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Sônia Regina Biscaia Veiga
Como saber quando um campo de conhecimento muda? Para Néstor Canclini, os estudos sobre o processo de hibridização auxiliam a repensar as áreas de conhecimento, pois entender a presença do híbrido modifica o modo de pensar áreas em caixas isoladas.

Com o intuito de tentar compreender como se dá alguns processos culturais híbridos, tomo como exemplo o livro Fumaça, escrito por Antón Fortes e ilustrado por Joanna Concejo, livro galego, publicado no Brasil pela Editora Positivo e traduzido por Marcos Bagno.

Para entender uma literatura como híbrida pressupõe-se que nela você não encontrará um conjunto de traços fixos. A sua identidade enquanto arte muda, no sentido que mescla áreas diferentes e até mesmo um público diferente, devido à fusão de culturas. É necessário conhecer as formas de situar-se em meio à heterogeneidade para entender os processos do híbrido.

Fumaça, à primeira vista, aparenta ser um livro “encaixado no gênero literatura infantil”, pois o seu dito visualmente se destaca perante o dito escrito. Com formato maior do “livro para adultos”, com ilustrações em todas as páginas e com poucas palavras escritas ele se encaixa no padrão do livro vendido para crianças. Eu o comprei, inclusive, num stand em que havia outros livros de literatura infantil na mesma prateleira.

No entanto trata-se de um livro com uma temática forte, vamos percebendo ao decorrer da leitura tanto escrita quanto visual que a história se passa num cenário de guerra, num campo de concentração e temos como plano final as câmaras de gás. Apesar disso, em nenhum momento o escritor escreve segunda guerra mundial, holocausto, judeus, campo de concentração ou câmara de gás. Para se entender sobre o que realmente o livro aborda é necessário ter um conhecimento prévio sobre o que foi a Segunda Guerra Mundial. Quem nunca ouviu falar em Holocausto não atingirá o nível de compreensão proposto pelo autor.

Trata-se então de um tema adulto camuflado numa linguagem infantil. Pode-se pensar que talvez por ser um livro europeu, as crianças de lá tenham uma relação mais próxima com o tema da guerra, dessa forma se contextualizam mais cedo com esse cenário. Mas sendo ou não sendo assim, não vejo como um livro possível de ser contado para crianças pequenas, talvez como uma experiência para ver o que elas entenderiam quando o guarda manda os meninos tirarem as roupas e entrarem na casa da chaminé. Porque para conhecedores do tema, ao virar das páginas já vai ficando óbvio qual o cenário do livro, mas quais ideias surgiriam de quem nunca estudou as grandes guerras ainda? É um aspecto também interessante para se pesquisar: o hibridismo de interpretações. Quais as possibilidades de pensamentos se nós já não conhecêssemos o óbvio?


Há também que se discutir o que podemos afinal considerar híbrido? Pode-se dizer que há um hibridismo presente no suporte e na linguagem utilizada, mas também a própria ilustração – belíssima por sinal, que foi o que me levou a comprar o livro – carrega elementos além do convencional. Iniciamos já na segunda e na terceira capa. O livro inicia e termina com ilustrações de fotografias antigas, possivelmente de pessoas e de famílias judias, anteriores ao holocausto. Como em álbuns antigos, as fotografias estão cobertas com uma espécie de papel seda. E esse papel aparece dobrado. Comumente trabalho com as minhas turmas de ensino médio com esse livro. E em todas as turmas que já o levei, ao abrir o livro, algum aluno diz, professora dobrou a página ali, quando respondo que é a própria ilustração assim, alguns precisam passar a mão no livro para ver que não é possível desdobrar a folha porque é um desenho. É algo que apenas ver com os olhos não é o suficiente.

Além disso em várias páginas tem rabiscos de caneta, que eles perguntam se alguma criança riscou meu livro e mais uma vez não acreditam que é da própria ilustração, “fala sério, professora isso aí foi uma criança que pegou uma caneta e um lápis de cor e começou a rabiscar teu livro quando a professora não estava perto”. Dessa forma, em todo o livro apresenta-se dois tipos de ilustração. Uma mais elaborada, se é que pode se assim dizer, com lápis aquarela, bem desenhada e contornada, a qual representa a vida das pessoas naquela situação. E outra que parece ter sido feito depois de impresso, como rabiscos, números e desenhos infantis retratando a interferência da criança, visto que o livro é todo narrado em primeira pessoa, com um menino contando seus dias. Por vezes, o enredo dessa narrativa se aproxima ao do romance “O menino do pijama listrado” de John Boyne, principalmente na cena final.

