por Sueli de Souza Cagneti

(Coordenadora do PROLIJ)


Dentre as tantas publicações que enriquecem nosso acervo a respeito dos escravos africanos que, juntamente com suas vidas, sua história e seu trabalho, nos deram um mundo cultural rico e definitivamente brasileiro está “Menino Parafuso”.
O livro de Olívia de Mello Franco nos conta a história do menino brincante, que rodando como um pião, vai juntando anáguas brancas das sinhás para compor seu disfarce/fantasia de Menino Parafuso.
Segundo nota explicativa da autora “O folguedo parafuso é uma manifestação folclórica típica de Lagarto, em Sergipe, e se desconhece a existência de algo semelhante em outro lugar do Brasil. É uma tradição popular de origem escrava, dizem que surgiu na época em que os negros, sofridos trabalhadores dos engenhos de cana-de-açúcar, fugiam das senzalas e formavam quilombos...” (p.31)
O interessante da história contada por Olívia, aliás ricamente ilustrada por Ângelo Abu, é que nos faz rever tantas manifestações artísticas e culturais, cujas origens remontam à escravidão e comprovam a inventividade deste povo tão sofrido, na tentativa de escapar do jugo de seus senhores. Assim como a capoeira – hoje vista como arte – o folguedo parafuso também nasceu como arma de proteção e fuga, transformando-se numa coreografia ritmada que ganhou lugar no folclore sergipano.
Vale conferir o menino, sua história e, principalmente, uma história que, por trás daquela, se faz conhecer.


FICHA TÉCNICA

Obra: Menino Parafuso
Autor: Olívia de Mello Franco
Ilustrações: Ângelo Abu
Editora: Autêntica
Ano: 2008

por Amanda Corrêa da Silva e Sueli de Souza Cagneti

Não é por menos que Chuva de Manga, texto e ilustrações de James Rumford, recebeu o selo Altamente Recomendável da FNLIJ em 2005.  A narrativa, ambientada em uma aldeia do Chade, país africano, é construída na singeleza do cotidiano através dos passos do pequeno Tomás. A história se desvela com naturalidade e assume em seu decorrer uma aura poética. O espaço mágico se instaura nos pontos de encontro entre natureza e imaginação. Dois movimentos se entretecem na narrativa: o período das chuvas que lava a terra para que as mangueiras possam florescer e frutificar – daí o título do livro - e a ideia que brota na imaginação de Tomás. Um acontece sem a perda de significação do outro; ambos coexistem com a naturalidade das coisas que se pertencem.
Rui de Oliveira nos diz que uma das finalidades da arte de ilustrar é atuar como um prisma do texto e não como um espelho¹ para que o leitor caminhe também nas veredas que a imagem revela. É nessa direção que palavra e imagem percorrem as trilhas do literário em Chuva de Manga. As cores quentes das ilustrações evocam o clima seco próprio da região, mas também exprimem uma alegria leve, sutil – a alegria que nasce com a chuva das mangas.
O livro conta com um recurso que vem sendo utilizado com frequência nas produções infantojuvenis – particularmente as que atravessam a questão da africanidade: textos informativos que situam o leitor sobre alguns componentes da obra. No caso de Chuva de Manga o informativo nos dá um panorama geográfico e cultural simples da região do Chade e conta-nos um pouco do que é, como e quando ocorre a chuva das mangas.
            Em tempos em que as discussões sinalizam para a importância de se pensar a pluralidade e a multiplicidade que compõem as várias esferas da sociedade, Rumford nos presenteia com Chuva de Manga que configura, sem dúvida, um papel significativo nesse cenário. 

RUMFORD, James. Chuva de Manga. São Paulo: Brinque – Book, 2005.
¹OLIVEIRA, Rui de. Pelos Jardins Boboli: reflexões sobre a arte de ilustrar livros para crianças e jovens. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
É a partir desta palavra, de uma palavra só, assim, sem nenhuma outra para acompanhá-la e tornar seu significado mais claro, que é possível pensar dois livros. Em um deles, a obsessão de um homem, pescador, por um peixe. Em outro, a obsessão de um homem por uma baleia. Pra quem já leu, sabe que os livros citados são “O velho e o mar”, do escritor norte-americano Ernest Hemingway, e “Moby Dick”, do também norte-americano Herman Melville.
            Obsessão significa ideia fixa, e ideia fixa é o que tem Santiago, ao pescar um grande peixe, em alto-mar, após mais de oitenta dias sem pescar nada. E ideia fixa é também o que sente Ahab pela baleia branca Moby Dick, desde o momento em que esta lhe arrancou uma perna. De um lado, uma obsessão pelo simples instinto de sobrevivência, de pescar para ter o que comer, mas que se torna uma ideia fixa muito mais forte pelas condições externas a esta pesca. E, de outro lado, uma obsessão vingativa, de revanche mesmo.
            A história de Santiago, em “O velho e o mar”, pode ser pensada também como uma história de perseverança, antes de ser pensada como uma obsessão. Perseverar é persistir, é continuar, é não parar de fazer aquilo que se está fazendo. Conservar-se firme e constante. E é isto que faz Santiago, com a ideia fixa (obsessão) de pegar aquele peixe.


