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Isabela Giacomini
A menina bonita do laço de fita é muito linda, com olhos de azeitonas pretas, cabelos negros, enrolados, com trancinhas e pele escura como a noite. Por conta de tanta beleza acaba chamando a atenção de um de seus vizinhos- um coelho branco que se encanta com a aparência dela, especialmente por sua cor. O coelho fica tão curioso com a sua pele que quer logo descobrir o segredo, pois também quer ser assim, ou pelo menos ter uma filha como ela. Após ter ouvido alguns comentários da menina, como:  “fiquei assim de tanto tomar café”, entre outras “dicas”, o coelho passa a tentar de tudo, mas sem sucesso. Ele percebe então, após uma conversa com a mãe da menina do laço de fita, que para seu sonho ser alcançado, teria que casar com uma coelha escura e esperar sua tão sonhada filha negra.  O coelho vai então se aventurar e correr atrás de seu desejo. Com uma narrativa muito simples, Ana Maria Machado traz a inserção da criança negra para a literatura infantil, suscitando no personagem que é branco uma curiosidade e um desejo de ser assim também.
No entanto, um possível contraponto à narrativa é a questão de o coelho querer ser da cor da menina por diversos meios, não aceitando as suas características físicas. Ele também deseja muito ter uma filha negra, como se a cor fosse uma questão de preferência e não de aceitar a natureza dos seres que estão por vir e que estão ao seu redor. A questão da diversidade é trazida de fato, mas há um sentimento negativo do coelho em relação a si próprio. Esse é um dos pontos cruciais na luta contra o preconceito: a aceitação consigo mesmo, pois somente a partir dela que o indivíduo passará a ver os demais com humanidade e igualdade.

O livro em questão é muito interessante para ser levado para discussão em sala de aula ou outros espaços, justamente para abordar as questões étnico-raciais, mas também para falar das possíveis críticas, lembrando-se sempre de levar em consideração o contexto em que a obra foi escrita, características do autor e elementos que possam ter alterado algumas das concepções apresentadas. Menina bonita do laço de fita é com certeza um dos clássicos da literatura infantil, por motivos muito reconhecíveis, principalmente o da valorização do negro na narrativa, desmistificando alguns preconceitos já enraizados socialmente, mas precisa fazer parte de uma leitura mediada, para que a criança, o jovem e o leitor de qualquer idade também se coloquem a fazer questionamentos, afinal de contas, o principal é se aceitar para conseguir respeitar os outros como seus iguais.
Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.

Lara Cristina Victor
Isabela Giacomini
Que tal falar sobre o negro na nossa sociedade e também de sua valorização? A resenha a seguir é um exemplo de como a literatura aborda temáticas tão pertinentes, que precisam ser pauta das discussões sociais. A menina que desejava ter outro tipo de cabelo acaba se descobrindo e se amando da forma que é, sem precisar aderir a padrões, a mudar sua essência, sua identidade ou sua personalidade. Essa possibilidade surge quando o meio em que a pessoa está inserida mostra sua importância, sem discriminação e sem exclusão. Não se trata apenas de uma questão de aceitar ou recusar alguém, mas de ser humano e enxergar os indivíduos como tais, independentemente de suas características. O negro é constituinte de nossa cultura, de nossos costumes e do nosso povo, somos dessa forma atualmente justamente porque houve essa mistura de diferentes povos e locais. Negar a sua importância é, sobretudo, negar a própria constituição do Brasil dada socio historicamente. É por isso que precisamos falar sobre esse assunto com pessoas de todas as idades, afinal somos fruto dessa trajetória. Somente quando o preconceito for menor que a humanidade é que haverá espaço de diálogo, de trocas, de sentimento de pertencimento à sociedade. É um pouco sobre isso que o livro a seguir vai tratar, sendo também um ótimo ponto de partida para trabalhar a temática em espaços educacionais, confira:


“As tranças de Bintou” é uma história muito sensível de uma menina que tinha apenas quatro birotes na cabeça e que sonhava fortemente com longas tranças em seu cabelo, enfeitadas com pedras coloridas e conchinhas, iguaizinhas aquelas que ele via no cabelo de suas irmãs e das amigas de suas irmãs. No decorrer da história, Bintou descobre o porquê de meninas não poderem usar tranças, e descobre também algumas outras coisas que sua avó Soukeye conta sobre os costumes africanos. É através dos conselhos dos mais velhos e de sua própria coragem, que Bintou aprende a amar seu cabelo negro e brilhante, macio e bonito, e também a amar a si mesma. E é nesta data tão importante, que destacamos o Dia da Consciência Negra, fazendo-nos reconhecer os descendentes africanos na constituição e na construção da sociedade brasileira, assim como a importância de valorizar um povo que contribuiu fortemente para o desenvolvimento da nossa cultura. E salientando sobre a oportunidade de discutir sobre temas como racismo, discriminação, igualdade social, inclusão do negro na sociedade, religião, culturas afro-brasileiras, dentre outros.


Lara Cristina Victor é aluna do curso de Psicologia na Univille. Atua como bolsista no Prolij e vê em cada criança um pouquinho de si mesma.

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.


Maira de Carli
Isabela Giacomini
Que tal dar uma volta pelos clássicos, mas de uma forma nova e com uma proposta incrível? Esse é o propósito dos revisitamentos, confira abaixo algumas dessas histórias de cara nova:

Oito pares de sapatos de Cinderela: Cinderela tem muitos sapatinhos, mas só pode escolher um. Na verdade, quem escolhe é o leitor, assim como toda a continuação da história. O livro possibilita que escolhamos qual será o caminho percorrido por Cinderela para chegar ao desfecho da trama, tornando a interatividade ainda mais presente.

Essa característica híbrida da literatura infantil faz com que nos aproximemos do texto verbal de um modo ainda mais significativo, pois a cada página escolhida uma nova situação, completamente inusitada, aparece. Oito pares de sapatos de Cinderela revisita o texto tradicional de Perrault com aspectos modernos e contemporâneos, como a presença de máquinas, de expressões não esperadas e de sapatos bastante diferenciados, mas mantendo-o como base, já que a liberdade não é irrestrita nesse processo de hibridização.

Os autores José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta trazem os traços da não linearidade, uma vez que a narrativa se constitui através de páginas aleatórias que se complementam a partir das decisões feitas por aquele que as lê, aspecto esse notável nas produções híbridas e multissemióticas presentes na contemporaneidade. As ilustrações de Raul Fernandes também se comunicam com as escolhas feitas, principalmente no momento em que todos os sapatos aparecem no centro da página, mas dispostos separadamente, para que cada possível continuação tenha sua totalidade. Essa preocupação com cada elemento utilizado faz com que o leitor se aproxime de maneira muito significativa da produção literária, em uma constante de criatividade e de surpreendimento a cada opção oferecida.


Branca de Neve e as Sete Versões: é mais um daqueles livros que o final fica por sua conta. José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta os autores do livro, mais uma vez, instigam em seus leitores o desejo de fazer parte da história, ainda que seja escolhendo a continuação. A cada escolha o leitor se apropria da narrativa e se permite viver novas possibilidades dentro de um clássico como Branca de Neve.

