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Luciane Piai


Caro leitor, eu estava desencantada/desacreditada dos mundos mágicos das bruxas e de outros seres que povoam o imaginário. No entanto, ao conhecer Mutango e Vilengo, as bruxas das Vassouras do Vento e das Nuvens, respectivamente, minha credibilidade nos poderes das bruxas retornou paulatinamente, com essas duas criaturas protetoras contribuindo para o bem estar da aldeia. E quanto às suas idades, dizem que vivem há séculos.
Pense: quando você vê a chuva mansinha chegar e o sol nascer, lembre-se: que são elas que nos presenteiam. Bem, o restante de suas façanhas vou deixar você descobrir, porque sabemos: com bruxas com tantos poderes não dá para meter bobeira.
Este livro de ficção infantojuvenil angolano, A Vassoura do Ar Encantado, foi escrito por Zetho Cunha Gonçalves, autor de Huambo, da Angola, que passou a infância e a adolescência em Cutato, província do Kuando – Kubango, onde aprendeu e vivenciou os costumes, as lendas de seu povo e o respeito à natureza. Com essa experiência, dedica-se exclusivamente à literatura e vive atualmente em Lisboa. As ilustrações são de Andrea Ebert, natural de São Paulo.


FICHA TÉCNICA:

Obra: A Vassoura do Ar Encantado
Autor: Zetho Cunha Gonçalves
Ilustrador: Andrea Ebert
Editora: Pallas
Ano: 2012
        Na tarde do último dia 3, nossa amiga e colaboradora Luísa Antunes Paolinelli, da Ilha da Madeira (Portugal), lançou seu mais novo livro, destinado ao público infantojuvenil sob o título "O Desaparecimento da Estátua".


        "Sendo editado pela Editora O Liberal, a obra narra a história do desaparecimento da estátua do fundador, o Ratinho Queijo da Serra. Assim, três galinhas detetives, cuja chefe é a galinha Piri-Piri, vão investigar o crime. Pelo caminho acontecem diversas peripécias que prometem encantar e prender a atenção dos leitores." (João Toledo em matéria no Cidade Net) Leia mais aqui.
        O Prolij parabeniza a autora e deseja sucesso nos próximos mistérios a serem escritos/desvendados.

      
É a partir desta palavra, de uma palavra só, assim, sem nenhuma outra para acompanhá-la e tornar seu significado mais claro, que é possível pensar dois livros. Em um deles, a obsessão de um homem, pescador, por um peixe. Em outro, a obsessão de um homem por uma baleia. Pra quem já leu, sabe que os livros citados são “O velho e o mar”, do escritor norte-americano Ernest Hemingway, e “Moby Dick”, do também norte-americano Herman Melville.
            Obsessão significa ideia fixa, e ideia fixa é o que tem Santiago, ao pescar um grande peixe, em alto-mar, após mais de oitenta dias sem pescar nada. E ideia fixa é também o que sente Ahab pela baleia branca Moby Dick, desde o momento em que esta lhe arrancou uma perna. De um lado, uma obsessão pelo simples instinto de sobrevivência, de pescar para ter o que comer, mas que se torna uma ideia fixa muito mais forte pelas condições externas a esta pesca. E, de outro lado, uma obsessão vingativa, de revanche mesmo.
            A história de Santiago, em “O velho e o mar”, pode ser pensada também como uma história de perseverança, antes de ser pensada como uma obsessão. Perseverar é persistir, é continuar, é não parar de fazer aquilo que se está fazendo. Conservar-se firme e constante. E é isto que faz Santiago, com a ideia fixa (obsessão) de pegar aquele peixe.




