Daniel Munduruku falou por pouco mais de uma hora,
sobre "Sobre piolhos e outros afagos: conversa ao pé
da fogueira sobre ato de educar(se)".

Com uma fala muito calma, lançou piolhos aos ouvintes.

Querem conhecer os "piolhos" lançados por Daniel?

Aqui, ó, no twitter do blog do prolij.

"Segundo meu avô – gosto sempre de repetir – o único tempo que temos é o tempo presente. Ele até perguntava com certa frequência: por que o presente se chama presente? Dava um pouco de tempo e depois respondia: é porque é um presente que ganhamos do Criador. Quem ganha um objeto de presente tem que abrir na mesma hora para poder dar alegria a quem o deu. A vida é o presente que o Grande Espírito nos dá todos os dias, e viver esse presente alegra o coração do nosso Pai Primeiro.
Meu avô era como um sábio que possuía todo o conhecimento de nossa gente. Qualquer coisa que a gente queria saber era só recorrer a ele que logo tinha uma história para contar. Foi ele que me ensinou que era preciso, de vez em quando, mudar. Disse isso pensando no rio. Fez-me olhar o rio que corria.” (MUNDURUKU, Daniel. Antologia de contos indígenas de ensinamento: tempo de histórias; organização e apresentação de Heloisa Prieto – São Paulo: Moderna, 2005. p.19).

“Todas essas opiniões contrárias eram porque o homem tinha um estranho hábito: ele roubava horas. Como assim? Não se sabe direito. Ele roubava a pressa das pessoas”.
“A praça estava cheia quando o homem falou:
- Eu roubo as horas para lhes dar tempo.
Tempo de aprender a usar o tempo.
Quem tem hora não tem tempo: tempo de olhar o tempo.
Será que vai chover?
Será que as flores já abriram?
Como será o arco-íris?
Qual a cor dos olhos dos meus amados?
Temos tempo para isso? Não!
Isso ocupa muitas horas.
E tocamos nossas vidas, olhando os relógios que marcam as horas de nossas vidas, e esquecemos de marcar nossas vidas no tempo!”
(MUNDURUKU, Daniel. O homem que roubava horas. Ilustrações Janaina Tokitaka. – São Paulo: Brinque-Book, 2007, p. 25).




“Pai, me ensina a fazer chover!
- Fazer chover, Lua, é uma arte. Precisa treinar muito, aprender muito. É coisa de gente grande.
- Mas, pai, o que eu preciso fazer para aprender a fazer chover?
- Precisa aprender a falar com o Espírito da Chuva que mora muito longe daqui.
- Eu posso ir até lá?
- Todo mundo pode, mas para isso é preciso ser corajoso, passar por muitos perigos...
- Eu posso ir até lá?
- Talvez, quando você crescer...
- O que eu preciso fazer?
- Primeiro você precisa crescer”.
“- E como eu faço para crescer desse jeito que o avô tá falando?
- É preciso ouvir.
- Ouvir o quê?
- Ouvir histórias, ouvir os rios, ouvir as árvores, ouvir o fogo, ouvir a terra e os animais.
- E o que eu faço para ouvir as histórias, os rios, as árvores, o fogo, a terra e os animais?
- Você precisa aprender.
- Puxa, vô, por que você não fala logo tudo de uma vez?
- Por que quem fala tudo de uma vez não ensina ninguém a ouvir. Volte no final do dia. Você vai aprender a ouvir”.
(MUNDURUKU, Daniel. O segredo da chuva. Ilustrações Marilda Castanha. – São Paulo: Ática, 2006, p. 10).
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Trechos de livros de Daniel Munduruku - Presidente-Diretor do INBRAPI (Instituto Indígena para Propriedade Intelectual) -, lidos por alguns prolijianos antes do convidado da noite iniciar sua palestra, "Sobre piolhos e outros afagos: conversa ao pé da fogueira sobre o ato de educar(se)".
Por Geórgia de Souza Cagneti*


                                                Anos 50 e 60, milagre econômico, James Dean,
O pagador de promessas, Jovem guarda, Rede Globo, Tropicália,
 Gregory Peck, Nel blu dipinto di blu,Love me tender,Vinícius,
Hitchcock, Rock and Roll, Copa do mundo, Fellini, Os Mutantes...


