Fernanda Cristina Cunha


O Clube do conto precisa ir além! A gente já conversou por aqui sobre as origens do Clube do Conto. Além disso, falamos um pouquinho sobre quais demandas ele respondeu e sua importância. Diante isso, o projeto traz à luz a necessidade que se tem de haver momentos de troca, de discussão e de construção coletiva, sem acontecerem avaliações ou juízos de valor. 

A leitura permeia as relações e necessidades humanas em suas variadas esferas, no entanto, no que se refere à leitura do texto literário, os hábitos de leitura não são tão perceptíveis, seja pela falta de acesso aos livros, pelo acúmulo de outras atividades em meio às rotinas agitadas da contemporaneidade, pelo desinteresse ou falta de incentivo. Por isso criar espaços que oportunizem o contato com a leitura fruitiva transforma os indivíduos envolvidos e a realidade vivida. 

Com isso, sugere-se que o projeto Clube do Conto seja adaptado e executado em diferentes locais: escolas, centros sociais, universidades, projetos comunitários, entre outros, pois, acredita-se que uma proposta que tem se mostrado tão pertinente não possa ficar limitada a uma instituição ou a um grupo de pessoas. 

Esse projeto pode ser pensado para se trabalhar com práticas educativas formais e não formais, tanto visando o incentivo à leitura literária como a possibilidade de fomentar discussões e envolvimentos dialógicos entre os sujeitos. 

Ah! Mas parece difícil? A gente tem pequenas fórmulas para ajudar você a construir seu próprio Clube do Conto. Olha só:

A) Curadoria dos contos: Ahh e você pode ver todos que nós discutimos nesses quatro anos de encontros aqui http://bit.ly/contosclube2021.

B) Escolha e convite dos mediadores: A alternância de mediadores é muito importante para trazer novas formas de ver o mundo de encontro a encontro.

C) Divulgação dos encontros e da grade: Vamos trabalhar o marketing desses encontros hein? Vale Post, Flayer, divulgação no Whats, o importante é atingir a comunidade. 

D) A realização do encontro: E esse é com você, presencial ainda tá difícil? Bora online! O importante é reunir todos os interessados <3

E) O registro: A gente sabe que uma memória fica no coração né? Por isso vale muito a pena registrar seja por fotos, prints  ou mesmo registro escrito dos sentimentos dos participantes através de post-its. 


Ficou com dúvida? Quer saber mais? Envie um email para a gente, podemos lhe ajudar <3 

Fernanda Cristina Cunha é graduanda de Psicologia pela Univille. Atua como bolsista do Proesde e busca através dos livros que lê as longas caminhadas por dentro de si mesma

   Fernanda Cristina Cunha


Vamos conversar sobre o ler, pensado através do Clube do Conto? A leitura permeia as relações e necessidades humanas em suas variadas esferas, no entanto, no que se refere à leitura do texto literário, os hábitos de leitura não são tão perceptíveis, seja pela falta de acesso aos livros, pelo acúmulo de outras atividades em meio às rotinas agitadas da contemporaneidade, pelo desinteresse ou falta de incentivo ou pela necessidade que é colocada, em muitos casos, sobre a literatura precisar de objetivos e finalidades específicos para ser consumida.

 Quando a leitura é pensada dentro do espaço universitário, percebe-se que já é uma prática recorrente, típica e familiar, e que, de certa forma, não gera expectativas nos leitores, por ser em sua maioria técnica ou teórica, já esperada.  E, quando, nesse espaço ela é literária, está associada a trabalhos avaliativos, levando-a ao seu aspecto escolarizado, “academicizado” e não propriamente de fruição. Nesse sentido, a universidade, por preconizar o olhar crítico, a formação reflexiva e científica, precisa de momentos em que a fruição literária tenha espaço, uma vez que, com ela, bases ideológicas, históricas e psicológicas do sujeito podem ser repensadas e desestabilizadas. 

E é isso que o Clube do conto objetiva, criar experiências literárias em ambientes diversos, pois é com elas que poderemos projetar visões mais aguçadas sobre sua realidade, buscando sua modificação e a reflexão. 

Pela discussão da literatura, que trazemos temáticas de relevância. Além disso, é pela leitura do literário, dada de modo dialógico, que se tem o essencial: a fruição, a partir de uma leitura livre, espontânea e com a única finalidade de ser questionada, repensada e dialogada no coletivo, fazendo que nos sintamos parte do processo e da construção de novos olhares ou saberes.



Esse projeto pode ser pensado para se trabalhar com práticas educativas formais e não formais, tanto visando o incentivo à leitura literária como a possibilidade de fomentar discussões e envolvimentos dialógicos entre os sujeitos. O que deve ser sempre levado em consideração é que a literatura, enquanto manifestação artística, precisa expandir-se nas mais variadas relações e contextos, potencializando os espaços de liberdade que propõe.

Fernanda Cristina Cunha é graduanda de Psicologia pela Univille. Atua como bolsista do Proesde e busca através dos livros que lê as longas caminhadas por dentro de si mesma

  Fernanda Cristina Cunha


O Clube do conto você  já conhece não é? Mas que tal conhecer um pouquinho mais sua origem e o números envolvidos nesse projeto maravilhoso que existe desde 2017?
A criação do projeto perpassou pela problemática muito observada nas universidades de um modo geral, que é a do afastamento do estudante aos textos literários e da leitura fruitiva. Esse afastamento se dá em muitas vezes pela carga de leituras teóricas que são exigidas nos cursos de graduação e pós-graduação.