por Viviane de Cassia Romão Lucio dos Santos

         Uma história de amor borbulhante... É isso que o leitor encontrará em Mururu no Amazonas de Flávia Lins e Silva. O livro conta a história de Andorinha, menina-moça  entendedora da água. Ela vive com a mãe, mulher simples que passa os dias esperando o marido pescador, em uma casa flutuante na imensidão das águas da Amazônia.
         O texto, linguagem poética pura, envolve o leitor nos caminhos percorridos por Dorinha nos rios Negro e Solimões na busca, primeiramente, por seu pai, até que num desses desvios dos igarapés da vida encontra seu primeiro amor...  Amor intenso, tal qual as misteriosas águas desbravadas por essa personagem pura, corajosa e cheia de vida.
         Flávia Lins e Silva consegue descrever de forma magistral a explosão - ou seria o mergulho?! -  de sentimentos e sensações provocada pelo encontro com sua cara-metade, mesmo que ela seja da água e ele seja da terra. Sua narrativa é sensível, sem pudores, desnudando a transição do que ocorre dentro da gente na passagem da infância para a adolescência, naquela fase em que tudo parece confuso e ao mesmo tempo mágico onde “Faz frio e calor, o corpo ferve e gela, tudo ao mesmo tempo. Ê aguaceiro! É como se o rio parasse, como se o mundo se calasse, como se a vista embaçasse...”.
         Um livro apaixonante e apaixonado, um convite para participar de uma inundação de coisas gostosas, não por acaso, foi escolhido como o melhor para o jovem pela FNLIJ (publicação 2010, premiação 2011).

SILVA, Flávia Lins. Mururu no Amazonas. Rio de Janeiro: Manati, 2010.



O livro Telefone sem fio de Ilan Brenman com ilustrações de Renato Moriconi, ganhou o prêmio FNLIJ “Melhor Livro de Imagem”. A história é apresentada num formato grande e com imagens pintadas em quadros (um quadro por página) onde o busto de cada  personagem é retratado em cada quadro. O que o leitor pode visualizar quanto ao enredo é que uma personagem conta algo ao pé do ouvido para a outra da página ao lado. Parece uma narrativa visual simples, porém, os autores foram perspicazes ao criar um espaço de tempo e lugar imenso nesta simples brincadeira de telefone sem fio.

Quem começa a cochichar na história é um bobo da corte de um reino qualquer. O mundo dá voltas e as notícias vão com ele, cruzando oceanos e continentes. Este trajeto pode trazer curiosas e divertidas surpresas para nós leitores e para as personagens, algumas delas muito conhecidas de antigas leituras.
“Toda ação tem uma reação”, já dizia Newton. A ação da primeira personagem a ela retornará e, qual será o resultado da ação de um bobo da corte ao contar um segredinho para seu rei?

BRENMAN, Ilan; MORICONI, Renato. Telefone sem fio. São Paulo; Companhia das Letrinhas, 2010.

Maria Lúcia. 
Mestre em Patrimônio cultural e Sociedade e pesquisadora voluntária do PROLIJ

Nilma Lacerda, cuja produção é sempre bem vinda, em seu novo Sortes de Villamor, num misto de história, ficção e realidades humanas, nos mostra, num contexto escravocrata, as idas e vindas do homem – brasileiro ou estrangeiro, preto ou branco, letrado ou não – em seus embates com o destino. Embora seja difícil definir uma faixa etária para essa obra, pode-se dizer que a história da francesa Branca Villamor é um romance juvenil. E daqueles que, com certeza, vem para ficar na memória de seus leitores, sejam eles juvenis ou não. Isso porque, se as sortes criadas por Branca mudaram destinos de muitos, sua leitura mudará, sem dúvidas, a de outros tantos.
Vale a pena ler e acreditar: sortes mudam destinos!

Sortes de Villamor. Nilma Lacerda. Scipione. 2010, 175 p.

Sueli Cagneti.

por Ítalo Puccini

O universo indígena é habitado por muitas histórias. São todas bastante vivas, porque reais. (MUNDURUKU, Daniel)

