Isabela Giacomini
Poética, simbólica e arrebatadora na linguagem verbal e visual, a obra revisita o boneco de madeira que povoa o imaginário de leitores de diferentes épocas. Pinóquio é trazido para o livro em uma perspectiva filosófica e ainda mais humana ao ser colocado à frente de um espelho. O espelho é um grande símbolo dentro da narrativa, pois metaforiza a relação estabelecida pelos sujeitos ao tecerem olhares para si mesmos e para os outros.

Com uma sensibilidade imensa, Rampazo trata de questões humanas muito pertinentes, como a comparação que as pessoas fazem umas com as outras, na tentativa de serem melhores ou de se equipararem, impulsionando a sociedade das aparências em detrimento das essências.

Pinóquio, ao se projetar em outras personagens de Collodi, compara-se a elas e deseja ser como tais, enfatizando as características mais positivas que cada uma traz consigo. Deseja ser como o amável Gepeto, como o inteligente Grilo Falante, como o mestre de marionetes e como tantos outros, mas ainda que faça muito esforço para se parecer como eles, fixa seu olhar sobre o espelho e tudo que vê é um simples boneco de madeira.

Madeira essa que também é simbólica, pois vem de uma árvore vívida e sonhadora. Esta, por sua vez, também teve seu momento de ser transformada em menino: a árvore sonhava em ser menino e o menino em ser árvore. A relação árvore-menino mostra a conexão entre ambos, o que têm em comum, o que os une, o que cada um descobre sobre o outro e principalmente sobre si. Talvez ser “apenas” um pedaço de madeira possa representar uma profundidade imensa de coisas, que só se descobre olhando para dentro em um processo de autodescoberta, de valorização da essência e das próprias verdades carregadas. 


As pequenas verdades de Pinóquio são ressignificadas à medida que o olhar se volta para si, mostrando que, mesmo pela simples aparência, nossa essência está repleta de quem somos e de quem temos potencialidade de nos tornar, reconhecendo-nos e aceitando-nos dentro da nossa própria identidade.

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.

Fernanda Cristina Cunha

Marguerite se sente incomum e luta todos os dias para preservar as aparências diante aqueles que a rodeiam. Suas ações são imutáveis, se fechando em repolho, Margarite tem dificuldades em realizar ações que para muitos são simples, como se relacionar com colegas de trabalho, conhecer lugares novos, ir à festas, usar roupas de determinados tecidos e até usar um despertador.

Ela se sente agredida pelo barulho, pelas conversas constantes de seus colegas e pelo desábito. Cansada desse estado, acompanhamos o encontro dela consigo mesma. Ao deparar-se com um diagnóstico, diferente do esperado, Margarite vê nele as respostas para aquilo que tanto sentiu ao longo da vida.

A Diferença Invisível de Julie Dachez, com ilustração de Mademoiselle Caroline, publicado no Brasil pela editora Nemo ele é uma lição de de respeito e de tolerância, que nos trás de modo sensível um recorda da vida de Julie, portadora de Autismo.






Contudo, para além do diagnóstico, o livro trata dos desafios daqueles sofrem por não se encontram, ou não se aceitarem no mundo que estão. Sendo assim uma forma de falar sobre o diferente, a liberdade e a  autoaceitação.


Fernanda Cristina Cunha é graduanda de Psicologia pela Univille. Atua como bolsista do Prolij e busca através dos livros que lê as longas caminhadas por dentro de si mesma. 
Jennifer Bretzke Meier

Em sua obra “Já pensou se alguém acha e lê esse diário?”  a  autora Nilza Rezende dá a voz à João Gabriel, um adolescente cercado de incertezas e ansiedade. Seu pai saíra de casa sem dar qualquer explicação e  a mãe pensa que mudar de cidade será  a melhor solução para recomeçar. Ele não quer um novo início, quer continuar onde está, frequentar os mesmos lugares e sair com amigos que o conhecem o suficiente, para não comentar sobre a sua família.

Infelizmente, essa fase determinada de sua mãe trouxe um namorado para viver com eles. Aí ficou insuportável, João precisava escrever, desabafar e por isso criou “O diário”. Não se engane, além de suas tristezas, o jovem rapaz compartilha dia-a-dia na escola, primeiro amor e muitas emoções. Você vai gostar de abrir este diário...



A fluida escrita de Nilza permite ao leitor sensibilizar-se com as angústias do jovem João Gabriel e relembrar sua própria adolescência, fazendo reflexões sobre como os sentimentos - mesmo tão confusos- são prazerosos e proporcionam incríveis descobertas.

Jennifer Bretzke Meier graduanda de Letras (Português/ Inglês) na Univille, atua como bolsista no Prolij e vê a literatura como fonte inesgotável de sabedoria e conhecimento.

Camilla Moraes 
Havia um grande pêssego maduro que tinha um cheiro muito gostoso e parecia delicioso. Quem vai ficar com o Pêssego?

A girafa alta, o crocodilo de boca grande, o rinoceronte pesado, o macaco esperto, o coelho saltitante e a lagarta inquieta: todos queriam comer o pêssego.

