De como Emília, marquesa de Rabicó, e o Visconde de Sabugosa escrevem as memórias de José Bento Monteiro Lobato

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Sueli de Souza Cagneti
Coordenadora do PROLIJ - Programa Institucional de Literatura Infantil e Juvenil - UNIVILLE

   Falar sobre Lobato - por mais que tenha sido dito a respeito dele e de suas obras - é sempre oportuno. Desta vez foi Luciana Sandroni. E como o fez bem! Dando a palavra às duas personagens mais criativamente construídas por Lobato (e que melhor retratam seus projetos e suas crenças) ela deixa a meninada em contato com a biografia lobatiana, de forma descontraída, brincalhona e, ao mesmo tempo, extremamente didática.
   Lembrando Memórias de Emília - uma das melhores obras infantis do criador do Sítio do Pica-pau Amarelo, na qual Emília conta toda a sorte de peripécias, como sendo suas memórias "vividas e as que gostaria de ter vivido", Luciana coloca-nos, adultos e crianças, em contato com a figura do escritor, do homem público e do cidadão José Bento Monteiro Lobato.
   Numa atitude própria do proceder pós-moderno, Sandroni, remetendo seu leitor a Memórias de Emília e fazendo uso da fórmula travessa e atravessada da boneca ao contar suas memórias, coloca-a a contar, desta vez, as do seu criador, intercalando fatos biográficos pesquisados e escritos por Visconde com peripécias suas e com desejos e enxergamentes seus, em relação ao biografado. Além disso, numa exploração máxima da criticidade de Emília, o livro traça contraponto interessante entre fatos concretos, levantados por Visconde em relação ao contexto histórico vivido por Lobato e a não aceitação dos valores inseridos por ele, à luz da contemporaneidade. Este contraponto - vale dizer - já se faz, como pano de fundo, através do embate travado entre o saber erudito (Visconde) e a criação irreverente (Emília). Sem dúvida, o ponto alto do texto.
   Minhas memórias de Lobato: contadas por EMÍLIA, MARQUESA DE RABICÓ e pelo Visconde de Sabugosa é livro para todas as idades: para crianças, que merecem saber que Lobato existe e querer lê-lo e ler Emília; para os jovens que já o leram, mas que talvez não tenham noção de sua figura humana e cidadã; para os adultos, filhos ou neto de Lobato ( lembrando a tese de Whitaker Penteado ), para exercitar a memória. De forma, aliás, prazerosa, porque lúdica e criatica como o foram suas entradas pelo Sítio do Pica-pau Amarelo.
   Merece registro, ainda, a ilustração de Laerte, que nos devolve um pouco do Sítio e de seus personagens.

SANDRONI, Luciana. Minhas memórias de Lobato; contadas por EMÍLIA, MARQUESA DE RABICÓ e pelo Visconde de Sabugosa. São Paulo: Cia das Letrinhas, 1997, 96p., R$ 16,50.


OBS: Publicado originalmente em: Leitura: Teoria e Prática - Revista Semestral da Associação de Leitura do Brasil - Ano 17 - Dez/98/ nº 32, p. 72.


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