Evelin de Freitas Costa

Uma viagem pela história do Brasil contada de uma forma espontânea e ao mesmo tempo crítica. A repartição do mundo, de Arlene Holanda, foi publicada em 2007 pela Edições Demócrito Rocha, e busca, por meio de linguagem metafórica e poética, encontrar a explicação para um questionamento de Cauã, protagonista do conto. 
Cauã é um indiozinho com cabelos escuros e pele beijada pelo sol. Muito curioso, o pequeno curumim vive em uma tribo rodeado por animais. Ele en-tão se questiona como pode ter sido feita uma repartição tão desigual do mundo: "E tudo foi repartido, pro índio pouco sobrou, mas a alma guerreira, essa nunca se ca-lou, e o seu grito de guerra pela floresta ecoou". 
As ilustrações de Arlene Holanda e Suzana Paz, por sua vez, contam com desenhos e fotos antigas, que retratam a chegada dos portugueses ao Brasil. 
Pode-se notar que a narrativa é contada sob a perspectiva do indígena, instigando o leitor a buscar conhecer e entender ambos os lados desta mesma história, que é tão minha quanto sua. 

HOLANDA, Arlene. A repartição do mundo. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2007.



"Porque ela viaja nos livros e se encontra nas palavras, Evelin" (Estudante de Letras - Português e Inglês na Univille)
Gabrielly Pazetto
Nicole Barcelos
*Agradecimentos especiais à Cymara Sell

Pai herói, pai vilão, pai ocupado, pai que se ocupa só com os filhos... Há muitas formas de ser pai. Há pais que nem tem laços biológicos e o são, e alguns os têm e não são pais. Mas essa figura que acalenta e protege, de que tamanho e forma que for, é sempre lembrada no segundo domingo de agosto. Por essa razão, hoje também lembramos os livros em que diferentes pais e filhos expressam (ou "deixam" de expressar) sua afeição um pelo outro.

O dia em que troquei meu pai por dois peixinhos dourados, de Neil Gaiman com ilustrações de Dave McKean – O que você daria em troca de dois peixinhos dourados (e não quaisquer peixinhos, mas Sawney e Bayney, os peixes de Nathan)? Para o protagonista dessa história de Neil Gaiman e Dean McKean, seu pai parecia um bom equivalente. Quer dizer... bem, ele só lia o jornal, então que falta faria? Acontece que, ao chegar em casa com Sawney e Bayney, sua mãe o força a trocá-los de volta pelo pai. Nesse divertidamente subversivo conto, permeado pela aura de mistério tanto no texto verbal quanto no visual, o leitor é convidado a acompanhar as peripécias desse garoto que tenta, então, destrocar seu pai pelas coisas mais inimagináveis. 

Adivinha quanto eu te amo, de Sam McBratney, ilustrado por Anita Jeram – O quanto um pai pode amar o filho? E o quanto um filho pode amar o pai? No pequeno conto de Sam McBratney, Coelhinho e Coelho Pai tentam encontrar a medida do amor que tem um pelo outro. Belamente ilustrado, esse divertido jogo com ares de competição vai levá-los a descobrir que o amor não é assim tão fácil de se medir.



A boca da noite, de Cristino Wapichana com ilustrações de Graça Lima - Dum e Kupai são dois indiozinhos bem curiosos que adoram ouvir as histórias que o seu pai conta à beira da fogueira. Certa noite são surpreendidos pela história da boca da noite – uma boca gigante que engole e transforma tudo em escuridão. Nesta envolvente narrativa de Cristino Wapichana, a figura paterna é responsável pela transmissão da tradição oral e por alimentar o imaginário dos pequenos curumins. 



Gorila, de Anthony Browne – O consagrado escritor e ilustrador britânico Anthony Browne narra aqui a história da pequena Hannah, que tem uma paixão um tanto peculiar: a garota adora gorilas. Seu sonho é ter um gorila só seu, ou pelo menos ir ao zoológico para conhecer um de verdade, mas o pai, a quem Hannah recorre, sempre diz “Agora não. Estou ocupado. Quem sabe amanhã?”. Cansada de insistir tanto, ela resolve deixar sua própria imaginação levá-la ao zoo. Nesse delicado – e maravilhosamente ilustrado – livro, Browne traz um pai bastante contemporâneo que, apesar de tudo, consegue surpreender a filha no apagar das luzes.



