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Sônia Regina Biscaia Veiga
Como saber quando um campo de conhecimento muda? Para Néstor Canclini, os estudos sobre o processo de hibridização auxiliam a repensar as áreas de conhecimento, pois entender a presença do híbrido modifica o modo de pensar áreas em caixas isoladas.

Com o intuito de tentar compreender como se dá alguns processos culturais híbridos, tomo como exemplo o livro Fumaça, escrito por Antón Fortes e ilustrado por Joanna Concejo, livro galego, publicado no Brasil pela Editora Positivo e traduzido por Marcos Bagno.

Para entender uma literatura como híbrida pressupõe-se que nela você não encontrará um conjunto de traços fixos. A sua identidade enquanto arte muda, no sentido que mescla áreas diferentes e até mesmo um público diferente, devido à fusão de culturas. É necessário conhecer as formas de situar-se em meio à heterogeneidade para entender os processos do híbrido.

Fumaça, à primeira vista, aparenta ser um livro “encaixado no gênero literatura infantil”, pois o seu dito visualmente se destaca perante o dito escrito. Com formato maior do “livro para adultos”, com ilustrações em todas as páginas e com poucas palavras escritas ele se encaixa no padrão do livro vendido para crianças. Eu o comprei, inclusive, num stand em que havia outros livros de literatura infantil na mesma prateleira.

No entanto trata-se de um livro com uma temática forte, vamos percebendo ao decorrer da leitura tanto escrita quanto visual que a história se passa num cenário de guerra, num campo de concentração e temos como plano final as câmaras de gás. Apesar disso, em nenhum momento o escritor escreve segunda guerra mundial, holocausto, judeus, campo de concentração ou câmara de gás. Para se entender sobre o que realmente o livro aborda é necessário ter um conhecimento prévio sobre o que foi a Segunda Guerra Mundial. Quem nunca ouviu falar em Holocausto não atingirá o nível de compreensão proposto pelo autor.

Trata-se então de um tema adulto camuflado numa linguagem infantil. Pode-se pensar que talvez por ser um livro europeu, as crianças de lá tenham uma relação mais próxima com o tema da guerra, dessa forma se contextualizam mais cedo com esse cenário. Mas sendo ou não sendo assim, não vejo como um livro possível de ser contado para crianças pequenas, talvez como uma experiência para ver o que elas entenderiam quando o guarda manda os meninos tirarem as roupas e entrarem na casa da chaminé. Porque para conhecedores do tema, ao virar das páginas já vai ficando óbvio qual o cenário do livro, mas quais ideias surgiriam de quem nunca estudou as grandes guerras ainda? É um aspecto também interessante para se pesquisar: o hibridismo de interpretações. Quais as possibilidades de pensamentos se nós já não conhecêssemos o óbvio?


Há também que se discutir o que podemos afinal considerar híbrido? Pode-se dizer que há um hibridismo presente no suporte e na linguagem utilizada, mas também a própria ilustração – belíssima por sinal, que foi o que me levou a comprar o livro – carrega elementos além do convencional. Iniciamos já na segunda e na terceira capa. O livro inicia e termina com ilustrações de fotografias antigas, possivelmente de pessoas e de famílias judias, anteriores ao holocausto. Como em álbuns antigos, as fotografias estão cobertas com uma espécie de papel seda. E esse papel aparece dobrado. Comumente trabalho com as minhas turmas de ensino médio com esse livro. E em todas as turmas que já o levei, ao abrir o livro, algum aluno diz, professora dobrou a página ali, quando respondo que é a própria ilustração assim, alguns precisam passar a mão no livro para ver que não é possível desdobrar a folha porque é um desenho. É algo que apenas ver com os olhos não é o suficiente.

Além disso em várias páginas tem rabiscos de caneta, que eles perguntam se alguma criança riscou meu livro e mais uma vez não acreditam que é da própria ilustração, “fala sério, professora isso aí foi uma criança que pegou uma caneta e um lápis de cor e começou a rabiscar teu livro quando a professora não estava perto”. Dessa forma, em todo o livro apresenta-se dois tipos de ilustração. Uma mais elaborada, se é que pode se assim dizer, com lápis aquarela, bem desenhada e contornada, a qual representa a vida das pessoas naquela situação. E outra que parece ter sido feito depois de impresso, como rabiscos, números e desenhos infantis retratando a interferência da criança, visto que o livro é todo narrado em primeira pessoa, com um menino contando seus dias. Por vezes, o enredo dessa narrativa se aproxima ao do romance “O menino do pijama listrado” de John Boyne, principalmente na cena final.

Há então além do híbrido do suporte escolhido para carregar uma temática pesada, o material utilizado na ilustração e o jogo que a ilustração faz trazendo a ideia de que houve uma interação prévia de um possível pequeno leitor que deixou sua marca no livro. Dar a ideia de que uma criança usou o livro como folha de papel, dessa forma o estragando traz uma ideia de proibido, de não ser o lugar para isso, de ter algo errado. Da mesma forma que a criança retratada na história, que em nenhum momento é dado um nome, porque não precisa, ela não é uma personagem de um livro, ela representa milhares de crianças que viveram aquela mesma vida, também não estava em seu lugar. E querer simplesmente desenhar, atividade própria da infância, é algo que virou proibido. Mas na vida real não ocorre o fim de um livro, mas sim milhões de fins.

O processo de hibridização surge a partir da criatividade, como aponta Canclini, no fundir de estruturas ou práticas sociais discretas para gerar novas estruturas, o que acaba por relativizar a noção de identidade. Podemos rotular este livro em um gênero específico e dele não mais sair? Para entender essa nova cultura é preciso aprender a procurar em novos lugares e até mesmo em não lugares, criando o novo.   

Sônia Regina Biscaia Veiga é graduada em Letras pela Univille, é contadora de histórias e atua como pesquisadora voluntária do PROLIJ

  

Fernanda Cristina Cunha
Há no homem moderno, como houve no homem ao longo de toda a história, a necessidade da imaginação para lidar com as situações angustiantes do ser, como as angústias das relações humanas e da finitude da vida. Se podemos dar uma justificativa para a existência do encantamento, da arte e da metafisica é a possibilidade de através delas encontrarmos um sentido à nossa existência e às nossas angústias.