Em meio a tantas mudanças e, não esquecendo os reflexos pós-guerra, inicia-se um tempo novo, para muitos: a chamada pós- modernidade. Diz-se para muitos, dada a negação de alguns à nomenclatura usada, negando a força de seus procederes em relação a sua denominação.
Personagens apenas escapados à ameaça nazista, como Adorno e Horhheimer, tentaram compreender este novo mundo. Com um olhar pessimista individuaram os meios de comunicação de massa como causa de alienação e homologação do indivíduo. A escola de Frankfurt se posicionou de forma explícita contra ela, responsabilizando-a pela vulgarização da cultura.
Mas será possível que esta terceira cultura ( dita vulgarizada) tenha somente características negativas?
Edgar Morin, sociólogo, filósofo e pensador francês, em O espírito do tempo, analisa tal fenômeno, diversamente, aplicando os métodos autocrítico e da totalidade. E, com tais métodos, Morin, considerando a sociedade contemporânea como um conjunto de indivíduos que seguem um determinado código comportamental e vivem em uma sociedade industrializada, desenvolve seus estudos sobre a indústria cultural. A partir daí, procura, sobretudo, entender a importância desta terceira cultura, resultado de uma segunda colonização e de uma segunda industrialização, nas mudanças sociais e antropológicas.
Com um ponto de vista interessante e não radical, ele nos abre horizontes para pensar o mundo em que vivemos, considerando não apenas as perdas, mas também os ganhos que possam advir das mudanças sofridas.


Cultura de Massas no século XX: Neurose e Necrose. Vol. I e II. ( O espirito do Tempo 1 e 2 ).


MORIN, Edgar

Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2009.

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*Participante correspondente do PROLIJ

Mestranda em línguas estrangeiras para comunicação internacional - Italia


Por Maria de Fátima Tonin Lunardi Correa



Uma história que rompe com os paradigmas existentes na literatura infantil, sem privilegiar um único gênero, seja ele a poesia, a narrativa ou os livros visuais, pois mescla de forma atraente e convidativa o lírico e a narrativa. André Neves, conhecido internacionalmente como ilustrador, e autor de livros visuais, tem nesta obra editada pela Paulinas uma de suas poucas narrativas escritas e por conseguinte também por ele ilustradas. A história se inicia com Dona Sofia que durante toda sua vida se dedicara a ensinar. Uma dedicada professora aposentada que cultiva flores, as quais rendem um dinheiro a mais na sua ínfima aposentadoria, o que infelizmente retrata a vida das que gastaram a sua vida na profissão, missão e arte de ensinar. No entanto, Dona Sofia, que de forma premente conhecia todas as sensações despertadas através da poesia, lia romances, contos, crônicas e principalmente poesias. A história narrada por André Neves descreve uma casa diferente: paredes decoradas com poesias escritas por autores das mais variadas épocas da nossa história, desde o Romantismo até os contemporâneos, como Bartolomeu Campos de Queirós, Ronald de Carvalho, Machado de Assis, Elias José, Carlos Drummond de Andrade, Sérgio Caparelli, Ricardo Silvestrin, entre outros, poesias registradas através da sua maravilhosa caligrafia.
Até que um dia, as poesias de Dona Sofia não tinham mais espaço para serem registradas na sua casa, pois estavam em toda a parte desde a sala até o banheiro. Mas Dona Sofia não queria as poesias escondidas nos livros, decidiu então que ofereceria seus versos como quem oferece flores a todos os moradores da cidade. Dona Sofia faz cartões poéticos e decora com as flores que ela mesma cultiva. A história vai se desenrolando com o aparecimento de seu Ananias, que conhecia todos os moradores da cidade. Seu Ananias que possuía uma horrível caligrafia que distribui através das correspondências notícias, sonhos, saudades e agora poesias, as poesias copiadas pela maravilhosa caligrafia de Dona Sofia. Esta cativante história, cativa também seu Ananias, que de simples carteiro se transforma até em autor de poesias.
NEVES, André. A caligrafia de dona Sofia. São Paulo: Paulinas, 2006
Com sutileza, Rui de Oliveira recolhe o mito indígena Karajá do surgimento do dia e da noite. Usa cores, linhas e formas circulares, inspiradas no imaginário visual dos índios.

Oliveira é um renomado artista das palavras e das imagens. Já recebeu muitos prêmios e ilustrou mais de cem livros. Esta obra é resultado de uma pesquisa séria e especial que, antes de ser impressa, teve uma versão em formato de desenho animado. A película recebeu o prêmio Concurso Nacional de Roteiros da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, produzido nos estúdios de Animagem – Oficina de Cinema de Animação UERJ, do Centro de Tecnologia Educacional – CTE.