Já na primeira página encontramos uma frase que pode definir a proposta do livro: “são tantas possibilidades, tudo tem sempre tantas possibilidades...” e é assim que apreciamos as sete versões de Branca de Neve e as inúmeras possibilidades de escolha. Você pode escolher se o espelho mentirá para a Madrasta ou dirá a verdade, se escolher a primeira saiba que o final será curto e bem triste, mas a decisão é sua. Ainda, o caçador deve ou não matar Branca de Neve? Se escolher que deve, adianto que o final será um pouquinho mais longo, mas ainda assim será muito triste principalmente para o caçador que de tanto remorso se entregará a polícia e acabará preso, ele e a Madrasta. Já pensou em uma Branca de Neve bagunceira? O livro lhe dá essa possibilidade, e se assim você escolher deve também saber que o fim de Branca de Neve não será feliz, pois ela será expulsa da casa dos sete anões, passará sua vida caçando esquilos e coelhos e roubando os ovos dos ninhos dos pássaros causando terror na floresta e a indignação dos bichinhos que ainda não foram mortos por ela, e esses tramam uma emboscada e matam Branca de Neve.

E quando a Madrasta oferecer a tal maçã envenenada, Branca de Neve deve guardá-la para mais tarde ou comê-la na mesma hora? Se ela guardar para depois certamente o final será triste para todos, até para os anões que comerão da torta de maçã envenenada prepara por Branca e todos dormirão para sempre! Mas se acha que ela deve comer sozinha sabe também que morrerá. E agora sua escolha é o que os Sete Anões farão com seu corpo: enterrar ou colocar numa caixa de vidro? Se escolher por enterrá-la saiba que a consequência será tenebrosa, já que à meia noite a princesa sairá da tumba e se transformará numa vampira. Os Sete Anões também serão transformados em vampirinhos depois de serem mordidos pela Princesa das Trevas, a Branca de Neve. Mas se ela for colocada na caixa de vidro sua escolha é por quem Branca será encontrada: pelo Caçador ou pelo Príncipe? Se escolher pelo Caçador o fim da Princesa será o divórcio e ela viverá sozinha (por enquanto) numa grande cidade com a profissão de veterinária. Se escolher pelo Príncipe deverá decidir se foram felizes ou não. Se desejas um final feliz saiba que Branca de Neve não ficará feliz longe de seus amiguinhos Anões, escolha, portanto, pela felicidade do casal, que assim todos serão felizes para sempre! E acredite, o final é bem parecido com o começo.

Chapeuzinhos Coloridos: nos conta as histórias de seis meninas muito amadas por suas avós, tão amadas que ganham uma capinha com capuz, cada uma de uma cor, tem azul, cor de Abóbora, verde, branco, lilás e preto também. De tanto que usaram ficaram conhecidas pela cor de seus chapeuzinhos. Em cada história há um desfecho surpreendente para os personagens, assim se torna possível escolher qual é a mais divertida, se é que tem como escolher uma só.

Já se ouviu falar de muitas Chapeuzinhos por aí, mas duvido que sejam como essas, tem uma que come o lobo, outra o faz seu bichinho de estimação, tem também uma que fica amiga do Lobo dos lobos, mais conhecido como Tempo; já outra explode e fica em pedacinhos, uma só pensa em dinheiro e a outra em comida, uma quer ser famosa e uma outra é tristinha porque tem saudades de seu pai. Mesmo assim todas têm um final feliz!

E o mais divertido desse livro é que podemos mexer nas histórias e criar a nossa própria Chapeuzinho, listrada, de bolinhas ou até coraçãozinhos, podemos inventá-las de todos os jeitos e tamanhos.

Maira de Carli é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e encontra nas palavras segredos que são capazes de abrir fechaduras. 

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.






Isabela Giacomini
O livro Reinações de Narizinho foi publicado por Monteiro Lobato no ano de 1931 e é a primeira obra que compõe a série intitulada de “Sítio do Picapau Amarelo”, que veio a fazer muito sucesso tanto na literatura como na série televisiva. A importância de tal obra, assim como várias outras de sua produção, é imensurável, uma vez que leitores de Lobato são atualmente os escritores de renome que beberam dessa leitura e escritura e se influenciaram para escrever para crianças e jovens nos dias de hoje. Em Reinações de Narizinho temos várias pequenas histórias que parecem isoladas e que focam em personagens distintos, mas que estão interligadas em muitos aspectos, não somente pela linearidade narrativa, mas pela conexão dos acontecimentos no decorrer de cada aventura, seja através dos personagens ou de universos imaginativos coexistentes.

O livro inicia contando um pouco sobre a vida de Lúcia, também conhecida como Narizinho, por conta de seu nariz arrebitado, que vive no Sítio do Picapau Amarelo com sua avó, Dona Benta, e com uma criada, Tia Nastácia.  Lá também existem outras personagens como Rabicó, um porquinho de estimação que está sendo preparado para o abate na época de virada de ano e a boneca Emília, inicialmente muda, mas que com o desenrolar de diversas aventuras acaba por se tornar uma boneca para lá de falante, coisa de um tal de doutor Caramujo do Reino das Águas Claras.

E por falar no Reino das Águas Claras, é por lá mesmo que a aventura de Narizinho e da boneca Emília começa para valer. Lá elas têm contato com diversos animais aquáticos, principalmente com o príncipe escamado e com Miss Sardine, mas também com outros um tanto quanto diferentes para o fundo do mar como a Dona Aranha Costureira, a Dona Barata da Carochinha, Pequeno Polegar e tantos outros personagens de universos literários diversos.

O episódio do reino localizado no fundo do mar se mistura com a questão da pílula falante tomada pela boneca Emília e também com a chegada do primo Pedrinho ao Sítio. Cada nova história vai se entrelaçando a primeira e a segunda e assim sucessivamente, até que todos os personagens conhecidos do Sítio do Picapau Amarelo, do mundo das fábulas, das mil e uma noites, das princesas e de tantos outros lugares acabam se mesclando, formando várias histórias dentro de uma. É como se Lobato construísse uma colcha de retalhos a cada nova personagem, a cada aventura em que os meninos são convidados e a cada imaginação mirabolante que possuem.


É interessante também avaliar que a boneca Emília, ou Condessa das Três Estrelinhas ou ainda Marquesa de Rabicó, ganha um espaço muito significativo na casa. Dona Benta e Tia Nastácia que duvidavam das imaginações infantis acabam se surpreendendo com tudo que pode acontecer se transportando para outros universos e perspectivas, seja usando o pó de Pirlimpimpim ou não. Primeiramente o episódio de uma boneca falante as assusta, mas com o tempo se torna natural e imprescindível para suas relações e para os momentos de convivência, principalmente nas decisões, nas novas ideias e nas contações de histórias antes de dormir. A boneca ganha tanto espaço que parece por vezes a protagonista, enquanto na verdade esse papel seria de Narizinho. É nesse livro que a síntese de toda a formação do Sítio é trabalhada, de como cada personagem passa a integrar essa grande família, de como os malvados aparecem e o que cada um faz para ganhar o coração da vó bondosa que é Dona Benta.

Lobato traz ainda um traço fortíssimo que é o revisitamento de outras narrativas, sejam elas orientais ou ocidentais. Princesas com Branca de Neve e Cinderela entram em cena, assim como Barba Azul, Capitão Gancho, Soldadinho de Chumbo, Sininho, Peter Pan, Chapeuzinho Vermelho, Aladim, Simbad, Sherazade, Pinóquio e tantos outros. Essa fusão de diferentes esferas literárias entra em comunicação de uma maneira natural e encantadora e permite que o leitor associe coisas já lidas a algo novo e a outro contexto.