            O título deste escrito é também o nome de um dos livros do escritor Daniel Munduruku, autor de “Parece que foi ontem” e “Do mundo do centro da Terra do mundo de cima”, entre outros, todos livros que apresentam como temática mitos e lendas indígenas.
            É sabido que a prática de contar e de ouvir histórias é muito mais antiga do que podemos imaginar. Remete a nossos ancestrais mais primitivos. Muito antes da invenção do papel ou do livro ela já se fazia presente, deixando marcas culturais em diferentes épocas, registrando fatos e causos, ainda que por um tempo determinado, uma vez que a história oral não garante a eternidade do que é contado (se pensarmos bem, nem mesmo as histórias impressas, no ritmo de produção, de publicação e de consumo que temos hoje, garantem isto).
            Na cultura indígena, por exemplo, a maior felicidade alcançada pelos homens é a de ser avô, pela oportunidade que se apresenta a eles de contar histórias, muitas histórias, a seus filhos e netos. A oralidade é marca importantíssima nesta cultura, mas não só ela. A quantidade de livros que vem sendo publicada contando ou recontando mitos indígenas sugere a preocupação que existe na divulgação e no alcance dessas histórias através de outros meios.
            Daniel Munduruku é indígena. Nascido em Belém(PA), índio da nação Munduruku, “nasceu índio e gosta de ser índio”, conforme é apresentado em seus livros. É formado em Filosofia pela UNISAL – Lorena, e é diretor-presidente do Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual – INBRAPI, cujo objetivo é a defesa do patrimônio cultural e dos conhecimentos tradicionais dos povos indígenas brasileiros.
O escritor indígena com maior repercussão atualmente é autor premiado de muitos livros com histórias que apresentam ao leitor mitos e lendas do universo indígena, como “Coisas de índio”, “As serpentes que roubaram a noite” e “O segredo da chuva”. Mitos e lendas porque lenda é a forma como o mito é contado. Toda lenda apresenta um mito. Mas nem todo mito é apresentado por uma lenda. Lenda vem do latim legere, que significa ler. Mito é palavra grega que significa discurso, oralidade. No mito existe a busca de um porquê para a vida, que muitas vezes é contado em uma lenda.
            E aqui se apresenta ao leitor o recontar. Porque um mito pode ser contado e recontado de diferentes formas, diversas vezes. Para o mito de como surgiu a noite, por exemplo, Munduruku apresenta dois livros, citados no primeiro parágrafo deste escrito. Conforme conta a Clarice, em “Como nasceram as estrelas”, “Sempre, é uma história que não acaba nunca”.
            Para construir é preciso, antes, desconstruir. Pensar mitos e lendas pode ser seguir esse caminho da reconstrução. Do reconto. É isto que faz perpetuar histórias por gerações. A história é manutenção de vida das/nas coisas. A história é construção de identidade de um povo. A perda de identidade é parte do processo de morte de uma cultura. Diante disso, precisamos, como leitores e professores, dos contos e de seus recontos. Dos mitos e das lendas. Das diversas formas de perpetuarmos histórias e vidas. Histórias de vidas. Isto porque contar histórias, todos contamos. E, ao contarmos histórias, contamos a nós mesmos.
Minha lida com o texto literário – como leitor e como professor – é o de pensá-lo sempre como uma possibilidade de ressignificação. Junto ao texto literário é preciso que o aluno reconstrua. E para reconstruir é preciso, antes, que o texto seja destruído pelo leitor. Ou seja, objetivo que meu aluno produza sobre o texto que lê, construa seus sentidos para o que está lendo, ressignifique o texto com o qual está em contato. Literatura precisa ser contato. Toda leitura precisa ser um contato. Não contato no sentido físico exatamente. Mas contato no sentido de tocar em algo, produzir algo novo a partir desse novo toque, uma vez que nos ressignificamos o tempo todo, pelo simples fato de vivermos uns com os outros.
São vidas com as quais nos deparamos nas histórias da cultura indígena e também nas histórias sobre passarinhos, por exemplo. São vidas diferentes? Claro que são. Cada vida é uma vida. Mas a diferença não reside só nisto. Reside no modo como são contadas. O Bartolomeu Campos de Queirós, por exemplo, conta que

Para bem criar passarinhos é necessário ter o corpo capaz de escutar o silêncio das pedras, o som do vento nas folhas, o ruído de soluços preso em garganta. (...) Para bem criar passarinho há que se sonhar borboleta, anjo ou estrela cadente. É importante ter imensas intimidades com o nada, admirar o vazio e um especial encantamento pelo azul que existe muito depois das nuvens, infinito adentro.

