Maria Lúcia Costa Rodrigues
Mestranda em Patrimônio Cultural e Sociedade e pesquisadora voluntária do PROLIJ – UNIVILLE.

Quantas vezes em nossas vidas temos que encarar uma selva! Muitas vezes nem precisamos sair de casa para isso: nós “matamos leões” diariamente, temos “problemas do tamanho de um elefante” para resolver, ou ainda temos que “enfrentar os lobos” que aparecem em nossas vidas e dos quais temos duas únicas opções: fugir ou enfrentar.

O livro Os lobos dentro das paredes, escrito por Neil Gaiman, Ilustrado por Dave McKean, editado no Brasil pela Rocco, além de trazer o que é característico no trabalho de ambos, a narrativa carregada de uma aura de mistério, vem sacudir o leitor tanto com palavras carregadas de significações quanto com imagens ricamente trabalhadas.

A história se passa num antigo casarão; nele moram Lucy com seus pais e seu irmão. Um dia ao andar pela casa, ela ouve ruídos abafados e percebe que são lobos vivendo dentro das paredes do casarão. Ao dividir isso com a família é desacreditada, porque todos sabem que “se os lobos saírem de dentro das paredes está tudo acabado”. Um dia, os lobos saíram de dentro das paredes tomando de sobressalto a casa e os objetos da família e eles tiveram que tomar uma decisão: enfrentá-los ou fugir.

O projeto gráfico desse livro é uma beleza a parte. Mckean soube usar brilhantemente as ferramentas de que dispõe, mesclando a plasticidade da tinta e do traço com os recursos da fotografia e dos programas de edição em computador. O resultado desse trabalho são personagens de traços angulares que figuram em um ambiente que nos remete àquele da memória, em que, sob a luz de candeeiros e velas, as sombras sinistras se projetavam nas paredes insistindo em nos assustar.

O texto verbal é inserido sobre as ilustrações e recebe fontes tipográficas diferenciadas em cada bloco, conferindo uma imagem textual de acordo com a sonoridade e a movimentação da cena narrativa.

As cores empregadas pelo ilustrador reforçam a aura de mistério da história, de algo que nos incomoda, por não estarmos acostumados a enfrentar e que muitas vezes preferimos deixar guardado dentro das paredes, mas nem sempre isso é possível.


Gaiman, Neil. MCKEAN, Dave. Os lobos dentro das paredes. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.
Ler, Contar E Poetar

Por Cleber Fabiano da Silva
Pesquisador voluntário do PROLIJ - UNIVILLE

Contando até dez e utilizando brincadeiras com jogos poéticos e imagens, o livro Numerália – poemas para contar – de Jorge Luján, com ilustrações caprichadas de Isol, edições SM, apresenta variadas situações envolvendo os números em campos simbólicos e imaginários muito divertidos.

Um dos seus aspectos mais curiosos e interessantes, diz respeito ao uso das possibilidades que o desenho dos números pode oferecer, estimulando a imaginação com o desenho de seus traços que, ao mesmo tempo em que representam numericamente, quantificam seus elementos. A apresentação a partir de jogos poéticos traz em seu diálogo com as ilustrações referências do universo infantil e de leitura ampliada para leitores de qualquer idade, num misto perfeito de matemática e boa literatura. Que tal? Vamos ler, contar e poetar? 


 
FICHA TÉCNICA:

Numerália – poema para contar
Autor: Jorge Luján
Ilustração: Isol
Tradução: Rodrigo Villela
Editora: Edições SM
O Sol Nascente

Por Anderson Duarte
Estudante de Letras

Esta é a história de um menino que “tinha um jeito especial de não pensar nas coisas”, de não ter desejos; possuía feridas avermelhadas nas pernas que coçavam sem parar. Sabia entalhar em madeira, era “craque em não chorar” e a chuva não o incomodava. Uma história de encontros: do menino com uma criatura selvagem, cujo brilho mais parecia um “sol nascente”. Do menino com uma menina de nariz pontudo, olhos pequenos, pernas finas e postura desafiadora que tem o mesmo nome da capela, Sistina.