Owl Moon, de Jane Yolen com ilustrações de John Schoenherr – Quando você sai para observar corujas, você não precisa de nada além de esperança. Essas são as palavras do pai da protagonista do sonho gelado que parece ser Owl Moon. Poética por essência, a narrativa de Jane Yolen e John Schoenherr acompanha a silenciosa aventura vivida por pai e filha em uma noite de inverno. Os silêncios aqui presentes, porém, falam muito das relações entre pais, filhos e a própria natureza – e aquecem o coração com esperança, ao som do chilrear das corujas. 



O homem que amava caixas, de Stephen Michael King – Era uma vez um homem. O homem tinha um filho. O filho amava o homem – e o homem amava caixas. Nos deliciosos versos e traços de Stephen Michael King, descobre-se, porém, muito mais do que o amor por caixas desse pai que tanto gosta delas – e a expressão de um outro amor, mesmo que bastante tímido.


As aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi – Mestre Cerejo não esperava que o toco de madeira que fora parar em sua oficina fosse reclamar quando tentasse transformá-lo em pé de mesa. Certo de que o toco falante guardava algo especial, presentou seu amigo Gepetto com ele, já que o carpinteiro pretendia criar um boneco articulado que soubesse dançar, lutar esgrima e dar saltos-mortais (e enriquecê-lo no processo). É assim que começam as peripécias do boneco cujo nariz cresce sem parar que o mundo inteiro ficou conhecendo como Pinóquio. Gepetto não sabia estar criando um filho ao esculpir Pinóquio, mas é isso que o pedaço de madeira transformado em menino o é: e é ele quem transforma o velho senhor em pai, e quase o faz perder o que resta de seus cabelos com suas travessuras. 



O ladrão de raios, de Rick Riordan – Percy Jackson tem 12 anos e não faz ideia de que seu pai é um antigo conhecido de muita, mas muita gente. Você também não faria, se estivesse preocupado em não ser expulso de mais uma escola e bem, escapar de ser decapitado por uma górgona. Nessa bem-humorada aventura, porém, Percy vai descobrir que há muito mais de grego em si do que seu nome.



Gabrielly Pazetto é graduanda em Letras (Língua Porutuguesa e Inglesa) pela Univille e técnica em Informática. Atua como bolsista no Prolij e faz dos livros que lê barcos de viagens inesquecíveis. 

Nicole Barcelos é graduanda em Letras na Univille (Língua Portuguesa e Língua Inglesa). Atua como bolsista do Prolij e vive se perdendo em buracos de coelho.
Kauane Cambruzzi

A Lagartixa Verde é uma história doce e é certo que o leitor há de sorrir a cada página virada. O livro conta a história dos irmãos Alice e João, que em um domingo de chuva não podem passear e por isso se dedicam a desenhar. A mãe os avisa, no entanto, que os desenhos devem ser feitos apenas no papel! Mas desenhar no papel perde a graça depois de um tempo... Ainda mais quando se pode desenhar no pé da irmã mais nova, por exemplo. 
Com a caneta verde do pai João desenha no pé de Alice uma lagartixa e a pequena ri tanto que a mãe quase descobre a peripécia. No dia seguinte vem a surpresa: a lagartixa tinha mudado de lugar! 
Mesmo sendo uma obra voltada para o público infantil, é impossível que não agrade gente de todas as idades. Todos merecem sorrisos por motivos singelos e o autor encanta a história para provocar sorrisos – sem escolher a idade. 
A cumplicidade dos irmãos, seja fazendo arte ou tentando escondê-la é contada por João Paulo Vaz e ilustrada por Claúdio Vaz e Giovana Vaz; o livro, publicado pela editora EGBA, foi vencedor do Prêmio Nacional de Literatura infanto-juvenil em 2005. 

VAZ, João Paulo. A Largartixa Verde. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo, Fundação Cultural do Estado, Empresa Gráfica da Bahia. 