Há então além do híbrido do suporte escolhido para carregar uma temática pesada, o material utilizado na ilustração e o jogo que a ilustração faz trazendo a ideia de que houve uma interação prévia de um possível pequeno leitor que deixou sua marca no livro. Dar a ideia de que uma criança usou o livro como folha de papel, dessa forma o estragando traz uma ideia de proibido, de não ser o lugar para isso, de ter algo errado. Da mesma forma que a criança retratada na história, que em nenhum momento é dado um nome, porque não precisa, ela não é uma personagem de um livro, ela representa milhares de crianças que viveram aquela mesma vida, também não estava em seu lugar. E querer simplesmente desenhar, atividade própria da infância, é algo que virou proibido. Mas na vida real não ocorre o fim de um livro, mas sim milhões de fins.

O processo de hibridização surge a partir da criatividade, como aponta Canclini, no fundir de estruturas ou práticas sociais discretas para gerar novas estruturas, o que acaba por relativizar a noção de identidade. Podemos rotular este livro em um gênero específico e dele não mais sair? Para entender essa nova cultura é preciso aprender a procurar em novos lugares e até mesmo em não lugares, criando o novo.   

Sônia Regina Biscaia Veiga é graduada em Letras pela Univille, é contadora de histórias e atua como pesquisadora voluntária do PROLIJ

  
        Como nos lembrou o prolijiano correspondente nacional Luís Camargo, na semana passada, a Revista Crescer, da Editora Globo, realizou sua premiação dos "30 Melhores Livros Infantis do Ano". Nas palavras da própria revista: "Tudo começa em março, quando especialistas e apaixonados por literatura infantil enviam para a CRESCER seus livros preferidos" do ano anterior, então são cruzados os dados e uma lista com 30 destes livros é publicada. A coordenadora do Prolij, a Profª Dra Sueli de Souza Cagneti, é uma das especialistas envolvida nesta escolha.
        Como em outras edições, temos o prazer de ter discutido e resenhado algumas destas obras. Neste ano: Uma princesa nada boba, O leão e o camundongo e Mil e uma estrelas; as três obras estão também analisadas no segundo volume da Coleção Livro do Livros - Resenhas do PROLIJ.

        Confira os demais livros premiados aqui!





Margarida, uma vaca com “asas na cabeça”, nasceu numa grande fazenda onde as cercas demoram a aparecer, mas elas existem. Todos pareciam livres e satisfeitos com aquela imensidão de pasto, menos ela.
Sua mãe lhe contou, antes de partir para conhecer o mundo, que os patrões, por gratidão, davam uma bela viagem de balão para as vacas da fazenda quando essas ficavam velhas. Margarida não queria esperar tanto, queria conhecer o mundo com urgência, então, após muito pensar decidiu procurar as cercas, encontrou-as. Ultrapassá-las não seria fácil; a solução era arriscada e teria de ser ponderada. Mas, Margarida não teve medo; entregou-se ao desconhecido e por ter persistido, o destino lhe reservou uma bela e encantada surpresa.
André Neves conta a história de Margarida em palavras e imagens que enchem os olhos de muita poesia traduzida em cores do tempo: azuis fluídos da água, laranjas de nascer e pôr-do-sol, verdes e amarelos cítricos, sem esquecer-se do rosa delicado como Margarida.
 Assim se constrói a história de desejos e encantos de uma vaca sonhadora e é por isso que dá vontade de mergulhar de cabeça dentro do mundo de Margarida.
Não é por nada que este livro recebeu o selo “Altamente Recomendável” pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil- FNLIJ.

NEVES, André. Margarida. Belo Horizonte: Abacate, 2010.