Ele trazia a tristeza dentro de si, ela a raiva, juntos tornaram-se uma ilha no mar de seus sentimentos. A obra de Kate DiCamillo, com tradução de Valter Lellis Siqueira, editora Martins Fontes, 2006, com convidativa e instigante ilustração da capa de Chris Sheban consiste em uma narrativa sensível, texto poético e um mapa da condição humana. “É um copo d’água num dia de calor.”



FICHA TÉCNICA
Livro: O Tigre
Título original: The Tiger Rising
Autora: Kate DiCamillo
Tradução: Valter Lellis Siqueira
Editora: Martins Fontes
Ano: 2006
O som das cores

Alencar Schueroff
Professor do Persona e pesquisador voluntário do PROLIJ.

O livro é simples, com enredo e linguagem acessíveis a quase todo tipo de leitor. Porém, com uma reflexão mais aprofundada, podem surgir perguntas, como: Qual a relação entre o cinzento e o encarnado? Por que há frases do tipo “É perto do meio dia, dizem as sombras”? Respondendo de forma paradoxalmente objetiva, dir-se-ia que isso é o que chamamos de Literatura. As coisas ditas e, ao mesmo tempo, não ditas, que agitam nossa alma.

A história trata da vida sofrida de Rosálio e Irene. Ele, um pedreiro analfabeto que carrega consigo uma caixa de madeira, cheia de livros. Ela, uma prostituta doente em fim de carreira. A fusão entre o cimento e a guará vermelha ferida vai dando origem a uma explosão de cores que toma conta da vida tão incolor de ambos. Eles interagem e se complementam, à medida que Rosálio aprende as primeiras letras com Irene que, em contrapartida, ouve maravilhada a fantástica história da vida dele: “conta para eu sonhar”, ela pede.

E completando esse poético escambo, Irene ainda acumula mais duas funções: lê para seu companheiro os livros da caixa e coloca no papel as lindas narrativas auto-biográficas que ele conta. Pensando bem, tudo isso parece ser uma só coisa, até porque “a vida mistura tudo e quem quiser separar não vive nada que valha”.

A citação acima evidencia o destaque do livro: a musicalidade. As palavras são minuciosamente escolhidas e colocadas, fazendo com que a gente sinta vontade, em vários momentos, de ler em voz alta.



Autora: Maria Valéria Rezende
Título: O Vôo da Guará Vermelha
Editora: Alfaguara
Número de Páginas: 184
A leitura em voz alta, aparentemente, traz enormes benefícios cognitivos, relacionais e sociais às crianças... Mas não só. Para os adultos é mais relaxante que uma massagem.

Que os organizadores do prêmio “Nati per leggere” (nascidos para ler), dedicado à leitura em voz alta para crianças, não me queiram mal, mas pessoalmente, e talvez para todos os nostálgicos over trinta, a verdadeira notícia é que (respirem fundo)...enfim: a Pimpa ... a Pimpa é viva! Abandonados, há muito tempo, os campos elíseos do “Corriere dei Piccoli” , encontrei-a exuberante e vivaz, em plena forma e como sempre manchadinha, entre páginas pop e capas mirabolantes, na seção de 0-6 anos de uma livraria de Milão. Se, além disso considerarmos que Le Petit Prince saiu em versão pop-up (que significa que folheando o livro, a raposa, a rosa, o pequeno principe saem literalmente do livro e é possível mexer os personagens que colonizaram o nosso imaginário infantil), é fácil entender que, de hoje em diante, a seção 0-6 anos de todas as livrarias não serão mais frequentadas somente por uma clientela de fraldas ou de macacão.

O problema, então, será como justificar a presença de vocês na livraria e, em casa, a da Pimpa (ou de qualquer novo herói da editoria infantil) em cima do criado mudo. Impossível esconder o tão amado livro entre as páginas de um seríssimo Houellebecq, porque os formatos não são compatíveis.