Já o Marcos Bagno não conta sobre passarinhos, mas sim sobre corujas. Ou, mais especificamente, sobre Murucututu, a grande coruja da noite, que é “mais que grande, enorme. Seu gemido ecoa pela noite, Murucututu, arrepiando os corações de quem se atreve a escutar”.
É a avó quem conta para a sua neta a história de Murucututu, com a intenção de frear os avanços da menina na descoberta do mundo. Mas esta neta não temia nem o mundo nem as histórias: “Achava bonito só pela beleza de ser história, lenda, conto, fantasia de miragem mirabolante. Mas acreditar, ela, isso mesmo é que nunquinha”.
            Talvez porque contar histórias seja compor os silêncios sugeridos pelo Manoel de Barros. Os silêncios que cada um traz dentro de si para compartilhar ao contar e ouvir uma história. Porque há silêncios que falam. E aprendendo isto a gente aprende o que ninguém nunca soube. Adivinha mistérios. Sente de longe o cheio de algum segredo. E até consegue enxergar no escuro. Como faz a personagem que avoa com Murucututu.
            Contar histórias pode ser também fazer voar as palavras para encontrar seus silêncios a serem compostos.

Referências Bibliográficas

BAGNO, Marcos. Murucututu: a coruja grande da noite. Ilustrações Nelson Cruz. São Paulo: Ática, 2005.

LISPECTOR, Clarice. Como nasceram as estrelas. São Paulo: Nova Fronteira, 1999.

MUNDURUKU, Daniel. Histórias que eu ouvi e gosto de contar. Ilustrações: Rosinha Campos. São Paulo: Callis, 2004.

MUNDURUKU, Daniel. Parece que foi ontem. Ilustrações: Maurício Negro. São Paulo: Global, 2006.

QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. Para criar passarinhos. São Paulo: Editora Global, 2009. 
por Cleber Fabiano da Silva


In tempi come questi la fuga é l’unico mezzo                                                                                                                                          per mantenersi vivi e continuare a sognare[1]

