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 É hoje, às 18h, entrevista de nossa coordenadora no Programa Bala, baleiro! da Rádio Joinville Cultural 105.1 FM, prestigiem!




"Se você tem uma coisa a afirmar, você não tem que fazer literatura. Literatura é uma conversa sobre as dúvidas. É uma conversa sobre as delicadezas, sobre as faltas". (Bartô)

Entrevista completa aqui, no site Rascunho.
entrevista retirada daqui.


Tantas vezes, escritores mostraram em público uma imagem exagerada, tempestuosa, polêmica. Assim foram Lord Byron, Baudelaire, Voltaire, Oswald de Andrade e muitos outros. Não é somente uma forma a mais de conseguir a atração de leitores, mas também aquele momento no qual Quixote invade o mundo de Cervantes e a personalidade da criação toma conta do criador. O autor britânico Martin Amis decidiu que sua personalidade pública é similar a do nosso popular Seu Lunga. Polêmico e pronto para qualquer confronto, Amis gera notícias e notícias que discutem suas afirmações, algumas vezes disparatadas. Em uma das suas, durante um programa cujo tema era a literatura infantil, soltou que jamais se aventuraria por gêneros que limitariam o seu texto. Não precisou – e a polêmica nasce da falta de explicação – de mais nada. E nós fomos procurar uma autoridade do gênero no Brasil, Julia Moritz Schwarcz, editora responsável pela Companhia das Letrinhas, o selo da Cia.das Letras dedicado à literatura infanto-juvenil. Fizemos um passeio por alguns temas atuais, temas que podem ser lidos quinzenalmente no blog da autora:http://www.blogdacompanhia.com.br/category/colunistas/julia-moritz-schwarcz/


Aletria: A recente declaração de Martin Amis parece reproduzir um preconceito em relação à literatura infanto-juvenil, apesar do gênero ter sido praticado por autores como Robert Louis Stevenson, Nathaniel Hawthorne ou Lewis Carroll. Como uma editora especializada em autores do gênero pode combater este preconceito, especialmente expressado por alguém da importância de Amis?

Julia Moritz Schwarcz: Acho que Martin Amis foi bastante agressivo e até esculachado em sua declaração, e por isso muitas pessoas não o levaram realmente a sério. No entanto, ele expressa um preconceito que existe com relação à literatura infantojuvenil. Muitas pessoas, principalmente leitores, acreditam que, para as crianças, o mais importante seja a história e não a forma como é narrada, ou seja, a literatura propriamente dita fica de fora. Mas é claro que existem inúmeros escritores da melhor linha escrevendo para crianças, e que defendem a qualidade da literatura infantil. Na verdade esse é um gênero que se afirmou há algumas décadas, primeiro fora e depois também no Brasil (por aqui, o florescimento dos bons livros infantis e juvenis se deu, por incrível que pareça, em pleno regime militar). Tanto existem trabalhos acadêmicos sobre o assunto, quanto a importância dos números dessa fatia do mercado editorial tem crescido consideravelmente com a consolidação dos planos de governo. Acho que o papel da Companhia das Letrinhas nessa questão é editar autores sérios, de qualidade, que comprovem sempre como a literatura infantojuvenil não é necessarioamente inferior àquela produzida para o mercado adulto. E, claro, a editora deve também tratar essa sua linha com a mesma seriedade dedicada à outra.

Aletria: Por outro lado, a declaração de Martin Amis pode ser interpretada contra qualquer autor de gênero, seja infanto-juvenil, ficção científica, horror, que escrevem para um público mais específico e de maneira mais comercial. Seria este o alvo mais específico de Amis?

Julia Moritz Schwarcz: Amis diz que a literatura deve ser completamente livre. Mas acho que, por um lado, é mais difícil escrever para as crianças, uma vez que os autores não vivem mais essa fase da vida e não sabem como suas palavras e ideias vão ser encaradas pelos pequenos. E, pensando em técnica literária, é até um desafio exercitar os diferentes gêneros. Enfim, não sei quem o Amis estava de fato querendo atingir... 

