infância. Chamamos de contos de fadas porque são histórias que têm sua origem na cultura céltico-bretã, na qual a fada, um ser fantástico, tem importância fundamental. A primeira coletânea de contos infantis surgiu no século XVII, na França, organizada pelo poeta e advogado Charles Perrault. As histórias recolhidas por Perrault tinham origem na tradição oral e até então não haviam sido documentadas. Sendo assim, a Literatura Infantil como gênero literário nasceu com Charles Perrault, mas só seria amplamente difundida posteriormente, no século XVIII, a partir das pesquisas linguísticas realizadas na Alemanha pelos Irmãos Grimm (Jacob e Wilhelm). 

Com o tempo, os contos de fadas foram sofrendo alterações,. A essas alterações que foram necessárias para diminuir o impacto negativo das estórias originais. Hoje, histórias com temáticas violentas podem afetar negativamente na formação das crianças. Mas, ainda há resquícios dessas histórias, com temáticas um pouco mais leves, e mesmo assim impactantes. "Por quê?", de Nikolai Popov nos traz um não final feliz, o que um costumeiro conto de fadas traria, e um final que não traz a solução para o problema, e sim um questionamento. Sendo assim, faz com que o próprio leitor decida qual a moral que ele levará desse livro.

O livro nos traz questionamentos de algumas atitudes negativas que o ser humano costuma ter como a inveja, a cobiça, a vaidade e o egoísmo. E como consequência disso, a guerra. Sem muitas palavras, o livro apresenta ilustrações, que falam por si só, e protagonistas aparentemente simpáticos. Uma rã admiradora de belas flores, e um ratinho com seu guarda-chuva laranja, que depois se mostra muito invejoso.

O ratinho acaba por atacar a “pobre” rã e uma guerra é então iniciada. No fim, nenhum dos dois se lembra a real razão para o início de tanto desastre. O livro, apesar de infantil, nos faz refletir o por quê crescer pode ser tão desastroso. Onde, num mundo que nos faziam acreditar que deveríamos ser bons com o próximo, o “eu” está sempre na frente.

POPOV, Nikolai. Por quê? São Paulo: Ática, 2000.


Bruna dos Reis é graduanda em Letras (Língua Portuguesa) na Univille. É professora do Estado e divide suas leituras entre literatura e marxismo. 

Kauane tem os cabelos cacheados e sabe que deve agradecer à bisavó por eles, assim como deve agradecer ao pai por lhe comprar livros e à mãe por lê-los, trazendo a literatura para sua vida.

Nicole Talgatti Spindola, graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa), é apaixonada por ensino e vê na educação a chance de uma vida mais leve. 
Ao longo do terceiro bimestre da disciplina de Literatura Infantil Juvenil, a professora dra. Berenice Rocha Zabbot Garcia desenvolveu uma atividade com os acadêmicos do 2º ano de Letras, voltada para a criação de textos híbridos a partir da análise de obras infantis juvenis previamente selecionadas. Com uma resenha crítica e um vídeo, um dos trabalhos desenvolvidos pode ser conferido abaixo!

Amizade e aprendizagem

Andreza Moreira Martins 
Bruna Saramento Furlan
Suellen do Nascimento Silva 

O livro Pedro e Tina, de Stephen Michael King, publicado pela editora Brinque-Book narra a história de Pedro, que fazia tudo ao contrário. Suas linhas não saíam retas, e quando todos olhavam para cima, ele olhava para baixo. Contudo, ele se divertia por aí cheio de alegria. Um dia, ele encontra Tina e a partir daí, novas aventuras e aprendizagens estão para surgir.

A garotinha fazia tudo corretamente, mas lá no fundo ela não queria fazer tudo tão certinho. Apesar de suas diferenças, os dois se tornam grandes amigos. Ensinando um ao outro é que aprendem muitas coisas novas e até constroem juntos uma casinha na árvore!

As ilustrações dessa linda história são feitas pelo próprio autor, Stephen Michael King, e trazem com encanto cores e muita graça para a narrativa. A amizade dessas duas personagens cativantes retrata uma mensagem muito importante e especial para compartilhar e praticar!

KING, Stephen Michael. Pedro e Tina. São Paulo: Brinque-Book, 1999.



Além da resenha crítica, as acadêmicas produziram um vídeo com uma comparação do livro com os contos de fadas! 