                                                                                                                            
                As estrelas fazem pensar... A gente entende muitas coisas quando olha as estrelas.
            Os livros destinados aos pequenos tornam cada vez mais tênues a classificação do que seja necessariamente do âmbito infantil, juvenil ou adulto. Eles realizam procedimentos estéticos e discursivos que se interligam nos meandros da literariedade, numa constelação quase infinita em que se pode ver, imaginar, sentir, refletir, enfim, entregar-se ao que de mais humano possa existir.
            E nos territórios dos homens, as fronteiras cercam, guardam seus tesouros, verdades e identidades; para mantê-las o indivíduo luta, nesse embate nasce a guerra. Com ela, o desejo crescente de tornar-se vitorioso, custe o que custar, para vencer é preciso superar todas as perdas. Qualquer exército, com o maior e melhor arsenal, contabiliza derrotas.
            A guerra continua... Mas em todas as guerras há imprevistos. Esses imprevistos nos impulsionam a sonhar, trazem-nos esperança. São linhas de fuga, fissuras minúsculas propícias ao escritor, artista lutador que, quixotescamente, realiza outra grande batalha: a de falar aos corações humanos. Duas estrelas cintilam no universo das obras infantis recém traduzidas em nosso país. Nas duas, o conflito. 
            A Primeira Guerra Mundial serve de contexto para o brilhante: O menino, a guerra e a bola de Jean-Baptiste Cabaud. Em sua territorialidade bélica a marca presente do frio e das vozes loucas que chegavam aos ouvidos dos soldados: Em frente! A guerra deve continuar! Atacar! Atacar! Embora datada, pouco se sabe dos detalhes entre as nações inimigas, dos brasões e flâmulas, da baixa nas corporações, do desamparo das mães, do que mudou na vida das viúvas ou dos prejuízos patrimoniais. Importa como matéria de poesia, a presença de uma voz aflita que grita pelo filho. O menino que corria atrás de uma bola vermelha em meio ao campo nevado pelo rigoroso inverno.
            O momento de plenitude suspenso pela magia – da vida ou da literatura? Os exércitos dos dois lados param, congelam as nuvens do céu, estancam os cavalos empinados com as patas suspensas no ar. Na arte de bem contar, um soldado saiu correndo, lançou-se sobre um velho oficial e, tapando-lhe a boca com a mão, enfiou a baioneta na sua voz louca. O menino segurava a bola, abraçava-a com força, ela era o seu tesouro.
            As crianças fazem pensar... A gente entende muitas coisas quando lê livros para crianças.
            No firmamento literário mais astros reluzentes: Davide Cali e Serge Bloch com o livro O inimigo[2]. Aqui, nem tempos nem espaços demarcados, o território é nômade. Em algum lugar que poderia ser um deserto, há dois buracos. Nos buracos dois soldados. Eles são inimigos...
            O narrador apresenta-nos a sua trincheira, conta tudo o que sabe sobre o seu adversário. O inimigo não é um ser humano. Sei tudo isso porque não sou estúpido. Li no manual. Na verdade, qualquer que fosse a trincheira ou o compêndio, a impressão seria a mesma. Não importa o lado, em qualquer guerra, no manual do outro o inimigo a combater tem o meu rosto.
            O frio também aparece por aqui. Junto dele, a fome. Sentimos fome. São as únicas coisas que temos em comum, o inimigo e eu. Às vezes penso que o mundo não existe mais. Os elementos concretos remetendo-nos à humana condição; caem por terra as utopias, os louros da vitória, as honras e condecorações. Nada para nos distinguir dos homens das cavernas, dos indivíduos de outros tempos e espaços. Somos feitos de idêntica matéria, possuímos as mesmas necessidades.
            Nosso valente recruta está só desde que seu companheiro Michel morreu. Em nossas solidões a certeza de que o inimigo está ali, mas nunca é visto. O inimigo também deve estar sozinho. Se há guerra a culpa é dele... É preciso que ele seja o primeiro a cessar fogo, e eu, nesse caso, não o mataria.
            Na arte da metáfora, muitas possibilidades. Nas batalhas esperamos o aceno da bandeira branca que virá da parte em litígio. Então o que ele está esperando? Aquele que sobreviver terá ganhado a guerra. Ele poderia me enviar uma mensagem: vamos acabar com a guerra agora. Se ele enviasse essa mensagem, eu aceitaria imediatamente.          
            O mais monstruoso inimigo está tão perto, talvez dentro de nós mesmos. Escondemos em nossas trincheiras o arsenal bélico das palavras que matam e ferem. No entanto, há a literatura, as estrelas e as crianças, mal grado desertos, travessias e fissuras... Procuramos cruzar a fronteira dos nossos corações com um grande desejo de paz. Se o inimigo olhasse as estrelas, talvez entendesse que a guerra não serve para nada e que é preciso terminá-la. Se nós olhássemos para os livros infantis, talvez entendêssemos que a guerra não deveria nem ter começado.

Referências: 

CABAUD, Jean-Baptiste e BERNARD, Fred. O menino, a guerra e a bola. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
CALI, David. O inimigo. São Paulo: Cosac Naify, 2008.


[1] “Em tempos como estes a fuga é o único meio de manter-se vivo e continuar a sonhar” Extraído do filme Mediterrâneo – direção: Gabriele Salvatores, Itália, 1991.

[2] Em 2009 recebeu o prêmio de Altamente Recomendável da FNLIJ – Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil na categoria tradução ou adaptação para criança. 
Ítalo Puccini*