Aletria: Discutir literatura infanto-juvenil é discutir a formação dos nossos leitores. Uma polêmica que está ocorrendo é a polêmica Monteiro Lobato e Caçadas de Pedrinho. Enquanto politizam a discussão, a questão que parece mais relevante é: quem escolhe os livros e quem os ensina. Desde ponto de vista, qual é a sua posição em relação à polêmica? 

Julia Moritz Schwarcz: Realmente, professores e pais são fundamentais na vida de um livro infanto-juvenil. Salvo algumas exceções, os livros para crianças vendem relativamente pouco nas livrarias e por isso dependem das adoções. Muitos pais, professores, pedagogos e editores se preocupam com a abordagem de temas espinhudos — como a homossexualidade, por exemplo — e diversas vezes carregam seus próprios julgamentos, traumas e complicações nessa leitura. Tendem também a evitar que as crianças enfrentem sentimentos fortes e situações desafiadoras — como o terror e o medo — na leitura de histórias. Felizmente, as crianças não reagem a esses sentimentos da mesma maneira, e, no mais das vezes, sentem-se mesmo atraídas a eles. Bruxas, lobos e monstros são tão apetitosos quanto as cenas em que essas criaturas são mortas, com requintes de crueldade, para nunca mais voltar. É uma maneira de se exorcizar o medo — usando a imaginação. Por isso me preocupo com a importância da censura adulta na edição de um livro para crianças. Com tantos “não se deve” ditando as normas, e uma boa dose de superproteção, muito dessa função da narrativa, a de aliviar a alma humana, vai se perdendo. Hoje essa barreira é menos significativa do que costumava ser, mas livros polêmicos em sala de aula, hum… complicado.

Aletria: Outra polêmica recente ocorreu nos Estados Unidos, quando uma edição da obra de Mark Twain, “As Aventuras de Mark Twain” foi editada, a palavra “nigger” substituída pela palavra “slave” para o uso em salas de aula. A literatura tem uma história de apropriações e versões modificadas para públicos específicos, sendo alguma delas clássicos como as versões de Shakespeare de Charles Lamb. Qual é a sua posição neste mundo? É preciso preservar o original a qualquer custo, ou adotar a posição de Borges (o original não fiel à cópia)? 

Julia Moritz Schwarcz: Como disse Ana Maria Machado, os clássicos são “as tais obras que guardam sentidos múltiplos, que não se prendem a uma única interpretação, que permitam o incrível fenômeno de parecer ter significados diversos a cada encontro. Em linguagem mais popular, obras que tenham o poder de dizer coisas distintas a cada um, de dar recados novos e diferentes a cada leitor, em cada época, em cada sociedade, em cada cultura. Ou até ao mesmo leitor em diferentes momentos de sua vida. Ou seja, que cada leitor possa se apropriar deles de modo distinto. Quer dizer, tomar posse deles, torná-los também sua propriedade, fazê-los seus — como legítimos proprietários, herdeiros desse legado”. São os livros que podem falar a todos, ensinando às crianças que existe um espaço íntimo e pessoal, povoado pela imaginação de cada um. E também são os livros que muitas vezes nos ajudam discutir questões morais e éticas com os pequenos. Não vejo problemas em se adaptar os clássicos para que um maior número de leitores possa ter acesso a ele, mas acho que, em questões como a de Mark Twain, o uso da palavra nigger poderia servir como mote para uma conversa sobre o racismo nos Estados Unidos, por que não?

Aletria: Com a chegada do livro digital, formas tradicionais de aproximar crianças à leitura, como a contação de histórias e a leitura dos pais, vai cair ser substituída por uma alternativa tecnológica? 

Julia Moritz Schwarcz: É difícil prever o quanto o livro digital vai ser incorporado à vida das crianças no Brasil. Mas acho que não substituirá o livro de papel e nem a leitura compartilhada porque tende a ser um produto completamente diferente. Os livros eletrôncos são muito mais aplicativos do que qualquer outra coisa, se assemelhando a jogos eletrônicos. E se os video-games e os jogos de computador não tomaram o lugar do livro, não acho que os e-books o farão. O livro pode ser manuseado e carregado para lá e para cá pelas crianças — são realmente delas — já os ipads e similares, não, precisam de uma autorização dos pais. E quem não gosta de ler um livro favorito no canto preferido de casa? Acho também que as crianças entendem o mundo ao seu redor e vivem a partir da ficção, e por isso nunca vão deixar de se interessar por uma história, venha ela em forma de filme, de jogo, de livro ou narrada por um adulto.