Andreza Moreira Martins é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Língua Inglesa) pela Univille. Adora séries e músicas e é apaixonada pela gramática.

Bruna S. Furlan é graduanda em Letras na Univille e acredita que as palavras gentis são sempre a melhor escolha.

Suellen do Nascimento Silva é graduada em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) e acredita que em cada livro há uma possibilidade de conhecer mundos novos. 
Ao longo do terceiro bimestre da disciplina de Literatura Infantil Juvenil, a professora dra. Berenice Rocha Zabbot Garcia desenvolveu uma atividade com os acadêmicos do 2º ano de Letras, voltada para a criação de textos híbridos a partir da análise de obras infantis juvenis previamente selecionadas. Um destes trabalhos podem ser conferidos abaixo!

Por que pipi não evapora?

Evelin de Freitas Costa
Felipe Poffo Moraes
Suzana Lima
Wellington Vojniek

Um pipi choveu aqui, escrito por Sylvia Orthof e publicado pela editora Global, narra, em estrutura poética, a história de um menino chamado Pedro Pedroca que assiste a uma aula expositiva que trata do processo climático da chuva. No momento em que a professora, Dona Carola, muito antiga na escola, explica o processo da chuva, Pedro Pedroca vai sentindo uma vontade enorme de fazer pipi e levanta a mão pedindo permissão para ir ao banheiro. Dona Carola, que não admite ser interrompida, não dá permissão ao garoto. 
Ele pensa, então, que fazer uns pinguinhos de xixi o deixará aliviado e conseguirá esperar até o final da explicação. No entanto, ao liberar esses pretensos pinguinhos, o garoto solta toda a urina e molha todo o chão e toda a roupa. Nesse momento, ele faz uma analogia da chuva que se evapora com seu xixi, chuva que sai da gente, mas a professora, numa atitude de intolerância completa, expulsa Pedro Pedroca da sala de aula. O garoto sai da sala de aula chateado e, ao sair da escola, começa a chover. Pedro pensa: "seu xixi evaporou e virou chuva e essa chuva vai molhar Dona Carola, vai inundar a escola e com isso se sentirá vingado". Sua vingança é imaginar Dona Carola “montada num quadro-negro”, toda encharcada, “a velha Carola” e se a chuva for amarela, “bem-feito pra ela”. 
A história abre diferentes possibilidades de interpretação, sendo assim, é um rico material para ser trabalhado em sala de aula com o gênero poesia, uma vez que é uma narrativa rica em rimas.


ORTHOF, Sylvia. Um Pipi Choveu Aqui. São Paulo: Global Editora, 1991.



Além da resenha crítica, os acadêmicos produziram um material comparando a obra de Ziraldo, Uma Professora Muito Maluquinha, com a obra de Sylvia Orthof, Um Pipi Choveu Aqui, e também produziram um vídeo contando a história do livro. 


"Porque ela viaja nos livros e se encontra nas palavras, Evelin" (Estudante de Letras - Português e Inglês na Univille)

Felipe de Moraes Poffo é graduando em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille. Desbravador das duas línguas, torce por um acaso entre ambas. 

Suzana Lima é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Língua Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Colégio Univille, trabalhando com os alunos de inclusão. Faz dos livros seus melhores amigos e seu refúgio mais encantador. 

Wellington Luiz Vojniek, graduando em Letras (Língua Portuguesa) é militante da poesia, amante das artes e apaixonado por música, inclusive pelos seus instrumentos que não 
Ao longo do terceiro bimestre da disciplina de Literatura Infantil Juvenil, a professora dra. Berenice Rocha Zabbot Garcia desenvolveu uma atividade com os acadêmicos do 2º ano de Letras, voltada para a criação de textos híbridos a partir da análise de obras infantis juvenis previamente selecionadas. Consistente em uma resenha crítica da obra e uma leitura comparativa analisando sua relação com contos de fada, o resultado de um dos trabalhos desenvolvidos pode ser conferido abaixo!