O ato de ler pressupõe uma leitura não somente de textos, de palavras escritas. Não somente de imagens ou de sons. Mas sim uma leitura de nós mesmos e daqueles com quem convivemos. Ler transcende a força que a própria palavra carrega em si. Ler é criar um sentido próprio a si mesmo e ao mundo ao redor de si. É encontrar-se em um eu ainda desconhecido. Ler é, também e principalmente, saber ler a si mesmo e ao outro com o qual se estabelece uma relação de viver.
Cada leitura tem uma história própria. Cada texto tem também sua história própria. Assim como cada leitor constrói sua história de leitura. É Lajolo quem afirma que “Cada leitor, na individualidade de sua vida, vai entrelaçando o significado pessoal de suas leituras com os vários significados que, ao longo da história de um texto, este foi acumulando”.
É por essas veredas de conhecimento que a leitura não pode ser vista como uma atividade inocente. Para o crítico literário Alberto Manguel, por exemplo, “Toda história é uma interpretação de histórias: nenhuma leitura é inocente”. Não há como ler algo sem relacionar, mesmo que inconscientemente, a outro algo, ou já lido, ou já ouvido, ou já presenciado. Uma leitura leva à outra. Uma leitura não só de livros, mas também uma leitura de vida. Viver é relacionar-se. Vivemos nos lendo a aos outros também. Influenciamos e somos influenciados. Nossas histórias, lidas e vividas, embrenham-se em nossa formação de sujeitos e cidadãos que somos.
Diante disso, três livros catalogados como infantojuvenis, publicados entre os anos de 2008 e 2010, apresentam ao leitor uma mesma temática (a guerra), abordada por entre caminhos que lá na frente talvez se encontrem (diferentes personagens e seus sentires sobre e a partir da vivência – presente ou a distância – de uma guerra). Além de dois livros juvenis bastante consagrados desde quando publicados (inclusive filmados para o cinema) como “O diário de Anne Frank” e “O menino do pijama listrado”, que exploram essa contextualização do universo adolescente em meio a uma guerra, o leitor tem a sua disposição outros três títulos que seguem tal temática e uma oportunidade de estreitar relações entre os livros em si e sua própria bagagem leitora.


Era uma vez antigamente, mas muito antigamente, nas profundezas do passado, quando os bichos falavam, os cachorros eram amarrados com linguiças, alfaiates casavam com princesas e as crianças chegavam no bico das cegonhas... Aconteceu naquele então uma história de amor.
            Um pouco complicada é verdade! Afinal, o que pensar de um romance entre um gato malhado (e diga-se: com terrível fama de mal e egoísta) e uma andorinha? Andorinha Sinhá era bela e um pouco louca – na opinião geral – e enquanto todos fugiam de pavor do bichano, ela passava horas a fitá-lo. De repente, o amor desperta de seu sono à inesperada visão de outro ser. Assim também ocorreu no coração do Gato Malhado. E tinha sentimentos o tal do gato insolente? Ou ele estava tomado pela inspiração da primavera?
            Pois bem... O que pensavam (e diziam) os outros habitantes da floresta não era difícil adivinhar: Ela habituou-se a espiá-lo enquanto ele dorme; Ela é cabeçuda e se deixa guiar pelo coração; O Gato Malhado é a sombra na vida tranqüila da Andorinha Sinhá; Os gatos são inimigos das andorinhas.
            Conselhos, advertências, proibições e até passeatas para impedir o caso de amor. Os principais especialistas foram chamados: Reverendo Papagaio, a Vaca Mocha, O Pato Branco, O Pombo e a Pomba, O Sapo Cururu, todos contrários àquela história. Dos pais, a decisão de que Andorinha Sinhá precisava casar-se. O parque inteiro aprovou: Que bom casamento! O Rouxinol é belo e gentil, sabe cantar, é da raça volátil!
             Quanto ao destino de nossos apaixonados? Só perguntando ao Tempo, pois ele prometeu uma rosa azul para a Manhã desde que ela lhe contasse uma boa história. Ela lhe contou e, Jorge Amado, um dos grandes nomes da literatura brasileira a escreveu e presenteou seu filho João que, em 1948 completava seu primeiro aniversário. Carybé ilustrou e a Companhia das Letrinhas publicou uma nova edição da inesquecível história de amor entre o Gato Malhado e a Andorinha Sinhá.

Por Cleber Fabiano da Silva.
Pesquisador voluntário do PROLIJ – UNIVILLE.

FICHA TÉCNICA:

O GATO MALHADO E A ANDORINHA SINHÁ
Autor: Jorge Amado
Ilustrações: Carybé
Editora: Cia das Letrinhas 
porque escrever é dar a cara a tapa.