É justamente por essa grande mistura de histórias que Lobato é trazido para a contemporaneidade em que a questão da autoria é posta em cheque, uma vez que todos os textos estão repletos de outros discursos e de falas e pensamentos de outros indivíduos. É também por suas críticas já existentes nessa e em outras de suas obras que vemos alguns tipos de preconceitos e de ideologias serem desconstruídas, como a não violência aos animais, o combate ao desmatamento, a repreensão pela corrupção e trapaça, o preconceito racial ser refutado, a arte estar desassociada de uma concepção de falta de trabalho e tantos outros pontos que os próprios personagens colocam em embate. Alguns, provavelmente não leitores de Lobato, mas apenas de alguns de seus excertos fora do global, ainda dizem que ele precisa ser banido dos espaços educacionais por ser preconceituoso, enquanto na verdade essas ideias são desmanchadas na própria narrativa pelo comportamento de suas personagens, ainda que ele tenha escrito suas obras na primeira metade do século XX. Isso mostra o quanto a frente ele pensava e o quanto ele refletia sobre sua realidade, enquanto grande parte da sociedade de sua época e contexto naturalizavam ações amplamente repreensíveis na atualidade.

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura lobatiana uma oportunidade para voltar a ser criança. 


Lara Cristina Victor
Isabela Giacomini
Maira de Carli
Os sete contos de arrepiar de Flávio Morais narram histórias para lá de esquisitas e cumprem muito bem o que é prometido no título: arrepiar! Que tal usar e se inspirar nesses contos para tornar o Halloween ainda mais assustador?

O plano do capeta é o primeiro conto do livro e demonstra as artimanhas usadas para separar um casal que vivia em uma união tão bonita. O plano é meticulosamente elaborado por um gato de pelos negros que tanto fez que quase obteve sucesso nas maldades contra o casal. O motivo de tal plano? A inveja da união que causava nojo no suposto “gato”. Ele, gato tinhoso, não desistiu até ver a infelicidade do casal, mas acabou surpreendido pelo final dessa história.

A lição da caveira é o segundo conto de arrepiar que Flávio traz nesse livro e fala sobre um homem que não podia imaginar a tragédia que estava prestes a viver por testar sua coragem entrando naquele cemitério e perguntando à caveira sobre seu assassino, e muito menos sobre o lugar que sua língua o levaria. E é graças a ela que aprendemos uma grande lição: há muito tempo um forasteiro tomou uma lição inusitada de um ser mais inusitado ainda. Por essa ele não esperava, o silêncio que tanto desejou nas primeiras respostas é o que o leva a mais valiosa lição: a língua

O cão-de-espeto conta a história de Pedro, o filho mais novo de três irmãos, que depois de suas maldosas ações foi amaldiçoado pela mãe, uma senhora já viúva que não aguentava mais as travessuras do filho. No auge da raiva praguejou o menino dizendo que de Deus ele não era filho, mas sim do cão.
Certo dia, quando Pedro estava pastoreando uma roça de arroz, sua mãe mandou que o filho mais velho, João, fosse levar comida a Pedro que deveria estar morrendo da fome. Tanto estava que se viu uma cena de arrepiar, o menino estava fazendo um churrasco apetitoso com a própria carne do antebraço. A mãe não acreditou no que João havia contado e mandou que o filho do meio fosse depressa, porque Pedro deveria estar com muita fome, mas dessa vez o churrasco era de suas pernas. A mãe resolveu que iria ela mesma levar a comida, pois achava que era maldade dos filhos contra Pedro. Chegando lá não acreditou na cena. O menino estava afiando os cotocos dos braços e das pernas em uma pedra e assim ficou conhecido como O cão-de-espeto, por causa dos seus ossos afiados.


Forró no inferno é a história de um velho sanfoneiro que afirmava já ter participado de um forró dentro do inferno. Contou ele, que havia tocado em uma festa que durou por três dias seguidos e ao chegar em casa se encontrava completamente esgotado. Eis então, que bate à sua porta, um cavaleiro ricamente trajado, montado em um grandioso corcel negro. Quando o sanfoneiro aparece na porta, o cavaleiro o apresenta uma atrativa proposta de tocar em uma festa, valendo muito dinheiro. O sanfoneiro reluta de início, mas acaba por aceitar. Os dois cavalgam estrada afora, até uma misteriosa encruzilhada. O sanfoneiro fecha os olhos por alguns segundos – como solicitado pelo cavaleiro – e, ao abrir, se depara com um ambiente esquisito e um calor insuportável, com pessoas estranhas e tachos fumegantes. Descobre que o convidado de honra da festa era o dono de um engenho. Mesmo diante dessa situação desagradável, o sanfoneiro se põe a tocar de forma interrupta. Sem percebeu o tempo passar, quando abre os olhos, percebe que a festa já tinha acabado. O sanfoneiro segue o cavaleiro e montando no cavalo, seguem viagem para casa, até se deparar com a encruzilhada novamente, e como da vez anterior, fecha os olhos e se depara próximo a sua casa. Pega o montante de dinheiro entregue pelo cavaleiro e pega o rumo de volta para casa. Ao chegar, é interrogado pela mulher, perguntando onde estava esse tempo todo. O sanfoneiro sem entender muito bem, responde que estava a tocar em uma festa. Sua mulher afirma que ele estara fora já faziam três dias. Ele indignado lhe conta quem era o convidado de honra da festa e a mulher com um pulo de espanto responde que o dono do engenho vizinho havia morrido faziam três dias, justamente na noite em que o marido saiu. E assim termina essa história assombrosa do sanfoneiro que tocava forró no inferno. E para os que não acreditam, ele guarda apenas uma nota do dinheiro que recebera do Satanás como prova da veracidade dessa história macabra.

Uma noite muito estranha é a história de três irmãos que haviam deixado o lar paterno em busca de um grande tesouro em algum lugar. Nessa assustadora aventura, passavam por cavernas, furnas e cadáveres despedaçados. Nada abalava os espíritos dos intrépidos jovens, exceto a aventura de uma noite que vivenciaram. Foi assim: estavam visitando uma região ainda desconhecida na floresta, onde se via enormes grotas de pedras que obstruíam o caminho. Os meninos precisavam de uma clareira na mata para descansar e preparar alguma comida. Quando estava quase escurecendo, avistaram uma velha cabana abandonada no meio do mato. Apesar do ambiente meio macabro, decidiram passar a noite ali mesmo. Abriram a porta e logo de cara tiveram uma surpresa: um esqueleto humano que estava em cima da cama. Ao ver os longos cabelos pendidos sobre a cama, imaginaram ser aquele um corpo feminino. Por estarem acostumados com cenas até piores, nada mais fizeram além de ignorar a companhia sinistra que estava por ali. Logo em seguida, começaram a acender o fogo para assar a carne de uma suculenta ave abatida horas antes. Durante o preparo da janta, os meninos conversavam entre si. Um deles confessou o enorme desejo de ter uma linda morena que lhe cobrisse de carinhos, pois faziam meses que ele não via uma mulher. Em meio às conversas, eles ouviram um barulho estranho. Era uma canção que vinha de uma voz feminina. O som foi se aproximando até que aparecesse uma bela moça na frente dos meninos. Esta então, se ofereceu para assar a carne. Os irmãos estavam estranhando muito aquela situação, porém permitiram que a moça preparasse o jantar. Não demorou muito e aconteceu um fenômeno assustador. Os olhos da moça começaram a faiscar e da sua boca saíram grande labaredas vermelhas. Apavorados os meninos saem correndo mata afora, até encontrarem uma grande árvore, da qual escalaram e ficaram lá no alto, tremendo de tanto medo. Minutos depois, a moça – que já não tinha mais a mesma aparência bela – surge como um grande redemoinho no meio da floresta, destruindo tudo que estivesse no caminho. Ela começa a subir, flutuando no ar, dando gargalhadas. Quando estava perto o bastante dos meninos, ouviu-se de longe o cantar de um galo. Eram duas da madrugada. É nesse momento que todas as criaturas sobrenaturais têm de retornar para o outro mundo. A terrível criatura grita furiosa: “isso foi o que os salvou, infelizes”, e complementa que voltará em breve, pois seu corpo ainda não havia sido sepultado. Dizendo isso, sumiu em meio a um clarão. Os rapazes mais que depressa saem correndo desesperadamente para enterrar aquele esqueleto. Após essa experiência aterrorizante, eles voltam à terra natal, sem mais tocar nessa horripilante história novamente.