Contudo, para além do ambiente universitário, surgiu pelo olhar sensível à comunidade e a como poderíamos levar a leitura fruitiva até eles. Por meio dessa iniciativa a comunidade acadêmica e não acadêmica é beneficiada, pela possibilidade de discussão do literário no coletivo, sem responsabilidades associadas; um espaço típico de educação não formal em que todos os olhares são relevantes para a construção conjunta e para a problematização das temáticas. 

O debruçar-se sobre novos contos e autores, clássicos e contemporâneos, permite ainda que o leitor e participante tenha um maior acesso à literatura, que, possivelmente, não seria descoberta sem intervenções como essa.

Sendo um projeto contínuo, em que os participantes se reúnem quinzenalmente, entre os meses de abril a novembro, totalizamos mais de 50 encontros, ou seja 50 contos lidos e discutidos. Autores como Lygia Bojunga, Anton Tchekhov, Bartolomeu Campos de Queiroz e Haruki Murakami são alguns dos tantos e tantos autores envolvidos no projeto. 




Todos os contos são encontrados no acesso: http://bit.ly/contosclube2021. Essa disponibilização dos contos oportuniza que mesmo após o encontro, o contato com a obra permaneça para aqueles que não tiveram oportunidade de estar presente. 

Fernanda Cristina Cunha é graduanda de Psicologia pela Univille. Atua como bolsista do Proesde e busca através dos livros que lê as longas caminhadas por dentro de si mesma

 Fernanda Cristina Cunha


Fita verde no cabelo, de Guimarães Rosa e Roger Mello: uma obra não tão contemporânea em termos de ano de publicação, mas sim de temáticas. A Chapeuzinho Vermelho, que nesta obra chama-se Fita Verde, com pequenas semelhanças ao conto de Charles Perrault, cria uma atmosfera encantada ao longo das mais ou menos 30 páginas de narrativa. Contudo, esse encantamento vai dando espaço à realidade da natureza humana. 

Fita Verde precisa aprender a conviver com a dor das relações, da possível perda e com o luto quando por fim ela ocorre. A poesia e o encantamento da obra atrelada à menção da finitude da vida, gera, ainda que emocionalmente triste, um rememoramento de que a morte existe e de que ela é uma das poucas certezas da condição humana. 

A hibridação é aqui revelada na nova expressão da obra de Perrault, ao passo que o real toma lugar no imaginário tradicional que é esperado pelo leitor. A representação poética, especialmente na literatura infantil, seja ela acerca da finitude da vida, ou das relações familiares e sociais, torna mais tangível as angústias da existência do ser e abre espaço para a sensibilidade humana.

O material aqui apresentado é um recorte da pesquisa “Hibridismo na Literatura Infantil Juvenil: contrapontos contemporâneos”, de cunho bibliográfico, em desenvolvimento por pesquisadores vinculados ao Programa de Literatura Infantil Juvenil (PROLIJ). O objetivo geral do projeto é compreender como o hibridismo vem se materializando e se manifestando nos livros infantis e juvenis na contemporaneidade. 




Oportunizar a promoção e maior alcance das produções cientificas à toda comunidade é um dos nossos objetivos. Quer saber mais sobre a pesquisa? Manda um direct no instagram para a gente. 

Referências: ROSA, G. Fita Verde no Cabelo: nova velha história. Ilustrações: Roger Mello. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

Fernanda Cristina Cunha é graduanda de Psicologia pela Univille. Atua como bolsista do Proesde e busca através dos livros que lê as longas caminhadas por dentro de si mesma

 Bruno Bernard Merten


“É um livro”, de Lane Smith, publicado no Brasil em 2010 pela Companhia das Letras, por seu selo infantil – Companhia das Letrinhas. É uma história contada com economia de palavras e riqueza de imagens, justamente nisso reside o maior potencial deste livro.

Seus personagens principais são dois amigos, um internauta, representado por um burro, e um leitor clássico, um macaco. A história inicia-se com o burro questionando ao macado que objeto ele está segurando. O macaco responde de forma bastante direta: “É um livro”. Na história fica evidente a relação do burro com as redes sociais e o seu total desconhecimento sobre o funcionamento dos livros  impressos. O burro começa então um verdadeiro interrogatório sobre aquele objeto. A resposta do macaco, por sua vez, é a mesma sempre, “É um livro”.

A leitura é rápida,  mas as reflexões são profundas. De forma bem-humorada, o texto atenta para o lugar do livro no mundo tecnológico atual, em que todos crescem já imersos no universo virtual, a ponto de a leitura tradicional estar perdendo espaço, e o leitor atual perdendo a rica experiência do contato com o livro impresso e suas inúmeras possibilidades, como a de instigar a curiosidade e se tornar coautor ao ativar cenários e personagens em seu imaginário.

A história ganhou também uma animação de um minuto, mostrando o diálogo entre os amigos. O vídeo está disponível no Youtube e é uma forma interessante de dialogar com o livro em outros formatos.



Você pode acessar essa animação clicando aqui: 

É um livro | Lane Smith https://www.youtube.com/watch?v=DMa-dXrrnOA 

Resenha desenvolvida em parceira com o bolsista UNIEDU, Bruno Bernard Merten

Maria Eva Danielle é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê a literatura como forma de liberdade. 

Jaqueline Basilio é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e encontra nas palavras o poder para mudar o mundo. 

 Fernanda Cristina Cunha


A mãe que chovia, de José Luís Peixoto e Daniel Silvestre da Silva é único, uma obra que transcende as barreiras do racional e nos coloca a sonhar a solidão.  É a  hibridação do concreto e científico, com a magia e o metafísico, é poeticamente experencializada nessa obra. 

Nela, um menino que, sendo filho da chuva, e com uma mãe tão importante e necessária ao mundo, tem de aprender, a duras penas, a partilhar com o mundo todo o seu cuidado e dedicação. E, principalmente, lidar com a saudade, angústia e tristeza nos momentos em que ela está ausente.