Por Maria Lúcia Costa Rodrigues
Mestre em Patrimônio cultural e Sociedade e pesquisadora voluntária do PROLIJ

Sonia Regina Reis Pegoretti

Lenice Gomes, Arlene Holanda e Clayson Gomes já escreveram vários livros com a temática centralizada na literatura oral e em 2009 dividiram a autoria do livro Nina África contos de uma África menina para ninar gente de todas as idades. As narrativas aqui apresentadas mantêm todas as características das histórias orais, típicas do continente africano. É como se ouvíssemos as histórias em vez de lê-las.
Cada um dos autores escreveu dois recontos. Os mitos, lendas e fábulas aqui narrados, são de um tempo em que o Céu e a Terra ainda eram próximos, os animais e os seres humanos viviam em harmonia. Um dia nasceu a chuva, no outro nasceu a brisa. A experiência entre o humano e o divino se faz acontecer, trazendo a magia para dentro das histórias.
A ilustração de Maurício Veneza é simples, optando muitas vezes por utilizar tom sobre tom, mas bem articulada e expressiva, complementando as narrativas.

Livro: Nina África – contos de uma África menina para ninar gente de todas as idades.  
Autores: Lenice Gomes, Arlene Holanda e Clayson Gomes
Ilustração: Maurício Veneza
Editora: Elementar
Ano: 2009

            As recentes mudanças nas diretrizes educacionais convocam a presença da história e da cultura afro-brasileira no âmbito de todo o currículo escolar. Na esteira dos pressupostos legais, uma quantidade imensa de livros que remetem ao universo africano e/ou afro-brasileiro vem sendo publicados e tomados como literatura infantil quando, na verdade, possuem caráter informativo.
            Não se trata de desmerecer a importância dessas publicações, mas da necessidade de examiná-los em que medida a linguagem, a ilustração e os discursos neles apresentados estejam em consonância com as formas especificamente infantis de compreensão do mundo e de adequação desses conteúdos.
            Na contramão desse movimento: Meu tataravô era africano, da Difusão Cultural do Livro, escrito por Georgina Martins e Teresa Silva Telles, com ilustrações de Mauricio Negro, traz de modo didático, ao mesmo tempo, artístico, um pouco da história e da cultura afro-brasileira.
            Um menino e seu avô percorrem toda a trajetória dos negros na formação de nosso povo, desde a saída da África nos porões dos navios, mostrando as rotas de escravos até a difícil chegada e condições de permanência dos cativos nas senzalas. Ilustrado com obras e fragmentos de grandes intelectuais e artistas, desfilam em meio ao texto, Gilberto Freyre, Debret, Gilberto Gil, Castro Alves, Pe. Antônio Vieira, Rugendas, entre outros. 
            O garoto Inácio ouve muitas histórias de seu avô, mas também repassa e corrige, sob orientação da professora, erros nos discursos didáticos de sua escola, discutindo conceitos e preconceitos históricos e cotidianos. Recolhendo informações de livros, mapas, músicas, danças, religião e culinária, os dois traduzem a herança africana que encontrou em terras brasileiras um jeito híbrido e, curiosamente, singular de resistência.


Por Cleber Fabiano da Silva.
Pesquisador voluntário do PROLIJ – UNIVILLE.


Ficha Técnica:

MEU TATARAVÔ ERA AFRICANO
Autores: Georgina Martins e Teresa Silva Telles
Ilustrações: Mauricio Negro
Editora: DCL – Difusão Cultural do Livro 
  
          Pedro e Nei são verdadeiros amigos, estão sempre juntos. A amizade dos dois, no entanto, corre sérios riscos já que a mãe de Pedro não aceita os fios de contas usados pelo amigo do filho em função da sua religião: o candomblé.
            Ao descobrir o preconceito, Nei fica com uma minhoca na cabeça. E se a mãe dele estiver certa? Desesperado, começa a sentir uma série de sentimentos e sensações: raiva, vontade de lutar, chorar, correr, gritar, de se esconder... Sem perceber, entra em contato com os orixás, as energias que são vivenciadas e reverenciadas nos mitos e nos ritos de seus praticantes.
            Da mãe e da avó os conselhos para ajudá-lo a recuperar seu amigo e a compreender a importância do respeito a todas as crenças. Cada um ama de um jeito. Até se a pessoa não tiver religião nenhuma, a gente tem que respeitar. Parece que Pedro concordou com elas. Afinal tem gente que fala mal do candomblé sem conhecê-lo.
            Mas... E quanto a sua mãe? Bem... Nem todos escolhem o caminho mais fácil para se chegar ao mesmo lugar não é mesmo?
            Luiz Antonio, em Minhas Contas, Cosac Naify, relata esses encontros e desencontros com a essência do que somos e cremos. Com belíssimas ilustrações de Daniel Kondo, uma preciosa mistura de linguagem literária e informativa na medida certa. Axé!
          