A ave e o caçador conta sobre a vida de um casal, aparentemente muito feliz, que vivia do extrativismo, próximo a uma floresta. Porém, em uma época muito difícil, o marido não estava mais encontrando nada para caçar. A mulher já estava uma fera por não ter o que cozinhar e o marido, muito faminto. Cansado da situação, ele saiu para caçar o que quer que fosse e prometeu que naquele dia teriam um banquete, nem que tivesse que trazer o “filho do demo” morto para a refeição. A mulher, muito supersticiosa quis que o marido ficasse em casa, pois se proferira essas palavras era capaz de atrair alguma coisa maligna pelo caminho. Sem dar ouvidos, ele saiu para a caçada e andou incansavelmente até encontrar uma ave negra, muita estranha e desconhecida, talvez fosse um corvo. A mulher ficou assustada ao ver tão horripilante animal, mas como a fome era tamanha, não hesitou em colocá-lo no fogão. E eis que o mais inesperado aconteceu: o pássaro começou a se revirar dentro da panela com água fervente e, no mesmo instante, um grande estrondo atingiu a porta e uma criatura terrível apareceu para mudar o rumo de tudo que estava por acontecer. Depois desse dia o homem aprendeu uma grande lição e viu que o conselho de sua mulher poderia estar mais certo do que pensava e que aquilo que se fala pode ser atraído de maneiras inimagináveis.


 O poço é o último conto desse livro e fala sobre um coronel que vivia no sertão, já há muito tempo sem chuvas. Ele estava perdendo suas posses e ficando revoltado com a situação. Quase todos os moradores daquela região já tinham partido para outro local, em busca de acalento, mas como ele não largaria suas riquezas por lei nenhuma, estava ali sofrendo, junto com alguns de seus capangas. Chegou um dia que o fazendeiro notou que teria água para menos de três semanas e ordenou que seus empregados fizessem um poço. Eles cavavam a terra seca e nada encontravam, além do cansaço e da sede. Para piorar a situação, o homem era grosseiro e agressivo. Já farto daquilo tudo, gritou algumas blasfêmias a Deus e disse também que daria a própria alma ao diabo se surgisse água naquele buraco com mais de trinta metros de profundidade. Foi nesse momento, enquanto estava dentro do poço aos berros de fúria, que sentiu algo molhando seus pés: finalmente era água! Acontece que o nível ia subindo à medida que ele gritava e ninguém estava ali para ouvi-lo. Os moradores mais próximos que ainda restavam por ali foram ver o que acontecia por conta de tamanho desespero e encontraram o homem como estátua em uma terra mais seca do que nunca. Eis que a crença dos sertanejos estava certa: cuidado com o que fala; os anjos poderão dizer amém, e em outros casos, poderão ser até os demônios.

Lara Cristina Victor é aluna do curso de Psicologia na Univille. Atua como bolsista no Prolij e vê em cada criança um pouquinho de si mesma.

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.

Maira de Carli é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e encontra nas palavras segredos que são capazes de abrir fechaduras.



Maira de Carli
É possível trabalhar com a literatura clássica com o público juvenil? Machado de Assis é um ótimo exemplo para dizer que sim, pois sua temática é bastante atual, independentemente de ter escrito em outro século. Trabalhar a literatura realista com adolescentes pode ser uma grande tentativa de os instigarem e os deslocarem para outra época a fim de compará-la com a contemporaneidade. Que tal trazer desafios e mostrar possibilidades distintas de leituras a eles? Confira a resenha de Helena, de Machado de Assis e inspire-se para trabalhar com diferentes percepções acerca dessa obra e de tantas outras deste escritor e de demais autores clássicos, brasileiros e estrangeiros:
  
Helena, romance clássico de Machado de Assis, conta a história de uma moça que é reconhecida como filha fora do casamento por um homem bem quisto da sociedade que acaba de falecer, o Conselheiro Vale. Em seu testamento solicita que sua irmã, D. Úrsula, e seu filho Estácio, acomodem a moça, até então desconhecida pela família, em sua casa.

Helena, dona de uma delicadeza apaixonante, logo conquista a admiração de todos da casa, não só por sua beleza, mas também pelas habilidades engenhosas incomuns às donzelas simples da época, como andar a cavalo, e mais ainda pela facilidade e responsabilidade em dirigir os afazeres da casa da família. Neste feito, ganha o amor de D. Úrsula que é cuidada pela moça quando não passa bem devido a problemas de saúde.  Sua inteligência e desenvoltura astuciosa em conversar e convencer espanta a todos. Não é à toa que aos poucos ganha os olhares dos mais improváveis cavalheiros do Rio de Janeiro, inclusive de seu irmão que pouco a pouco percebe que seu amor vai muito além de uma afeição fraternal somente, paixão recíproca a Helena que a nega convencendo seu irmão de que chegou a hora de se casar, o escolhido é Mendonça, amigo de Estácio.


Apaixone-se também por esse romance misterioso, cheio de denúncias sociais: adultério, mentira, comportamento adequado das damas da época, críticas aos costumes, reflexões profundas sobre as condições humanas, pessoas tratadas como mercadoria e o casamento como jogo de interesse acordado unicamente pelo fim vantajoso.

Maira de Carli é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e encontra nas palavras segredos que são capazes de abrir fechaduras.


Isabela Giacomini
Havia um passarinho e uma menina. Eles queriam muito ser amados, como todo mundo costuma desejar. Ambos eram vaidosos, carentes, inseguros e românticos. Tinham tanto em comum que acabaram se encontrando, mas de uma maneira bastante inusitada. Tudo aconteceu no dia em que o pássaro levou uma pedrada e foi voando até cair na varanda da casa da menina, logo onde ela sempre ficava a observar a noite.

A partir desse momento suas histórias, semelhanças e diferenças se cruzam. Um vai cuidando do outro, passando o tempo juntos, apegando-se aos pouquinhos, até que estivessem se sentindo completamente amados. O passarinho estava sarando até mais rápido com tanto afeto compartilhado e, como é de se esperar na vida de um pássaro livre, já era hora de se despedir e voltar ao mundo. Afinal, lugar de pássaro é no céu e de menina é na terra. O único problema é que o amor não tem essas mesmas fronteiras.