Essa mãe, por outro lado, tendo um mar de obrigações, vê-se compelida a se ausentar por longos períodos de seu filho e com isso lida com sua própria tristeza, culpa e aflição. Através desse percurso entre o real, ou seja, os desafios das relações entre mãe e filho, e o metafísico, isto é, a natureza dessa relação, que os autores expressam através de tal hibridismo, que rompe as barreiras do livro físico, uma lição de generosidade, empatia e amor. 

A representação poética, especialmente na literatura infantil, seja ela acerca da finitude da morte, ou das relações familiares e sociais torna mais tangível a sensibilidade humana com relação às angústias da existência de ser. O mundo, como um livro, pode ser explorado e decifrado. O espaço ao nosso redor possui um significado e cada paisagem conta uma história. Reduzir a realidade o nosso entorno ao âmbito científico é reduzir as realidades do qual podemos ter contato.  Viver apenas uma realidade seria insustentável, e por meio da literatura, religião, filosofia, arte, e tantos outros campos do saber temos acesso às mais diversas realidades.





O material aqui apresentado é um recorte da pesquisa “Hibridismo na Literatura Infantil Juvenil: contrapontos contemporâneos”, de cunho bibliográfico, em desenvolvimento por pesquisadores vinculados ao Programa de Literatura Infantil Juvenil (PROLIJ). O objetivo geral do projeto é compreender como o hibridismo vem se materializando e se manifestando nos livros infantis e juvenis na contemporaneidade. 

Oportunizar a promoção e maior alcance das produções cientificas à toda comunidade é um dos nossos objetivos. Quer saber mais sobre a pesquisa? Manda um direct no Instagam para a gente. 

Referências: PEIXOTO, José Luís. A Mãe Que Chovia. Ilustração: Daniel Silvestre da Silva. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2016.


Fernanda Cristina Cunha é graduanda de Psicologia pela Univille. Atua como bolsista do Proesde e busca através dos livros que lê as longas caminhadas por dentro de si mesma

Fernanda Cristina Cunha

O termo híbrido é amplamente utilizado em diversas áreas do conhecimento. Por vezes, é tomado negativamente, principalmente na Biologia sendo ligado a infertilidade ou a improdutividade. No entanto, transpondo-o para outras esferas, como a da globalização, ele traz a ideia de superação das barreiras culturais, justamente por propor a fusão entre elas. No campo artístico pode representar a união entre linguagens diversas, sejam elas da palavra, da imagem, da música, das cores, da dança ou do teatro. Pode-se compreender que na contemporaneidade os livros infantis e juvenis são constituídos por pelo menos duas linguagens, imagética e verbal e portanto raramente as publicações voltadas ao público infanto-juvenil limitam-se a um texto que não seja carregado de hibridismo.  Contudo, nem todos os livros para crianças e jovens são híbridos, já que muitos são meros repetidores entre texto verbal e visual. 

Para serem considerados híbridos, os livros precisam explorar as potencialidades das linguagens. A leitura de um livro infantil ou juvenil ilustrado também não se resume à leitura do texto e da imagem em si. No livro híbrido é necessária uma diagramação específica, um formato que permite ler de tal modo, cores e ilustrações não ocasionais e que complementam o não verbalizado, diferentes gêneros discursivos, fontes diferenciadas, efeitos na impressão, entre outros elementos que se somam à narrativa. O trabalho com os livros híbridos amplia os olhares dos estudantes, dos docentes e demais profissionais da educação, pois traça possibilidades de imersão e descobrimentos na leitura para todas as partes. Trazemos como sugestões híbridas as obras: O Espelho de Suzy Lee, Se eu abrir esta porta, Este É o Lobo E Pinóquio: O livro das pequenas verdades, os três escritos e ilustrados pelo brasileiro Alexandre Rampazo.

Tais obras aqui apresentadas, devem fazer parte do cotidiano escolar, porém, para além da escolarização, fazendo com que as múltiplas linguagens, exploradas pelo híbrido, atinjam os leitores, gerando novas experiências, questionamentos, reflexões e encantamentos. A gente acredita ainda que estas e outras obras híbridas, sejam usadas como caminhos e não como meros pretextos para algo, que possam auxiliar o trabalho do professor, mas que também proporcionar contato pleno com a leitura literária, criando, possivelmente, uma prática constante nos espaços educativos. 




O material aqui apresentado é um recorte da pesquisa “Hibridismo na Literatura Infantil Juvenil: contrapontos contemporâneos”, de cunho bibliográfico, em desenvolvimento por pesquisadores vinculados ao Programa de Literatura Infantil Juvenil (PROLIJ). O objetivo geral do projeto é compreender como o hibridismo vem se materializando e se manifestando nos livros infantis e juvenis na contemporaneidade. Oportunizar a promoção e maior alcance das produções cientificas à toda comunidade é um dos nossos objetivos. Quer saber mais sobre a pesquisa? Manda um direct para a gente. 

Fernanda Cristina Cunha é graduanda de Psicologia pela Univille. Atua como bolsista do Proesde e busca através dos livros que lê as longas caminhadas por dentro de si mesma
Isabela Giacomini

Leila saiu para nadar no mar, estava se sentindo muito bem naquele dia. E tudo realmente estava, até que encontrou seu vizinho Barão, que forçava uma relação de proximidade da qual ela não gostava. Barão a chamava de “Pequena”, mesmo que não tivesse lhe dado liberdade para isso. A situação ficou ainda pior quando ele lhe deu um beijo no rosto e disse que a acompanharia no mar. Leila estava se sentindo extremamente mal, mas não conseguia expressar, estava tomada pelo medo.