Por Cleber Fabiano da Silva
Pesquisador voluntário do PROLIJ – UNIVILLE.

Ficha Técnica:

MINHAS CONTAS
Autor: Luiz Antonio
Ilustrações: Daniel Kondo
Editora: Cosac Naify

por Cleber Fabiano da Silva
                                                                                                          __ In bocca al lupo!
                                                                                                                                             __ E muoia il lupo![1]

            Há séculos amedrontando crianças e adultos de todo o mundo, o lobo tornou-se o símbolo da maldade. Orgulhoso de sua fama de mau possui um sem número de aparições em contos da tradição oral, histórias infantis, músicas, filmes, desenhos animados, enfim, um clássico vilão digno de assustar o mais corajoso dos heróis.
            Com sólida tradição, no entanto, não conseguiu livrar-se nem passar despercebido dos requintados procedimentos pós-modernos de descontrução e atualização dos personagens. Enganado, preso, humilhado e até mesmo convertido em lobo bom, o ouvinte-leitor-espectador contemporâneo acompanha essas mudanças na alcatéia globalizada que se tornou o mundo dos lobos.
            O melhor retrato desses novos tempos pode ser encontrado no livro Procura-se Lobo que conta a história de Manuel que era Lobo mas não era lobo. Era gente. Da fera, tinha apenas o sobrenome. Estava procurando emprego e leu no anúncio que precisavam de lobos. Candidatou-se, afinal, duvidava que esses selvagens animais lessem jornais. Apesar de não ser bem o que procuravam, ele escrevia muito bem, gostava de ler e conhecia muitas histórias, então foi contratado para respondedor de cartas de lobos.
            Com esse original argumento, a escritora Ana Maria Machado – vencedora do Prêmio Hans Christian Andersen e imortal da Academia Brasileira de Letras – reafirma seu talento congregando literariedade e imaginário, ingredientes indispensáveis da boa prosa. Como toda obra de arte, possibilita vários níveis de leitura, uma vez que deixa fissuras e espaços abertos para, a cada nova página, o leitor apropriar-se das referências que consegue conhecer (ou reconhecer).
            E de todos os continentes chegavam inusitadas missivas oferecendo a Manuel Lobo os seus serviços. Um fabuloso exemplo para a prática social da leitura e da escrita, o tão apreciado Letramento dos meios acadêmicos. Como ele conhecia uma porção de histórias, ficou com o futuro garantido, pois não havia quem fosse capaz de enganar um leitor como ele. Com astúcia e paciência, reconhecia os candidatos e escrevia a devolutiva.
            Alguns lobos perversos foram dispensados, outros encaminhados para determinados cargos ou funções de acordo com suas pretensões e currículos. Manuel não aceitou para nenhuma vaga os vilões das seguintes histórias: Chapeuzinho Vermelho, Os Três Porquinhos, Os Sete Cabritinhos ou das fábulas de Esopo e La Fontaine.
            Vale dizer que eles tentaram de todas as formas e quase confundiram nosso agente, que era perito em decodificar mesmo as letras mais ilegíveis. Esse fato curioso ocorreu ao ler a assinatura Lobão em um breve recado. Ainda pensou que podia ser um cantor de rock, escrita com pressa, enquanto o músico tocava guitarra ou bateria, sem nem firmar a mão. Um lobo brasileiro?
            Interessante notar que, embora não seja parte constitutiva do folclore local, a autora utiliza episódios para criar uma atmosfera verde-amarela. Chega a citar o lobo-guará e outro que teria virado bolo por causa de uma Chapeuzinho Amarelo. Sem esquecer, é claro, do lobisomem pedindo emprego na agência.
            Entre tantas aparições inusitadas, está a presença de uma loba. Não dava para saber se era personagem de livro ou inventada. Muita gente garante que era de verdade. Trata-se da Loba Romana que segundo a lenda teria criado Rômulo e Remo, este último fundador de Roma. Da ilustre senhora uma bela lição: Vocês estão precisando recorrer aos lobos, porque com certeza sabem que nós nunca abandonamos nossos filhotes. Manuel decidiu que ela podia ser modelo para estátuas e moedas. Se ela pudesse ensinar alguma coisa aos homens...
            Virtude dessa natureza também apareceu num chefe de família exemplar. Um bicho que não era mau nem comia ninguém. Ao contrário, tinha qualidades de um bom pai, ajudou a criar filhos de outros, possuía boas referências e podia provar que sua pedagogia deu bons resultados. Bastava consultar o urso Balu, a pantera Baguira ou o menino Mogli.
            Essas diferenças possibilitam um ponto-de-vista bastante diferenciado do mesmo personagem e, principalmente, ampliam os horizontes dos leitores ao levar em conta fatores extralingüísticos, como a historicidade, o contexto de produção e outras variáveis presentes no ato da leitura. Bem distante da ficção, por exemplo, existe o fato de os lobos viverem agrupados em bandos, serem carnívoros da família dos canídeos e correrem o risco de extinção.
            A escrita funciona bem com suas citações, paráfrases e intertextos. Está sintonizada com o projeto gráfico de Sylvain Barré e as brilhantes ilustrações de Laurent Cardon que complementam de modo inteligente e irreverente a obra. Na segunda e terceira capas o livro traz de modo sucinto informações e referências sobre as histórias utilizadas, servindo de estímulo para o leitor mais crítico.
            De todos os modos, para além de qualquer revisitamento ou procedimento pós-moderno sempre restará o lobo. A figura masculina e sedutora que come a Chapeuzinho, destrói a casa de algum porquinho e aparece em contos e fábulas de todos os tempos. Um lobo mítico, facilitador e promotor de ritos iniciáticos, possuidor de selvagerias e atitudes animalescas que não morre nunca, porque também restará o homem: o lobo do lobo do homem.