Kauane Cambruzzi é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Língua Inglesa) na Univille. Tem os cabelos cacheados e sabe que deve agradecer à bisavó por eles, assim como deve agradecer ao pai por lhe comprar livros e à mãe por lê-los, trazendo a literatura para sua vida.
Luana Seidel

Desde que começamos a ter noção básica de humanidade, nos é ensinado que há mais de quinhentos anos, quando o Brasil nem era Brasil ainda, milhares (e milhões) de africanos foram tirados de seus lares para serem escravizados aqui. E que esta foi uma fase horrível, abominável, brutal e desumana, e que então devemos esquecê-la... Será? 
Marilda Castanha parece discordar desta idéia. Na obra “Agbalá: um lugar-continente”, publicada pela Formato Editorial em 2001, a autora relembra e detalha o sofrimento dos africanos escravizados a troco de mercadorias como cachaça, pregos, espingardas e armas. Sim, seres humanos trocados por mercadoria. 
Castanha, que também ilustra o livro, começa cada seção com um título que remete à transição de fases, como “da senzala ao campo” “da escravidão à resistência” e para falar dos deuses “de orixá a orixá"; e ilustra estes deuses, cheios de vida e de cores para nos fazer imaginar os rituais à eles “oferendados”.
É com peso no coração que os que lêem imaginam o sofrimento destes seres humanos arrancados de seus lares, brutalmente jogados em navios para tentar agüentar a fome, o clima e os maus tratos, para que os que sobrevivessem terem seus nomes retirados e trocados por “nomes aceitáveis” para a cultura católica, sua religião e cultos religiosos expressamente proibidos e sua liberdade arrancada. 
Mas, felizmente, a essência alegre e colorida africana não se deixou apagar. Driblavam a repressão dos “sinhôs” disfarçando a sua cultura rica em traços de cada um. 
 Nas últimas páginas, Castanha faz breves adendos acerca de assuntos históricos, culturais e de curiosidades relacionados à cultura africana. 
 A obra é carregada de detalhes, mas não se torna maçante; pode ser lida por diversas idades, por todos que têm interesse em saber mais sobre esta fase lamentável que faz parte do passado do Brasil, mas que deixou o legado da força da resistência do povo africano e que merece, sim, ser relembrada. 

CASTANHA, Marilda. Agbalá: um lugar-continente. Belo Horizonte: Formato Editora, 2011. 


Luana Seidel é graduanda do curso de Letras da Univille. Trocou o oxigênio por arte há tempos – e não se arrepende disso.
Gabrielly Pazetto
Nicole Barcelos

Será que para ser lobo tem que ser mau? Seria esse um requisito para um lobo se candidatar a um emprego em uma história infantil? É certo que por muito tempo essa foi uma característica marcante dessa fera de dentes afiados e astúcia no olhar, principalmente nos contos de fadas e fábulas que habitam nosso imaginário, mas não tem que ser sempre assim. Pelo menos, é isso que mostram os livros que selecionamos nesse mês, em que o lobo nem sempre é mau ou o vilão da história!

Quando o Lobo tem Fome, de Christine Naumann-Villemin com ilustrações de Kris Di Giacomo – Edmundo Bigfuça, o lobo mau desta história, é bem persistente. Na busca por devorar Max Omatose, o coelho anão, vai até seu prédio e tenta diversas abordagens para comê-lo, mas nenhuma dá certo. No final, decide virar vegetariano mesmo, muda-se para o prédio do coelho, apaixona-se por outra loba e vira presidente da Associação da Boa Vizinhança. Esta história acompanha a mudança do lobo, de mau para bonzinho e nos mostra uma faceta mais sociável deste temido vilão.

De Repente, de Colin McNaughton – O Inglês Colin McNaughton escreveu uma série de livros chamada A Preston Pig Toddler Book, que conta a história do porquinho Preston e como ele sempre consegue escapar do lobo mau. De Repente é um destes livros e narra divertidas façanhas de Preston, que, mesmo sem querer, sempre acaba despistando o lobo. Aqui, o peludo vilão se mostra bastante desastrado e rende momentos engraçados ao leitor. 

Opa!, de Colin McNaughton – Da mesma série de livros comentada anteriormente, Opa! acompanha o porquinho Preston na sua jornada para levar uma cesta de doces para sua vovozinha. Chegando na casa dela, entretanto, o porco é surpreendido pelo lobo que resolve devorar ele e sua vovó. Porém, eles são salvos pelo pai de Preston, que chega para cortar lenhas. Nesta divertida história, McNaughton brinca com Chapeuzinho Vermelho e Os Três Porquinhos e mostra um lobo de muita má índole, prestes a devorar vovozinha e neto, mas, assim como no livro anterior, vê-se mal-sucedido. 