É por aí que podemos pensar o primeiro livro infantojuvenil do escritor Rubens da Cunha, poeta e cronista, autor de trabalhos muito sólidos e reconhecidos como os livros “Campo Avesso”(2001, Letra d’Água), “Casa de Paragens” (2006, Editora da UFSC), “Vertebrais” (2008) e “Aço e nada” (2007, Design Editora) (os três primeiros de poemas, o último de crônicas). 
  Quando no lançamento do seu novo livro, no final do ano passado, Rubens em nenhum momento negou que passava, a partir daquele momento, a pisar em terreno antes pouco conhecido para ele. A última página do livro deixa claro isto também: “Crônica de gatos é seu primeiro texto destinado ao público infantojuvenil”. E este novo livro do escritor joinvilense pode ser visto como um passo que não estica muito a perna, um passo que mantém os dois pés bastante próximos. Não é um salto. É uma tentativa de dar um passo seguinte mais para frente, com uma segurança necessária para que nenhum tropeço ocorra nesse processo de continuidade. Algo que me parece claro já no nome do livro, “Crônica de Gatos”, uma referência a um gênero com o qual Rubens lida há bons cinco ou seis anos semanalmente no jornal “A Notícia”, de Joinville, que circula por todo o Estado de Santa Catarina, e também uma referência a um animal pelo qual o autor assume predileção, e que também já foi tema de algumas crônicas e de alguns poemas seus.
   Outra evidência do passo curto acertadamente dado por Rubens neste novo trabalho está em um dos elementos que compõem a história contada em “Crônica de Gatos”: o livro. Elemento este de muita segurança para o autor, não só pelo fato de já ter sentido a experiência de publicar quatro livros, como pela relação que ele demonstra estabelecer como os livros enquanto um leitor, algo que pode ser sentido a partir de seus escritos e das referências leitoras presentes em sua obra até o momento.
   Há pouco tempo, em uma entrevista que fiz com Rubens, para meu blog, ele apresentou um pouco mais do leitor que é: “Um sujeito curioso e que se irrita quando o interrompem durante a leitura. Eu gosto de ler tudo, é quase um ato involuntário. Está escrito, eu estou lendo. Mas a preferência, claro, vai para os livros de literatura, sobretudo, poesia e prosa que tenham algum elemento de ruptura com a linguagem, algo que vá além da história, pura e simples”.
   E são os livros que ligam os três personagens deste livro, o narrador e dois gatos. E é por meio dos livros que Rubens alcança uma segurança necessária para se soltar nesse terreno pouco conhecido dele.
   Como em todo terreno que se apresenta novo, por mais cuidado que se tenha, é preciso estar ciente dos sustos que o desconhecido apresentará. E é possível se deparar com alguns sustos no texto do “Crônica de Gatos”. Alguma precipitação na narrativa da história, uma entrega além do que devia, uma palavra fora de lugar que faz brecar a interação do leitor com a história, como para mim aconteceu no momento em que li a palavra “morte”, no meio da narrativa. O próprio trabalho de texto com imagens permite ao escritor não entregar tanto da história ao leitor, deixando este solto o necessário para construir sua significação leitora aliando narrativa e imagens.
  E a partir disso também se faz necessário salientar as excelentes ilustrações do livro, assinadas por Regina Marcis. Um trabalho de colagens que dá ainda mais força ao texto já muito consistente de Rubens da Cunha. Um texto de frases curtas que se complementam pelas brechas que cabem ao leitor significar, tendo o leitor, neste caso, as imagens como elementos adicionais de leitura.
  Rubens acerta em não esticar muito o passo neste novo trabalho. Acerta em mostrar ter ciência de que um escritor constrói sua trajetória não somente por meio dos livros que lê, mas também a partir de um olhar consciente sobre sua própria produção, medindo com cuidado os passos a serem dados, os caminhos a serem desbravados, e os mantimentos necessários para que desses passos e desses caminhos nasçam frutos tão sólidos quanto os já construídos e entregues ao mundo-leitor.