REFERÊNCIAS:

MACHADO, Ana Maria. Procura-se Lobo. São Paulo: Ática, 2005.


[1] __ Para a boca do lobo! __ Morte ao lobo! – dizeres de boa sorte usados na Itália. referência
por Cleber Fabiano da Silva


In tempi come questi la fuga é l’unico mezzo                                                                                                                                          per mantenersi vivi e continuare a sognare[1]

                                                                                                                            
                As estrelas fazem pensar... A gente entende muitas coisas quando olha as estrelas.
            Os livros destinados aos pequenos tornam cada vez mais tênues a classificação do que seja necessariamente do âmbito infantil, juvenil ou adulto. Eles realizam procedimentos estéticos e discursivos que se interligam nos meandros da literariedade, numa constelação quase infinita em que se pode ver, imaginar, sentir, refletir, enfim, entregar-se ao que de mais humano possa existir.
            E nos territórios dos homens, as fronteiras cercam, guardam seus tesouros, verdades e identidades; para mantê-las o indivíduo luta, nesse embate nasce a guerra. Com ela, o desejo crescente de tornar-se vitorioso, custe o que custar, para vencer é preciso superar todas as perdas. Qualquer exército, com o maior e melhor arsenal, contabiliza derrotas.
            A guerra continua... Mas em todas as guerras há imprevistos. Esses imprevistos nos impulsionam a sonhar, trazem-nos esperança. São linhas de fuga, fissuras minúsculas propícias ao escritor, artista lutador que, quixotescamente, realiza outra grande batalha: a de falar aos corações humanos. Duas estrelas cintilam no universo das obras infantis recém traduzidas em nosso país. Nas duas, o conflito. 
            A Primeira Guerra Mundial serve de contexto para o brilhante: O menino, a guerra e a bola de Jean-Baptiste Cabaud. Em sua territorialidade bélica a marca presente do frio e das vozes loucas que chegavam aos ouvidos dos soldados: Em frente! A guerra deve continuar! Atacar! Atacar! Embora datada, pouco se sabe dos detalhes entre as nações inimigas, dos brasões e flâmulas, da baixa nas corporações, do desamparo das mães, do que mudou na vida das viúvas ou dos prejuízos patrimoniais. Importa como matéria de poesia, a presença de uma voz aflita que grita pelo filho. O menino que corria atrás de uma bola vermelha em meio ao campo nevado pelo rigoroso inverno.
            O momento de plenitude suspenso pela magia – da vida ou da literatura? Os exércitos dos dois lados param, congelam as nuvens do céu, estancam os cavalos empinados com as patas suspensas no ar. Na arte de bem contar, um soldado saiu correndo, lançou-se sobre um velho oficial e, tapando-lhe a boca com a mão, enfiou a baioneta na sua voz louca. O menino segurava a bola, abraçava-a com força, ela era o seu tesouro.