“ A cultura africana não é uma
única, mas uma rede multicultural em contínua construção"
(Mia Couto)

Amanda Corrêa da Silva e Sueli de Souza Cagneti 

Oxumarê, o Arco- Íris de Reginaldo Prandi (Companhia das Letrinhas, 2004), que completa a trilogia Mitologia dos Orixás para Crianças e Jovens, resgata histórias dos orixás trazidas da África para o Brasil através das memórias do povo Iorubá.
E uma destas histórias nos conta que há muito tempo chovia insistentemente na terra, sem trégua. Então, o belo Oxumarê, filho de Nanã, que detestava ver todo aquele aguaceiro elevou seu punhal ao céu e riscou um arco imenso para vedar a passagem das águas. E é por isso que quando chove podemos ver suas cores atravessarem os céus em forma de arco-íris. 
Prandi traz à tona a força dos orixás com seus elementos característicos, traços de personalidade, as oferendas que mais lhe agradam sem, no entanto, criar a aura oculta ou carregada de estereótipos que comumente se associa aos cultos afro-brasileiros e seus deuses. As narrativas desdobram-se sempre seduzindo o leitor para o que vem a seguir.
            As ilustrações de Pedro Rafael transitam da ancestralidade ao pós-modernismo, de um passado imemorial à contemporaneidade, constituindo com uma singela beleza um conjunto de imagens que capta a natureza dos orixás, suas paixões, aquilo que é próprio de cada um sem atirá-los em um balaio.
            Oxumarê - bem como as demais produções de Prandi - contribui para dispersar a obscuridade na qual estão envoltas as manifestações culturais afro-brasileiras e para despertar o olhar das crianças e jovens para a presença da África no Brasil que compõe parte essencial na construção de nossa brasilidade.

FICHA TÉCNICA:

OXUMARÊ, O ARCO-ÍRIS
Autor: Reginaldo Prandi
Ilustrador: Pedro Rafael
Editora: Cia das Letrinhas
Ano: 2004



Sueli de Souza Cagneti
(Coordenadora do PROLIJ)

Ondjaki, esse poeta proseador ou proseador poeta angolano, de apenas 34 anos, já doutor em Estudos Africanos, nada contaminado pelo mundo acadêmico, é alguém que – ao poetar – diz “(...) apetece-me chãonhe-ser-me”. Basta isso para sabermos a que vem... Que se chegue, pois.
Recém descobridor de nosso poeta contemporâneo maior – Manuel Barros – refere-se em nota final, sem obviamente teorizar sobre, a importância das obras sobre as obras. A sua – ao menos essa – sobre a qual aqui rabisco – foi contaminda, sem dúvida, por Barros. Em Há prendisagens com o xão, Ondjaki nos presenteia com aforismos poéticos dos mais interessantes, como “amizade: há preferências que seja húmida, pois mundo está isolar pessoas assim amizade procura por ela que pessoas se escorreguem para algum encontro” (p. 62-3).
Ao mesmo tempo, entremeia seus poemas, carregados de brinquedo com a palavra – desinventando-a para reinventá-la – com pequenas prosas poéticas (à maneira de Manuel de Barros) como “A jangada, o passeador – estória para eu adormecer” ou “ Borboletabirinto”, dignas de serem lidas degustadamente.
Junto a poemas, dos quais destaco “Que sabes tu do esco do silencio” (belíssimo!!!, p. 26), traz algumas definições de “ Bichos convidados”, como abelha, borboleta, lesma, a quem chama de “ mestre em tudo que acuse molhadez “ p.55), mosquito, polvo, raposa, toupeira ou pássaro, com quem nos remete à Hemingway, Nietzsche, Garcia Marquez, Cervantes e Guimarães. Não resisto, pois, à citação “pássaro: doutorado em voo e liberdade, tem domínio absoluto da poesia eólica, de sua autoria, destacam-se: o velho e o pássaro; assim falou passatustra; cem anos de provisão; dom passarote de la avoança e grande passarão: penedas” (p.56).
Acredito não precisar dizer, que Ondjaki é leitura obrigatória para quem curte ir além das palavras para reolhar-se e reolhar o outro. Bom enxergamento!