Cuidado Com o Menino, de Tony Blundell – Os lobos são sempre vistos como criaturas astutas e sagazes, mas não é o que acontece nesta narrativa. Em Cuidado Com o Menino, o lobo mau captura um menino que anda na floresta e decide comê-lo, mas o garoto percebe os planos do lobo e o aconselha a não comê-lo cru, passando-lhe uma receita altamente elaborada que irá torna-lo, em tese, muito mais saboroso. Porém, nesta tentativa de buscar ingredientes para cozinhar o menino, o lobo se cansa e o pequeno garoto consegue escapar. Blundell mostra um lobo nada esperto e sagaz, capaz de se deixar enganar. E ao contrário da Chapeuzinho Vermelho de Perrault e dos Três Porquinhos de Joseph Jacobs, este menino se recusa a virar uma vítima do lobo. 

A Verdadeira História dos Três Porquinhos, de Jon Scieszka – Quando o lobo mau decide contar sua versão de uma história tão clássica quanto a d’Os Três Porquinhos, você deveria parar para ler. Segundo ele, nunca foi sua intenção devorar os porquinhos, ele só teve o azar de estar com um resfriado e, toda vez que espirrava, acabava destruindo a casa de um porquinho. Em A Verdadeira História dos Três Porquinhos, Jon Scieszka narra um grande clássico da literatura infantil sob um outro ponto de vista: a do vilão da história. 

O mais malandro, de Mario Ramos – Tudo começa quando o Lobo avista Chapeuzinho Vermelho indo pela floresta à casa de sua vovozinha. Com planos de fazer um bom jantar, a fera engana a garota e busca chegar antes dela ao seu destino. Porém, enganado mesmo está quem pensa que o fim dessa história envolve um caçador abrindo-lhe a barriga e retirando de lá neta e avó. Em O mais malandro, nada dá certo para esse Lobo desajeitado, a começar por seu disfarce, até àquela que irá ajuda-lo a sair dessa enrascada. 

Procura-se lobo, de Ana Maria Machado com ilustrações de Laurent Cardon – Esta é a história de Manuel, que era Lobo mas não era lobo. Ora, Manuel Lobo era homem e não fera, e estava apenas procurando um emprego quando leu num anúncio que precisavam de lobos em uma empresa local. Lobo acabou se candidatando, sob a crença que não havia chances de que tais animais lessem jornal. Apesar de não ser bem o que os empregadores buscavam, ele escrevia muito bem, gostava de ler e conhecia muitas histórias, então foi contratado para ser “respondedor de cartas de lobos”. Manuel Lobo, assim, acaba encontrando muitas das feras vivas em nosso imaginário, de Chapeuzinho Vermelho, aos Três Porquinhos e os Sete Cabritinhos, além de um lobo que virou bolo por causa de uma menina de Chapeuzinho Amarelo, e faz pensar sobre o lobo e o homem, vivos na figura desse animal desde as primeiras fábulas de nossa história. 

Um lobo instruído, de Becky Bloom e Pascal Biet – Quando o Lobo chega a uma fazenda qualquer, em uma cidade pela qual passava, pretende apenas saciar sua fome e seguir seu caminho. No entanto, ao encontrar os animais lendo, sem dar a mínima para a suposta ameaça que um predador representava, ele resolve descobrir o que há de tão especial nos livros e na leitura. Em tal percurso, porém, esse Lobo irá acabar esquecendo da sua fome física – e descobrir uma outra fome em seu interior.



Gabrielly Pazetto é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille e técnica em Informática. Atua como bolsista no Prolij e faz dos livros que lê barcos de viagens inesquecíveis.