Barão não parou por aí, ficou tentando lhe seduzir, falando que não gostava de seus cabelos daquela maneira e tocando nela, até que Leila teve seus cabelos cortados, simplesmente porque ele julgara como sendo melhor daquela forma. Seus cabelos eram muito importantes para si, e agora estava em sua mais profunda tristeza. Barão continuou falando coisas para ela, nojentas, que a angustiavam. Pediu ainda que o que acontecera ficasse apenas entre os dois. Leila já não estava bem e não queria nadar, foi afundando cada vez mais. Aquela experiência negativa ficaria nela para sempre.

Depois de um tempo, Leila viu Barão novamente e um turbilhão de sentimentos e de pensamentos passou pela sua cabeça. Tomando todas as suas forças, disse tudo aquilo que vinha sendo sufocado. Ela jamais quis ser tocada, ter seus cabelos alterados, ser acompanhada por alguém sem sua vontade, ser beijada e ouvir todas aquelas coisas. Sua voz tomou conta do fundo do mar, aprisionando, dessa vez, Barão.

Tino Freitas e Thais Beltrame se valem de uma forma de alegoria, utilizando animais: uma baleia e um polvo, para tratar de uma temática extremamente forte, mas necessária: a violência sexual. O texto verbal e o visual dialogam de modo a abordar o assédio de uma maneira sutil, metaforizada pela relação entre polvo, animal forte e de aspecto grotesco e a baleia, com sua sensibilidade e ingenuidade. Leila traz à tona que esta é uma realidade em tantos outros lugares e que elas precisam ser compartilhadas. Para isso, assim como ela teve apoio de uma rede de amigos, as crianças e jovens que são submetidos a essas condições, também precisam, para que possam se fortalecer e se encorajar para denunciar.


A ilustração traz ainda outro elemento muito peculiar: uma ostra, que está gravada na capa através de um recorte intencional e também que permeia as páginas do livro, tecendo um fio condutor à narrativa paralelamente. A ostra da capa fica evidenciada, mas quando ela é desdobrada, surgem muitas outras, mostrando que essa é a história de apenas uma Leila, entre tantas.

Com uma temática difícil de ser tratada e de ser digerida pelos leitores, Leila mostra uma possibilidade de mostrá-la de forma extremamente inteligente, sutil e literária. Os autores, por sua vez, tiveram grande ousadia e coragem em trazer a violência sexual para a literatura infantil, desmistificando aquilo que pode ou não ser falado com as crianças e reiterando que as questões da sexualidade permeiam a humanidade e que, por isso, também devem fazer parte das discussões. 

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.
No dia 20 de março comemoramos o dia internacional do contador de histórias, mas o agradecimento  e as parabenizações não deve se restringir a esse dia, por isso aproveitamos para enaltecer o trabalho de todos os contadores de histórias que levam suas narrativas a lugares diversos e tornam o cotidiano de tantas pessoas mais leve e poético. Ao contar uma história, estamos também dando aos nossos ouvintes a oportunidade de viver outras vidas possíveis, acessadas pelo contato com a arte!


Estamos vivenciando uma época muito difícil, de muito nervosismo e apreensão, mas tudo isso vai passar, o importante nesse momento é ficar em casa e aplicar todas as medidas de prevenção! E para deixar nossos dias de isolamento social mais animados e literários trouxemos vídeos de 3 de nossas contadoras de histórias! Confira a seguir:


Fernanda Arruda conta"O vento que me voa", de Jura Arruda


Alcione Pauli conta "A festa da moça nova", de Daniel Munduruku


Ana Carolina Schlichmann conta "Menina bonita do laço de fita", de Ana Maria Machado







Ana Luíza Silva Sanches
Com o uso de cores simples, mas significativas, como o preto, amarelo e branco, O livro do medo, da escritora argentina Raquel Cané, trata da temática do medo com um viés distante do descaso e do tabu. A escritora articula as cores nas ilustrações da mesma forma que representa a existência do medo em diversas maneiras, sejam elas reais ou imaginárias, grandes ou pequenas, tendo apenas em comum o fato de nos assustarem.

Direcionado à pessoas corajosas o suficiente para mergulhar de cabeça ou à pessoas amedrontadas, a obra de Cané é o empurrãozinho que muitas vezes precisamos para enfrentar os nossos medos, para nos confortamos sobre o ritmo da vida e reconhecermos que é por meio desse processo que somos capazes de crescer e amadurecer, abraçando as nossas falhas e ressignificando-as em algo positivo.
O medo é necessário à vida, ele se fundamenta no processo de amadurecimento, se constrói pelo sensível e se fortalece em laços de relações humanas que nos libertam das nossas prisões interiores por meio das emoções, da leitura e da arte. Perder o medo do medo significa se desvencilhar da escuridão e apostar na coragem que é nossa, mas carece de encorajamentos.

A narrativa se constrói através da sensibilidade de encarar o medo como uma passagem necessária à infância, em que a criança, ao vivenciá-lo, evidencia o processo de entendê-lo a ponto de se fazer possível o seu enfrentamento, resultando na resolução dos conflitos internos e na superação das dificuldades encaradas como consequências do medo.

Conforme a história, esse medo pode ser acionado pela solidão, pela exposição ao mundo lá fora, pela incapacidade de enxergar ou de sentir, de perder-se ou de não conseguir compactuar ao afeto do abraço e à clareza do som das palavras. Esses medos, independente do quais sejam ou de que forma são estimulados, provocam um sentimento de fragilidade que nos privam de experiências a serem vivenciadas, experiências essas que podem resultar em algo vantajoso à construção do ser, do entendimento de si e dos outros.


