Por Sueli de Souza Cagneti

Leny Werneck em 1990 editou pela Salamandra um longo texto sob o título ZAZ, hoje reeditado de forma enxuta e bonita, passando a chamar-se Onde está você, Iemanjá? Nessa edição de 2011 da Record, as ilustrações (mágicas, muitas vezes) ficaram por conta do francês Philippè Davaine. São dele, inteiramente, as páginas 12 e 13, por exemplo, que retratam uma Iemanjá  negra, de longos cabelos pretos, nua e insinuante ao olhar-se ao espelho. É a deusa do Candomblé. À sua esquerda, de pé, vestida de azul e branco, Nossa Senhora da Conceição: uma transposição da divindade religiosa dos escravos africanos para o conceito católico de santidade, em obediência/disfarce aos senhores brancos. A menina-moça, também negra, protagonista da história que aqui se conta, sonha em ver seus desejos atendidos por Iemanjá e chama por ela em horas precisas como aquela em que ZAZ, o barquinho, afunda na véspera do Ano Novo. No mais é ler o texto, apreciar suas ilustrações e, sobretudo, refletir sobre esse Brasil tão grande, não apenas em extensão, em belezas naturais, mas também, e muito, em riqueza cultural, cuja herança vinda de outras etnias, começamos a olhar com mais cuidado e respeito atualmente. A Literatura Infantil Juvenil brasileira tem dado contribuição significativa nesses tempos de incorporação tardia do que há muito aqui está e que nos tem feito maiores, enquanto nação culturalmente multidiversificada. Esse livro de Werneck é um exemplo disso.

FICHA TÉCNICA:
                                                                                             
Obra: Onde esta você, Iemanjá?
Autor: Leny Werneck
Ilustrador: Philipeè Davene
Editora: Record
Ano: 2011
Por Cleber Fabiano da Silva

O livro O Almoço de Mario Vale, editora Formato, 1987, conta através de imagens a história de um garoto que sai para o quintal acompanhado de um passarinho. Chegando próximo de uma toca, dela retira um coelho pelas orelhas conduzindo-o até sua cozinha. Nas páginas seguintes, o coelho não aparece, apenas, o menino cozinhando, provocando e aguçando a curiosidade do leitor.
Por não possuir texto verbal, os detalhes das ilustrações são de extrema importância. O título nesse caso serve como importante referencial para a leitura da narrativa. Vale destacar a presença de um passarinho cujos movimentos e expressões também ajudam a compreensão do enredo, fornecendo outras possibilidades de leitura, sugerindo inclusive outro final para a história.
                Produzido com uma técnica de ilustração a partir de colagens, a obra apresenta o protagonismo de um garoto negro, sem, no entanto, proselitismos de qualquer espécie ou acentuadas preocupações com os pressupostos legais. Afinal de contas, trata-se de uma obra da década de 80, portanto, anterior as obrigações curriculares com a diversidade étnica. 
                O autor mineiro naturaliza esse protagonismo não para incluir, conceituar ou caracterizar, mas, simplesmente pela sua presença. E basta! Obras dessa natureza contribuem para a real inserção do negro no meio que lhe é devido, sem apontar ou buscar estereótipos e análises comparativas.

FICHA TÉCNICA:                                                             

Obra: O almoço                           
Autor: Mario Vale                   
Editora: Formato                  
Ano: 1987
Por Sonia Regina Reis Pegoretti

                Os mitos sempre estiveram presentes na história humana. A cultura africana tem vários mitos da criação do mundo, por exemplo, a do povo ioruba, banto ou muçulmano, que podem ser comparados uns com os outros e também com mitos da criação de outras origens e povos. Mas se engana quem pensa que este não é também um tema contemporâneo. Eles estão em toda parte: no cinema, na televisão, nos livros e acima de tudo na nossa imaginação!
                É justamente sobre um dos mitos da Costa do Marfim que se trata o livro de Maté, A primeira máscara. A narrativa conta que no começo de todas as coisas, quando Deus ainda olhava para a terra recém criada, homens e natureza viviam em plena harmonia. Mas quando Ele deixou seus espíritos mensageiros para cuidar da terra e foi semear em outros continentes, a vida dos homens começou a mudar, deixando a inveja, a ira e o egoísmo destruir a criação divina.
                Tanto foi a desilusão dos espíritos, que quase todos eles resolveram abandonar os homens e fugir para a floresta. Mas um deles resolveu ficar, e acreditar que poderia fazer alguma coisa para salvar a humanidade.
                A partir daí a narrativa se desenrola com muita sensibilidade, demonstrando todo o sofrimento e agonia do espírito que se transforma em máscara até ser encontrado no meio da mata fechada.
                A ilustração também é assinada pela Maté, que soube capturar a essência da arte africana tanto nos traços como na pintura. A história é uma homenagem às tradições dos povos africanos que cantam e dançam utilizando suas máscaras sagradas, cumprindo um ritual ancestral e que hoje é conhecido e admirado em todas as partes do mundo.