Nicole Barcelos é graduanda em Letras na Univille (Língua Portuguesa e Língua Inglesa). Atua como bolsista do Prolij desde 2014 e vive se perdendo em buracos de coelho.
Bruna Furlan

Publicada pela editora Melhoramentos, Mumi Sem Memória, de Gabriele Clima, retrata com simplicidade uma narrativa tão suave quanto o protagonista dessa obra. 
Mumi é um garoto simples e que esquece, rapidamente, de tudo. Ele só não esquece do caminho de sua casa, pois, para onde quer que vá, leva consigo um fio de lã amarrado em seu tornozelo. As pessoas do vilarejo não são nem um pouco simpáticas com Mumi, mas ele, sempre meigo e tranquilo, nunca recorda das brincadeiras malvadas delas. 
Chiara Carrer, ilustradora da obra, por sua vez, seleciona elementos para criar composições que são narrativas por si só. A cada página, diferentes técnicas são utilizadas para desenhar a história e, com cores leves, várias texturas e distintos traços, Carrer traz delicadas ilustrações ao texto. 
 Porém, tudo começa a mudar com a chegada de um rico homem ao vilarejo, o que chama a atenção de seus moradores. Logo a inveja toma conta deles, causando uma transformação na dinâmica do próprio povoado. 
 Apesar de tudo, Mumi continua sendo o mesmo: um garoto alegre, tranquilo, bondoso e que se esquece de tudo. Será o comportamento dócil desse menino a lembrar às pessoas de valores que vão além dos materiais, transformando, por fim, a realidade em que vivem. 

CLIMA, Gabriele. Mumi sem memória. Ilustr.: CARRER, Chiara. São Paulo: Melhoramentos, 2013.



Bruna Furlan é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) na Univille e acredita que as palavras gentis são sempre a melhor escolha.
Letícia Marques Hesmesmeyer

O Menino e o Tempo, escrito por Bia Hetzel, ilustrado por Graça Lima, publicado pela Editora Manati é disposto em vinte e três páginas ilustradas. A obra infanto-juvenil foi publicada em 1999 e conta a história de Gustavo, uma ingênua criança que encontra refúgio em uma pedra de um rio. 
Gustavo é uma criança que busca em certo rio, um esconderijo, um lugar para esfriar o pensamento e para concentrar-se apenas no chiado do rio. Nesse lugar cheio de boas sensações, o menino faz novas descobertas e encaixa-se às circunstâncias e características de lá. Para ele, tudo em sua volta muda e evoluí, ao contrário do rio, que permanece imutável: “O tempo passa. O sol se esconde atrás da montanha. O ninho de pedra escurece, esfria. O tempo passa. Só o rio não muda” (p. 7). Sua fértil imaginação também fazia Gustavo ver em simples fósseis, as imagens de dinossauros percorrendo por ali. 
A linguagem utilizada por Bia Hetzel é agradável e de fácil compreensão, embora haja metáforas. O intuito principal da autora nessa obra não é apenas contar a história de um menino que passava horas e horas à beira de um rio, mas sim levantar questões reflexivas sobre a temporalidade. Por isso, a leitura deste livro é indicada para crianças e adolescentes, porém terá melhor aproveitamento aqueles que tiverem a leitura mediada por um adulto, por tratar de metáforas, algumas vezes, de difícil compreensão para o público infanto-juvenil, como em: “Mas o rio não corre para trás. O rio corre para sempre. O rio corre para sempre e nunca mais.” (p. 9). 
As ilustrações de Graça Lima são coloridas e estão presentes em páginas inteiras, contrastando com a página ao lado que contém o texto escrito. Elas são simples, porém muito poéticas. Além disso, por essa simplicidade lembram desenhos de uma criança, ocorrendo, assim, um processo de identificação do seu público leitor e facilitando a compreensão da história. As ilustrações feitas por Lima servem como complemento para o entendimento da obra. O que mais me chamou a atenção no texto foi a abordagem de Hetzel sobre o existencialismo e o tempo em uma obra infanto-juvenil. Com o tempo, a angústia do tempo pairava no peito de Gustavo, que a domava e ainda brincava com ela. A autora ainda faz indagações aos leitores, sobescritas nas falas do menino: “Como seria o mundo antes de ele nascer? Como será o mundo depois de ele morrer?” (p. 14). 



Letícia é estudante de Letras, tem 20 anos e é apaixonada pela vida, pelos sonhos, pelas pessoas, pela felicidade e, sobretudo, pela paz interior. É professora de Língua Inglesa e não consegue ver-se fora desse mundo de constante aprendizagem. Adoraria viajar ao redor do mundo, conhecer novas culturas e descobrir como as pessoas encaram a vida. Sua alma é sonhadora e a liberdade é sua principal matéria. Acredita, assim como Paulo Freire, que a “educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”.
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