            As crianças fazem pensar... A gente entende muitas coisas quando lê livros para crianças.
            No firmamento literário mais astros reluzentes: Davide Cali e Serge Bloch com o livro O inimigo[2]. Aqui, nem tempos nem espaços demarcados, o território é nômade. Em algum lugar que poderia ser um deserto, há dois buracos. Nos buracos dois soldados. Eles são inimigos...
            O narrador apresenta-nos a sua trincheira, conta tudo o que sabe sobre o seu adversário. O inimigo não é um ser humano. Sei tudo isso porque não sou estúpido. Li no manual. Na verdade, qualquer que fosse a trincheira ou o compêndio, a impressão seria a mesma. Não importa o lado, em qualquer guerra, no manual do outro o inimigo a combater tem o meu rosto.
            O frio também aparece por aqui. Junto dele, a fome. Sentimos fome. São as únicas coisas que temos em comum, o inimigo e eu. Às vezes penso que o mundo não existe mais. Os elementos concretos remetendo-nos à humana condição; caem por terra as utopias, os louros da vitória, as honras e condecorações. Nada para nos distinguir dos homens das cavernas, dos indivíduos de outros tempos e espaços. Somos feitos de idêntica matéria, possuímos as mesmas necessidades.
            Nosso valente recruta está só desde que seu companheiro Michel morreu. Em nossas solidões a certeza de que o inimigo está ali, mas nunca é visto. O inimigo também deve estar sozinho. Se há guerra a culpa é dele... É preciso que ele seja o primeiro a cessar fogo, e eu, nesse caso, não o mataria.
            Na arte da metáfora, muitas possibilidades. Nas batalhas esperamos o aceno da bandeira branca que virá da parte em litígio. Então o que ele está esperando? Aquele que sobreviver terá ganhado a guerra. Ele poderia me enviar uma mensagem: vamos acabar com a guerra agora. Se ele enviasse essa mensagem, eu aceitaria imediatamente.          
            O mais monstruoso inimigo está tão perto, talvez dentro de nós mesmos. Escondemos em nossas trincheiras o arsenal bélico das palavras que matam e ferem. No entanto, há a literatura, as estrelas e as crianças, mal grado desertos, travessias e fissuras... Procuramos cruzar a fronteira dos nossos corações com um grande desejo de paz. Se o inimigo olhasse as estrelas, talvez entendesse que a guerra não serve para nada e que é preciso terminá-la. Se nós olhássemos para os livros infantis, talvez entendêssemos que a guerra não deveria nem ter começado.

Referências: 

CABAUD, Jean-Baptiste e BERNARD, Fred. O menino, a guerra e a bola. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
CALI, David. O inimigo. São Paulo: Cosac Naify, 2008.


[1] “Em tempos como estes a fuga é o único meio de manter-se vivo e continuar a sonhar” Extraído do filme Mediterrâneo – direção: Gabriele Salvatores, Itália, 1991.

[2] Em 2009 recebeu o prêmio de Altamente Recomendável da FNLIJ – Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil na categoria tradução ou adaptação para criança. 
Ítalo Puccini*