Tal pai, tal filho

Barbara Fernandes Correa
Débora Schoenhals
Denise Cristina Kniess
Larissa Chaves
Mariana da Rocha Coutinho
Naara Éldany Costa

Cara de um, focinho do outro, escrito por Guto Lins, publicado no ano de 1994 pela editora FTD, é um livro que consegue, com vocabulário simples e jogos de palavras, tratar de um assunto complexo e cada vez mais comum: relacionamento entre pais e filhos. O escritor e ilustrador demonstra simplicidade para contar uma história cujo tema central tem uma certa carga pesada, principalmente quando se trata de um assunto comum na vida de muitas crianças. 
A obra de Guto Lins se propõe a ser humana, pois dá espaço a sensações em todos os leitores, seja nas crianças ou nos adultos. Além disso, desafia-nos a pensar que ainda existe o perdão e a oportunidade de recomeço, revelando que as relações entre pais e filhos podem se descomplicar. 
O jogo da palavra “cara” e seus diversos significados, as rimas, os ditados populares e a leveza na construção de uma mensagem tão complexa fazem com que a obra não tenha público alvo específico (apenas as crianças), pois mexe com o imaginário e sentimentos de todas as faixas etárias. 
O bom resultado do livro não se dá pela quantidade de recursos, pois a proposta de dar espaço para sensações e memórias afetivas é maior que os recursos visuais. O texto vem acompanhado de uma narrativa visual que nos instiga a acompanhar mais uma história, sendo assim, temos, no livro, uma dupla leitura, com imagens que transcendem palavras. 
Imperdível, engraçado e criativo, Cara de um, focinho do outro é um livro indicado para crianças, podendo, contudo, ser adorado por todos que gostam de viajar e refletir com uma leitura simples e divertida.



LINS, Guto. Cara de Um Focinho do Outro. São Paulo: FTD, 1997.

Além da resenha crítica, as acadêmicas desenvolveram uma revista eletrônica, apontando as semelhanças entre a obra lida e contos de fada, além de trazerem entrevistas, textos críticos e ilustrações. A revista pode ser acessada clicando na imagem abaixo!



Barbara Fernandes Correa é graduanda em Letras na Univille (Língua Portuguesa e Inglesa) e em suas poucas horas vagas reina sobre o mundo dos sonhos e devaneios. 

Débora Schoenhals é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa). É apaixonada pela arte, música, design e literatura, mas queria mesmo era ser uma mestre Pokémon.

Denise Cristina Kniess é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, já fez Engenharia Ambiental só para ver no que dava, mas se rendeu aos encantos da vida em sala de aula. É vegana há 11 anos, adora coisas fofinhas e gatinhos.

Larissa Chaves de Souza é graduanda em Letras na Univille (Língua Portuguesa e Inglesa). Apaixonada pelas gramáticas e amante dos livros. 

Mariana Coutinho é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille. Ama a comunicação e as relações interpessoais e tenta fazer da vida uma trajetória rica em experiências e aprendizados.  

Naara Éldany: graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa). Musicista, narniana e poeta.

Ao longo do terceiro bimestre da disciplina de Literatura Infantil Juvenil, a professora dra. Berenice Rocha Zabbot Garcia desenvolveu uma atividade com os acadêmicos do 2º ano de Letras, voltada para a criação de textos híbridos a partir da análise de obras infantis juvenis previamente selecionadas. Consistente em uma resenha crítica da obra e uma leitura comparativa analisando sua relação com contos de fada, o resultado de um dos trabalhos desenvolvidos pode ser conferido abaixo!

“Mamãe, e o meu beijo?”

Ana Luíza Busnardo
Beatriz Maria Eichenberg
Flavia Schlogl
Gabrielly Pazetto
Luana Simão
Tamara Gericke
Thiago Túlio Pereira

Um beijo é, sem dúvidas, um dos maiores atos de afeto que dois seres podem demonstrar, um em relação ao outro. Seja de amor, amizade ou companheirismo, deixar de recebê-lo é um tanto quanto desconfortável, e é isso que acontece na obra "O Beijo", da escritora e ilustradora Valérie D’Heur: uma pequena ave, após receber instruções de sua mãe para mais um dia, espera por um beijo de despedida, mas a mãe, muito apressada, não o dá.
É interessante observar como a autora traz a perspectiva da contemporaneidade para o texto, pois o narrador-personagem fala sobre sua mãe: “Estava muito apressada hoje”, manifestando, assim, a realidade de muitos pais e mães que esquecem diariamente dos filhos-aves.
Após ter seu beijo esquecido, a pequena ave vai em busca de algum outro animal que possa lhe beijar, e passa pela girafa, a avestruz, um felino, mas acaba mesmo é criando laços com o rinoceronte, o que é bastante interessante, pois a figura do rinoceronte é a personificação da força e também dos laços familiares, já que a fêmea do rinoceronte permanece com o filhote por vários anos.
Para coroar a composição, a autora traça ilustrações que brincam com tons pastéis e com o ambiente da savana, fazendo da experiência do leitor ainda mais intensa e divertida.