Essa necessidade, como dito anteriormente, sempre existiu. Contudo, conforme Mocellim (2011) é a partir da obra de Max Weber que podemos compreender o movimento de desencantamento do mundo como um processo em que, por meio da religião, ao incorporar limites entre o espiritual e o profano, e da ciência, por considerar qualquer vertente do encantamento, irracional, resultou na desmagificação e perda de sentido da pratica do ser.

Esse movimento de desencantamento perdurou por conta da força do pensamento religioso, científico e tecnológico exercido sobre a sociedade contemporânea. Contudo, estes não foram capaz de dar fim ao anseio dos homens por encantamento. Em parte, pela incapacidade de lidarem com a angústia do propósito da vida, em parte, por limita-la. 

Em virtude disso, a volta dos elementos imaginativos na forma como construímos nossa visão de mundo, conceitua-se como reencantamento do mundo. Segundo Rocha (2014 p.3), o movimento de reencantamento do mundo pode ser definido como “a inversão do processo de desencantamento”.
A distinção do reencantamento, para o que existia antes do desencantamento, é de que esse movimento, se manifesta agora, aliado aos novos paradigmas da ciência. Ou seja, você não remove a ciência, mas inclui a magia a ela no processo de reencantamento.

Entretanto, esse movimento pode ser compreendido de diferentes formas e diferentes intensidades, seja na literatura, cinema, e tantas outras formas de expressão da arte. A partir da entrevista de Mia Couto concedida a Eliane Brum e Raquel Cozer em 2014, podemos observar que o movimento de reencantamento é lento. Isso fica em evidência diante a argumentação do escritor moçambicano de que o modelo de sociedade e pensamento atual impedem que vejamos o encantamento e o sagrado nas coisas.

O autor rememora também que as crianças trazem consigo uma espécie de tentação ao encantamento, uma vez que o interesse pela história do mundo a sua volta não é reduzido a apenas explicações racionais ou cientificas. E é diante a união dessa linguagem encantada, artística e poética, tão natural às crianças, à linguagem cientifica, racional e técnica, tão enraizada na contemporaneidade, que o presente ensaio busca aprofundar o hibridismo dessa mescla no reencantamento do mundo, diante obras “A mãe que chovia” de José Luís Peixoto e “Fita verde no cabelo” de Guimarães Rosa.

O reencantamento do mundo como remédio para a angústia das relações humanas e da finitude da vida:

A hibridação do concreto, e científico com a magia e o metafisico é poeticamente experencializada na obra “A mãe que chovia”. Nela, um menino que, sendo filho da chuva, e com uma mãe tão importante e necessária ao mundo, tem de aprender, a duras penas, a partilhar com o mundo todo o seu cuidado e dedicação. E, principalmente, lidar com a saudade, angústia e tristeza nos momentos em que ela está ausente. Essa mãe por outro lado tendo um mar de obrigações vê-se compelida a se ausentar por longos períodos de seu filho, e com isso lida com sua própria tristeza, culpa e angústia.
Através desse percurso, entre o real, ou seja, os desafios das relações entre mãe e filho, e o metafísico, isto é, a natureza dessa relação.  O autor presenteia aos leitores uma lição de generosidade, empatia e amor. 


Podemos também enxergar percurso semelhante na obra “Fita verde no cabelo” de Guimarães Rosa.  A Chapeuzinho Vermelho, nesta obra de Guimarães Rosa, chama-se Fita Verde. E com pequenas semelhanças ao conto de Charles Perrault, cria uma atmosfera encantada ao longo das mais ou menos 30 páginas de narrativa. Contudo, esse encantamento vai dando espaço à realidade da natureza humana. Nossa Fita Verde precisa aprender a conviver com a dor das relações, da possível perda e com o luto quando por fim ela ocorre. A poesia e o encantamento da obra atrelada à menção da finitude da morte, gera, ainda que emocionalmente triste, um rememoramento de que a morte existe, e de que ela é uma das poucas certezas da condição humana.  

A representação poética, especialmente na literatura infantil, seja ela acerca da da finitude da morte, ou das relações familiares e sociais torna mais tangível a sensibilidade humana com relação às angústias da existência de ser.

O mundo, como um livro, pode ser explorado e decifrado. O espaço ao nosso redor possui um significado e cada paisagem conta uma história. Reduzir a realidade o nosso entorno ao âmbito científico é reduzir as realidades do qual podemos ter contato.  Viver apenas uma realidade seria insustentável, e por meio da literatura, religião, filosofia, arte, e tantos outros campos do saber temos acesso às mais diversas realidades. E, como rememora Duarte Junior, (1994, p. 94) “é indevido compará-las pretendendo-se a superioridade de uma em detrimento das outras”.

Fernanda Cunha é graduanda de Psicologia pela Univille. Atua como bolsista do Prolij e busca através dos livros que lê as longas caminhadas por dentro de si mesma.

Referências:

DUARTE JUNIOR, João Francisco. O que é Realidade. Brasiliense: São Paulo, 1994.

MOCELLIM, Alan Delazeri. O Reencantamento do Mundo: considerações preliminares. 2011. Disponível em: . Acesso em: 29 jul. 2018.

MIA COUTO - Pelo reencantamento do mundo. Fronteiras do Pensamento. São Paulo: Telos Cultural, 2014. Disponível em: “https://youtu.be/zyqnqvGLB3w”. Acesso em: 29 jul. 2018.

PEIXOTO, José Luís. A Mãe Que Chovia. Ilustração: Daniel Silvestre da Silva. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2016.

ROCHA, Emmanuel Ramalho de Sá. Expressões literárias do reencantamento do mundo: Promethea de Alan Moore. 2014. Disponível em: . Acesso em: 29 jul. 2018.

ROSA, G. Fita Verde no Cabelo: nova velha história. Ilustrações: Roger Mello. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.





