05
set
2018

Ensaio: o hibridismo do real e do imaginário no processo de reencantamento do mundo

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Fernanda Cristina Cunha
Há no homem moderno, como houve no homem ao longo de toda a história, a necessidade da imaginação para lidar com as situações angustiantes do ser, como as angústias das relações humanas e da finitude da vida. Se podemos dar uma justificativa para a existência do encantamento, da arte e da metafisica é a possibilidade de através delas encontrarmos um sentido à nossa existência e às nossas angústias.

Essa necessidade, como dito anteriormente, sempre existiu. Contudo, conforme Mocellim (2011) é a partir da obra de Max Weber que podemos compreender o movimento de desencantamento do mundo como um processo em que, por meio da religião, ao incorporar limites entre o espiritual e o profano, e da ciência, por considerar qualquer vertente do encantamento, irracional, resultou na desmagificação e perda de sentido da pratica do ser.

Esse movimento de desencantamento perdurou por conta da força do pensamento religioso, científico e tecnológico exercido sobre a sociedade contemporânea. Contudo, estes não foram capaz de dar fim ao anseio dos homens por encantamento. Em parte, pela incapacidade de lidarem com a angústia do propósito da vida, em parte, por limita-la. 

Em virtude disso, a volta dos elementos imaginativos na forma como construímos nossa visão de mundo, conceitua-se como reencantamento do mundo. Segundo Rocha (2014 p.3), o movimento de reencantamento do mundo pode ser definido como “a inversão do processo de desencantamento”.
A distinção do reencantamento, para o que existia antes do desencantamento, é de que esse movimento, se manifesta agora, aliado aos novos paradigmas da ciência. Ou seja, você não remove a ciência, mas inclui a magia a ela no processo de reencantamento.

Entretanto, esse movimento pode ser compreendido de diferentes formas e diferentes intensidades, seja na literatura, cinema, e tantas outras formas de expressão da arte. A partir da entrevista de Mia Couto concedida a Eliane Brum e Raquel Cozer em 2014, podemos observar que o movimento de reencantamento é lento. Isso fica em evidência diante a argumentação do escritor moçambicano de que o modelo de sociedade e pensamento atual impedem que vejamos o encantamento e o sagrado nas coisas.

O autor rememora também que as crianças trazem consigo uma espécie de tentação ao encantamento, uma vez que o interesse pela história do mundo a sua volta não é reduzido a apenas explicações racionais ou cientificas. E é diante a união dessa linguagem encantada, artística e poética, tão natural às crianças, à linguagem cientifica, racional e técnica, tão enraizada na contemporaneidade, que o presente ensaio busca aprofundar o hibridismo dessa mescla no reencantamento do mundo, diante obras “A mãe que chovia” de José Luís Peixoto e “Fita verde no cabelo” de Guimarães Rosa.

O reencantamento do mundo como remédio para a angústia das relações humanas e da finitude da vida:

A hibridação do concreto, e científico com a magia e o metafisico é poeticamente experencializada na obra “A mãe que chovia”. Nela, um menino que, sendo filho da chuva, e com uma mãe tão importante e necessária ao mundo, tem de aprender, a duras penas, a partilhar com o mundo todo o seu cuidado e dedicação. E, principalmente, lidar com a saudade, angústia e tristeza nos momentos em que ela está ausente. Essa mãe por outro lado tendo um mar de obrigações vê-se compelida a se ausentar por longos períodos de seu filho, e com isso lida com sua própria tristeza, culpa e angústia.
Através desse percurso, entre o real, ou seja, os desafios das relações entre mãe e filho, e o metafísico, isto é, a natureza dessa relação.  O autor presenteia aos leitores uma lição de generosidade, empatia e amor. 


Podemos também enxergar percurso semelhante na obra “Fita verde no cabelo” de Guimarães Rosa.  A Chapeuzinho Vermelho, nesta obra de Guimarães Rosa, chama-se Fita Verde. E com pequenas semelhanças ao conto de Charles Perrault, cria uma atmosfera encantada ao longo das mais ou menos 30 páginas de narrativa. Contudo, esse encantamento vai dando espaço à realidade da natureza humana. Nossa Fita Verde precisa aprender a conviver com a dor das relações, da possível perda e com o luto quando por fim ela ocorre. A poesia e o encantamento da obra atrelada à menção da finitude da morte, gera, ainda que emocionalmente triste, um rememoramento de que a morte existe, e de que ela é uma das poucas certezas da condição humana.  

A representação poética, especialmente na literatura infantil, seja ela acerca da da finitude da morte, ou das relações familiares e sociais torna mais tangível a sensibilidade humana com relação às angústias da existência de ser.

O mundo, como um livro, pode ser explorado e decifrado. O espaço ao nosso redor possui um significado e cada paisagem conta uma história. Reduzir a realidade o nosso entorno ao âmbito científico é reduzir as realidades do qual podemos ter contato.  Viver apenas uma realidade seria insustentável, e por meio da literatura, religião, filosofia, arte, e tantos outros campos do saber temos acesso às mais diversas realidades. E, como rememora Duarte Junior, (1994, p. 94) “é indevido compará-las pretendendo-se a superioridade de uma em detrimento das outras”.

Fernanda Cunha é graduanda de Psicologia pela Univille. Atua como bolsista do Prolij e busca através dos livros que lê as longas caminhadas por dentro de si mesma.

Referências:

DUARTE JUNIOR, João Francisco. O que é Realidade. Brasiliense: São Paulo, 1994.

MOCELLIM, Alan Delazeri. O Reencantamento do Mundo: considerações preliminares. 2011. Disponível em: . Acesso em: 29 jul. 2018.

MIA COUTO - Pelo reencantamento do mundo. Fronteiras do Pensamento. São Paulo: Telos Cultural, 2014. Disponível em: “https://youtu.be/zyqnqvGLB3w”. Acesso em: 29 jul. 2018.

PEIXOTO, José Luís. A Mãe Que Chovia. Ilustração: Daniel Silvestre da Silva. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2016.

ROCHA, Emmanuel Ramalho de Sá. Expressões literárias do reencantamento do mundo: Promethea de Alan Moore. 2014. Disponível em: . Acesso em: 29 jul. 2018.

ROSA, G. Fita Verde no Cabelo: nova velha história. Ilustrações: Roger Mello. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.







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