Os dois, pela extrema relutância, resolvem que não precisam dar tchau. Estavam certos de que deveriam ficar juntos e, por isso, a menina o colocou em uma gaiola. Agora ele seria só dela e vice-versa. Tudo parecia estar perfeito, muito seguro, arranjado, mas acabaram esquecendo que o amor ficaria preso.

A obra Gaiola trata de um sentimento muito profundo e complexo que é o egoísmo e a dificuldade de se lidar com as emoções. O ato de pensar nas próprias satisfações, mas sem olhar a necessidade real de outrem, faz com que um afastamento seja evidenciado. Esse sentimento foi compartilhado com a menina e com o próprio pássaro, que ficava a espreitar o céu, mesmo engaiolado. Existia ainda o lado bom da companhia, mas também havia o da falta de liberdade.


Ao mesmo passo que o passarinho estava preso, apenas olhando o que estava além daquelas grades, a menina estava presa ao sentimento de extrema segurança, de vigia excessiva. Mas, obviamente, o amor não pode ser saudável dessa maneira, uma vez que para que ele seja duradouro, os envolvidos precisam estar felizes para que consigam transmitir isso uns aos outros. E isso não acontece apenas entre os casais, como se pode perceber, mas também entre seres que precisam de afetividade, ou seja, com todos nós. A menina, depois de refletir muito, tomou a maior decisão de todas. A partir daí ela nos mostra como precisamos deixar que o destino venha, sem se apressar sobre ele ou tentar limitá-lo, já que as coisas acontecem porque precisam, nada é tão certo que não se possa mudar e nada é tão fixo que não possa se acabar. A história dos dois, como a autora Adriana Falcão menciona, não acaba, mas abre possibilidades. E assim é a nossa narrativa na vida: tudo é possível, basta acreditar em si e deixar que os sentimentos bons prevaleçam. O livro traz reflexões muito pertinentes sobre a necessidade de se cultivar o amor, pois é ele o elemento principal nesse processo, por nos fazer pensar no outro e em nós mesmos, aprendendo com cada situação.

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.


Lara Cristina Victor
Hazel Grace é uma jovem menina que há alguns anos descobriu um câncer na tireóide com metástase nos pulmões. Desde então, ela precisa conviver diariamente com uma cânula nas narinas e um tubo de oxigênio preso a um carrinho de aço. Inevitavelmente, sua vida passa a ter algumas limitações por conta da doença, e junto a isso, sofrimento intenso tanto físico quanto emocional.

Um certo dia, ao perceber Hazel muito depressiva, sua mãe decide levá-la ao Grupo de Apoio para crianças e adolescentes com câncer localizado no porão de uma igreja, lá era um lugar onde todos compartilhavam suas angústias e diferentes perspectivas. E é nesse grupo, que Hazel conhece Augustus Waters, um menino de dezessete anos que por conta de um osteossarcoma teve de amputar uma das suas pernas e usar uma prótese em seu lugar.

Augustus encanta a jovem Hazel logo no primeiro contato. E a partir daí, os dias começam a passar mais intensamente, de forma que a presença de Augustus na vida de Hazel se torna essencial e inigualável.


Os dois passam a compartilhar suas vidas, assim como suas ideias e desejos. Em meio a tanto amor, e também, recaídas por conta da doença, eles partem para uma viagem a fim de realizar um sonho de Hazel. É lá que eles experienciam a forma mais pura do amor, assim como alguns atritos e desilusões.
 
A culpa é das estrelas é um daqueles romances sensíveis, capaz de nos mostrar a potência de um amor verdadeiro nos seus mais diversos aspectos. Demonstrando que em meio a tantas dificuldades, a cumplicidade pode ser a nossa maior aliada, fazendo com que os problemas se tornem pequenos e o amor seja protagonista de toda a história.

Lara Cristina Victor é aluna do curso de Psicologia na Univille. Atua como bolsista no Prolij e vê em cada criança um pouquinho de si mesma.

Isabela Giacomini
Ana tinha muitos pares de sapatos e o melhor de tudo é que eles tinham vida. A cada sapato que ela colocava, mais colorida ficava a casa, as brincadeiras e a sua relação afetiva com os pais. No entanto, chegou o grande dia de ela finalmente ir para a escola, já era uma menina crescida. Ana não sabia se ria, se chorava, se estava emocionada ou assustada, era muita coisa para sua cabecinha.

Ela foi então apresentada a um novo par de sapatos, que era utilizado pelos estudantes da escola. Ana, contudo, sentia-se muito estranha por usar aquele sapato padronizado e deixar os seus coloridos e divertidos de lado, esquecidos nas estantes. Aos poucos, suas brincadeiras não eram mais tão legais e tão coloridas, a professora Jandira também não colaborava muito: era rude e autoritária, não deixava que as crianças fizessem um barulhinho sequer.

Mas toda a situação mudou quando Jandira ficou doente e uma nova professora veio para substitui-la em algumas de suas aulas. E é justamente por essa mudança que as crianças começam a pensar diferente e a ver o quão a relação na sala de aula pode alterar todo o humor em quaisquer espaços.


O livro A menina que sonhava com os pés traz uma crítica implícita à padronização e ao corte criativo que a escola e muitos professores acabam fazendo em seus alunos, tentando tornar as crianças iguais, enquanto elas precisam manifestar suas habilidades de diversas maneiras, sejam elas pelos pés, assim como fazia Ana, ou não. Os sapatos de Ana representam a capacidade que as crianças têm de inventar, de imaginar e de se divertir das maneiras mais simples possíveis e que as relações sociais interferem fortemente nesse processo, já que a criança está desenvolvendo sua psicossocialidade. Chritian David, além de trazer críticas e reflexões bastante pertinentes, faz com que a criança se identifique nesses momentos criativos e queira usar diversos sapatinhos, meias e tantas outras coisas diferentes a cada novo dia, afinal, expressar a arte faz parte, principalmente na infância! Sem contar, é claro, na delicadeza dos traços da ilustradora Martina Peluso, que tornam a obra ainda mais divertida!

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.

Nicole de Medeiros Barcelos

Nós temos contado histórias desde o princípio da nossa existência. Antes que as palavras estivessem convencionadas pelo uso, ou dicionarizadas e gramatizadas nos livros, a humanidade já dava cor às suas narrativas de diferentes formas: em suas paredes, em suas danças, teatros, rodas de contação... Nunca realmente deixamos nada disso “para trás”, mas nossas formas de materializar esse ato tão próprio ao humano certamente se reinventaram no curso dos muitos anos que nos separam (ou nos unem) aos nossos antepassados.

Em “O cântico dos cânticos”, Ângela Lago explora as possibilidades narrativas em diversas dimensões da experiência estética: da profundidade de suas ilustrações à própria maneira com que podem ser (física e metaforicamente) lidas por aqueles que ousarem abrir uma de suas capas, há muito a explorar pelos meandros da história – ou histórias – enredada por Lago.