Para dar força ao enredo, Rui registra, com sua arte, o espírito guerreiro dos Karajás, povo riquíssimo, que molda no barro belas formas humanas, chamadas de lilocas. Inspirado nelas, Rui estuda e constrói as formas dos índios-personagens da obra: Aruanã e Tuilá. Respectivamente, um índio viajante que tem a missão de buscar a noite e uma índia especial, filha de Boiúna, a qual era conhecedora do mistério da noite.

 
Livro: A lenda do dia e da noite

Autor: Rui Oliveira
Ilustrações: Rui Oliveira
Editora: FTD

Ano: 1999
*ÍTALO PUCCINI

Um brincar com a escrita e com suas possibilidades de leitura. É o que propõe o escritor Maicon Tenfen em suas produções literárias. Um brincar não no sentido infantil do termo, e sim no sentido de reinventar a palavra e a narrativa e recriar junto a elas significados.

Conheci os livros do Maicon Tenfen ao acaso, numa passada de olho em prateleiras de uma livraria, como vez em quando é bom que aconteça. Esse "choque" imediato entre livro e leitor. Essa química que induz a uma leitura prazerosa desde o princípio, cabendo, então, ao autor a incumbência de conduzir a narrativa com o cuidado necessário para não afastar dela o leitor tão empolgado por isto.
Os livros do escritor blumenauense-adotivo propõem ao leitor esta curiosidade inicial. Um perguntar-se algo como "mas do que é capaz um livro com este nome?". Ou estes nomes, por exemplo: Um Cadáver na Banheira, O Impostor, Casa Velha Night Club e Mistérios, Mentiras e Trovões.
Destes, com exceção de Um Cadáver na Banheira, que é mais um romance-quase-novela, ou o contrário, os outros três são livros de contos, o gênero narrativo com que o escritor estabeleceu uma relação muito próxima e própria, sabendo domar e explorar com extrema habilidade as características do mesmo.
Como professor de literatura, trabalho em sala de aula a envolvente história de Um Cadáver na Banheira. Os alunos, de fato, envolvem-se muito com a aventura do pretendente a escritor Jorge, e em pouco tempo me apresentam a leitura concluída. Assim sendo também com os contos dos três livros já citados, sobre os quais a “gurizada” se diverte recriando-os, interpretando-os, dramatizando-os. É isto o que permite a escrita de Tenfen, um aproximar o leitor do texto literário, um abrir caminhos e possibilidades de leitura. Com uma escrita simples e envolvente, estes livros são “abraçados” pelos alunos. A identificação com os personagens e suas incógnitas, com a trama da história, os inesperados que pegam de surpresa até o mais desatento, cativam e conduzem não só a uma releitura, mas a um "buscar outros livros como este".
Ganhador de importantes prêmios desde o primeiro livro O Impostor (1999, primeiro lugar no Concurso de Contos Paulo Leminski (Toledo, PR); em 1997, de âmbito nacional, com o conto Diablo), Maicon Tenfen vem se firmando como contista nesses 10 anos de livros publicados, um ciclo “fechado” com o lançamento de Casa Velha Night Club, em 2009, livro que contém um conto, Nick Fourier, vencedor do Concurso de Contos de Araçatuba (SP), de âmbito nacional.
Comemorando, então, essa jornada de escritas e publicações, Tenfen apresenta aos seus leitores – os atuais e os que ainda virão – um box intitulado Contos (editora La Ventana, 2010), reunindo os três livros publicados pelo autor no gênero, O Impostor (1999), Mistérios, Mentiras e Trovões (2002) e Casa Velha Night Club (2009), um projeto muito bem desenvolvido que vem para reforçar o domínio da narrativa conduzida pelo autor.
Nada melhor do que uma releitura para de fato ler com propriedade algo. E as releituras dos contos de Maicon Tenfen reforçam a condução que o texto exerce sobre o leitor. Seja pela temática abordada, de narrativas urbanas e interioranas carregadas de suspense, seja pelo próprio suspense criado durante o conto. É desta forma que o autor conduz a leitura. A partir de um texto que convida o leitor a não largá-lo senão com a mesma finalizada.
E nessa proposta há uma outra inovação de escrita. Há uma expansão dos limites de gêneros apresentados pela literatura. O que é um conto é também apenas um recorte de uma trama maior. As histórias de O Impostor, mesmo que não se liguem necessariamente, já apresentam uma condução narrativa e temática que leva o leitor a um ir e vir na leitura. Um ler de rota alterada. Um ler de dois em dois. Avançar sob as páginas, e voltar a elas também. Conhecer o impostor do primeiro conto e pensá-lo no impostor do último conto. Aventurar-se nas diabruras infantis da arte de voar ou nas coceiras corpóreas que corroem os adolescentes. Sem deixar de fora os "rurais" crimes de Noé Gonçalves e a vergonha de um filho perante o pai, ou o contrário.
Porém, é com Mistérios, Mentiras e Trovões que Tenfen desconstrói a estrutura de um livro de contos sem ligação entre si. Todos os contos se passam na bucólica cidade de Bocaina (ingênuo nome relacionado ao adjetivo?), onde causos se espalham como rastilho de pólvora. A própria condução do tempo na narrativa é um piscar de olhos. Tudo acontece num curto espaço de nem 12 horas. O raiar de um dia é elo entre personagens tão díspares, como uma misteriosa moça, proveniente de cidade grande, ou uma outra, ingênua, moradora da própria Bocaina, seduzida por um homem "repórter de um jornal local", de quem ninguém desconfia, mas que ao final da história revela-se algo mais do que um simples jornalista. Sem deixar de contar do prefeito e de seus tantos segredos, e de um pistoleiro contratado para a tarefa de vingar o nome do coronel, além de uma misteriosa mulher que dirige um Maverick vermelho de capota branca. Personagens presentes nos contos do início e nos contos do final. Ou, podemos dizer, nos recortes de uma história só, apresentada em fragmentos ao leitor.
E, por fim, em Casa Velha Night Club oito narrativas com um quê em comum, amarradas por um narrador as conduzindo em tom de diálogo com o leitor, quase como um monólogo apresentado em forma de escrita. Personagens enigmáticos. Tramas bem urdidas. Ruas estreitas e localidades misteriosas a serem desbravadas. A história em sua fugacidade máxima. Aquilo que aparece e desaparece num piscar. Que interroga o leitor: mas será que é isso mesmo? Que convida ao ato de reler: preciso voltar e esclarecer isto.
As histórias de Tenfen aproximam o leitor do objeto livro. Despertam um querer mais, um desejo de que a história seguinte seja tão boa quanto a anterior. Propiciam, ainda, a surpresa de reencontrar personagens e lugarejos. A crença na força da narrativa aí se faz presente. Um presente ao sujeito-leitor, um prisioneiro feliz por esta condição, enredado nas possibilidades de uma trama bem contada e, mais do que isso, que conquista pela própria escrita, pela palavra em seu estado bruto de enunciar algo.

