No dia 20 de março comemoramos o dia internacional do contador de histórias, mas o agradecimento  e as parabenizações não deve se restringir a esse dia, por isso aproveitamos para enaltecer o trabalho de todos os contadores de histórias que levam suas narrativas a lugares diversos e tornam o cotidiano de tantas pessoas mais leve e poético. Ao contar uma história, estamos também dando aos nossos ouvintes a oportunidade de viver outras vidas possíveis, acessadas pelo contato com a arte!


Estamos vivenciando uma época muito difícil, de muito nervosismo e apreensão, mas tudo isso vai passar, o importante nesse momento é ficar em casa e aplicar todas as medidas de prevenção! E para deixar nossos dias de isolamento social mais animados e literários trouxemos vídeos de 3 de nossas contadoras de histórias! Confira a seguir:


Fernanda Arruda conta"O vento que me voa", de Jura Arruda


Alcione Pauli conta "A festa da moça nova", de Daniel Munduruku


Ana Carolina Schlichmann conta "Menina bonita do laço de fita", de Ana Maria Machado







Ana Luíza Silva Sanches
Com o uso de cores simples, mas significativas, como o preto, amarelo e branco, O livro do medo, da escritora argentina Raquel Cané, trata da temática do medo com um viés distante do descaso e do tabu. A escritora articula as cores nas ilustrações da mesma forma que representa a existência do medo em diversas maneiras, sejam elas reais ou imaginárias, grandes ou pequenas, tendo apenas em comum o fato de nos assustarem.

Direcionado à pessoas corajosas o suficiente para mergulhar de cabeça ou à pessoas amedrontadas, a obra de Cané é o empurrãozinho que muitas vezes precisamos para enfrentar os nossos medos, para nos confortamos sobre o ritmo da vida e reconhecermos que é por meio desse processo que somos capazes de crescer e amadurecer, abraçando as nossas falhas e ressignificando-as em algo positivo.
O medo é necessário à vida, ele se fundamenta no processo de amadurecimento, se constrói pelo sensível e se fortalece em laços de relações humanas que nos libertam das nossas prisões interiores por meio das emoções, da leitura e da arte. Perder o medo do medo significa se desvencilhar da escuridão e apostar na coragem que é nossa, mas carece de encorajamentos.

A narrativa se constrói através da sensibilidade de encarar o medo como uma passagem necessária à infância, em que a criança, ao vivenciá-lo, evidencia o processo de entendê-lo a ponto de se fazer possível o seu enfrentamento, resultando na resolução dos conflitos internos e na superação das dificuldades encaradas como consequências do medo.

Conforme a história, esse medo pode ser acionado pela solidão, pela exposição ao mundo lá fora, pela incapacidade de enxergar ou de sentir, de perder-se ou de não conseguir compactuar ao afeto do abraço e à clareza do som das palavras. Esses medos, independente do quais sejam ou de que forma são estimulados, provocam um sentimento de fragilidade que nos privam de experiências a serem vivenciadas, experiências essas que podem resultar em algo vantajoso à construção do ser, do entendimento de si e dos outros.


Na obra, tal como na vida, essa compreensão é comumente impulsionada pela presença de outra pessoa, sendo, no caso, representada pela figura da mãe da personagem. Percebe-se, então, que o processo de compreensão e enfrentamento do medo se torna mais fácil e claro quando exteriorizado em um base de apoio, sendo possível lidar com sentimentos que assombram por meio do diálogo com alguém que esteja disposto a auxiliar em questões que, muitas vezes, nos parecem invisíveis ou passam despercebidas.

Nesse sentido, a troca de contato é responsável por encorajar a personagem à enfrentar os lugares escuros, impossíveis de enxergar, para se deparar com a esperança de um lugar colorido, com pássaros, sons, cheiros e sensações que ressignificam o ato de viver. Entende-se, pela obra, a necessidade do enfrentamento e da compreensão desse sentimento que amedronta e provoca frios na barriga e batimentos acelerados, pois, quando nos tornamos fortes e sensíveis o suficiente para enfrentá-lo, compreendemos a beleza da vida, que é, como a própria escritora finaliza, ‘’’bela, inteira e infinita’’ (CANÉ, p. 29).

