A morte, o pato e a tulipa,

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Ítalo Puccini.






A presença da morte como personagem de livros infanto-juvenis não é novidade para os leitores mais atentos. O que encanta, justamente, são as possibilidades de narrativa e de personagens criadas por escritos no mínimo sensíveis a esta temática que, ao mesmo tempo em que assusta a muitos, encanta a outros tanto.

O escritor alemão Wolf Erlbruch, ganhador do prêmio Hans Christian Andersen em 2006, pelo conjunto da obra, bebeu desta fonte. São deles duas histórias nas quais a morte se personaliza.

Ele é autor de um livro lindíssimo, chamado “A grande questão”, no qual a grande questão que dá nome ao livro é a do por que viemos ao mundo. E ele apresenta respostas das mais finas para isso. Mas não são respostas dele, não. Ele apresenta os dizeres de diversos seres importantes sobre o porquê de estarmos aqui no mundo, como por exemplo: para o passarinho, a grande questão do por que viemos ao mundo é para cantarmos a nossa própria canção. Algo como construirmos nossa própria história. Para o marinheiro, é para navegarmos por todos os mares. Para o jardineiro, viemos ao mundo para aprendermos a ser pacientes. O pato diz não fazer a menor ideia do por que viemos ao mundo. Para a pedra, estamos aqui para estar aqui, somente. E para a morte, estamos aqui “para amar a vida”.

E a morte que nos diz isso em “A grande questão” reaparece em “O pato, a morte e tulipa”, o outro livro do Wolf Erlbruch. Reaparece para nós, leitores, e aparece, pela primeira vez, para o pato. Aquele mesmo pato do outro livro, sim, que não fazia a menor ideia do por que estava no mundo. E, como a vida mais das vezes toma proporções que nos fogem ao alcance, é este pato quem ensinará à morte o que é, ou pode ser, amar a vida.

A história da morte, do pato e da tulipa, ou do pato, da morte e da tulipa, como queiram, começa com um pato inquieto, incomodado com algo há algum tempo, e que de repente se depara com a morte ao seu lado. A morte que “tinha um sorriso amigo”, que até era simpática, bem simpática mesmo, “quando não se levava em conta quem ela era”.

A morte que passa a conviver com o pato por alguns dias. Que passa a sentir o que é, ou pode ser, viver e amar a vida. A morte que entra no lago com o pato, que inverte os papéis com o pato, passando a se sentir ela incomodada, e não ele:

“ – Está com frio? – perguntou o pato. – Posso te esquentar?

Ninguém jamais havia feito a ela uma proposta parecida”.

E nesse ritmo a morte segue aprendendo coisas boas da vida com o pato. Coisas que não servem pra nada, não. Sentindo justamente que as melhores coisas da vida não devem servir para nada. Como, por exemplo, a sentar-se lado a lado com alguém sem a necessidade de se falar algo. Como, por exemplo, a subir em árvores.

Até que um dia o pato sente frio. Um frio incômodo. E pede à morte se ela não quer esquentá-lo um pouco. E a morte fica a olhar para o pato. Esquentando-o com o olhar. Enquanto ele descansa.

Um descanso que se torna eterno. E a morte, então, carrega o pato no colo até o grande rio. Coloca-o lá, com cuidado, deitado para cima:

“E continuou olhando o fluxo do rio por um bom tempo.

Quando perdeu o pato de vista, por pouco a morte não ficou triste.

Mas assim era a vida”.

A última linha do breve texto da contra-capa do livro pergunta: “E onde a tulipa entra nesta história?”.

Pois a tulipa está na mão da morte desde o momento em que ela aparece para o pato. E é ela que a morte coloca sob o peito do pato no momento em que o ajeita nas águas do rio. Uma cena encantadora.

A tulipa amarela representa o amor impossível, ou a luz do sol. A tulipa roxa, a quietude e a paz. Mas é a tulipa vermelha que se faz presente na história. E é a tulipa que simboliza o amor verdadeiro. O amor pela vida, citado pela morte de “A grande questão”. O amor que humaniza a morte nas intermitências escritas pelo Saramago. E o amor que encanta ao aproximar a morte do pato, ao novamente humanizá-la. Ao desnorteá-la em seus afazeres. Ao deixá-la apaixonada. E ao torná-la apaixonante para o leitor.



ERLBRUCH, Wolf.

A morte, o pato e a tulipa, 2009



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Um comentário:

Suzane disse...

Ontem li este livro e achei muito interessante. Eu e meu marido fizemos uma interpretação diferente da sua. Entendemos que a morte, na verdade, é a vida. E é a vida, porque uma e outra são faces da mesma moeda. Aliás, em diversos momentos "a morte" dá entender que aquilo faz parte da vida (como ela precisar estar por perto no caso de uma gripe). Principalmente na última frase dita por ela, quando se despede do pato. E a tulipa é a morte, que vai embora com o pato. A figura de uma cavera para representar a vida e de uma tulipa para representar a morte pode não ser o mais comum. Mas é possível. Também pensamos que a tulipa pode ser a vida, que se vai embora com o pato (uma vida que se acaba).
Por outro lado, também gostei da sua interpretação!
Li "intermitências da morte" do Saramago. Adorei a morte dele (do livro). Você já leu "a menina que roubava livros"?
Suzane.

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