Lara Cristina Victor
O Prolij está desenvolvendo um projeto de pesquisa que versa sobre a hibridação na literatura infantil e juvenil, e nesse processo, os pesquisadores voluntários fizeram textos ensaísticos sobre obras ou produções artísticas que trazem essa proposta. Confira um dos ensaios a respeito do filme "O quarto de Jack"!
O processo de hibridação vem sendo percebido desde épocas muito antigas de desenvolvimento histórico e este, ampliou-se para diversos outros campos de aplicação, modificando e transformado o meio social e cultural. O que não se tem de forma clara, são os impactos e consequências que este processo provocou e vem provocando nas mais diversas relações, até mesmo por conta de seu imensurável crescimento e amplitude nos últimos anos.
E por falar em relações, nos seus mais diversos contextos, não se pode deixar de falar da questão cultural, assim tratado por Vigotski, por desenvolvimento histórico-cultural. Nesse sentido, o processo de hibridação ganha forma e destaca-se de acordo com a cultura, algo que é passado de geração em geração, em um processo de ensino-aprendizagem, sempre compreendendo o funcionamento do todo. Este processo é visto nas questões linguísticas (gírias, por exemplo), modo de se vestir, corte de cabelo, etc. Sendo assim, pode-se afirmar que a forma como as pessoas vivem, como se sentem, como reagem às mais diversas situações, e como principalmente estão acostumadas a viver, dizem respeito a como elas foram ensinadas, e como foi apresentado o mundo a elas.
Canclini menciona sobre o surgimento da hibridação da criatividade individual e coletiva, não só no campo das artes, mas também na vida cotidiana e no desenvolvimento tecnológico. É nesse momento que aparece o termo “reconversão”, utilizado para explicar as estratégias mediante a um determinado “avanço” ou melhoria das técnicas utilizadas em detrimento a determinada demanda daquele setor. Como por exemplo um pintor se converter em designer, operários reformularem sua cultura de trabalho ante as novas tecnologias produtivas, burguesias nacionais adquirirem os idiomas e outras competências necessárias em vista do crescimento econômico em circuitos transnacionais. São por essas e outras razões, que Canclini sustenta que “o objeto de estudo não é a hibridez, mas, sim, os processos de hibridação”. Nesse sentido, faz-se necessário a compreensão desse processo em relação a identidade, compreender que não é possível analisar uma ação ou traços fixos de um povo sem observar o todo, ou seja, a história de formação dessa cultura, juntamente com os diversos elementos de diferentes épocas que fizeram parte desse processo.
Seguindo esse discurso, uma brilhante obra que abarca sobre relações culturais e de vivência e que encaixa perfeitamente como exemplo, é o filme “O quarto de Jack”, lançado em 2015, ganhador do Prêmio Globo de Ouro. Trata-se de uma mulher sequestrada e confinada em um quarto isolado e minúsculo e que dá à luz à um menino, que é criado dentro desse quarto até seus cinco anos de idade. Claramente, a visão de mundo de Jack é distorcida e limitada, a ponto de não saber o que é uma árvore (e que ela existe de verdade), e achar que o quarto é o mundo inteiro e que fora dele não há mais nada. A forma dele de viver, de sentir e de reagir, é desenvolvida para viver unicamente dentro do quarto, quando ele finalmente sai de lá, o seu primeiro e único desejo: voltar para o quarto. Afinal, foi ali que ele aprendeu a viver, foi de acordo com o clima do quarto que ele aprendeu a se vestir, conforme o tamanho deste, que ele aprendeu a brincar, estabelecendo contato apenas com sua mãe, ou seja, ele não aprendeu a estabelecer relações com outras pessoas.
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              Nessa perspectiva histórica, entende-se que os processos acontecem pela significação, àquilo que dá sentido à ação ou objeto. Como foi falado no processo de reconversão, este se faz verdadeiro e tem um significado, porque as técnicas do pintor estão ultrapassadas e já se apresentam novos recursos – mais sofisticados – que podem atender a demanda com mais facilidade e rapidez. E porque as novas tecnologias são mais eficientes e podem atender a grande demanda do mercado, sendo assim, os operários se rearticulam para dar espaço a estes avanços. De outro modo, se não fossem apresentadas essas reconversões como algo necessário e promissor, se as técnicas do pintor fossem as mais eficazes e modernas naquele momento, não faria sentido acontecer a reconversão. Adaptando esse pensamento para o filme “O quarto de Jack”, se o conhecimento de Jack se limita apenas para dentro do quarto, não faria sentido para ele apresentar-lhe outras pessoas para socialização. Se no momento em que o sequestrador chega no quarto, sua mãe esconde Jack dentro do armário, não faria sentido para ele cumprimentar as pessoas quando chegam no mesmo local em que ele está. E se dentro do quarto tem aquecedor para dias frios, não faria sentido apresentar-lhe a existência do sol, afinal: “o que é o sol?”.
      Sendo assim, a amplitude histórica do termo “híbrido”, juntamente com o pensamento Vigostkiano servem de sustento para explicar processos psicológicos, sociais e culturais do filme “O Quarto de Jack”. Além de provocar uma rica discussão sobre as relações de identidade, experiências, culturas, dentre outros processos históricos e culturais.

Lara Cristina Victor é aluna do curso de Psicologia na Univille. Atua como bolsista no Prolij e vê em cada criança um pouquinho de si mesma.