FICHA TÉCNICA:

Obra: A primeira máscara
Autora e ilustradora: Maté
Editora: Noovha América
Ano: 2009
   Na última noite do Abril Mundo 2012 (dia 20/04), teremos a palestra "A construção de memórias e identidades afro-brasileiras", com a professora da USP e especialista na área de cultura africana e afro-brasileira Dra. Marina Mello Souza.
    Não perca! Incrições pelo site da Univille.

Por Sueli de Souza Cagneti

Por que eu não podia ser
Igual a uma princesa?
Só queria que alguém me explicasse.
Por isso nadava nas bordas. (p.5)

A protagonista de Uma princesa nada boba, de Luiz Antonio, não apenas diz “que andava nas bordas”. Ela é também assim retratada pelo ilustrador Biel Carpenter, que belamente - além de apresentá-la nas bordas das páginas, a esconde do leitor sempre com uma sombrinha a cobri-la até onde o vestido e as longas meias completam o mistério. Não se sabe como é a menina que sonhava com cachinhos dourados, longos fios escorridos, narizinho pontudo. Enfim, tudo o que entendia que pudesse configurar a imagem de uma princesa (rosto de princesa, roupa de princesa) a faziam rezar. Pedindo. Vozes de pai, mãe, avó, professora repetindo “você é uma princesa!!” não a convenciam. Mas... ao ir para o sítio da avó - mulher entendida nas coisas da vida e nos mistérios dos orixás - ela é apresentada, através do abebé, a uma nova realeza. A de muitas princesas (negras e lindas). E nada bobas, como Oyá e Nzinga. Sairá das bordas essa protagonista/princesa, ou não? Será sair das bordas descobrir nossa cor, nosso lugar, nossa beleza, nossa história? Não sei. Sei que o livro é lindo e que discute tudo isso. Eu fosse você, leitor, conferiria. As referências para encontrá-lo estão logo abaixo.
                                                                                                                            
FICHA TÉCNICA:

Obra: Uma princesa nada boba
Autor: Luiz Antonio
Ilustração: Biel Carpenter
Editora: Cosac Naify
Ano: 2011

        Está ansioso com o Abril Mundo 2012? Nós também!
        Aqui vai mais uma informação em primeira mão... Na segunda noite do evento (19 de abril), teremos a palestra "Arte com balangandãs e muiraquitãs", com o ilustrador, escritor e design gráfico, Maurício Negro.


 Por Cleber Fabiano da Silva
                 
                O que poderiam ter em comum Chapeuzinho Vermelho, Fita Verde no Cabelo e um gatinho de nome Pintagalto? E o que dizer de lendas amazônicas como o boto ou a Iara com os contos tradicionais angolanos? Que relações existiriam entre Ngunga e O menino dos olhos de bimba com os movimentos de independência de Angola?
                Entre Fábulas e Alegorias, organizado por Carmen Lucia Tindó Secco, editora Quartet, 2007, traz interessantíssimos ensaios sobre a literatura infantil de Angola e Moçambique em diálogos que ora aproximam ora distanciam os horizontes desses países com a produção literária luso-brasileira para crianças e jovens.
                Obras importantes de quatro nações unidas pela Língua Portuguesa são selecionadas e analisadas de modo a traçar um painel de textos pouco conhecidos e estudados nos meios acadêmicos. Desfilam em meio aos personagens fictícios nomes como Craveirinha, Mia Couto, José Eduardo Agualusa, Ondjaki, Jorge Macedo, Pepetela e outros tantos ao lado de contos recolhidos da oralidade.
                Um livro de grande ajuda para todos que desejam enveredar pelos caminhos da literatura africana e afro-brasileira contemporânea. Boa pedida para aquisição de acervos com qualidade em épocas de implementação de políticas públicas para a igualdade. Vale a pena conferir!

FICHA TÉCNICA:

Obra: Entre Fábulas e Alegorias
Autora organizadora: Carmen Lucia Tindó Secco
Editora: Quartet
Ano: 2007
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