D’HEUR, Valérie. O Beijo. São Paulo: Brinque-Book, 2003.

Além da resenha crítica, os acadêmicos desenvolveram um blog com diversos textos apontando semelhanças entre a obra lida e contos de fada, além de trazerem aspectos da obra para a contemporaneidade. O blog pode ser acessado clicando na imagem abaixo!


Ana Luíza Busnardo é estudante de Letras (Português e Inglês), curte rock, fã de The Beatles, adora cachorros e fala Top!

Beatriz Maria Eichenberg é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille. Vive em meio à música e compõe canções que falam do coração.

Flávia Schlögl é estudante de Letras – Língua Portuguesa e Língua Inglesa e professora de Inglês em uma escola de idiomas. Está sempre viajando por uma série, um livro ou por uma música, mas ela sabe que o coração da vida é bom.

Gabrielly Pazetto é graduanda em Letras (Língua Porutuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e faz dos livros que lê barcos de viagens inesquecíveis.

Luana Simão é graduanda em Letras na Univille (Língua Porutuguesa e Inglesa) e divide seu tempo vago lutando em batalhas épicas, governando reinos distantes e viajando pelo hiperespaço.

Tamara Gericke é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, paulista, se vendeu na primeira mordida de chineque com farofa, prolixa, não sabe sintetizar as ideias, levou, por exemplo, dois dias pra escrever isso.

Thiago Túlio Pereira é Professor de Geografia e graduando em Letras pela Univille. Ama ler o Mundo através dos livros, das observações e das viagens, e escrever sobre essas leituras.

Por Dhuan Luiz[1]

Tomar fôlego.
Para tudo na vida necessitamos tomar fôlego.
Não menos seria nessa reta final de mais um ano letivo.
Não menos seria para escrever sobre um grande escritor que trabalhava a palavra em toda sua essência poética.
Bartolomeu Campos de Queirós, escritor brasileiro, nascido em 1944 em Belo Horizonte. Sinto-me mal em descrevê-lo assim: escritor brasileiro, nascido em... Meu íntimo induz-me a descrevê-lo alquimista das palavras, no qual a magia transita entre a prosa e a poesia, rompendo qualquer conceito acabado que as distinguisse, o mundo das palavras é grande, e se permitirmos, residem ambas em uma mesma dimensão.
Brasileiro? Sim, orgulho pra nós. Porém é bem verdade que sua prosa poética cabe em qualquer canto do mundo onde houver imaginação e sensibilidade para absorver sinestesicamente a palavra.
Bartolomeu, ou Bartô para os íntimos, e sinto-me assim, íntimo, desde que a lâmina afiada de sua prosa cantou sob minha paixão pela leitura. Sua escrita é destinada a jovens e crianças, e não há nada como preservar esse brilho dentro de nós. Ele mesmo, velho jovem homem, preservava esse brilho, não somente dentro de si como também exteriorizava através de sua escrita autobiográfica, e nela sentimos a nostalgia das coisas que nunca vivemos, mas que semelhanças existem de nossas saudades.
Bartô compreendia a palavra como ácida, bomba ocidental sobre o firmamento do oriente, tal como a compreendia como o afago de uma mãe, e os olhos de uma criança.
Tomar fôlego.
Para tudo na vida necessitamos tomar fôlego, ele dizia.
Injusto da sua parte dizê-lo, quando textos como o que segue insiste em tirar-nos, com excelência, todo o fôlego que nos resta.
“Sem o colo da mãe eu me fartava em falta de amor. O medo de permanecer desamado fazia de mim o mais inquieto dos enredos. Para abrandar minha impaciência, sujeitava-me aos caprichos de muitos. Exercia a arte de me supor capaz de adivinhar os desejos de todos que me cercavam” (Vermelho Amargo, 2011).

PS: Uma frase define um pouco dos sentimentos que transitaram sobre mim ao decorrer de nossas aulas de LIJ esse ano:
“Quantos anos você teria se não soubesse sua idade?” Confúcio.