Na obra, tal como na vida, essa compreensão é comumente impulsionada pela presença de outra pessoa, sendo, no caso, representada pela figura da mãe da personagem. Percebe-se, então, que o processo de compreensão e enfrentamento do medo se torna mais fácil e claro quando exteriorizado em um base de apoio, sendo possível lidar com sentimentos que assombram por meio do diálogo com alguém que esteja disposto a auxiliar em questões que, muitas vezes, nos parecem invisíveis ou passam despercebidas.

Nesse sentido, a troca de contato é responsável por encorajar a personagem à enfrentar os lugares escuros, impossíveis de enxergar, para se deparar com a esperança de um lugar colorido, com pássaros, sons, cheiros e sensações que ressignificam o ato de viver. Entende-se, pela obra, a necessidade do enfrentamento e da compreensão desse sentimento que amedronta e provoca frios na barriga e batimentos acelerados, pois, quando nos tornamos fortes e sensíveis o suficiente para enfrentá-lo, compreendemos a beleza da vida, que é, como a própria escritora finaliza, ‘’’bela, inteira e infinita’’ (CANÉ, p. 29).

Ana Luíza Silva Sanches é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como voluntária no Prolij e vê na literatura uma das formas mais sensíveis de se expressar e se (re)ssignificar.


Luca tinha medo do escuro, mas eles moravam na mesma casa. A casa era grandiosa, cheio de lugares misteriosos onde o escuro sempre podia estar escondido: no armário, atrás da cortina do banheiro, na escada durante a noite e principalmente no porão, mesmo ao longo do dia. O menino, muito esperto e ainda muito pequenino, fazia visitas ao escuro ao longo do dia, para que à noite ele não saísse do porão e viesse visitá-lo.

O escuro toma a dimensão de uma personagem na narrativa e chega até mesmo a se comunicar com o menino, deixando-o ainda mais assustado. Porém, em uma certa noite, o escuro saiu do porão e decidiu entrar no quarto de Luca, dizendo que havia algo para lhe mostrar. O menino, sabendo exatamente quais eram os locais que o escuro adorava se esconder foi logo palpitando: atrás da cortina do banheiro? Não! Dentro do armário? Não! Lá em baixo? Sim! E com mais medo do que nunca, desceu as escadas e o seguiu, indo em direção ao tão temido porão. Era algo que nunca sequer tivera coragem de fazer antes, visitar o porão à noite era certamente a maior aventura de sua vida.


O escuro pediu que o menino abrisse a gaveta de uma cômoda e lá estava sua maior surpresa: uma lâmpada! O escuro parecia realmente se importar com ele, pois acabara de ganhar o próprio objeto que o espantava, ainda que isso não fosse superar o medo do escuro completamente.

A obra mostra aos leitores que mesmo os medos mais profundos podem ter dois lados e que os dois precisam ser conhecidos, e isso só é possível através da aproximação estabelecida. Luca não deixou de ter medo, mas sabia que a lâmpada o ajudaria de alguma forma e também que o escuro sempre estaria em algum lugar de sua casa, sempre que precisasse. A relação entre os dois se tornou quase uma amizade, mostrando que a superação do medo não é instantânea, mas um processo de compreensão, que precisa de diálogo e do conhecimento dos dois lados da história. 

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.

Isabela Giacomini
Poética, simbólica e arrebatadora na linguagem verbal e visual, a obra revisita o boneco de madeira que povoa o imaginário de leitores de diferentes épocas. Pinóquio é trazido para o livro em uma perspectiva filosófica e ainda mais humana ao ser colocado à frente de um espelho. O espelho é um grande símbolo dentro da narrativa, pois metaforiza a relação estabelecida pelos sujeitos ao tecerem olhares para si mesmos e para os outros.

Com uma sensibilidade imensa, Rampazo trata de questões humanas muito pertinentes, como a comparação que as pessoas fazem umas com as outras, na tentativa de serem melhores ou de se equipararem, impulsionando a sociedade das aparências em detrimento das essências.

Pinóquio, ao se projetar em outras personagens de Collodi, compara-se a elas e deseja ser como tais, enfatizando as características mais positivas que cada uma traz consigo. Deseja ser como o amável Gepeto, como o inteligente Grilo Falante, como o mestre de marionetes e como tantos outros, mas ainda que faça muito esforço para se parecer como eles, fixa seu olhar sobre o espelho e tudo que vê é um simples boneco de madeira.

Madeira essa que também é simbólica, pois vem de uma árvore vívida e sonhadora. Esta, por sua vez, também teve seu momento de ser transformada em menino: a árvore sonhava em ser menino e o menino em ser árvore. A relação árvore-menino mostra a conexão entre ambos, o que têm em comum, o que os une, o que cada um descobre sobre o outro e principalmente sobre si. Talvez ser “apenas” um pedaço de madeira possa representar uma profundidade imensa de coisas, que só se descobre olhando para dentro em um processo de autodescoberta, de valorização da essência e das próprias verdades carregadas. 


As pequenas verdades de Pinóquio são ressignificadas à medida que o olhar se volta para si, mostrando que, mesmo pela simples aparência, nossa essência está repleta de quem somos e de quem temos potencialidade de nos tornar, reconhecendo-nos e aceitando-nos dentro da nossa própria identidade.

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.

Fernanda Cristina Cunha

Marguerite se sente incomum e luta todos os dias para preservar as aparências diante aqueles que a rodeiam. Suas ações são imutáveis, se fechando em repolho, Margarite tem dificuldades em realizar ações que para muitos são simples, como se relacionar com colegas de trabalho, conhecer lugares novos, ir à festas, usar roupas de determinados tecidos e até usar um despertador.