Existe uma única solução: precisa-se de uma criança. É o melhor caminho. O mais saudável, para vocês e para ele. Giorgio Tamburlini, presidente do Centro para a Saúde da Criança (que deu vida ao projeto “Nati per leggere” há dez anos), enfatiza como a leitura em voz alta traz enormes benefícios cognitivos, relacionais e sociais às crianças. Enquanto aos adultos traz benefícios totalmente emotivos, que podem ser medidos em termos de entusiasmo. Enfim, acreditando que se está fazendo bem a um pequeno, o resultado não será somente que vocês voltarão a ler a tão amada Pimpa (ou um seu substituto), mas que sentirão os efeitos benéficos que nem um mês de spa ou um quilo de chocolate amargo anti-depressivo poderia dar.

Palavras que embalam

Mas não é tudo: façam gargarejo e armem-se da voz certa, para tirar o contador de histórias que há dentro de vocês. É esse o ponto. O prêmio “Nati per leggere” estimula a produção de projetos ligados à leitura
para crianças. Mas o nó crucial é sempre o mesmo: vocês, contadores de histórias. A voz é história velha, arquetípica e primordial. Vinda antes da palavra, comunica com andamento prosódico e não verbal. As emoções saem com a simples emissão. E isto as crianças sabem bem. Como afirma Rita Valentino Merletti (autora de “Leggimi forte”), pode-se recitar até um canto do divino poeta, nada importa se para um público em fraldas. A equação é simples: se declamarem alguma coisa que agrada a vocês mesmos, transformarão as palavras em sons que embalam e o ouvinte entenderá, essencialmente, a vontade de entrar em contato com ele numa relação privilegiada.

Quase como se chegando ao teatro, vocês encontrassem um Benigni esperando para fazer um espetáculo em sua honra. Nada mau, hem? Tamburlini explica com um claim de efeito: ama ler porque te ama.

Se a primeira regra é encontrar alguma coisa que vocês também gostem (o ponto de partida, é importante lembrar, é a Pimpa), a segunda é encontrar a voz certa, diz Merletti. Não deve-se trair com vozes pouco autênticas. Há quem escavando a própria voz para fazer-se contador de história, acabou por mudar a própria vida, além de Winnie the Pooh e amigos.

Enfim, seguindo Rodari, apostem na criatividade. Voltem, conversem, coloquem onomatopéias e provem truques de malabarismo e efeitos sonoros no final surpresa, preparem-se em um instante e improvisem-se um Altam ou grandes atores.

E se é verdade que as crianças às quais contaram histórias em voz alta, quando adultas amarão mais os livros, trinta e cinco anos depois, como eu, desejarão voltar à Pimpa (porque a Pimpa ainda existirá, tenho certeza)? E se é tudo um retroceder, podemos esperar encontrar alguém que torne a lê-las para nós como nos dias que foram?

Muitas incógnitas para nós velhas crianças. Certo é que tudo parte da escolha de um bom livro para crianças. Então, nos vemos em Turim.




Promover a leitura das crianças



• Na sua primeira edição, “Nati per leggere” é promovido pela região Piemonte e pelo Salão do Livro de Turim. É aberto a editores, pediatras, bibliotecários, educadores. Premia os melhores livros , projetos editoriais e de promoção da leitura para crianças em idade pré-escolar. Informações: www.natiperleggere.it



• O Centro para a Saúde da Criança é uma Onlus fundada por um grupo de profissionais que operam no campo da saúde infantil. É ponto de referência para atividades de pesquisa, formação e promoção da saúde da criança, da sua concepção à adolescência.Algumas iniciativas: Nati per leggere, Nati per la musica, Fin da piccoli. www.csbonlus.org



Tradução: Geórgia de Souza Cagneti

Prolijiana correspondente (Itália)
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¹ Pimpa: personagem de histórias em quadrinhos de Tullio Altan, nascida em 1974. Hoje é também personagem de livros infantis e desenhos animados.
²Corriere dei Piccoli: caderno infantil do Corriera della Sera (até hoje um dos mais importantes jornais italianos), que publicava histórias da Pimpa, mas que deixou de ser publicado.

O PRÊMIO
Uma história contra o medo

Andréa de Oliveira
Mestranda em Patrimônio Cultural e Sociedade
Pesquisadora Voluntária do Prolij

A vida é uma contínua força que nos traz crescimento e mudança, onde para atingirmos, uma certa estabilidade psíquica muitos anos são necessários, muitas pontes precisam ser construídas e experimentadas.