[1] Acadêmico do 2º ano de Letras na Universidade da Região de Joinville. Texto produzido para a disciplina de Literatura Infantil Juvenil (LIJ), ministrada pela Profª Dra Sueli de Souza Cagneti, neste ano com contribuições do estagiário Silvio Leandro da Silva do Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade, prolijiano e pesquisador de Bartolomeu Campos de Queirós.

Por Talita Fernanda Silva Bolduan

         É impossível se pensar literatura infantil juvenil atualmente sem Lobato. Tanto mais inimaginável se torna, pensar nessa literatura sem as incríveis facetas de Emília. Sim, Emília, a clássica personagem de Lobato que, ora apresenta o lado mais belo do ser humano, ora apresenta a inclinação dita natural, que o ser humano tem para o mal.
         Não se pode pensar Emília a partir de apenas uma obra de Lobato visto que a personagem passa por diversas transformações ao deixar de ser boneca para ser gente. Lobato inicia Reinações de Narizinho com a personagem da Emília como uma boneca que, tal como acontece com os bebês, é carregada pela mãe (Narizinho) e que, ao correr das páginas do livro, torna-se uma pessoa. É importante notar que tal transformação só acontece, a partir do instante que Emília começa a falar. Até então, ela era apenas uma boneca, carregada por Narizinho para todos os lugares. Conforme Emília mesmo fala, ela nasceu feia como uma bruxa e muda como um peixe (Memórias de Emília, p. 12, 11.ed., Editora Brasiliense).
         Ao decorrer das demais obras de Lobato, Emília deixa de ser aquela criança mandona que apenas pensa em si mesma, interesseira, e passa a ser uma garota com diversas facetas, passando, inclusive, até pelo papel maternal, quando a boneca tem que cuidar das crianças, no livro A Chave do Tamanho. Vale lembrar, também, que Emília passou inclusive, pelo processo de divórcio. Tais processos contidos na personagem faz com que o leitor pense em Emília como uma grande metáfora humana, a qual precisa passar pelo maior número de transformações possíveis para que enfim, possa se tornar gente.
Quando Emília promove a reforma da natureza, na obra de mesmo título, a boneca já apresenta certo nível de maturidade, pois, ao contrário de sua amiga Rã, todas as mudanças que Emília propõe são com base em melhorias para ela ou para os animais. Emília briga com a amiga do Rio de Janeiro, afirmando que não estava brincando com a Natureza, mas sim propondo uma nova forma das coisas funcionarem de modo a trazer o progresso para o País.
         Nas memórias de Emília, Lobato volta a encantar seus leitores, principalmente quando afirma, através de Emília, que nenhuma memória é totalmente real. Algumas coisas podem ser verdade, no entanto outras podem ter sido criadas conforme convinha ao autor das tais memórias. Outra questão importante que a personagem coloca, é em relação à verdade. Emília diz que a verdade não passa de uma mentira tão bem construída, de modo que as pessoas não desconfiem dela.
         Na Chave do Tamanho, segundo o que se pôde observar em sala, Lobato coloca Emília como uma heroína. A boneca vai buscar a chave da guerra, para que, enfim, a segunda guerra mundial parasse. As intenções da boneca são as melhores, revelando o quanto sua natureza pode ser boa. Em outra passagem, Emília afirma que tem coração e que não é o fato dela ser, originalmente, uma boneca, que faz com que ela não tenha sentimentos.
         Ora atrapalhada, ora certa, ora confusa, ora indignada, quase sempre questionadora, Lobato mostra a seus leitores, através da personagem de Emília, o quanto o ser humano pode ser complicado. Defendo fielmente a teoria de que ninguém é de todo mau, nem de todo bom. Compreendo que muitos de nós realmente procuramos sermos bons, no entanto, sem que seja justificável, tal característica pode ser substituída facilmente pelo mal. Não me considero totalmente boa, mas me recusaria a dizer que quero causar mal a alguém. Da mesma forma entendo Emília e, talvez, esta seja justamente uma característica dessa personagem: todos têm a liberdade de vê-la conforme sua própria forma de pensar, ou suas crenças.