Ensaísta argentino radicado no Canadá, Alberto Manguel lança novo livro no Brasil e diz que ler é ter memória de uma experiência antes mesmo que ela aconteça.

por Luiz Costa Pereira Junior (aqui)


O leitor lê o que quer, o escritor escreve o que pode. A frase de Jorge Luis Borges é usada pelo ensaísta Alberto Manguel como um mantra: porque não se sabe como será interpretado, deve-se escrever como uma extensão da leitura.

No fim do ano, o autor argentino radicado no Canadá veio ao Brasil para a VI Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), divulgarA Biblioteca à Noite e Todos os Homens São Mentirosos (Cia. das Letras). O tema biblioteca lhe é central. Está em A História da Leitura e no Dicionário dos Lugares Imaginários, que cravaram o nome de Manguel no Brasil. 


Filho de embaixador, rodou o mundo. Aos 14 anos, ia à casa de Borges ler para o autor já cego. Hoje, cita Borges "ao menos três vezes" por palestra. A citação ajuda o leitor a crer na realidade do texto e a levar a gente a sério, brinca. Agora, escreve um livro de ensaios (O Leitor como Metáfora) e a segunda novela, Um Amigo de Platão, sobre dois homens que travam guerra sobre a verdade. Uma fábula. Afinal, para Manguel, nada é verdadeiro, a não ser o que encontramos nos livros. (O editor foi à Fliporto a convite da organização do evento)


Ler de fato nos melhora?

Fiz o secundário no Colégio Nacional de Buenos Aires, em meio à ditadura. Foi um professor de literatura de lá que me inspirou a escrever. Ele me fez descobrir a função humanizante da literatura, que a ficção é uma mentira que conta a verdade e a experiência dos personagens é, no fundo, a nossa experiência. Veja, os alunos desse colégio fizeram forte oposição aos militares. Pouco depois eu saí do país, mas soube que muitos de meus colegas foram denunciados, torturados e mortos. Uns vinte anos depois, voltei à Argentina para uma festa de ex-colegas. E descobri, chocado, que aquele professor era o informante dos torturadores. Ler em si mesmo não é mais que uma atividade essencial. Mas o valor do ato está dado pelo uso que fazemos da leitura. 


O inglês Peter Hunt, especialista em literatura infantil, critica o discurso politicamente correto no gênero e defende que os livros deixem as crianças pensar por si próprias

por Edgard Murano (aqui)

Apesar da popularidade, a literatura infantil continua alvo de preconceitos dos que a julgam uma forma literária inferior, simplificada. É contra essa visão reducionista que se opõe o crítico e escritor britânico Peter Hunt, cuja obra publicada no Brasil - Crítica, Teoria e Literatura Infantil (Cosac Naify, 2010) - oferece um debate aprofundado sobre o gênero, para além do senso comum e dos preconceitos literários. 

Professor de inglês na British University e autor de A Step off the Path (1985) - classificado pela imprensa britânica como "o primeiro livro infantil pós-modernista" -, Hunt já foi traduzido para línguas como árabe, chinês, grego, japonês e persa. Dos prêmios que recebeu por serviços prestados à literatura para crianças, destaque para o Brothers Grimm Award, concedido em 2003 pelo Institute for Children's Literature de Osaka, no Japão. 


Hunt é contra o discurso politicamente correto, que assola a produção literária infantil, e valoriza obras "subversivas" para crianças, uma vez que a maioria dos livros infantis escritos hoje tenta "direcionar o pensamento delas", sem deixar que pensem por si mesmas. Além disso, dirige duras críticas ao que ele chama de "comoditização" dessa literatura, com a produção de livros em série visando apenas o lucro, e avalia o impacto das novas tecnologias na narrativa infantil. 