Nesta obra, independentemente da face que segure para si, o leitor acaba encarando a mesma capa dourada estampada pelo título em duas meias luas. É tudo parte do jogo que o livro começa a propor antes mesmo do primeiro virar de páginas – isso porque O cântico dos cânticos pode ser lido de trás para frente, de frente para trás, em pé ou de cabeça para baixo, e por onde mais se desejar. Aqui não há em cima ou embaixo, ou frente e trás, a bem da verdade. Estamos livres para escolher que histórias queremos ver contadas.


Engendrada de maneira circular em uma sintaxe visual intrigante, pode-se dizer que a narrativa adota duas perspectivas básicas, dependendo da “ponta” em que se comece a lê-la: de um lado, a da personagem feminina e, do outro, a da personagem masculina. De ambos os lados, porém, acompanhamos narrativas sobre encontros, desencontros, sobre o amor, a ilusão amorosa e suas consequências, às quais o próprio leitor dará os sentidos e significados diversos a partir de sua(s) leitura(s).

Ângela Lago consegue criar tal efeito pois as belíssimas imagens que contam essas histórias foram criadas a partir de uma estética inspirada pelo trabalho de Maurits Cornelis Escher, bem como pelas tendências da arte impressionista (como Uma tarde de domingo na Ilha de Grande Jatte, de George Seurat) e expressionista (como Noite estrelada, de Van Gogh) e pela arte árabe e mulçumana. Dessa forma, o próprio texto imagético reproduz e assimila o contexto da história e apresenta ilusões visuais para o seu leitor (que não é necessariamente apenas o infantil).

A beleza da narrativa em si também encontra outras motivações. Muitos provavelmente talvez concordem que o título da obra – O cântico dos cânticos – soa um tanto familiar. Isso porque o poema bíblico de mesmo título de fato foi uma das inspirações da autora para a criação do livro: Lago, arrebatada pela poesia desse texto da tradição cristã, e principalmente pelo seu discurso sobre o amor, resolveu contar, à sua moda, uma história tão bela quanto a sua fonte de inspiração, materializada finalmente nessa narrativa sem palavras que, porém, tem muito a dizer.

Ao estabelecer essa multiplicidade de diálogos, seja no formato do livro, na sua relação com o seu conteúdo, ou seja na construção de suas imagens, e nas relações que estabelecem intertextualmente, a autora mineira reitera o caráter essencialmente híbrido e inovador de sua obra – aqui entendendo “[...] por hibridação processos socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas” (CANCLINI, 2008, p. XIX).

Pois, combinando elementos conhecidos – um poema bíblico, estéticas artísticas legitimadas pela sociedade e a própria materialidade do objeto livro – Ângela Lago nos presenteia, como sempre, com uma história estranha o suficiente para nos ser muito familiar.

*Felizmente, O cântico dos cânticos, lançado primeiramente em 1993 e reeditado em 2013 pela editora Cosac Naify, foi adicionado ao catálogo da SESI-SP Editora em julho de 2018 e está de volta às livrarias!

Referências

CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. Edusp: São Paulo, 2008.

LAGO, Ângela. O cântico dos cânticos. Cosac Naify: São Paulo, 2013.

Nicole de Medeiros Barcelos é graduada em Letras (Língua Portuguesa e Língua Inglesa), vive se perdendo em buracos de coelho e em estradas de tijolinhos amarelos.

Isabela Giacomini
Lara Cristina Victor
As histórias, de um modo geral, têm muita coisa para contar e também há muito a ser desenrolado, como os próprios fios costumam fazer. Mas, algumas delas, falam deles e das linhas literalmente, já que se constroem pela tecitura, sendo ela a matéria e o conteúdo principais. É pelo percurso que esses fios fazem que o enredo vai se constituindo, que as ilustrações vão sendo formadas e que as memórias vão sendo relembradas. Os fios e as linhas estão para além do ato de costurar meros pedaços de tecido, eles possibilitam que novas histórias sejam descobertas, que se transformem ou que também sejam desmanchadas. É justamente por esse poder que possuem de dar a continuidade dentro de cada narrativa que separamos uma lista de livros que as trazem como protagonistas. Confira a seguir:

A manta, de Isabel Minhós Martins, com ilustrações de Yara Kono – na casa da avó havia uma cama enorme, enorme mesmo, onde cabiam meninos, meninas, gatos, um cão e a vovó também, é claro. Ela não era muito confortável, mas isso acabava não importando, pois havia a manta cheia de retalhos que os cobria confortavelmente. Cada um deles era uma história para ser descoberta. Cada pedacinho escondia uma viagem maravilhosa pelo universo da imaginação. Deve ser por isso que houve até briga para ver quem ficaria com ela, afinal ainda há tanto tecido para ser explorado!


Vestido de menina, de Tatiana Filinto, com ilustrações de Anna Cunha – o vestido da menina é repleto de fios diferentes uns dos outros. Eles vão se modificando a cada conversa, a cada situação vivenciada e a cada novo lugar visitado. Alguns fios são compridos, outros curtos, enrolados, escuros, emaranhados, grossos, esfuziantes e tantos outros adjetivos que se possa dar. Às vezes havia tantos fios, que o vestido ficava até pesado de vestir! O mais legal de tudo é que cada um deles tem uma nova história para contar...

A moça tecelã, de Marina Colasanti – Ela acordava ainda no escuro, e logo sentava-se ao tear.
São nos delicados fios, pentes, lãs e cores, que essa linda história acontece. Mostrando-nos as possibilidades de ser, estar e sentir, assim como a possibilidade de um recomeço. De um novo caminho. Um novo dia. Um novo amor… E uma nova história. A moça tecelã nos dá a oportunidade de construir e desconstruir, de imaginar e reimaginar. A coragem de criar, mas também de desfazer. E de ir tecendo a vida com fios e cores que brilham e nos transbordam, exatamente aqueles que nos fazem realmente felizes.


Além do bastidor, de Marina Colasanti- Uma menina corria todas as manhãs ao bastidor para bordar coisas diferentes. Imaginava uma flor, pegava a agulha e a linha e a bordava. Com o passar do tempo aquele tecido estava repleto, tudo parecia ter muita vida e muita cor. A menina já fazia parte de toda aquela paisagem, já se deitava na grama, apreciava as frutas, andava a cavalo. Ela era a única a não estar no pano, entre fios e linhas, pelo menos por enquanto. Além do bastidor fala dos nossos sentimentos e de como eles são exteriorizados, de como entramos e lidamos com cada uma de nossas experiências, de como bordamos nossa existência e também de como arrematamos a linha.

Colcha de retalhos, de Conceil Correa da Silva e Nye Ribeiro Silva, com ilustrações de Semíramis Paterno – Felipe é um neto que ama visitar sua avó, pois lá tem muita coisa para fazer. Um dia sua avó se pôs a costurar alguns retalhos que sobraram de suas costuras antigas e o neto, é claro, quis ajudar. Começou a separar cada pedacinho pelas suas características e a cada um, uma memória era relembrada por ele e pela vovó. Os dois conversavam sobre cada tecido, para que fim ele foi usado, quando isso aconteceu e o que fizeram na ocasião. Aos poucos, uma bela colcha de retalhos surgia, com muitas histórias diferentes a serem desvendadas. Além de toda a beleza das memórias, o livro trabalha com um sentimento muito único- a saudade, mostrando o quanto essas histórias a despertam e nos fazem entender o que ela realmente significa.


Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.

Lara Cristina Victor é aluna do curso de Psicologia na Univille. Atua como bolsista no Prolij e vê em cada criança um pouquinho de si mesma.