Por Ana Kita

        O livro “A Escrava Isaura”, de Bernardo Guimarães, apesar de ter tido sua primeira publicação em 1875, toca e faz refletir muito leitor do século XXI. Seu romantismo encanta e pinta cada cena e personagem com precisão de detalhes levando o leitor ora a belos cenários, ora a fortes questões do período escravocrata no Brasil; seu caráter abolicionista não apenas marca uma época e as crueldades aceitas perante a lei e aquela sociedade, como faz refletir situações ainda presentes em nossa sociedade. Vejamos uma fala de Geraldo, advogado amigo do justo Álvaro:
“... esses excessos e abusos devem ser coibidos; mas como poderá a justiça ou o poder público devassar o interior do lar doméstico e ingerir-se no governo da casa do cidadão? Que abomináveis e hediondos mistérios, a que a escravidão dá lugar, não se passam por esses engenhos e fazendas, sem que, já não digo a justiça, mas nem mesmo os vizinhos deles tenham conhecimento?”
        Não cabe esse discurso perfeitamente às situações de violência doméstica, a mulheres e filhos mantidos em cárcere privados, a idosos violentados por seus entes? Embora hoje a lei seja mais firme e a posição da sociedade seja como a do personagem fictício Álvaro, há ainda muitos Leôncios escondidos cometendo as piores atrocidades contra a vida humana. Mesmo a discussão sobre liberdade tão forte e bem expressa no livro permeia nossas preocupações perante a tecnologia, por exemplo.         Sinto-me ainda na necessidade de abordar o tema morte explorado repetidamente, ainda que romantizado e delicadamente. A morte natural, pela idade avançada, dos pais de Leôncio e a morte por tanto sofrimento da mãe de Isaura, embora significativos para o enredo da narrativa, não chegam aos pés – na força do tema – do fim do vilão e dos pensamentos dolorosos da sensível protagonista. Ambos por não verem saída digna em suas provações, vêem a morte como solução para, a inalcançável em vida, tranquilidade. A pureza da alma de Isaura e seus bons sentimentos para com seu pai não lhe permitem cometer aquele que lhe parecia o único remédio, já Leôncio não pensa duas vezes em tirar sua vida para se livrar da humilhação da miséria e de pedir a caridade daqueles a quem desejava se vingar.           
        Por fim, como amante da Literatura de qualidade, peço atenção para a habilidade de Bernardo Guimarães ao fazer recortes temporais e prender o leitor nesta narrativa que linearmente seria bastante simples. A destreza do autor ao avançar no tempo e depois abrir um capítulo em meio a uma situação de conflito, justificando a pausa com as explicações dos eventos antecedentes, e a sutileza em se colocar como narrador que acompanha o leitor pelos cenários, pelas cidades e até a alma dos personagens. Genial clássico a se preservar como obra de qualidade a ser referenciada e como retrato de um tempo com o qual ainda temos muito a aprender.


Por Talita Fernanda Silva Bolduan

         É impossível se pensar literatura infantil juvenil atualmente sem Lobato. Tanto mais inimaginável se torna, pensar nessa literatura sem as incríveis facetas de Emília. Sim, Emília, a clássica personagem de Lobato que, ora apresenta o lado mais belo do ser humano, ora apresenta a inclinação dita natural, que o ser humano tem para o mal.
         Não se pode pensar Emília a partir de apenas uma obra de Lobato visto que a personagem passa por diversas transformações ao deixar de ser boneca para ser gente. Lobato inicia Reinações de Narizinho com a personagem da Emília como uma boneca que, tal como acontece com os bebês, é carregada pela mãe (Narizinho) e que, ao correr das páginas do livro, torna-se uma pessoa. É importante notar que tal transformação só acontece, a partir do instante que Emília começa a falar. Até então, ela era apenas uma boneca, carregada por Narizinho para todos os lugares. Conforme Emília mesmo fala, ela nasceu feia como uma bruxa e muda como um peixe (Memórias de Emília, p. 12, 11.ed., Editora Brasiliense).
         Ao decorrer das demais obras de Lobato, Emília deixa de ser aquela criança mandona que apenas pensa em si mesma, interesseira, e passa a ser uma garota com diversas facetas, passando, inclusive, até pelo papel maternal, quando a boneca tem que cuidar das crianças, no livro A Chave do Tamanho. Vale lembrar, também, que Emília passou inclusive, pelo processo de divórcio. Tais processos contidos na personagem faz com que o leitor pense em Emília como uma grande metáfora humana, a qual precisa passar pelo maior número de transformações possíveis para que enfim, possa se tornar gente.
Quando Emília promove a reforma da natureza, na obra de mesmo título, a boneca já apresenta certo nível de maturidade, pois, ao contrário de sua amiga Rã, todas as mudanças que Emília propõe são com base em melhorias para ela ou para os animais. Emília briga com a amiga do Rio de Janeiro, afirmando que não estava brincando com a Natureza, mas sim propondo uma nova forma das coisas funcionarem de modo a trazer o progresso para o País.
         Nas memórias de Emília, Lobato volta a encantar seus leitores, principalmente quando afirma, através de Emília, que nenhuma memória é totalmente real. Algumas coisas podem ser verdade, no entanto outras podem ter sido criadas conforme convinha ao autor das tais memórias. Outra questão importante que a personagem coloca, é em relação à verdade. Emília diz que a verdade não passa de uma mentira tão bem construída, de modo que as pessoas não desconfiem dela.
         Na Chave do Tamanho, segundo o que se pôde observar em sala, Lobato coloca Emília como uma heroína. A boneca vai buscar a chave da guerra, para que, enfim, a segunda guerra mundial parasse. As intenções da boneca são as melhores, revelando o quanto sua natureza pode ser boa. Em outra passagem, Emília afirma que tem coração e que não é o fato dela ser, originalmente, uma boneca, que faz com que ela não tenha sentimentos.
         Ora atrapalhada, ora certa, ora confusa, ora indignada, quase sempre questionadora, Lobato mostra a seus leitores, através da personagem de Emília, o quanto o ser humano pode ser complicado. Defendo fielmente a teoria de que ninguém é de todo mau, nem de todo bom. Compreendo que muitos de nós realmente procuramos sermos bons, no entanto, sem que seja justificável, tal característica pode ser substituída facilmente pelo mal. Não me considero totalmente boa, mas me recusaria a dizer que quero causar mal a alguém. Da mesma forma entendo Emília e, talvez, esta seja justamente uma característica dessa personagem: todos têm a liberdade de vê-la conforme sua própria forma de pensar, ou suas crenças.