Em entrevista por e-mail à revista Língua, o professor britânico admite não conhecer autores brasileiros de livros infantis, exceção feita a Monteiro Lobato, o que ele atribui à baixa permeabilidade do mercado editorial inglês a livros estrangeiros. Mas suas visões e opiniões, embora embebidas pela realidade inglesa, são perfeitamente aplicáveis a outras literaturas, como a brasileira.



Você escreveu que a literatura infantil não é inferior. Por que a crítica nutre preconceitos assim?

Há três razões. Primeiro, os críticos não pensam com muita clareza sobre livros infantis, e creem que, pelo fato de os textos serem escritos para crianças, precisam ser simples. Isso mostra uma falta de entendimento sobre como a língua funciona - toda língua é complexa - e ignora o fato de que os livros infantis são escritos por adultos, não podendo existir "fora" da ideologia. Em segundo lugar, alguns adultos têm uma relação bastante ruim com a própria infância e temem que possam ser considerados "pueris" se levarem seus livros infantis a sério. Mas, como C. S. Lewis disse, um sinal de desenvolvimento truncado é o medo de ser pueril! E em terceiro (o pior de todos) é que uma porção de críticos pensa que alguns livros são melhores ou mais importantes do que outros: eles não conseguem definir POR QUE esses livros são melhores, mas como eles são as pessoas que decidem o que é "bom", não admitem que certos livros (como os infantis, por exemplo) tenham valor e sejam importantes (e "bons") de uma forma que eles não compreendem ou não querem compreender!



Qual a diferença entre a literatura infantil e a "adulta", para além do público-alvo?

Muito pouco, no sentido de que você pode encontrar exemplos em quase todos os gêneros e tipos de livros - longo/curto, complexo/simples, moral/amoral, ilustrado/não ilustrado, inteligente/estúpido, popular/intelectual - que são voltados para crianças ou adultos. Contudo, os livros infantis usam mais imagens (um meio bastante complexo) do que os livros adultos, e há sempre uma luta pelo poder entre o escritor adulto e a criança leitora. De maneira geral, os livros infantis sentem que deveriam ter finais felizes, positivos ou otimistas, e frequentemente fazem da moral algo positivo. Mas além disso, a maior diferença é que todo livro infantil contém uma ideia do que vem a ser uma criança - uma criança real, ideal ou imaginada... O público é um fator vital. 



Qual é o maior problema na literatura infantil mundial?

A predominância das pessoas do marketing e do dinheiro. No Reino Unido, mais de 90% dos livros infantis são "comissionados", isto é, os publishers decidem o que deve ser escrito e então alugam autores para escrever essas obras. Essa é a razão pela qual todo publisher tem os mesmos tipos de livros em suas listas. Há milhares de "clones", imitações de outros livros tentando fazer dinheiro em cima da mesma fórmula. Cada vez menos livros são mantidos no catálogo. Um livro deve lucrar em seu primeiro ano, e então ser substituído por um novo, daí até bons autores serem forçados a escrever mais livros do que deveriam. Novos autores também têm poucas chances de ver seus livros publicados. Uma coisa boa é que há mais publishers menores, assim alguns livros pouco usuais e individuais estão sendo publicados. E por haver tantos livros, há uma porção de boas obras por aí.  



Conhece a literatura infantil brasileira?

Tenho vergonha de dizer que menos de 2% dos livros infantis publicados na Inglaterra são traduções, e não conheço escritores brasileiros, embora devam existir vários. Nem Lobato é traduzido, até onde eu saiba. 



Como avalia a literatura infantil hoje?

Apesar do que eu disse antes sobre a questão do marketing e do dinheiro, tenho a impressão de que, ao redor do mundo, a literatura para crianças está prosperando no que diz respeito às ilustrações, livros de gravuras e textos gráficos. Basta dar uma olhada para o catálogo infanto-juvenil da Cosac Naify, quantos talentos! Apesar das pressões comerciais, há muitos trabalhos bons sendo feitos. A maior parte deles está se deparando com os desafios das novas mídias, e há um monte de excelentes trabalhos experimentais. O elemento mais fraco é provavelmente o romance, mas talvez seja porque a narrativa ou contação de histórias está mudando com os novos meios.   



As crianças interagem com os livros da mesma maneira que as do passado?