Ela se sente agredida pelo barulho, pelas conversas constantes de seus colegas e pelo desábito. Cansada desse estado, acompanhamos o encontro dela consigo mesma. Ao deparar-se com um diagnóstico, diferente do esperado, Margarite vê nele as respostas para aquilo que tanto sentiu ao longo da vida.

A Diferença Invisível de Julie Dachez, com ilustração de Mademoiselle Caroline, publicado no Brasil pela editora Nemo ele é uma lição de de respeito e de tolerância, que nos trás de modo sensível um recorda da vida de Julie, portadora de Autismo.






Contudo, para além do diagnóstico, o livro trata dos desafios daqueles sofrem por não se encontram, ou não se aceitarem no mundo que estão. Sendo assim uma forma de falar sobre o diferente, a liberdade e a  autoaceitação.


Fernanda Cristina Cunha é graduanda de Psicologia pela Univille. Atua como bolsista do Prolij e busca através dos livros que lê as longas caminhadas por dentro de si mesma. 
Jennifer Bretzke Meier

Em sua obra “Já pensou se alguém acha e lê esse diário?”  a  autora Nilza Rezende dá a voz à João Gabriel, um adolescente cercado de incertezas e ansiedade. Seu pai saíra de casa sem dar qualquer explicação e  a mãe pensa que mudar de cidade será  a melhor solução para recomeçar. Ele não quer um novo início, quer continuar onde está, frequentar os mesmos lugares e sair com amigos que o conhecem o suficiente, para não comentar sobre a sua família.

Infelizmente, essa fase determinada de sua mãe trouxe um namorado para viver com eles. Aí ficou insuportável, João precisava escrever, desabafar e por isso criou “O diário”. Não se engane, além de suas tristezas, o jovem rapaz compartilha dia-a-dia na escola, primeiro amor e muitas emoções. Você vai gostar de abrir este diário...



A fluida escrita de Nilza permite ao leitor sensibilizar-se com as angústias do jovem João Gabriel e relembrar sua própria adolescência, fazendo reflexões sobre como os sentimentos - mesmo tão confusos- são prazerosos e proporcionam incríveis descobertas.

Jennifer Bretzke Meier graduanda de Letras (Português/ Inglês) na Univille, atua como bolsista no Prolij e vê a literatura como fonte inesgotável de sabedoria e conhecimento.

Camilla Moraes 
Havia um grande pêssego maduro que tinha um cheiro muito gostoso e parecia delicioso. Quem vai ficar com o Pêssego?

A girafa alta, o crocodilo de boca grande, o rinoceronte pesado, o macaco esperto, o coelho saltitante e a lagarta inquieta: todos queriam comer o pêssego.

O livro Quem vai ficar com o pêssego, de Yoon Ah-Hae & Yang Hye-Won, a cada nova página inicia com a frase: Quem vai ficar com o pêssego?

E cada um dos animais procura uma questão a seu favor para conseguir ficar com o pêssego, a girafa diz que o mais alto deve ficar com o pêssego, o rinoceronte diz que precisa ser o mais pesado a ficar com o pêssego, o crocodilo diz que quem deve ficar com o pêssego é quem tiver a maior boca, o coelho disse que quem tinha as orelhas mais compridas devia ficar com o pêssego, o macaco disse que devia ser quem tinha a cauda mais longa, e então chegou a vez da lagarta... E agora o que será que essa pequenina usou de argumento?


A obra vai trabalhando de forma lógica com a criança, mas ao mesmo tempo a divertindo até se resolver a questão de quem ficará com o pêssego?! Ao final, o livro ainda traz duas atividades explicando como organizar as coisas de diferentes maneiras.

Camilla Moraes é aluna do curso de Psicologia na Univille. Atua como bolsista no Prolij e vê em cada livro um novo sonhar.

Lara Cristina Victor 
Nesta obra encantadora, o poeta Antonio Barreto e o ilustrador Diogo Droschi, passeiam em uma viagem poética na construção do novo de uma forma singular e bela. Os poemas se apresentam de maneira descontraída e os mesmos aparecem em um formato a fazer o leitor transitar livremente pelos versos e navegar por caminhos infinitos e misteriosos. Além de brincar com a palavras, ressoando novos sentidos aquilo até então concreto.

Este livro surge a partir de uma experiência única para o autor, envolvendo luzes coloridas, ovnis, naves, grilos e vagalumes. Assim sendo, os poemas são apresentados criativamente a partir dessa temática que é ressignificada por Antonio, como mostra nos poemas “Grilume”, “Vagalovnis”, “Surrealesma”, “Nave-mãe”, entre outros. Assim como destaca Bartolomeu Campos de Queirós, “Sua capacidade em tomar das palavras o muito além delas surpreende e encanta”.




Assim como Vagalovnis, há tantas outras obras poéticas e sensíveis que permeiam o acervo do Prolij, disponíveis para possibilitar tantos outros encantamentos.

Lara Cristina Victor é aluna do curso de Psicologia na Univille. Atua como bolsista no Prolij e vê em cada criança um pouquinho de si mesma.