O livro Quem vai ficar com o pêssego, de Yoon Ah-Hae & Yang Hye-Won, a cada nova página inicia com a frase: Quem vai ficar com o pêssego?

E cada um dos animais procura uma questão a seu favor para conseguir ficar com o pêssego, a girafa diz que o mais alto deve ficar com o pêssego, o rinoceronte diz que precisa ser o mais pesado a ficar com o pêssego, o crocodilo diz que quem deve ficar com o pêssego é quem tiver a maior boca, o coelho disse que quem tinha as orelhas mais compridas devia ficar com o pêssego, o macaco disse que devia ser quem tinha a cauda mais longa, e então chegou a vez da lagarta... E agora o que será que essa pequenina usou de argumento?


A obra vai trabalhando de forma lógica com a criança, mas ao mesmo tempo a divertindo até se resolver a questão de quem ficará com o pêssego?! Ao final, o livro ainda traz duas atividades explicando como organizar as coisas de diferentes maneiras.

Camilla Moraes é aluna do curso de Psicologia na Univille. Atua como bolsista no Prolij e vê em cada livro um novo sonhar.

Lara Cristina Victor 
Nesta obra encantadora, o poeta Antonio Barreto e o ilustrador Diogo Droschi, passeiam em uma viagem poética na construção do novo de uma forma singular e bela. Os poemas se apresentam de maneira descontraída e os mesmos aparecem em um formato a fazer o leitor transitar livremente pelos versos e navegar por caminhos infinitos e misteriosos. Além de brincar com a palavras, ressoando novos sentidos aquilo até então concreto.

Este livro surge a partir de uma experiência única para o autor, envolvendo luzes coloridas, ovnis, naves, grilos e vagalumes. Assim sendo, os poemas são apresentados criativamente a partir dessa temática que é ressignificada por Antonio, como mostra nos poemas “Grilume”, “Vagalovnis”, “Surrealesma”, “Nave-mãe”, entre outros. Assim como destaca Bartolomeu Campos de Queirós, “Sua capacidade em tomar das palavras o muito além delas surpreende e encanta”.




Assim como Vagalovnis, há tantas outras obras poéticas e sensíveis que permeiam o acervo do Prolij, disponíveis para possibilitar tantos outros encantamentos.

Lara Cristina Victor é aluna do curso de Psicologia na Univille. Atua como bolsista no Prolij e vê em cada criança um pouquinho de si mesma.

Isabela Giacomini 
Nesse livro, Munduruku reconta fábulas populares do repertório indígena, que foram narradas através dos tempos e afirma que o importante é o ensinamento que deixaram para seus descendentes, em suas palavras: “Essa tem sido a silenciosa contribuição que os povos indígenas têm dado para tornar nossa terra mais bonita, sadia e equilibrada” e que, portanto, os leitores devem agradecer pela sabedoria de seus antepassados. A obra é dividida em três fábulas: O jabuti e a raposa, O jabuti e o veado-cantingueiro e O jabuti e a onça, que serão resenhadas a seguir:

A primeira delas fala de um pajé que reuniu o povo de sua aldeia em volta da fogueira para lhes cantar uma música dos ancestrais, para rezar aos espíritos e para contar-lhes uma história. O pajé fala ainda para seu povo que os índios correm riscos hoje em dia, pois estão em contato com os homens brancos que acham sua cultura superior e que, para provar o contrário, que nem sempre aquele que se vê como melhor é necessariamente o mais esperto, começa a história sobre a raposa e o jabuti. A raposa, querendo bancar a esperta, fez um desafio com o jabuti para testarem a coragem. O desafio era que o jabuti ficasse enterrado em um buraco, coberto por terra, durante três anos e depois seria a vez da raposa. Torcendo pela morte do pobre animal, a raposa passava pelo buraco e chamava o jabuti para ver se ainda vivia. Para seu descontentamento, todas as vezes o jabuti respondia e lhe perguntava se o tempo estava logo no fim. E assim, em sua ancestral paciência, o jabuti ficou ali durante os três anos. Agora era a vez da raposa e o jabuti a enterrou, fazendo com que os outros animais a observassem. O que será que aconteceu com ela? Durou por três anos embaixo da terá? Será que ela é mesmo a mais esperta? Talvez teria sido melhor não escolher logo um jabuti para fazer seu desafio!