Gabrielly Pazetto
Isabela Giacomini
Nicole Barcelos
*agradecimentos especiais à Cymara Sell

Alguns escritores, pela qualidade de seu trabalho e pela beleza de seu estilo, por vezes conquistam lugares especiais nas estantes de todos nós – sejam eles considerados autores “para adultos” ou “para crianças”. Anthony Browne (1946), escritor e ilustrador britânico, é um desses casos: com mais de 40 títulos publicados em diversas línguas, está para além de uma categorização como “infantil” ou “juvenil” – seus livros aparentemente infantis na verdade falam para leitores de todas as idades. Além disso, em 2000, teve seu trabalho reconhecido com a maior honraria da literatura infantil juvenil, ganhando o prêmio Hans Cristian Andersen de ilustração. Atualmente, Browne é um dos maiores ilustradores de seu tempo e por isso (e muito mais) acreditamos merece uma lista especial no nosso Blog. Confira os livros selecionados por nós e nos diga: qual deles é o seu favorito?

O túnel – Rosa e Juan são irmãos, muito diferentes em tudo. Rosa tem medo do escuro, enquanto o menino o aproveita para fazer travessuras. A mãe deles vivia se zangando com suas implicâncias, até que um dia resolveu pedir para que saíssem brincar juntos, sendo amáveis um com o outro. Mas o que as crianças não poderiam imaginar é que no meio daquela saída entediante, encontrariam um túnel muito obscuro e interessante. Será que eles conseguirão chegar em casa para o almoço? Ou o túnel mudará todo o enredo? A narrativa traz um convite a se aventurar, com um toque de suspense e muita aventura.

Histórias de WillyWilly é um personagem recorrente das obras de Browne, estrelando diversos livros do autor há mais de 30 anos. No Brasil, muitos de seus títulos ainda não foram publicados e traduzidos, mas um dos mais recentes felizmente foi. Em Histórias de Willy visitamos Robinson Crusoé, Alice no País das Maravilhas e uma série de outros personagens do que muitos poderiam chamar de “clássicos” da literatura infantil juvenil. Pois, nesse livro, Willy (com que, lembremos também, Anthony Browne diz se identificar muito) literalmente viaja por uma série de cenários que certamente serão conhecidos de muitos leitores, atravessando mundos coloridos pelo passar das páginas duplas que ilustram suas aventuras. O leitor há de talvez discordar ou ansiar por outras histórias além das escolhidas por Browne, mas o convite questionador do texto verbal certamente o levará a pensar em suas próprias histórias dignas de preencher um livro!

Vozes no parque – Trabalhando com uma multiplicidade de vozes, neste livro Browne narra a história de quatro personagens diferentes que vêm suas vidas se esbarrarem em uma tarde no parque. A obra é muito feliz em retratar pontos de vistas de diferentes posições sociais e as ilustrações, como não poderiam deixar de ser, nos fazem mergulhar em capa página para analisar cada detalhe e referência – especialidades do autor.


Na floresta – Um menino sai para levar uma cestinha de bolo para sua vó, a pedido da mãe e precisa escolher entre o caminho mais longo e demorado e o caminho da floresta, mais rápido e sinuoso. Na floresta parece uma história muito familiar, mas em que na verdade há muito a ser desvendado, principalmente nas ilustrações do autor e nas cores por ele utilizadas. A cada página virada uma nova emoção surge, e as expectativas são superadas – às vezes o óbvio acaba não acontecendo, às vezes sim.


Gorila – Em "Gorila" conhecemos a doce Hannah. Hannah tinha muitos sonhos, sonhos com gorilas, seu animal preferido. A menina sempre pedia ao seu pai para levá-la ao zoo, mas ele se recusava por não ter tempo, até que um dia ela decidiu ir por conta própria! Em mais uma história sobre primatas, Browne mistura seus traços delicados com a realidade dos pais do século XXI que não têm tempo de realizar os sonhos de suas garotinhas.



Little Beauty – Vivendo sozinho em um recinto num zoológico, um gorila pode ter tudo o que quiser – menos, porém, o que mais o angustia: uma companhia. Seus tratadores, na ausência de outros iguais para lhe servirem de parceiros, presenteiam-no com uma gatinha, chamada Beauty. Quando o olhar profundo e melancólico do gorila cruza o olhar animado e cheio de vida da doce Beauty, uma conexão se estabelece imediatamente. A partir daí somos testemunhas de um afeto que vai sendo construído pelo compartilhamento dos momentos mais corriqueiros da vida. Em Little Beauty, Browne dá vida à mais um gorila de humanidade e sensibilidade ímpares, com expressões fortes que falam do que há de mais humano em todos nós.



Gabrielly Pazetto é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e faz dos livros que lê barcos de viagens inesquecíveis.


Nicole Barcelos é graduanda em Letras na Univille (Língua Portuguesa e Língua Inglesa). Atua como bolsista do Prolij e vive se perdendo em buracos de coelho.

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.

Isabela Giacomini
Mariana tem um hobbie bastante único. Ama o vento e por isso gosta de passar o tempo no topo de um prédio altíssimo da cidade. A sua alegria é tamanha, que contagia o colega Altair.

Ele, como costuma surpreender as pessoas, começa a construir uma engenhoca enorme. Usa canos, hélices, tubos, alarmes e tudo que consegue, porque quer dar um grande presente à Mariana: a possibilidade de ter o vento para si. Mas nem tudo ocorre de modo perfeito quando se fala do poder da natureza, principalmente da força do vento e de sua vontade própria. E todo o trabalho acontece em vão, pelo menos para Altair. Mas Mariana não liga para isso e mostra que outras coisas são mais importantes, como sua amizade, por exemplo.


Acima de tudo, de Paulo Rea, textualiza e ilustra como a felicidade pode estar nas coisas simples e às vezes, grandes inventos não são capazes de suprir aquilo que é mais intrínseco no ser humano: a necessidade das relações interpessoais e de momentos de lazer.  Com uma ilustração muito peculiar, o autor expressa grande parte do sentido da história por meio dos traços delineados, trabalhando com muita delicadeza e com a madeira- objeto de seu trabalho estético, que migra para o campo literário; um dos motivos pelos quais o livro recebeu em 2010 o Prêmio Jabuti de Melhor Ilustração.

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.


Isabela Giacomini
Jo-í e Hi-pi são irmãos gêmeos, mas diferentes de quaisquer outros que se possa encontrar- foram enviados por um espírito do céu para criarem os elementos da terra. Os heróis constroem aquilo que querem e o que há necessidade de se ter, sempre muito alegres e espontâneos com suas grandes invenções.

O poder de suas palavras é tão forte que conseguem criar tudo o que pensam, inclusive animais muito peculiares- alguns até perigosos demais. Eis que um dia, algo que não era esperado ocorre: uma de suas criações se volta contra Jo-í e ele nunca mais volta a ser o mesmo. Mundaréu mostra os desafios passados por Hi-pi para resgatar o irmão e fazê-los ficarem a salvo, mas algo muito maior está por vir. O que poderia acontecer em uma terra onde habitam apenas duas pessoas?

A obra de Celso Cisto permite uma reflexão muito grande por parte do leitor, a partir de um final surpreendente e também incomodativo. É incrível como sua literatura consegue perpassar por momentos históricos conturbados de uma maneira tão sutil e implícita, ainda mais acompanhado pelas maravilhosas ilustrações de Rosinha Campos.



Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.

Isabela Giacomini

O decorrer do dia é muito relativo na história de Isabel Minhós Martins: de um lado há a passagem natural das horas e de outro, as horas ora são atropeladas demais, ora enroladas excessivamente. Tudo isso pela imposição que os humanos costumam fazer, deixando que o relógio comande suas vidas. 

Uma hora devemos ir devagar, para tudo ser feito na ordem correta. Em outra devemos ir rápido para não nos atrasarmos. Depressa devagar, publicado em 2013 pela editora Tordesilhinhas, traz à tona uma reflexão em relação às rotinas demasiadamente corridas. 

Bernardo Carvalho traz ilustrações bastante coloridas e características, chamando a atenção do leitor, além de estabelecer um diálogo muito interessante com o texto verbal. É uma narrativa curta, mas cheia de significações acerca do tempo que gastamos ou deixamos de aproveitar – uma provocação que deve ser feita, mesmo que não sejamos mais crianças!



Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.
Nicole Barcelos

Carlos Alberto de Souza Vasconcellos tinha um Problema. Assim mesmo, com P maiúsculo e tudo. Na verdade, mais de um. Bastava uma olhadela para o seu testão para ter certeza que sua cabeça estava crescendo – crescendo para cima. Você vê, ele a mediu e tudo, era científico, inegável, que sua testa estava de fato aumentando. Mas isso tudo porque além do Problema, Carlos Alberto tinha também um Segredo – ou melhor, Segredos: havia minhocas em sua cabeça. 

Em Minhocas, de Luana Chnaiderman de Almeida, ilustrado por Deko Farcas (estreante como ilustrador, mas grafiteiro que assina nas ruas como Treco), explora-se com muita cor e bom humor os Problemas e Segredos de Carlos Alberto. Guardando seus medos e ansiedades para si, surgiram na cabeça do menino várias minhocas, como Retardoca, a minhoca estou-sempre-atrasado-em-tudo; Bolota, a minhoca será-que-eu-sou-barrigudão?, Astrogildo, a minhoca na-verdade-todos-queriam-que-eu-fosse-o-Astolfo, e tantas e tantas outras. Quando o conhecemos, ele está para fazer aniversário – e sua cabeça, já muito crescida, está em superlotação minhoquenta. 

Os eventos que se desenrolarão a partir dos pedidos do garoto nessa data tão especial, porém, podem trazer uma reviravolta para as residentes dos miolos de Carlos Alberto, e nesse empurra-empurra de minhocas, fica difícil dizer se o nó vai se atar ou desatar de vez em seus pensamentos. O que é certo, porém, é que esse livro, aparentemente despretensioso e colorido em tons de rosa e verde quase neons (muito chamativos e ousados), é garantia de risadas, diversão, e também de boas reflexões para leitores jovens e experientes: há de se concordar, afinal, que não é apenas Carlos Alberto quem possa estar alimentando minhocas intrusas em suas caraminholas.


Nicole Barcelos é graduanda em Letras na Univille (Língua Portuguesa e Língua Inglesa). Atua como bolsista do Prolij e vive se perdendo em buracos de coelho.
Luana Seidel

Um garoto travesso e cheio de si, que tanto mimam e que manda e desmanda em todos que estão ao seu redor. Provavelmente você conhece alguém que se encaixa nessa descrição, pois no mundo existem muitos como este, e no meio mundo também...

Eleguá é o nome da história que Carolina Cunha nos conta. O garoto travesso que tem este nome é filho de Yemanjá; ela vivia no lugar que Obatalá enfeitou com carinho e transformou no melhor lugar do Universo: o espaço. 

Yemanjá era sempre coruja, mimava muito Eleguá, descrito como “o menor e mais espevitado” dos filhos. Num dia de briga e má-criação para com sua mãe, Eleguá teve de sair de casa e se tornar responsável por si. 

Depois de tempos, o pequeno, agora dono de si, decidiu voltar pro lugar de onde veio e, para agradar aos grandes, levou consigo uma semente de três olhos que, apesar de encantar Eleguá, não ganhou muita atenção de Obatalá.

A decepção do Eleguá não foi pouca ao ver o seu presente sendo esquecido por todos; foi aí que ele, magoado, instaurou o caos na comunidade. Em meio ao desespero de todos, lhe ofereceram oferendas para que deixasse a paz voltasse para aquele lugar. Um dos pedidos foi de que encontrasse a semente; mais tarde, descobriu-se que o presente era um Obi, uma castanha que serviria para ser quebrado em quatro partes e, proferindo palavras de axé, traria mensagens dos ancestrais. A paz voltou a reinar... 

Obatalá intitulou o menino de “guardião do Universo”, quem conhece as trilhas e rotas, abre e fecha portas. Eleguá é o mensageiro do meio mundo, d’entre o céu e a Terra e, graças a ele, Obi ficou conhecido como uma semente sagrada da África. 

A obra foi publicada pela Edições SM no ano de 2007 e ilustrada também por Carolina Cunha, que intercala ilustrações coloridas para narrar as aventuras de Eleguá e tons escuros para discorrer sobre a imensidão do Universo adornado por Obalatá. 

Cunha utiliza uma linguagem simples para narrar, o que faz com que a obra seja direcionada para o público infanto-juvenil. A autora faz da história um bom meio de trazer ao leitor mais conhecimento sobre a cultura dos Yorubás e Fons. 


Luana Seidel é graduanda do curso de Letras da Univille, trocou o oxigênio por arte há tempos – e não se arrepende disso.
Cymara Scremin Schwartz Sell

Em um zoológico, num quarto cujo papel de parede reproduz um jardim florido, um gorila tem tudo o que pode desejar, exceto uma verdadeira companhia. Sua solidão e tristeza são evidentes, e por isso, ao pedir um amigo através da linguagem de sinais, seus preocupados tratadores resolvem lhe atender. Na falta de outro gorila nas proximidades, acaba ganhando de presente uma gatinha chamada Beauty. Quando o olhar profundo e melancólico do gorila cruza o olhar animado e cheio de vida da doce Beauty, uma conexão se estabelece imediatamente. A partir daí somos testemunhas de um afeto que vai sendo construído pelo compartilhamento dos momentos mais corriqueiros da vida.

Esse é, em resumo, o enredo de “Little Beauty” (Candlewick Press, 2008), de Anthony Browne, autor e ilustrador conhecido por suas histórias e ilustrações de gorilas gentis e deslocados. Neste livro, as personificações da Bela e da Fera são retomadas para que se possa falar de um dos aspectos mais significativos da amizade: a cumplicidade. Inexplicável em suas causas, a cumplicidade está tanto no entendimento silencioso que os personagens têm um do outro quanto na defesa final que Beauty faz do amigo. Porque se amam profundamente, ambos dispensam a linguagem de sinais entre si, utilizando-a somente com os humanos que, nas entrelinhas do texto, revelam-se os causadores da angústia do gorila. 

Como todo bom livro ilustrado, “Little Beauty” possui camadas de significados que agradarão tanto os leitores maduros quanto os iniciantes. Lê-lo acompanhado talvez propicie um daqueles belos momentos de cumplicidade.


Cymara Schwartz é graduanda de Letras na Univille e acha os gorilas um dos animais mais bonitos desse mundo.
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