Aqueles que leem livros interagem da mesma maneira. Na Inglaterra, estatísticas sugerem que a porcentagem de crianças que são leitoras de livros não mudou nos últimos 20 anos. Todavia, pela razão de os livros agora competirem com outros meios, pode ser que as crianças não tenham tanta habilidade com as palavras ou em usar a imaginação sem estímulo visual. Além disso, no Reino Unido e nos EUA pais gastam menos tempo lendo para os seus filhos e interagindo com eles, de modo que as crianças não têm o hábito da leitura nem a fascinação pela palavra que se costumava ter. Você pode achar que isso é ruim, mas algumas pessoas argumentam que as crianças têm uma dieta de histórias muito mais rica do que tinham antes - e o livro é só uma parte dela. 



Há tendência de os infantis apresentarem recursos não verbais, como texturas, tecidos, dobraduras etc. 

O que acha disso?

Vejo isso como um desdobramento muito saudável, possível graças à tecnologia. Na minha opinião, as crianças deveriam interagir com os livros e a arte de todas as formas possíveis - tocando, sentindo - até mesmo provando - e lendo também. 



Você acha importante que os livros infantis sejam politicamente corretos?

Não. Eu pessoalmente acho o contrário, pois acredito que as pessoas deveriam abrir suas mentes e pensar por elas mesmas. Porém, entendo que muitas pessoas (o que tem sido verdade) vejam os livros infantis como uma oportunidade de direcionar o pensamento das crianças e mostrá-los do jeito que os adultos querem. E tem sido verdadeiro (como resultado disso) que os livros infantis têm sido mais "politicamente corretos" do que os livros para o público adulto. Não acho que isso irá mudar, mas sempre existirão livros "não politicamente corretos", e há uma longa tradição de livros infantis subversivos. 



Como os pais podem reconhecer um bom livro para os filhos?

Procurando com afinco! Ninguém conhece melhor os filhos do que os próprios pais, então ninguém pode aconselhá-los. Eles devem examinar cada livro com seriedade e perguntar coisas como "esta obra partilha dos valores que eu desejo passar aos meus filhos?". "Meus filhos reagirão de um jeito que eu goste?". Isto é, será que eles vão dar gargalhadas ou ficarão com medo - e se vão ficar com medo, será que eu quero que eles fiquem assim? "Este livro está funcionando para a criança?". Só os pais podem julgar o que eles querem para os seus filhos. Leva tempo, mas os pais não deveriam deixar essa tarefa na mão de outras pessoas. Críticos podem indicar a direção certa (se escolherem seus críticos com cuidado), mas os livros escolhidos pelos pais têm de combinar com seus filhos - o que demanda cuidado e um bocado de amor - e, o mais importante, os pais têm de reconhecer a importância da literatura infantil. E esta questão sugere que não existe essa coisa de um "bom livro", mas um livro que seja bom para determinada pessoa.



De que forma os infantis contribuem para tornar a infância uma commodity?

Se a literatura infantil é parte do processo de vender produtos, de fazer cada criança a mesma, e talvez até pior, de fazer cada história a mesma, então sim, a literatura infantil pode ser considerada um fator maior de "comoditização" da infância. Mas alguns dos melhores livros da literatura para crianças foram escritos por rebeldes, e ainda acho que livros infantis, por serem subversivos e rebeldes, podem ajudar a libertar a infância, isto é, dar às crianças a chance de se tornarem adultos que pensam de forma livre. 



Muitos produtos culturais visam falar para pais e filhos. Não se corre o risco de infantilizar a narrativa como um todo?

Esta é uma pergunta estranha para mim - porque em inglês, "infantilizing" significa "simplicar de uma forma ruim" - com a implicação de que infantil é uma coisa ruim. Eu argumentaria o contrário: livros e filmes que fingem ser para crianças, tendo os pais como público secundário, estão de fato degradando a infância e insultando as crianças. Livros e filmes voltados para esses dois públicos (como Shrek) são geralmente voltados para adultos (que têm o dinheiro) e as crianças são secundárias. Outra resposta seria "o que há de errado com a infantilização?". Melhor do que a "adultização"!
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