ÍTALO PUCCINI, PROFESSOR, LEITOR E ESCRITOR. INTEGRANTE DO PROLIJ (PROGRAMA INSTITUCIONAL DE LITERATURA INFANTIL JUVENIL DA UNIVILLE). ESCREVE NO WWW.UM-SENTIR.BLOGSPOT.COM
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resenha publicada no caderno ideias do jornal anotícia, 30.01, página 3. aqui.


o mais bonito em "memórias inventadas para crianças", de manoel de barros, é o texto que abre o livro: "escova". é quando descobrimos o manoel que queria escovar palavras, apenas porque vira dois homens sentados na terra escovando ossos, e porque havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos: "eu queria então escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma. para escutar os primeiros sons, mesmo que ainda bígrafos".

e há mais nesse livro de dez textos. e de imagens belíssimas. iluminuras da martha barros, filha do maneca. há coisas assim por lá: "agora eu penso uma garça branca de brejo ser mais linda que uma nave espacial. peço desculpas por cometer essa verdade" (do texto "sobre sucatas"). e o manoel vai se desculpando o livro todo. como se devesse mesmo. desculpa-se pelas peraltagens que faz com as palavras. e com as histórias. peraltagens como enfiar água no espeto. como dar respeito às coisas e aos seres desimportantes. pede desculpas por brincar com palavras mais do que com bicicletas.

manoel de barros diz ter nascido poeta aos treze anos. dali em diante ele só queria ser uma coisa: fraseador. e diz também que hoje só usa a palavra para compor silêncios. e finaliza o livro assim (é a última frase do último conto): "agora quem está atônito sou eu". mentira, do manoel. mais uma inverdade dele. quem fica atônito ao lê-lo somos nós, leitores. apanhadores de desperdícios, ensinados por manoel de barros.  


ítalo.
O PROLIJ se reuniu no sábado passado para um encontro de fim de ano. Para comemorarmos o ano que passamos juntos, as leituras feitas, as escritas que "brotamos", os eventos que organizamos, e todo o pensar sobre a literatura infantojuvenil ao qual nos dedicamos durante o ano todo.

Como de costume, realizamos um amigo-secreto com muita troca de livros. Com muitas dedicatórias especiais, e muitas leituras que nos acompanharão em mais uma virada de ano.

Diante disso, resolvemos postar aqui no blog os livros que foram trocados entre nós, como forma de sugestão de leitura aos nossos leitores, e também como uma possibilidade de dicas de livros-presentes para alguém próximo a nós.



Cleber (neste ato representado por sua voz através do aparelho celular): 
Presenteou o Rodrigo com: “Contos de fadas”, apresentação de Ana Maria Machado.





Rodrigo:
Presenteou a Áurea com: “Um erro emocional”, Cristovão Tezza.






Áurea:
Presenteou a Viviane com: “Procura-se lobo”, Ana Maria Machado.




















Viviane:
Presenteou o Ítalo com: “Memórias inventadas para crianças”, Manoel de Barros.

                    


Ítalo:
Presenteou a Alcione com: “Desmundo”, Ana Miranda.

          




Alcione:
Presenteou a Sueli com: “Um erro emocional”, Cristovão Tezza.

       


Sueli Cagneti:
Presenteou a Maria Lúcia com: “Crítica, Teoria e Literatura Infantil”, Peter Hunt e “De dois em dois: Um passeio pelas Bienais”, Renata Sant´Anna, Maria do Carmo Carvalho e Edgard Bittencourt.


Maria Lúcia:
Presenteou a Débora com: “Um erro emocional”, Cristovão Tezza.

        


Débora:
Presenteou a Kamila com: um par de brincos.

     




Kamila:
Presenteou a Verônica com: "Carta aberta de Woody Allen para Platão", Juan Antonio Rivera.

     


Verônica:
Presenteou o Alencar com: “Um erro emocional”, Cristovão Tezza.

     


Alencar:
Presenteou a Evelyn com: “Memórias inventadas – as infâncias”, Manoel de Barros.

    


Evelyn:
Presenteou a Sônia com: “Os escravos”, Castro Alves e “Por que ler os clássicos”, Ítalo Calvino.


Sônia:
Presenteou o Cleber com: Vale-presente (devido a ausência do mesmo no encontro, por motivos de saúde).





Silvio Leandro:
Presenteou a Luciane com: “Memórias inventadas para crianças”, Manoel de Barros.

     


Luciane:
Presenteou o Silvio Leandro com: “Contos”, Voltaire.
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