* Professor de Literatura para as séries finais do ensino fundamental em Jaraguá do Sul
Alcione Pauli


Apenas um Curumim é um clássico da literatura infanto-juvenil e, sem dúvida, a obra-prima de Werner Zotz. Já vendeu mais de um milhão de cópias e é (re)conhecido, inclusive, internacionalmente. O que faz desse livro simples, aparentemente, um sucesso tão grande? Uma série de fatores: a história é envolvente, a linguagem tem traços poéticos, o índio é tratado com extrema sensibilidade. Tamãi, o velho pajé, e Jari, o jovem curumim, empreendem uma viagem de fuga do povo caraíba (homem branco), em direção ao Sul. Lá estarão juntos dos seus e mais perto, portanto, de si mesmos. O percurso é entremeado de aventuras e contemplação – Jari sempre viveu entre brancos e vai aprendendo, aos poucos, com Tamãi, a ser índio. Isto significa respeitar/escutar a natureza e a si (“a voz de dentro”). O curumim, no início, sofre, por que ainda não tinha aprendido o que era ouvir(-se). Percebe-se, então, que a obra é um movimento constante, do começo ao fim, de observação externa e interna. Até porque, para Zotz, o índio não precisa ser desvinculado de seu ambiente. Aliás, Zotz demostra tanta familiaridade com a cultura ancestral indígena, que ele próprio parece fazer parte dela. E de certa forma, faz mesmo, assim como todos os brasileiros.



Livro: Apenas um Curumim
Autor: Werner Zotz
Ilustrações: Andrés Sandoval
Editora: Letras Brasileiras
Ano: 2004.
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