No livro O gato e o escuro, do moçambicano Mia Couto (2008), pode-se perceber a presença contextualizada de tais necessidades.

O medo do escuro é experimentado por Pintalgato, um gato filhote que a principio se mantém contido, querendo descobrir o que se esconde além da fronteira do dia com a noite e que está preso ao medo do desconhecido. Aos poucos ele se rende ao escuro tornando-se tão negro quanto Ébano.

Uma história que nos mostra a importância da mediação materna, da solidariedade e do sentimento de confiança. E de que muitas vezes, “nós é que enchemos o escuro com nossos medos” e que o escuro pode se construir dentro de nós, pelos conceitos que estabelecemos através de nossas interações com o mundo. Levando em conta que os medos não devem nos afastar das descobertas e do prazer de viver e mais do que tudo, de que é necessário sim experimentar, mesmo que isto implique sofrer.

As ilustrações de Marilda Castanha nos remetem a traços indígenas e africanos, mostrando a beleza do que pode ser tão primitivo quanto o próprio medo, desvendando certezas e incertezas.

O gato e o escuro, de Mia Couto, vale a pena experimentar sem medo.


Livro: O gato e o escuro
Autor: Mia Couto
Ilustrações: Marilda Castanha
Editora: Companhia das Letrinhas
São Paulo, 2008
Pela primeira vez na história do Prêmio Hans Christian Andersen - HCA, criado pelo International Board on Books for Young People – IBBY, dois brasileiros são selecionados como finalistas.

A Fundação Nacional do Livro Infantil e juvenil – FNLIJ, seção brasileira do IBBY, indica, de dois em dois anos, um escritor e um ilustrador para concorrer ao Prêmio. Para a edição de 2010 do HCA, a FNLIJ indicou o escritor Bartolomeu Campos de Queirós e o ilustrador Roger Mello.

A concessão deste prêmio é considerada a distinção máxima internacional dada a um escritor e a um ilustrador vivo cuja obra represente grande contribuição para a literatura infantil. Dentre os 55 candidatos que foram indicados pelas seções nacionais do IBBY, o júri selecionou cinco candidatos finalistas nas categorias escritor e ilustrador. Os vencedores em cada categoria serão anunciados no dia 23 de março, durante a Conferência de Imprensa do IBBY, na Feira de Bolonha, Itália.


Escritores Finalistas

- Ahmad Reza Ahmadi (Irã)
- Bartolomeu Campos de Queiros (Brasil)
- David Almond (Reino Unido)
- Lennart Hellsing (Suécia)
- Louis Jensen (Dinamarca)

Ilustradores Finalistas:

- Carll Cneut (Bélgica)
- Etienne Delessert (Suíça)
- Jutta Bauer (Alemanha)
- Roger Mello (Brasil)
- Svjetlan Junakovic (Croácia)

Os dez membros do júri de 2010, presidido por Zohreh Ghaeni (Irã) foram: Ernest Bond (EUA), Karen Coeman (México), Nadia EL Kholy (Egito), María Jesús Gil (Espanha), Jan Hansson (Suécia), Annemie Leysen (Bélgica), Darja Mezi-Leskovar (Eslovênia), Alicia Salvi (Argentina), Helene Schär (Suíça) e Regina Zilberman (Brasil). Elda Nogueira (Brasil) representou a presidente do IBBY, Patsy Aldana e Liz Page atuou como secretária do júri.

O Brasil já recebeu duas vezes este prêmio com as escritoras Lygia Bojunga (1982) e Ana Maria Machado (2000) e ainda teve como finalista os escritores Joel Rufino dos Santos (2004) e Bartolomeu Campos de Queirós (2008).

Para a FNLIJ é um orgulho ver suas indicações de importantes nomes da Literatura Brasileira Infantil e Juvenil recebendo o reconhecimento do seu trabalho. A qualidade dos livros para crianças e jovens produzidos em nosso país já é destaque no mundo e a cada ano tem ganhado mais espaço. Parabéns a escritores, ilustradores, editores e promotores que acreditam e apostam no livro e na leitura.


Parabéns aos nossos queridos Bartolomeu e Roger.


Mais informações acesse o site www.ibby.org.







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