Ana Luíza Silva Sanches é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como voluntária no Prolij e vê na literatura uma das formas mais sensíveis de se expressar e se (re)ssignificar.


Luca tinha medo do escuro, mas eles moravam na mesma casa. A casa era grandiosa, cheio de lugares misteriosos onde o escuro sempre podia estar escondido: no armário, atrás da cortina do banheiro, na escada durante a noite e principalmente no porão, mesmo ao longo do dia. O menino, muito esperto e ainda muito pequenino, fazia visitas ao escuro ao longo do dia, para que à noite ele não saísse do porão e viesse visitá-lo.

O escuro toma a dimensão de uma personagem na narrativa e chega até mesmo a se comunicar com o menino, deixando-o ainda mais assustado. Porém, em uma certa noite, o escuro saiu do porão e decidiu entrar no quarto de Luca, dizendo que havia algo para lhe mostrar. O menino, sabendo exatamente quais eram os locais que o escuro adorava se esconder foi logo palpitando: atrás da cortina do banheiro? Não! Dentro do armário? Não! Lá em baixo? Sim! E com mais medo do que nunca, desceu as escadas e o seguiu, indo em direção ao tão temido porão. Era algo que nunca sequer tivera coragem de fazer antes, visitar o porão à noite era certamente a maior aventura de sua vida.


O escuro pediu que o menino abrisse a gaveta de uma cômoda e lá estava sua maior surpresa: uma lâmpada! O escuro parecia realmente se importar com ele, pois acabara de ganhar o próprio objeto que o espantava, ainda que isso não fosse superar o medo do escuro completamente.

A obra mostra aos leitores que mesmo os medos mais profundos podem ter dois lados e que os dois precisam ser conhecidos, e isso só é possível através da aproximação estabelecida. Luca não deixou de ter medo, mas sabia que a lâmpada o ajudaria de alguma forma e também que o escuro sempre estaria em algum lugar de sua casa, sempre que precisasse. A relação entre os dois se tornou quase uma amizade, mostrando que a superação do medo não é instantânea, mas um processo de compreensão, que precisa de diálogo e do conhecimento dos dois lados da história. 

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.

Isabela Giacomini
Poética, simbólica e arrebatadora na linguagem verbal e visual, a obra revisita o boneco de madeira que povoa o imaginário de leitores de diferentes épocas. Pinóquio é trazido para o livro em uma perspectiva filosófica e ainda mais humana ao ser colocado à frente de um espelho. O espelho é um grande símbolo dentro da narrativa, pois metaforiza a relação estabelecida pelos sujeitos ao tecerem olhares para si mesmos e para os outros.

Com uma sensibilidade imensa, Rampazo trata de questões humanas muito pertinentes, como a comparação que as pessoas fazem umas com as outras, na tentativa de serem melhores ou de se equipararem, impulsionando a sociedade das aparências em detrimento das essências.

Pinóquio, ao se projetar em outras personagens de Collodi, compara-se a elas e deseja ser como tais, enfatizando as características mais positivas que cada uma traz consigo. Deseja ser como o amável Gepeto, como o inteligente Grilo Falante, como o mestre de marionetes e como tantos outros, mas ainda que faça muito esforço para se parecer como eles, fixa seu olhar sobre o espelho e tudo que vê é um simples boneco de madeira.

Madeira essa que também é simbólica, pois vem de uma árvore vívida e sonhadora. Esta, por sua vez, também teve seu momento de ser transformada em menino: a árvore sonhava em ser menino e o menino em ser árvore. A relação árvore-menino mostra a conexão entre ambos, o que têm em comum, o que os une, o que cada um descobre sobre o outro e principalmente sobre si. Talvez ser “apenas” um pedaço de madeira possa representar uma profundidade imensa de coisas, que só se descobre olhando para dentro em um processo de autodescoberta, de valorização da essência e das próprias verdades carregadas. 


As pequenas verdades de Pinóquio são ressignificadas à medida que o olhar se volta para si, mostrando que, mesmo pela simples aparência, nossa essência está repleta de quem somos e de quem temos potencialidade de nos tornar, reconhecendo-nos e aceitando-nos dentro da nossa própria identidade.

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.