*Texto produzido para a disciplina do 2º ano de Letras/Univille "Literatura Infantil Juvenil", ministrada pela profª Dra Sueli de Souza Cagneti.
Por Raquel Selner

         Foi-me permitido redigir meu texto a lápis. Melhor assim. Gosto de ter o direito de chamar meu rascunho de arte final, de voltar atrás quando acho que devo, de entregar a versão definitiva do que nunca foi ensaiado.
         Emília é esse rascunho bem feito, é esse ensaio com plateia. Tia Nastácia remendou o mundo todo na indomável boneca que aprendeu a ser gente. Lobato envolveu todos os seus leitores nessa realidade que desconhece o impossível. Enquanto há pessoas que ainda estão ensaiando sua vida, Lobato criou o roteiro de várias outras. Emília teve uma atuação digna de aplausos.
         Mas não quero ser hipócrita: Emília me incomoda. Afinal, para que serve a Literatura Infantil se não for para incomodar aqueles que se bastam? Pois é, Emília me incomoda - me irrita, até. Boneca metida a sabida. Pois é muito bem feito que leve lambada e seja forçada a voltar atrás.
         Sorte que meu texto está a lápis. Ainda dá tempo de eu voltar atrás no que escrevi no parágrafo anterior. Passar a borracha. Ela está a poucos centímetros de minha mão. Mas não quero, não vou apagar o que está feito. Não quero me dar ao luxo do arrependimento.
         Talvez seja por isso mesmo que Emília me incomoda. Porque ela é feito eu: não se arrepende, só se redime. Quando li a Emília, tive raiva porque soube que aquela era eu em muitas situações. No livro que li, “A Reforma da Natureza”, a boneca fez uma porção de mudanças naquilo que ela achava besta na natureza. Pois é, eu também já tive vontade de mudar muitas coisas no mundo tendo como parâmetro único o meu referencial. Dancei.
         E a raiva vem daonde? Do meu reflexo. A Literatura é um espelho que exalta nossas maiores qualidades, mas também evidencia os defeitos. E essa coisa da Emília ser revoltada e metida a sabe-tudo é defeito? Depende da leitura - ou melhor, do leitor. Sempre considerei como defeitos, MEUS defeitos.
         Que bom que na vida temos Donas Bentas para nos guiar e nos exortar quanto àquilo que ainda não aprendemos a enxergar!

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Texto produzido para a disciplina Literatura Infantil e Juvenil, do 2º ano de Letras, da profª Dra Sueli de Souza Cagneti.
Por Ana Paula Kinas Tavares

Na maciez da capa prevejo a asperidade da leitura. As primeiras palavras me soam confusas e dispersas. É no virar das primeiras folhas que me cubro de preocupações. Paro um instante, fecho o livro, quero a paz da minha vida “real”, mas já não posso me livrar da narrativa. Penso no escritor, aquele sujeito distante que me escreveu tais letras sem me conhecer, e assim mesmo me prende, bate-me, e me tira o ar. Volto à última página lida, releio e prossigo. Meu coração acelera e a história vai se criando com minha leitura. Vejo meus pais, meu namorado, até uma professora da escola primária. Ouço Mozart como plano de fundo do choro do meu irmão caçula. Fico atraída com o cheiro de bolo de fubá, entro na minha casa da infância, deito no colo do meu avô. Ando de bicicleta, caio, cato a ferida dias depois. Durmo na rede, passeio de barco, dirijo um fusca. Preciso decidir entre a estrada da família e a da aventura, peço ajuda. E uma lágrima cai na página 26.
Quero parar, libertar-me da história, das lembranças, reflexões e sonhos. Sinto-me por ora marionete dessas frases unidas. E num golpe de um ponto de interrogação, tomo as rédeas. Agora sou eu quem determina o percurso e o destino, penso eu. As portas se abrem aos montes, nas janelas curiosos e começo a temer meu destino. Leio vagarosamente cada palavra, receosa de mal compreender e acabar caindo numa armadilha gramatical. A mão de minha melhor amiga aparece no começo de um capítulo e o medo vai cessando. Devoro as páginas, dou risadas. Tenho vontade de escrever, como se o livro fosse uma carta e eu precisasse responder. Em voz alta dito ao vento. Pauso meu texto para seguir com minha vida lida.
Em outra pausa, imagino o fim da história. Penso em abrir nas últimas páginas e matar a curiosidade, só então me dou conta de que não há fim. O escritor não sabe que fim dar, os mais sábios sabem que não têm esse poder. Os escritos não estão finalizados, vão se completando quando me tocam, quando eu os leio e os sinto. E como sinto, sinto tanto. As páginas vão passando, o livro chegando ao fim e meu coração aperta. Lágrimas medrosas escorrem pelo meu rosto, embaçam meus olhos e atrasam o fim da leitura. Talvez seja de propósito essa emoção nos instantes finais, não só para que a história se tatue em mim, mas para que se prolongue. Eu mesma não quero que acabe, quero a proteção do toque da capa, a ingênua ideia de que é só ficção e ficará tudo bem.
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Texto produzido para a disciplina "Literatura Infatil e Juvenil" (2° ano de Letras Licenciatura) da professora Sueli Cagneti , a partir da proposta de ensaio do filme "A história sem fim", já resenhado e ensaiado neste blog no link abaixo.
É a partir desta palavra, de uma palavra só, assim, sem nenhuma outra para acompanhá-la e tornar seu significado mais claro, que é possível pensar dois livros. Em um deles, a obsessão de um homem, pescador, por um peixe. Em outro, a obsessão de um homem por uma baleia. Pra quem já leu, sabe que os livros citados são “O velho e o mar”, do escritor norte-americano Ernest Hemingway, e “Moby Dick”, do também norte-americano Herman Melville.
            Obsessão significa ideia fixa, e ideia fixa é o que tem Santiago, ao pescar um grande peixe, em alto-mar, após mais de oitenta dias sem pescar nada. E ideia fixa é também o que sente Ahab pela baleia branca Moby Dick, desde o momento em que esta lhe arrancou uma perna. De um lado, uma obsessão pelo simples instinto de sobrevivência, de pescar para ter o que comer, mas que se torna uma ideia fixa muito mais forte pelas condições externas a esta pesca. E, de outro lado, uma obsessão vingativa, de revanche mesmo.
            A história de Santiago, em “O velho e o mar”, pode ser pensada também como uma história de perseverança, antes de ser pensada como uma obsessão. Perseverar é persistir, é continuar, é não parar de fazer aquilo que se está fazendo. Conservar-se firme e constante. E é isto que faz Santiago, com a ideia fixa (obsessão) de pegar aquele peixe.

