A vida na porta da geladeira

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“A vida na porta da geladeira”, publicado pela WMF Martins Fontes (2009), de título original: “Life on the refrigerator door”, 226 páginas, romance de estreia da inglesa Alice Kuipers, tem uma narrativa surpreendente.

A história se estabelece através da troca incessante de bilhetes entre uma mãe, médica, ocupadíssima, e sua filha adolescente, que moram juntas, mas que muito pouco se veem.

Quando a gente imagina uma história contada por bilhetes fixados diariamente na porta da geladeira de casa, o primeiro sentimento é o de curiosidade. E, o segundo, é o de desconfiança. Pelo menos, comigo, foi assim. Logo que li a orelha do livro e o folhei rapidamente, pensei o quanto poderia ser monótona essa troca de bilhetes. Mas não é!

Não há narrador, não há personagens secundários e ambas são protagonistas. O set da narrativa, arrisco aqui, é o próprio relacionamento entre as duas, é a psique entremeada ao diálogo. E, o diálogo, por si, faz o papel de narrador, uma vez que a autora consegue com sutileza, imprimir ritmo, dramaticidade e tensão, às vezes numa simples mudança de enunciado do bilhete, como, ao invés de: “Claire”; para: “Pobre, Claire ”. Ou nas frases de despedida nos bilhetes da filha: “Com amor, sua filhinha”. Quando falo do diálogo, como narrador, é porque essa representação das conversas entre as duas, que não se veem, mas parecem tão perto uma da outra, nos dá a sensação de uma terceira voz na narrativa.

“A vida na porta da geladeira” surpreende na medida em que Kuipers consegue, entre listas de compras e outros avisos tão cotidianos escritos nos bilhetes à filha, alinhar uma relação de cumplicidade entre ambas, com muita intensidade, apesar da ausência. A narrativa é um jogo, com constância, e um final avassalador, em que, talvez, ninguém perca nessa relação tão distante. Afinal, depois da tragédia, a filha ainda aguarda um possível bilhete da mãe na porta da geladeira. Quem sabe!

Título: A vida na porta da geladeira
Autor: Alice Kuipers
Editora: WMF Martins Fontes (2009)
Número de Páginas: 226

Pierre Porto Silveira
Redator, Editor de Cultura e Colaborador do Prolij


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