Obra: Há prendisajens com o xão (o segredo húmido da lesma & outras descoisas)
Autor: Ondjaki
Editora: Pallas
Ano: 2011






              Que surpreendente ler um texto escrito no mesmo idioma herdado de nossos pais, avós e bisavós e saber da longa viagem empreitada por seus caracteres até serem impressos do outro lado de um imenso oceano... E que efeito mais extraordinário ainda saber que tais linhas foram destinadas às crianças e podem chegar a outras tantas em contextos tão distintos!
            Também nesse limiar de travessia, O Gato e o escuro, de Mia Couto, Cia das Letrinhas, conta a história de um gatinho amarelo, com malhas e pintas, desejoso de cruzar o limite proibido pela aflita mãe:  passar para além do pôr de algum Sol. Namoriscando o proibido, seus olhos pirilampiscavam. (p.10).
            Em conhecida passagem, nosso Chapeuzinho felino vê-se transformado na cor da noite e, assustado, vive importantes descobertas. Escondeu-se num canto, mais enrolado que o pangolim. Não queria ser visto em flagrante escuridão (s.p). Uma obra rumo à desconhecida floresta de nossa condição, muitas das vezes indesejada, abarrotada com nossos medos (reais ou inventados!).
            As belíssimas ilustrações de Marilda Castanha completam a atmosfera de poesia presente na obra através de cores, luzes e sombras que nos inspiram a mergulhar dentro do misterioso lado escuro que habita todos nós.
            Propondo metáforas e brincando com as palavras, o autor moçambicano cria um modo infantil e poético de se expressar em seu português africano. À moda roseana, presenteia-nos com neologismos cativantes: À medida que avançava seu coração tiquetaqueava. (...) Fechou os olhos e andou assim, sobrancelhado, noite adentro. Andou, andou, atravessando a imensa noitidão. (p.14). Só quando desaguou na outra margem do tempo ele ousou despersiar os olhos. Nada sobrara de sua anterior gateza. (p. 18).
            Pintalgato. Chapeuzinho. Riobaldo... Escuridão, floresta, sertão... Amigos somos. Nonada. É o que eu digo se for... Travessia.

Por Cleber Fabiano da Silva.
Pesquisador voluntário do PROLIJ - UNIVILLE
           
FICHA TÉCNICA:

O gato e o escuro
Autor: Mia Couto
Ilustrador: Marilda Castanha
Editora: Cia das Letrinhas
Ano: 2008

            Muitos são os livros destinados ao público infantil e juvenil que registram as belezas e riquezas do continente africano e as relações com o nosso país em diversos níveis: históricos, culturais, sociais e econômicos. No entanto, África Eterna, de Rui de Oliveira, editora FTD, 2010, é uma publicação merecedora de atenção uma vez que desmitifica os estereótipos e propõe – de modo consciente – um novo diálogo com a África.
            Uma obra de informação e arte, capaz de comunicar tanto pela qualidade do texto verbal como pelas grandes possibilidades da dimensão visual, composta de imagens com traços marcantes, cores fortes e expressões reveladoras. Ao ampliar as referências comumente simplistas das notícias veiculadas pela mídia, dos coloridos folhetos turísticos, dos filmes hollywoodianos e até mesmo dos conteúdos perpetuados pela escola, o livro apresenta aspectos singulares da África e de como ela está eternizada no Brasil. “Ignorá-la seria a negação de nós mesmos, como povo e cultura”. (p. 09)
            Quando aborda o diversificado mosaico das religiões nativas africanas, o universo do pensamento mágico e sua visão animista, o autor critica a classificação preconceituosa do termo primitivo, “sobretudo em nossos tempos de preocupações ecológicas pois contém em seus dogmas o amor à natureza em todas suas manifestações”. (p. 44)
            Dentre as considerações importantes acerca do legado desse continente para a formação de nosso povo, o escritor destaca o baobá como o “corpo e o espírito dos africanos, simbolizando um eterno e indissolúvel elo entre a África e o Brasil”. (p.57) De maneira especial, afirma ainda que a maior dessas heranças está “no patrimônio espiritual, um modo de ser brasileiro, plural racialmente e singular culturalmente”. (p. 56)
            Rui de Oliveira recebeu quatro Prêmios Jabuti de Ilustração e por duas vezes foi indicado ao Prêmio Hans Christian Andersen – considerado o Nobel da Literatura Infantil e Juvenil – na mesma categoria. África Eterna foi chancelada com o selo “altamente recomendável” na categoria livro informativo pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
           
Por Cleber Fabiano da Silva.
Pesquisador voluntário do PROLIJ - UNIVILLE
           
 FICHA TÉCNICA:

África Eterna
Autor e ilustrador: Rui de Oliveira
Editora: FTD
Ano: 2010
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