As políticas públicas de inclusão e as recentes mudanças nas diretrizes educacionais em nosso país convocam a presença da história, da literatura e da cultura afro-brasileira e africana nos conteúdos desenvolvidos no âmbito de todo o currículo escolar.
Como consequência dos debates legais surge uma crescente demanda de livros publicados para o público infantil nos quais o caráter informativo predomina, camuflado, no entanto, por ares literários.  Trata-se de estratégia comercial com intenção de vendagem imediata. Novamente a literatura destinada aos pequenos torna-se um filão mercadológico encaminhando o leitor para algo, muitas vezes, bastante distante do texto literário.
            Para que não se perca o olhar sobre a literariedade, caindo nas armadilhas acima descritas, o PROLIJ apresenta resenhas de livros de literatura infantil-juvenil com temática, autores ou linguagem ligados à produção afro-brasileira e africana com vistas a constituir acervos de qualidade.
            Boa leitura!

por Cleber Fabiano da Silva
                                                                                                          __ In bocca al lupo!
                                                                                                                                             __ E muoia il lupo![1]

            Há séculos amedrontando crianças e adultos de todo o mundo, o lobo tornou-se o símbolo da maldade. Orgulhoso de sua fama de mau possui um sem número de aparições em contos da tradição oral, histórias infantis, músicas, filmes, desenhos animados, enfim, um clássico vilão digno de assustar o mais corajoso dos heróis.
            Com sólida tradição, no entanto, não conseguiu livrar-se nem passar despercebido dos requintados procedimentos pós-modernos de descontrução e atualização dos personagens. Enganado, preso, humilhado e até mesmo convertido em lobo bom, o ouvinte-leitor-espectador contemporâneo acompanha essas mudanças na alcatéia globalizada que se tornou o mundo dos lobos.
            O melhor retrato desses novos tempos pode ser encontrado no livro Procura-se Lobo que conta a história de Manuel que era Lobo mas não era lobo. Era gente. Da fera, tinha apenas o sobrenome. Estava procurando emprego e leu no anúncio que precisavam de lobos. Candidatou-se, afinal, duvidava que esses selvagens animais lessem jornais. Apesar de não ser bem o que procuravam, ele escrevia muito bem, gostava de ler e conhecia muitas histórias, então foi contratado para respondedor de cartas de lobos.
            Com esse original argumento, a escritora Ana Maria Machado – vencedora do Prêmio Hans Christian Andersen e imortal da Academia Brasileira de Letras – reafirma seu talento congregando literariedade e imaginário, ingredientes indispensáveis da boa prosa. Como toda obra de arte, possibilita vários níveis de leitura, uma vez que deixa fissuras e espaços abertos para, a cada nova página, o leitor apropriar-se das referências que consegue conhecer (ou reconhecer).
            E de todos os continentes chegavam inusitadas missivas oferecendo a Manuel Lobo os seus serviços. Um fabuloso exemplo para a prática social da leitura e da escrita, o tão apreciado Letramento dos meios acadêmicos. Como ele conhecia uma porção de histórias, ficou com o futuro garantido, pois não havia quem fosse capaz de enganar um leitor como ele. Com astúcia e paciência, reconhecia os candidatos e escrevia a devolutiva.
            Alguns lobos perversos foram dispensados, outros encaminhados para determinados cargos ou funções de acordo com suas pretensões e currículos. Manuel não aceitou para nenhuma vaga os vilões das seguintes histórias: Chapeuzinho Vermelho, Os Três Porquinhos, Os Sete Cabritinhos ou das fábulas de Esopo e La Fontaine.
            Vale dizer que eles tentaram de todas as formas e quase confundiram nosso agente, que era perito em decodificar mesmo as letras mais ilegíveis. Esse fato curioso ocorreu ao ler a assinatura Lobão em um breve recado. Ainda pensou que podia ser um cantor de rock, escrita com pressa, enquanto o músico tocava guitarra ou bateria, sem nem firmar a mão. Um lobo brasileiro?
            Interessante notar que, embora não seja parte constitutiva do folclore local, a autora utiliza episódios para criar uma atmosfera verde-amarela. Chega a citar o lobo-guará e outro que teria virado bolo por causa de uma Chapeuzinho Amarelo. Sem esquecer, é claro, do lobisomem pedindo emprego na agência.
            Entre tantas aparições inusitadas, está a presença de uma loba. Não dava para saber se era personagem de livro ou inventada. Muita gente garante que era de verdade. Trata-se da Loba Romana que segundo a lenda teria criado Rômulo e Remo, este último fundador de Roma. Da ilustre senhora uma bela lição: Vocês estão precisando recorrer aos lobos, porque com certeza sabem que nós nunca abandonamos nossos filhotes. Manuel decidiu que ela podia ser modelo para estátuas e moedas. Se ela pudesse ensinar alguma coisa aos homens...
            Virtude dessa natureza também apareceu num chefe de família exemplar. Um bicho que não era mau nem comia ninguém. Ao contrário, tinha qualidades de um bom pai, ajudou a criar filhos de outros, possuía boas referências e podia provar que sua pedagogia deu bons resultados. Bastava consultar o urso Balu, a pantera Baguira ou o menino Mogli.
            Essas diferenças possibilitam um ponto-de-vista bastante diferenciado do mesmo personagem e, principalmente, ampliam os horizontes dos leitores ao levar em conta fatores extralingüísticos, como a historicidade, o contexto de produção e outras variáveis presentes no ato da leitura. Bem distante da ficção, por exemplo, existe o fato de os lobos viverem agrupados em bandos, serem carnívoros da família dos canídeos e correrem o risco de extinção.
            A escrita funciona bem com suas citações, paráfrases e intertextos. Está sintonizada com o projeto gráfico de Sylvain Barré e as brilhantes ilustrações de Laurent Cardon que complementam de modo inteligente e irreverente a obra. Na segunda e terceira capas o livro traz de modo sucinto informações e referências sobre as histórias utilizadas, servindo de estímulo para o leitor mais crítico.
            De todos os modos, para além de qualquer revisitamento ou procedimento pós-moderno sempre restará o lobo. A figura masculina e sedutora que come a Chapeuzinho, destrói a casa de algum porquinho e aparece em contos e fábulas de todos os tempos. Um lobo mítico, facilitador e promotor de ritos iniciáticos, possuidor de selvagerias e atitudes animalescas que não morre nunca, porque também restará o homem: o lobo do lobo do homem.