O ato de ler pressupõe uma leitura não somente de textos, de palavras escritas. Não somente de imagens ou de sons. Mas sim uma leitura de nós mesmos e daqueles com quem convivemos. Ler transcende a força que a própria palavra carrega em si. Ler é criar um sentido próprio a si mesmo e ao mundo ao redor de si. É encontrar-se em um eu ainda desconhecido. Ler é, também e principalmente, saber ler a si mesmo e ao outro com o qual se estabelece uma relação de viver.
Cada leitura tem uma história própria. Cada texto tem também sua história própria. Assim como cada leitor constrói sua história de leitura. É Lajolo quem afirma que “Cada leitor, na individualidade de sua vida, vai entrelaçando o significado pessoal de suas leituras com os vários significados que, ao longo da história de um texto, este foi acumulando”.
É por essas veredas de conhecimento que a leitura não pode ser vista como uma atividade inocente. Para o crítico literário Alberto Manguel, por exemplo, “Toda história é uma interpretação de histórias: nenhuma leitura é inocente”. Não há como ler algo sem relacionar, mesmo que inconscientemente, a outro algo, ou já lido, ou já ouvido, ou já presenciado. Uma leitura leva à outra. Uma leitura não só de livros, mas também uma leitura de vida. Viver é relacionar-se. Vivemos nos lendo a aos outros também. Influenciamos e somos influenciados. Nossas histórias, lidas e vividas, embrenham-se em nossa formação de sujeitos e cidadãos que somos.
Diante disso, três livros catalogados como infantojuvenis, publicados entre os anos de 2008 e 2010, apresentam ao leitor uma mesma temática (a guerra), abordada por entre caminhos que lá na frente talvez se encontrem (diferentes personagens e seus sentires sobre e a partir da vivência – presente ou a distância – de uma guerra). Além de dois livros juvenis bastante consagrados desde quando publicados (inclusive filmados para o cinema) como “O diário de Anne Frank” e “O menino do pijama listrado”, que exploram essa contextualização do universo adolescente em meio a uma guerra, o leitor tem a sua disposição outros três títulos que seguem tal temática e uma oportunidade de estreitar relações entre os livros em si e sua própria bagagem leitora.

O PROLIJ se reuniu no sábado passado para um encontro de fim de ano. Para comemorarmos o ano que passamos juntos, as leituras feitas, as escritas que "brotamos", os eventos que organizamos, e todo o pensar sobre a literatura infantojuvenil ao qual nos dedicamos durante o ano todo.

Como de costume, realizamos um amigo-secreto com muita troca de livros. Com muitas dedicatórias especiais, e muitas leituras que nos acompanharão em mais uma virada de ano.

Diante disso, resolvemos postar aqui no blog os livros que foram trocados entre nós, como forma de sugestão de leitura aos nossos leitores, e também como uma possibilidade de dicas de livros-presentes para alguém próximo a nós.



Cleber (neste ato representado por sua voz através do aparelho celular): 
Presenteou o Rodrigo com: “Contos de fadas”, apresentação de Ana Maria Machado.





Rodrigo:
Presenteou a Áurea com: “Um erro emocional”, Cristovão Tezza.






Áurea:
Presenteou a Viviane com: “Procura-se lobo”, Ana Maria Machado.




















Viviane:
Presenteou o Ítalo com: “Memórias inventadas para crianças”, Manoel de Barros.

                    


Ítalo:
Presenteou a Alcione com: “Desmundo”, Ana Miranda.

          




Alcione:
Presenteou a Sueli com: “Um erro emocional”, Cristovão Tezza.

       


Sueli Cagneti:
Presenteou a Maria Lúcia com: “Crítica, Teoria e Literatura Infantil”, Peter Hunt e “De dois em dois: Um passeio pelas Bienais”, Renata Sant´Anna, Maria do Carmo Carvalho e Edgard Bittencourt.


Maria Lúcia:
Presenteou a Débora com: “Um erro emocional”, Cristovão Tezza.

        


Débora:
Presenteou a Kamila com: um par de brincos.

     




Kamila:
Presenteou a Verônica com: "Carta aberta de Woody Allen para Platão", Juan Antonio Rivera.

     


Verônica:
Presenteou o Alencar com: “Um erro emocional”, Cristovão Tezza.

     


Alencar:
Presenteou a Evelyn com: “Memórias inventadas – as infâncias”, Manoel de Barros.

    


Evelyn:
Presenteou a Sônia com: “Os escravos”, Castro Alves e “Por que ler os clássicos”, Ítalo Calvino.


Sônia:
Presenteou o Cleber com: Vale-presente (devido a ausência do mesmo no encontro, por motivos de saúde).





Silvio Leandro:
Presenteou a Luciane com: “Memórias inventadas para crianças”, Manoel de Barros.

     


Luciane:
Presenteou o Silvio Leandro com: “Contos”, Voltaire.
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