Isabela Giacomini 
Nesse livro, Munduruku reconta fábulas populares do repertório indígena, que foram narradas através dos tempos e afirma que o importante é o ensinamento que deixaram para seus descendentes, em suas palavras: “Essa tem sido a silenciosa contribuição que os povos indígenas têm dado para tornar nossa terra mais bonita, sadia e equilibrada” e que, portanto, os leitores devem agradecer pela sabedoria de seus antepassados. A obra é dividida em três fábulas: O jabuti e a raposa, O jabuti e o veado-cantingueiro e O jabuti e a onça, que serão resenhadas a seguir:

A primeira delas fala de um pajé que reuniu o povo de sua aldeia em volta da fogueira para lhes cantar uma música dos ancestrais, para rezar aos espíritos e para contar-lhes uma história. O pajé fala ainda para seu povo que os índios correm riscos hoje em dia, pois estão em contato com os homens brancos que acham sua cultura superior e que, para provar o contrário, que nem sempre aquele que se vê como melhor é necessariamente o mais esperto, começa a história sobre a raposa e o jabuti. A raposa, querendo bancar a esperta, fez um desafio com o jabuti para testarem a coragem. O desafio era que o jabuti ficasse enterrado em um buraco, coberto por terra, durante três anos e depois seria a vez da raposa. Torcendo pela morte do pobre animal, a raposa passava pelo buraco e chamava o jabuti para ver se ainda vivia. Para seu descontentamento, todas as vezes o jabuti respondia e lhe perguntava se o tempo estava logo no fim. E assim, em sua ancestral paciência, o jabuti ficou ali durante os três anos. Agora era a vez da raposa e o jabuti a enterrou, fazendo com que os outros animais a observassem. O que será que aconteceu com ela? Durou por três anos embaixo da terá? Será que ela é mesmo a mais esperta? Talvez teria sido melhor não escolher logo um jabuti para fazer seu desafio!

Em “O jabuti e o veado-catingueiro”, o pajé se reúne com as crianças perto da fogueira e pede para que se deitem no chão, olhando para o céu, mesmo sem luar, mas explicando-lhes que as estrelas eram crianças que estavam lá no alto cuidando das que estavam aqui na terra. Depois, voltaram a se sentar para ouvir a história do pajé, mais uma vez sobre um jabuti, que dessa vez era desdenhado por um veado-catingueiro, que se achava melhor pela sua agilidade na locomoção. O pobre jabuti sempre ouvia deboches, sobre nunca sair do lugar, sobre não conseguir conhecer o mundo por conta de sua lentidão. Contudo, muito esperto, o jabuti disse que tinha ido até o outro lado da terra e voltado em uma semana e que era o veado que tinha chegado depois. O veado desafiou-se então a fazer o mesmo percurso em dois dias, mas o jabuti disse que em tempo menor que o dele era impossível, pois ter pernas compridas não era o suficiente, precisava de rapidez no pensamento, já que algumas distâncias podem ser vencidas com ele. Decidiram então marcar uma corrida para o dia seguinte, em que se reuniram outros animais esperando pela vitória do veado. Mal sabiam que o jabuti tinha combinado com seus irmãos para que se espalhassem ao longo do percurso para irem se revezando e assim ganharem a corrida. O jabuti sabia que aquilo não era completamente correto, mas sabia também que o tal do veado-catingueiro não tinha o direito de lhe excluir e caçoar. E assim foi, o veado aprendeu a duras penas que precisava conviver com as diferenças e que muitas vezes a inteligência e astúcia eram mais necessárias que a ligeireza.


Em “O jabuti e a onça” o pajé inicia falando às crianças sobre a importância das histórias e de fazê-las manterem-se vivas, pois dão continuidade aos povos. Um dos pequenos perguntou-lhe como colocar todas as coisas bonitas que dizia em prática. E, para isso, o sábio lhes contou uma história. Uma onça muito faminta estava atrás de comida por muito tempo, mas sempre tinha insucesso. Todo cheiro que sentia era uma esperança ou apenas uma elaboração de sua mente faminta. Um dia, porém, ouviu um som de uma flauta com uma música parecida com “Do osso da onça fiz minha flauta”. Atônita, a onça foi atrás da vozinha e se deparou com um jabuti tocando flauta. Muito esperto, o jabuti disse que a onça estava ouvindo mal de longe e que na verdade cantava: “do osso do veado fiz a minha flauta”. O jabuti decidiu então se afastar bastante, ficando perto de sua toca e cantar mais uma vez para comprovar a má audição da onça. E, novamente, cantou a primeira versão. A onça enfurecida correu para pegar o jabuti, mas ele se escapou para a toca. Sorte dela que conseguiu agarrar sua perninha, mas ainda mais esperto, o jabuti disse que aquilo era a raiz de uma árvore e não sua perna. Naquele dia a onça levou uma bela lição, e mesmo assim não desistiu e ficou ali, na porta da toca, esperando pela saída do jabuti. Ainda bem que ele podia ficar tranquilo, sem pressa, dentro de seu casco, enquanto ela ficava pintada de raiva e de fome!

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.

Fernanda Cristina Cunha
A violência,
seja qual for a maneira como ela se manifesta,
é sempre uma derrota.
Jean-Paul Sartre

Nesse mês de agosto discutimos "A Casa Tomada" de Julio Cortázar mediado pelo Ian Pogan, e "Impotências" de Marçal Aquino, mediado pelo professor Alexandre Cidral.

"Agora era tarde. Como me sobrava o relógio de pulso, vi que eram onze horas da noite. Cingi meu braço à cintura de Irene (eu acho que ela estava chorando) e saímos assim à rua. Antes de nos afastarmos senti tristeza, fechei bem a porta de entrada e joguei a chave no bueiro. (...)." (Cortazar, 1951)

Escrito em 1951, o conto "A casa tomada", foi publicado no livro Bestiário de Cortazar. Ele faz parte do gênero fantástico não simplesmente pelo mistério que se instaura no texto, mas pelo efeito discursivo do fantástico que se materializa através narrativa.

O Bestiário de Julio Cortazar

Já o conto do autor paulistano foi publicado em 2003, na obra Famílias Terrivelmente Felizes e conta a história daquele que não é dito e além do mais é esquecido.