REFERÊNCIAS:

MACHADO, Ana Maria. Procura-se Lobo. São Paulo: Ática, 2005.


[1] __ Para a boca do lobo! __ Morte ao lobo! – dizeres de boa sorte usados na Itália. referência

por Ítalo Puccini

O universo indígena é habitado por muitas histórias. São todas bastante vivas, porque reais. (MUNDURUKU, Daniel)

            O título deste escrito é também o nome de um dos livros do escritor Daniel Munduruku, autor de “Parece que foi ontem” e “Do mundo do centro da Terra do mundo de cima”, entre outros, todos livros que apresentam como temática mitos e lendas indígenas.
            É sabido que a prática de contar e de ouvir histórias é muito mais antiga do que podemos imaginar. Remete a nossos ancestrais mais primitivos. Muito antes da invenção do papel ou do livro ela já se fazia presente, deixando marcas culturais em diferentes épocas, registrando fatos e causos, ainda que por um tempo determinado, uma vez que a história oral não garante a eternidade do que é contado (se pensarmos bem, nem mesmo as histórias impressas, no ritmo de produção, de publicação e de consumo que temos hoje, garantem isto).
            Na cultura indígena, por exemplo, a maior felicidade alcançada pelos homens é a de ser avô, pela oportunidade que se apresenta a eles de contar histórias, muitas histórias, a seus filhos e netos. A oralidade é marca importantíssima nesta cultura, mas não só ela. A quantidade de livros que vem sendo publicada contando ou recontando mitos indígenas sugere a preocupação que existe na divulgação e no alcance dessas histórias através de outros meios.
            Daniel Munduruku é indígena. Nascido em Belém(PA), índio da nação Munduruku, “nasceu índio e gosta de ser índio”, conforme é apresentado em seus livros. É formado em Filosofia pela UNISAL – Lorena, e é diretor-presidente do Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual – INBRAPI, cujo objetivo é a defesa do patrimônio cultural e dos conhecimentos tradicionais dos povos indígenas brasileiros.
O escritor indígena com maior repercussão atualmente é autor premiado de muitos livros com histórias que apresentam ao leitor mitos e lendas do universo indígena, como “Coisas de índio”, “As serpentes que roubaram a noite” e “O segredo da chuva”. Mitos e lendas porque lenda é a forma como o mito é contado. Toda lenda apresenta um mito. Mas nem todo mito é apresentado por uma lenda. Lenda vem do latim legere, que significa ler. Mito é palavra grega que significa discurso, oralidade. No mito existe a busca de um porquê para a vida, que muitas vezes é contado em uma lenda.
            E aqui se apresenta ao leitor o recontar. Porque um mito pode ser contado e recontado de diferentes formas, diversas vezes. Para o mito de como surgiu a noite, por exemplo, Munduruku apresenta dois livros, citados no primeiro parágrafo deste escrito. Conforme conta a Clarice, em “Como nasceram as estrelas”, “Sempre, é uma história que não acaba nunca”.
            Para construir é preciso, antes, desconstruir. Pensar mitos e lendas pode ser seguir esse caminho da reconstrução. Do reconto. É isto que faz perpetuar histórias por gerações. A história é manutenção de vida das/nas coisas. A história é construção de identidade de um povo. A perda de identidade é parte do processo de morte de uma cultura. Diante disso, precisamos, como leitores e professores, dos contos e de seus recontos. Dos mitos e das lendas. Das diversas formas de perpetuarmos histórias e vidas. Histórias de vidas. Isto porque contar histórias, todos contamos. E, ao contarmos histórias, contamos a nós mesmos.
Minha lida com o texto literário – como leitor e como professor – é o de pensá-lo sempre como uma possibilidade de ressignificação. Junto ao texto literário é preciso que o aluno reconstrua. E para reconstruir é preciso, antes, que o texto seja destruído pelo leitor. Ou seja, objetivo que meu aluno produza sobre o texto que lê, construa seus sentidos para o que está lendo, ressignifique o texto com o qual está em contato. Literatura precisa ser contato. Toda leitura precisa ser um contato. Não contato no sentido físico exatamente. Mas contato no sentido de tocar em algo, produzir algo novo a partir desse novo toque, uma vez que nos ressignificamos o tempo todo, pelo simples fato de vivermos uns com os outros.
São vidas com as quais nos deparamos nas histórias da cultura indígena e também nas histórias sobre passarinhos, por exemplo. São vidas diferentes? Claro que são. Cada vida é uma vida. Mas a diferença não reside só nisto. Reside no modo como são contadas. O Bartolomeu Campos de Queirós, por exemplo, conta que

Para bem criar passarinhos é necessário ter o corpo capaz de escutar o silêncio das pedras, o som do vento nas folhas, o ruído de soluços preso em garganta. (...) Para bem criar passarinho há que se sonhar borboleta, anjo ou estrela cadente. É importante ter imensas intimidades com o nada, admirar o vazio e um especial encantamento pelo azul que existe muito depois das nuvens, infinito adentro.

Já o Marcos Bagno não conta sobre passarinhos, mas sim sobre corujas. Ou, mais especificamente, sobre Murucututu, a grande coruja da noite, que é “mais que grande, enorme. Seu gemido ecoa pela noite, Murucututu, arrepiando os corações de quem se atreve a escutar”.
É a avó quem conta para a sua neta a história de Murucututu, com a intenção de frear os avanços da menina na descoberta do mundo. Mas esta neta não temia nem o mundo nem as histórias: “Achava bonito só pela beleza de ser história, lenda, conto, fantasia de miragem mirabolante. Mas acreditar, ela, isso mesmo é que nunquinha”.
            Talvez porque contar histórias seja compor os silêncios sugeridos pelo Manoel de Barros. Os silêncios que cada um traz dentro de si para compartilhar ao contar e ouvir uma história. Porque há silêncios que falam. E aprendendo isto a gente aprende o que ninguém nunca soube. Adivinha mistérios. Sente de longe o cheio de algum segredo. E até consegue enxergar no escuro. Como faz a personagem que avoa com Murucututu.
            Contar histórias pode ser também fazer voar as palavras para encontrar seus silêncios a serem compostos.

Referências Bibliográficas

BAGNO, Marcos. Murucututu: a coruja grande da noite. Ilustrações Nelson Cruz. São Paulo: Ática, 2005.

