Clarineta, bruxa e princesa.

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Por Rodrigo da Silva
Pesquisador voluntário do Prolij - UNIVILLE

Clara é uma menina que tem seus sentimentos confusos, seus problemas com o irmão e com o pai, que lhe deu o apelido de Clarineta por gostar muito de música, fazem com que “Clara ou Clarineta” se sinta confusa diante dos problemas e das relações familiares do dia a dia. Até aqui uma história que poderia envolver e instigar o leitor.
Ao encontrar num caminho uma livraria, Clarineta se depara com dois exemplares, dois manuais, um que a transformaria em Bruxa e o outro em Princesa. Clarineta escolhe transformar-se em bruxa. Transformando o irmão em sapo e o pai em corvo, acha que assim resolveria seus problemas.
Em um trabalho de encher os olhos e não a alma, num projeto gráfico inquestionável, com capa dura, recortes e muitas cores, o livro que pela beleza exterior muitos o escolheriam, traça uma história que parece ir de contra as grandes leituras infantis que buscam no imaginário, no maravilhoso, toda uma atmosfera que propicie a reflexão dentro do mundo mágico da criança. Em Clarineta, bruxa e princesa o leitor é levado para um mundo de arrependimentos e de vantagens momentâneas, a relação do bem e do mal, parece ser travada de forma muito superficial e atual ao mesmo tempo, quando Clarineta resolve se apaixonar por “um príncipe de olhos verdes”, trazendo estereótipos muito comuns aos nossos dias, Clarineta resolve então mudar seu perfil corre e consegue a todo custo o outro livro, feito isso desfaz irmão e pai, prometendo ser boazinha. Mas parece que isso não bastaria a Clarineta, pois seus problemas não se resolveriam por aí...
E, então, fica a pergunta: Por que como “Clara ou Clarineta” desejamos ser o que não somos para conseguir o que queremos? Não que mergulhar no mundo do “fantástico”, do “imaginário” do “irreal”, uso das mesmas palavras que Jaqueline Held usa em sua obra*, seja o problema. O difícil está em aceitar uma literatura que use de um discurso verossímil no qual reflita uma sociedade descartável e que busque os caminhos do não dialogo, da não reflexão e sim de uma transformação que lhe traga para aquele momento, naquela determinada hora o que deseja e o que quer. Onde está a personalidade da criança leitora em desenvolvimento e como será a do adulto que está se deparando com textos que lhe remetem somente ao meio e nunca aos extremos, uma pergunta para uma resposta que o tempo dirá.

*HELD, Jaqueline. O imaginário no poder: as crianças e a literatura fantástica. 1981.

FICHA TÉCNICA:

Obra: Clarineta, bruxa e princesa
Autor: René Gouichoux
Ilustrador: Guillaume Renon
Editora: Dimensão


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