Fernanda Cristina Cunha

Marguerite se sente incomum e luta todos os dias para preservar as aparências diante aqueles que a rodeiam. Suas ações são imutáveis, se fechando em repolho, Margarite tem dificuldades em realizar ações que para muitos são simples, como se relacionar com colegas de trabalho, conhecer lugares novos, ir à festas, usar roupas de determinados tecidos e até usar um despertador.

Ela se sente agredida pelo barulho, pelas conversas constantes de seus colegas e pelo desábito. Cansada desse estado, acompanhamos o encontro dela consigo mesma. Ao deparar-se com um diagnóstico, diferente do esperado, Margarite vê nele as respostas para aquilo que tanto sentiu ao longo da vida.

A Diferença Invisível de Julie Dachez, com ilustração de Mademoiselle Caroline, publicado no Brasil pela editora Nemo ele é uma lição de de respeito e de tolerância, que nos trás de modo sensível um recorda da vida de Julie, portadora de Autismo.






Contudo, para além do diagnóstico, o livro trata dos desafios daqueles sofrem por não se encontram, ou não se aceitarem no mundo que estão. Sendo assim uma forma de falar sobre o diferente, a liberdade e a  autoaceitação.


Fernanda Cristina Cunha é graduanda de Psicologia pela Univille. Atua como bolsista do Prolij e busca através dos livros que lê as longas caminhadas por dentro de si mesma. 
Jennifer Bretzke Meier

Em sua obra “Já pensou se alguém acha e lê esse diário?”  a  autora Nilza Rezende dá a voz à João Gabriel, um adolescente cercado de incertezas e ansiedade. Seu pai saíra de casa sem dar qualquer explicação e  a mãe pensa que mudar de cidade será  a melhor solução para recomeçar. Ele não quer um novo início, quer continuar onde está, frequentar os mesmos lugares e sair com amigos que o conhecem o suficiente, para não comentar sobre a sua família.

Infelizmente, essa fase determinada de sua mãe trouxe um namorado para viver com eles. Aí ficou insuportável, João precisava escrever, desabafar e por isso criou “O diário”. Não se engane, além de suas tristezas, o jovem rapaz compartilha dia-a-dia na escola, primeiro amor e muitas emoções. Você vai gostar de abrir este diário...



A fluida escrita de Nilza permite ao leitor sensibilizar-se com as angústias do jovem João Gabriel e relembrar sua própria adolescência, fazendo reflexões sobre como os sentimentos - mesmo tão confusos- são prazerosos e proporcionam incríveis descobertas.

Jennifer Bretzke Meier graduanda de Letras (Português/ Inglês) na Univille, atua como bolsista no Prolij e vê a literatura como fonte inesgotável de sabedoria e conhecimento.

Camilla Moraes 
Havia um grande pêssego maduro que tinha um cheiro muito gostoso e parecia delicioso. Quem vai ficar com o Pêssego?

A girafa alta, o crocodilo de boca grande, o rinoceronte pesado, o macaco esperto, o coelho saltitante e a lagarta inquieta: todos queriam comer o pêssego.

O livro Quem vai ficar com o pêssego, de Yoon Ah-Hae & Yang Hye-Won, a cada nova página inicia com a frase: Quem vai ficar com o pêssego?

E cada um dos animais procura uma questão a seu favor para conseguir ficar com o pêssego, a girafa diz que o mais alto deve ficar com o pêssego, o rinoceronte diz que precisa ser o mais pesado a ficar com o pêssego, o crocodilo diz que quem deve ficar com o pêssego é quem tiver a maior boca, o coelho disse que quem tinha as orelhas mais compridas devia ficar com o pêssego, o macaco disse que devia ser quem tinha a cauda mais longa, e então chegou a vez da lagarta... E agora o que será que essa pequenina usou de argumento?


A obra vai trabalhando de forma lógica com a criança, mas ao mesmo tempo a divertindo até se resolver a questão de quem ficará com o pêssego?! Ao final, o livro ainda traz duas atividades explicando como organizar as coisas de diferentes maneiras.

Camilla Moraes é aluna do curso de Psicologia na Univille. Atua como bolsista no Prolij e vê em cada livro um novo sonhar.

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