LISPECTOR, Clarice. Como nasceram as estrelas. São Paulo: Nova Fronteira, 1999.

MUNDURUKU, Daniel. Histórias que eu ouvi e gosto de contar. Ilustrações: Rosinha Campos. São Paulo: Callis, 2004.

MUNDURUKU, Daniel. Parece que foi ontem. Ilustrações: Maurício Negro. São Paulo: Global, 2006.

QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. Para criar passarinhos. São Paulo: Editora Global, 2009. 
por Cleber Fabiano da Silva


In tempi come questi la fuga é l’unico mezzo                                                                                                                                          per mantenersi vivi e continuare a sognare[1]

                                                                                                                            
                As estrelas fazem pensar... A gente entende muitas coisas quando olha as estrelas.
            Os livros destinados aos pequenos tornam cada vez mais tênues a classificação do que seja necessariamente do âmbito infantil, juvenil ou adulto. Eles realizam procedimentos estéticos e discursivos que se interligam nos meandros da literariedade, numa constelação quase infinita em que se pode ver, imaginar, sentir, refletir, enfim, entregar-se ao que de mais humano possa existir.
            E nos territórios dos homens, as fronteiras cercam, guardam seus tesouros, verdades e identidades; para mantê-las o indivíduo luta, nesse embate nasce a guerra. Com ela, o desejo crescente de tornar-se vitorioso, custe o que custar, para vencer é preciso superar todas as perdas. Qualquer exército, com o maior e melhor arsenal, contabiliza derrotas.
            A guerra continua... Mas em todas as guerras há imprevistos. Esses imprevistos nos impulsionam a sonhar, trazem-nos esperança. São linhas de fuga, fissuras minúsculas propícias ao escritor, artista lutador que, quixotescamente, realiza outra grande batalha: a de falar aos corações humanos. Duas estrelas cintilam no universo das obras infantis recém traduzidas em nosso país. Nas duas, o conflito. 
            A Primeira Guerra Mundial serve de contexto para o brilhante: O menino, a guerra e a bola de Jean-Baptiste Cabaud. Em sua territorialidade bélica a marca presente do frio e das vozes loucas que chegavam aos ouvidos dos soldados: Em frente! A guerra deve continuar! Atacar! Atacar! Embora datada, pouco se sabe dos detalhes entre as nações inimigas, dos brasões e flâmulas, da baixa nas corporações, do desamparo das mães, do que mudou na vida das viúvas ou dos prejuízos patrimoniais. Importa como matéria de poesia, a presença de uma voz aflita que grita pelo filho. O menino que corria atrás de uma bola vermelha em meio ao campo nevado pelo rigoroso inverno.
            O momento de plenitude suspenso pela magia – da vida ou da literatura? Os exércitos dos dois lados param, congelam as nuvens do céu, estancam os cavalos empinados com as patas suspensas no ar. Na arte de bem contar, um soldado saiu correndo, lançou-se sobre um velho oficial e, tapando-lhe a boca com a mão, enfiou a baioneta na sua voz louca. O menino segurava a bola, abraçava-a com força, ela era o seu tesouro.
            As crianças fazem pensar... A gente entende muitas coisas quando lê livros para crianças.
            No firmamento literário mais astros reluzentes: Davide Cali e Serge Bloch com o livro O inimigo[2]. Aqui, nem tempos nem espaços demarcados, o território é nômade. Em algum lugar que poderia ser um deserto, há dois buracos. Nos buracos dois soldados. Eles são inimigos...
            O narrador apresenta-nos a sua trincheira, conta tudo o que sabe sobre o seu adversário. O inimigo não é um ser humano. Sei tudo isso porque não sou estúpido. Li no manual. Na verdade, qualquer que fosse a trincheira ou o compêndio, a impressão seria a mesma. Não importa o lado, em qualquer guerra, no manual do outro o inimigo a combater tem o meu rosto.
            O frio também aparece por aqui. Junto dele, a fome. Sentimos fome. São as únicas coisas que temos em comum, o inimigo e eu. Às vezes penso que o mundo não existe mais. Os elementos concretos remetendo-nos à humana condição; caem por terra as utopias, os louros da vitória, as honras e condecorações. Nada para nos distinguir dos homens das cavernas, dos indivíduos de outros tempos e espaços. Somos feitos de idêntica matéria, possuímos as mesmas necessidades.
            Nosso valente recruta está só desde que seu companheiro Michel morreu. Em nossas solidões a certeza de que o inimigo está ali, mas nunca é visto. O inimigo também deve estar sozinho. Se há guerra a culpa é dele... É preciso que ele seja o primeiro a cessar fogo, e eu, nesse caso, não o mataria.
            Na arte da metáfora, muitas possibilidades. Nas batalhas esperamos o aceno da bandeira branca que virá da parte em litígio. Então o que ele está esperando? Aquele que sobreviver terá ganhado a guerra. Ele poderia me enviar uma mensagem: vamos acabar com a guerra agora. Se ele enviasse essa mensagem, eu aceitaria imediatamente.          
            O mais monstruoso inimigo está tão perto, talvez dentro de nós mesmos. Escondemos em nossas trincheiras o arsenal bélico das palavras que matam e ferem. No entanto, há a literatura, as estrelas e as crianças, mal grado desertos, travessias e fissuras... Procuramos cruzar a fronteira dos nossos corações com um grande desejo de paz. Se o inimigo olhasse as estrelas, talvez entendesse que a guerra não serve para nada e que é preciso terminá-la. Se nós olhássemos para os livros infantis, talvez entendêssemos que a guerra não deveria nem ter começado.

Referências: 

CABAUD, Jean-Baptiste e BERNARD, Fred. O menino, a guerra e a bola. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
CALI, David. O inimigo. São Paulo: Cosac Naify, 2008.


[1] “Em tempos como estes a fuga é o único meio de manter-se vivo e continuar a sonhar” Extraído do filme Mediterrâneo – direção: Gabriele Salvatores, Itália, 1991.

[2] Em 2009 recebeu o prêmio de Altamente Recomendável da FNLIJ – Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil na categoria tradução ou adaptação para criança. 
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