*Texto produzido para a disciplina do 2º ano de Letras/Univille "Literatura Infantil Juvenil", ministrada pela profª Dra Sueli de Souza Cagneti.
Por Raquel Selner

         Foi-me permitido redigir meu texto a lápis. Melhor assim. Gosto de ter o direito de chamar meu rascunho de arte final, de voltar atrás quando acho que devo, de entregar a versão definitiva do que nunca foi ensaiado.
         Emília é esse rascunho bem feito, é esse ensaio com plateia. Tia Nastácia remendou o mundo todo na indomável boneca que aprendeu a ser gente. Lobato envolveu todos os seus leitores nessa realidade que desconhece o impossível. Enquanto há pessoas que ainda estão ensaiando sua vida, Lobato criou o roteiro de várias outras. Emília teve uma atuação digna de aplausos.
         Mas não quero ser hipócrita: Emília me incomoda. Afinal, para que serve a Literatura Infantil se não for para incomodar aqueles que se bastam? Pois é, Emília me incomoda - me irrita, até. Boneca metida a sabida. Pois é muito bem feito que leve lambada e seja forçada a voltar atrás.
         Sorte que meu texto está a lápis. Ainda dá tempo de eu voltar atrás no que escrevi no parágrafo anterior. Passar a borracha. Ela está a poucos centímetros de minha mão. Mas não quero, não vou apagar o que está feito. Não quero me dar ao luxo do arrependimento.
         Talvez seja por isso mesmo que Emília me incomoda. Porque ela é feito eu: não se arrepende, só se redime. Quando li a Emília, tive raiva porque soube que aquela era eu em muitas situações. No livro que li, “A Reforma da Natureza”, a boneca fez uma porção de mudanças naquilo que ela achava besta na natureza. Pois é, eu também já tive vontade de mudar muitas coisas no mundo tendo como parâmetro único o meu referencial. Dancei.
         E a raiva vem daonde? Do meu reflexo. A Literatura é um espelho que exalta nossas maiores qualidades, mas também evidencia os defeitos. E essa coisa da Emília ser revoltada e metida a sabe-tudo é defeito? Depende da leitura - ou melhor, do leitor. Sempre considerei como defeitos, MEUS defeitos.
         Que bom que na vida temos Donas Bentas para nos guiar e nos exortar quanto àquilo que ainda não aprendemos a enxergar!

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Texto produzido para a disciplina Literatura Infantil e Juvenil, do 2º ano de Letras, da profª Dra Sueli de Souza Cagneti.

Por Crislaine Fernanda Nazário

Quando se fala em livros e na mudança que eles podem causar na vida de uma pessoa, me vem à cabeça a frase de Caio Graco: “Os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.” Todas as chaves para abrir o pensamento podem estar nas frases de um livro. E é dentro desse contexto que se encaixa a trama de Dai Sijie, cineasta e escritor chinês, que se exilou na França em 1984, tendo ele mesmo sobrevivido à estratégia da reeducação de Mao Tsé-tung.
O livro “Balzac e a costureirinha chinesa”, traduzido por Vera Lúcia dos Reis, em 168 páginas, mostra a realidade vivida quando o líder chinês lança uma companha que mudaria radicalmente a vida do país: a Revolução Cultural e a opressão do Exército Vermelho.
O narrador da história e seu amigo Luo são levados aos campos de reeducação da montanha da Fênix Celestial para tentar de alguma forma sobreviver ao trabalho pesado e pouca comida. “Um dia, de madrugada, só de pensar nos baldes que nos esperavam, perdemos a vontade de levantar. (...) Eram quase nove horas; o galo, impassível, bicava a comida fictícia, quando, Luo teve uma idéia genial.” (p. 16)
Nas páginas que se seguem podemos frequentemente nos questionar quem realmente seria reeducado. Luo se destaca na arte de contar histórias, pouco reconhecida, mas que encontra espaço na Fênix Celestial. “A montanha da Fênix Celestial ficava tão afastada da civilização que a maioria das pessoas nunca havia visto um filme sequer em suas vidas, nem sabia o que era cinema. De vem em quando, Luo e eu contávamos alguns filmes ao chefe, que chegava a babar, pedindo mais.” (p. 19)
Entre todos os acontecimentos que podiam esperar, uma mala de livros proibidos pela revolução faz com que descubram o prazer pela leitura, o sonhar e o pensar. “Repentinamente, como um intruso, o livrinho me falava do desertar do desejo, dos impulsos, das pulsões, do amor, de todas essas coisas sobre as quais jamais ouvira falar.” (p. 50)
Descobrem um sentimento de uma grandeza inexplicável: o amor. “...logo de manhã ele tinha ido á casa da Costureirinha para lhe contar a bonita história de Balzac.” (p.50)
Os dois adolescentes se apaixonam pela mais bela da aldeia, filha do alfaiate. A ingênua Costureirinha transforma e é transformada pelas palavras de Balzac. “(...) Estou certo de que com isso ela se tornaria mais refinada, mais educada.” (p.53) “Ela estava metamorfoseada, sonhadora. Levou algum tempo para voltar a si, a pôr os pés na terra. (...) me disse que o contato das palavras de Balzac sobre sua pele lhe traria felicidade e inteligência...” (p. 53) De lagarta a borboleta... Fica para a Costureirinha a difícil tarefa de escolher entre três amores, onde um deles é a liberdade.
O fascinante nesta obra é a linguagem que nos leva a sentir a mesma emoção da leitura do primeiro livro. É recomendado para todos os que apreciam uma boa leitura, mas principalmente para aqueles que nada apreciam...