Em “O jabuti e o veado-catingueiro”, o pajé se reúne com as crianças perto da fogueira e pede para que se deitem no chão, olhando para o céu, mesmo sem luar, mas explicando-lhes que as estrelas eram crianças que estavam lá no alto cuidando das que estavam aqui na terra. Depois, voltaram a se sentar para ouvir a história do pajé, mais uma vez sobre um jabuti, que dessa vez era desdenhado por um veado-catingueiro, que se achava melhor pela sua agilidade na locomoção. O pobre jabuti sempre ouvia deboches, sobre nunca sair do lugar, sobre não conseguir conhecer o mundo por conta de sua lentidão. Contudo, muito esperto, o jabuti disse que tinha ido até o outro lado da terra e voltado em uma semana e que era o veado que tinha chegado depois. O veado desafiou-se então a fazer o mesmo percurso em dois dias, mas o jabuti disse que em tempo menor que o dele era impossível, pois ter pernas compridas não era o suficiente, precisava de rapidez no pensamento, já que algumas distâncias podem ser vencidas com ele. Decidiram então marcar uma corrida para o dia seguinte, em que se reuniram outros animais esperando pela vitória do veado. Mal sabiam que o jabuti tinha combinado com seus irmãos para que se espalhassem ao longo do percurso para irem se revezando e assim ganharem a corrida. O jabuti sabia que aquilo não era completamente correto, mas sabia também que o tal do veado-catingueiro não tinha o direito de lhe excluir e caçoar. E assim foi, o veado aprendeu a duras penas que precisava conviver com as diferenças e que muitas vezes a inteligência e astúcia eram mais necessárias que a ligeireza.


Em “O jabuti e a onça” o pajé inicia falando às crianças sobre a importância das histórias e de fazê-las manterem-se vivas, pois dão continuidade aos povos. Um dos pequenos perguntou-lhe como colocar todas as coisas bonitas que dizia em prática. E, para isso, o sábio lhes contou uma história. Uma onça muito faminta estava atrás de comida por muito tempo, mas sempre tinha insucesso. Todo cheiro que sentia era uma esperança ou apenas uma elaboração de sua mente faminta. Um dia, porém, ouviu um som de uma flauta com uma música parecida com “Do osso da onça fiz minha flauta”. Atônita, a onça foi atrás da vozinha e se deparou com um jabuti tocando flauta. Muito esperto, o jabuti disse que a onça estava ouvindo mal de longe e que na verdade cantava: “do osso do veado fiz a minha flauta”. O jabuti decidiu então se afastar bastante, ficando perto de sua toca e cantar mais uma vez para comprovar a má audição da onça. E, novamente, cantou a primeira versão. A onça enfurecida correu para pegar o jabuti, mas ele se escapou para a toca. Sorte dela que conseguiu agarrar sua perninha, mas ainda mais esperto, o jabuti disse que aquilo era a raiz de uma árvore e não sua perna. Naquele dia a onça levou uma bela lição, e mesmo assim não desistiu e ficou ali, na porta da toca, esperando pela saída do jabuti. Ainda bem que ele podia ficar tranquilo, sem pressa, dentro de seu casco, enquanto ela ficava pintada de raiva e de fome!

Isabela Giacomini é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e vê na literatura uma porta para outros universos e realidades.

Fernanda Cristina Cunha
A violência,
seja qual for a maneira como ela se manifesta,
é sempre uma derrota.
Jean-Paul Sartre

Nesse mês de agosto discutimos "A Casa Tomada" de Julio Cortázar mediado pelo Ian Pogan, e "Impotências" de Marçal Aquino, mediado pelo professor Alexandre Cidral.

"Agora era tarde. Como me sobrava o relógio de pulso, vi que eram onze horas da noite. Cingi meu braço à cintura de Irene (eu acho que ela estava chorando) e saímos assim à rua. Antes de nos afastarmos senti tristeza, fechei bem a porta de entrada e joguei a chave no bueiro. (...)." (Cortazar, 1951)

Escrito em 1951, o conto "A casa tomada", foi publicado no livro Bestiário de Cortazar. Ele faz parte do gênero fantástico não simplesmente pelo mistério que se instaura no texto, mas pelo efeito discursivo do fantástico que se materializa através narrativa.

O Bestiário de Julio Cortazar

Já o conto do autor paulistano foi publicado em 2003, na obra Famílias Terrivelmente Felizes e conta a história daquele que não é dito e além do mais é esquecido.

Conhecemos a vida, ou melhor, a não vida de um falecido tio, o narrador caminha pelas possibilidades de vida, comparando-a com a vida real da qual ele viveu, buscando expressar as trajetórias de vida mais dignas que poderiam vir a acontecer, com namoradas, empregos, filhos, sexo e amor.


Famílias terrivelmente felizes de Marçal Aquino


Em ambas obras os personagens não se encaixam no mundo em que vivem,  são apresentados como eternos aprendizes da sobrevivência, cada qual com seus medos, ilusões e fugas. Contudo, esses abandonos da vida em comunidade ocorrem no primeiro conto por escolha, no segundo compulsoriamente.


Quadro de sínteses de A Casa Tomada


Detalhe do quadro de sínteses de A casa Tomada
Quadro de sínteses de Impotências 

Detalhe do quadro de sínteses de Impotências



Os registros acima são resultados de ambos os encontros. Ficamos felizes com a presença de todos. .
No próximo mês temos mais!

Fernanda Cristina Cunha é graduanda de Psicologia pela Univille. Atua como bolsista do Prolij e busca através dos livros que lê as longas caminhadas por dentro de si mesma. 
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