Conhecemos a vida, ou melhor, a não vida de um falecido tio, o narrador caminha pelas possibilidades de vida, comparando-a com a vida real da qual ele viveu, buscando expressar as trajetórias de vida mais dignas que poderiam vir a acontecer, com namoradas, empregos, filhos, sexo e amor.


Famílias terrivelmente felizes de Marçal Aquino


Em ambas obras os personagens não se encaixam no mundo em que vivem,  são apresentados como eternos aprendizes da sobrevivência, cada qual com seus medos, ilusões e fugas. Contudo, esses abandonos da vida em comunidade ocorrem no primeiro conto por escolha, no segundo compulsoriamente.


Quadro de sínteses de A Casa Tomada


Detalhe do quadro de sínteses de A casa Tomada
Quadro de sínteses de Impotências 

Detalhe do quadro de sínteses de Impotências



Os registros acima são resultados de ambos os encontros. Ficamos felizes com a presença de todos. .
No próximo mês temos mais!

Fernanda Cristina Cunha é graduanda de Psicologia pela Univille. Atua como bolsista do Prolij e busca através dos livros que lê as longas caminhadas por dentro de si mesma. 

Jennifer Bretzke Meier
Charles Perrault, foi um escritor e poeta francês do século 19, o pioneiro dos contos de fadas voltados especificamente para as crianças, também conhecido como “Pai da literatura infantil juvenil”. Seus contos não eram romantizados como nas releituras feitas ao longo dos séculos, mas sim demonstravam que haviam valiosas lições a serem aprendidas pelas crianças por meio da literatura, por mais chocante que fosse.
“Era uma vez Perrault” reúne seis histórias do escritor, recontadas por Katia Conton, que se preocupou em acrescentar poeticidade ao texto sem perder a essência característica de Perrault:
Pele-de-asno: Em um reino muito antigo, viviam um rei e uma rainha, a rainha ficou muito doente e percebendo que iria morrer, pediu ao marido “Por favor, assim que eu me for, se case com uma mulher mais bonita do que eu”, apesar da relutância o rei aceitou seu pedido e ela pode descansar em paz. Acontece que a rainha era muito bela, e a única que se aproximava em beleza era sua própria filha. O homem pediu a princesa em casamento, ela apavorada relutou e se escondeu na floresta, trocando suas luxuosas vestes pela pele de um asno. Com isso, tinha esperança de que o rei a deixasse em paz, mas como poderia ser feliz? Voltaria a ter uma vida normal?


Barba-Azul: Era uma vez um homem de barba azul, todos na aldeia comentavam a respeito da característica tão peculiar, apesar de imensa riqueza, ninguém se aproximava dele. O homem tinha tido diversos casamentos, mas misteriosamente nenhum deu certo. Depois de insistir, e subornar a mãe de uma jovem, ela decidiu casar com ele. Muito feliz com a generosidade do marido, a jovem se sentia confortável na casa. Certo dia, Braba-Azul lhe informou que viajaria, e que a esposa poderia dar uma festa na casa. Lhe deu todas as chaves e lhe proibiu de utilizar apenas uma. Instigada pela curiosidade, na ausência de barba-azul a esposa abre o cômodo com a chave proibida, revelando um grande mistério.
Estes, e outros fabulosos contos compõem “Era uma vez Perrault” aliando as narrativas as ilustrações de artistas plásticos contemporâneos como Alzira Fragoso, Elisa de Magalhães, Flávia Ribeiro, Luciana Schiller, Luiz Hermano me Márcia Clayton.

Jennifer Bretzke Meier graduanda de Letras (Português/ Inglês) na Univille, atua como bolsista no Prolij e vê a literatura como fonte inesgotável de sabedoria e conhecimento.

Fernanda Cristina Cunha
"Não Era Você Que Eu Esperava", é uma graphic novel emocionante, que nos faz refletir sobre o nós, e a nossa dificuldade de lidar com o inesperado. Do ilustrador francês Fabien Toulmé (Autor também de Duas Vidas), foi publicado no Brasil pela editora Nemo, em 2017, com tradução de Fernando Scheibe.

A obra conta a história de mais do que o encontro entre um pai e uma filha que não é o que ele esperava. Ela é um olhar justo, sincero e comovente sobre o relacionamento de um pai com a filha que nasceu com Síndrome de Down.

A um primeiro momento o leitor o testemunho que choca por sua sinceridade, também aquece pela empatia que Fabien Toulmé consegue passar no leitor, descrevendo todos os estados emocionais do qual viveu. O modo fracês e cru obra contrapõem o preconceito velado, tão comum aos brasileiros. Ao apresentar essa jornada em busca da mudança da percepção sobre as coisas e de se aproximar da própria filha fazem a história mais envolvente.

Entre a raiva, rejeição, dúvida, momentos de tristeza e felicidade inesperada, o autor conta o difícil caminho entre as expectativas e a descoberta da trissomia de sua filha logo após o nascimento, quando nada acusava durante os testes de gravidez, passando pelas tempestades, desafios e dores, até chegar no momento de sublimação do amor.


"não é você que eu estava esperando, mas eu ainda estou feliz que você veio" resume a história de Toulmé e Julia perfeitamente. O autor transcorre sobre os maiores desafios da paternidade diante a Sindrome de Down, como encarar as necessidades especiais de sua filha? Como aprender a amá-la? E é nessa história de amor que ficamos imersos, comovidos e esperançosos.

A esperança surge a partir do momento que vemos que o amor pode ter mais de uma face, que ele se transforma, se potencializa e rompe todas as barreiras.

Fernanda Cristina Cunha é graduanda de Psicologia pela Univille. Atua como bolsista do Prolij e busca através dos livros que lê as longas caminhadas por dentro de si mesma. 

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