FICHA TÉCNICA:

Obra: Balzac e a Costureirinha Chinesa
Autor: Dai Sijie
Tradução: Vera Lúcia dos Reis
Editora: Alfaguara
Ano: 1999

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Resenha produzida para a disciplina "Práticas de Leitura e Escrita" (1° ano de Pedagogia) da professora Sueli Cagneti.
Por Ana Paula Kinas Tavares

Na maciez da capa prevejo a asperidade da leitura. As primeiras palavras me soam confusas e dispersas. É no virar das primeiras folhas que me cubro de preocupações. Paro um instante, fecho o livro, quero a paz da minha vida “real”, mas já não posso me livrar da narrativa. Penso no escritor, aquele sujeito distante que me escreveu tais letras sem me conhecer, e assim mesmo me prende, bate-me, e me tira o ar. Volto à última página lida, releio e prossigo. Meu coração acelera e a história vai se criando com minha leitura. Vejo meus pais, meu namorado, até uma professora da escola primária. Ouço Mozart como plano de fundo do choro do meu irmão caçula. Fico atraída com o cheiro de bolo de fubá, entro na minha casa da infância, deito no colo do meu avô. Ando de bicicleta, caio, cato a ferida dias depois. Durmo na rede, passeio de barco, dirijo um fusca. Preciso decidir entre a estrada da família e a da aventura, peço ajuda. E uma lágrima cai na página 26.
Quero parar, libertar-me da história, das lembranças, reflexões e sonhos. Sinto-me por ora marionete dessas frases unidas. E num golpe de um ponto de interrogação, tomo as rédeas. Agora sou eu quem determina o percurso e o destino, penso eu. As portas se abrem aos montes, nas janelas curiosos e começo a temer meu destino. Leio vagarosamente cada palavra, receosa de mal compreender e acabar caindo numa armadilha gramatical. A mão de minha melhor amiga aparece no começo de um capítulo e o medo vai cessando. Devoro as páginas, dou risadas. Tenho vontade de escrever, como se o livro fosse uma carta e eu precisasse responder. Em voz alta dito ao vento. Pauso meu texto para seguir com minha vida lida.
Em outra pausa, imagino o fim da história. Penso em abrir nas últimas páginas e matar a curiosidade, só então me dou conta de que não há fim. O escritor não sabe que fim dar, os mais sábios sabem que não têm esse poder. Os escritos não estão finalizados, vão se completando quando me tocam, quando eu os leio e os sinto. E como sinto, sinto tanto. As páginas vão passando, o livro chegando ao fim e meu coração aperta. Lágrimas medrosas escorrem pelo meu rosto, embaçam meus olhos e atrasam o fim da leitura. Talvez seja de propósito essa emoção nos instantes finais, não só para que a história se tatue em mim, mas para que se prolongue. Eu mesma não quero que acabe, quero a proteção do toque da capa, a ingênua ideia de que é só ficção e ficará tudo bem.
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Texto produzido para a disciplina "Literatura Infatil e Juvenil" (2° ano de Letras Licenciatura) da professora Sueli Cagneti , a partir da proposta de ensaio do filme "A história sem fim", já resenhado e ensaiado neste blog no link abaixo.
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